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No dia internacional da mulher, é preciso libertar homens das mulheres más

8 Março, 2016

Fagundes (nome fictício) foi meu vizinho quando morei em Abrantes. Toda a gente sabia que o seu casamento com a Albertina (nome fictício) tinha ficado severamente abalado quando, na persecução da velha paixão teatral, conquistou o papel de Maria von Trapp na encenação do “Música no Coração” levada a cabo por uma influente figura do teatro local, o doutor Pedro Pedrosa. Fagundes, com um vestido de alças que pouco disfarçava o primeiro raspanço tosco dos pêlos no peito, beijaria, no fim, enquanto escapava aos salazaristas, e de forma ardentemente feminina, o capitão von Trapp, papel atribuído ao espadaúdo Ferreira, que tinha uma loja de lãs mesmo na esquina da Rua Central, a que os locais chamavam, nos anos 60, o cu do mundo.

Toda a cidade achou a actuação de Fagundes brilhante, dando um fôlego à arte da representação nacional, inspirando uma geração de jovens para o teatro que, de outra forma, só andariam metidos na droga. Jovens que viriam a fundar a premiada Trupe Otomana, responsável por sucessos de bilheteira como “À Espera de Godot”, “Monólogos da Vagina” e, claro, a célebre peça com um trocadilho turco no nome, “Isto é um Bull”, sobre a linha de separação da Europa das civilizações bárbaras do oriente.

Cedo se percebeu que Fagundes passava muitas noites a enrolar novelos de nylon na loja do Ferreira, mas, diria eu, o ponto de viragem foi a participação como porta-estandarte da Abrantes Gay Parade, que se realizou, precisamente, em Abrantes na Primavera do ano seguinte. As gentes de Abrantes são tolerantes, como dantes, mas Albertina não foi e, vai daí, deixou Fagundes entregue à nulidade de um casamento que, mesmo frutuoso em rebentos, já não reservava guarida para ocasionais afogamentos de gansa.

Fora de Abrantes, claro, ninguém sabia da galopante bichice de Fagundes; quando o convidaram para o cargo de comentador na TRS, a Televisão Regional de Santarém, uma televisão pirata – um convite inesperado nessa altura em que só pessoas com conhecimentos eram convidadas para comentar coisas na televisão -, foi sob a condição de vestir um fato em substituição dos gastos turtlenecks de Sartre e de se apresentar como virilmente heterossexual. “Cada programa será como se estivesses a pinar com todas as costureiras deste país no Atlântico em dia de concerto do Tony Carreira”, terão dito. Aí renasceu o mito do Fagundes heterossexual, que tanto embeiçou quem igualmente se embeiçaria por uma esfregona que aparecesse na televisão.

Sucederam-se as namoradas, cada uma mais pirosa, como se Fagundes nem se esforçasse para disfarçar que as suas preferências eram mais do tipo de quem frequenta o ginásio inconsciente da presença de calças de ioga em ancas curvas. Estas namoradas eram trambolhos, na gíria popular. Algumas davam-se ao trabalho de manter a discrição, outras optavam por exibir sapatos que demonstravam que a única possibilidade de mitigar a maçada de manter uma relação heterossexual com um homossexual é através de compras acima das possibilidades.

Fagundes endividou-se à mesma taxa que Sócrates endividou o país e, vai-se a ver, acaba suspeito de andar no gamanço para manter os vícios do gajedo que sustentavam a sua imagem heterossexual. Albertina chegou a comprar, inclusivamente, uma pequena quinta a norte de Saint Tropez, onde encontra a tranqüilidade que abafa a lembrança de Fagundes a chamar-lhe Artur durante uma tentativa frustrada de coito misericordioso.

Não foi para uma sociedade destas que tanto lutamos. Os homossexuais não podem ser excluídos assim da sociedade, vítimas de chantagem por mulheres que se aproveitam da vergonha percepcionada pelo reconhecimento, em pleno, da sexualidade de um pobre homem. No dia internacional da mulher, apelo à sociedade para que aceite e deixe de julgar pessoas só porque preferem abafar a palhinha. Apelo também à sociedade para que julgue duramente estas mulheres, que aproveitando-se das vulnerabilidades de um homem, o esmifram até ao tutano. É tempo de dizer “não”. Basta. Igualdade para todos.

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20 comentários leave one →
  1. SRG permalink
    8 Março, 2016 19:42

    A realidade a impor-se à ironia. Ou a ironia a impor-se à realidade. Muito bom.

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    • Euro2cent permalink
      9 Março, 2016 00:04

      Chiu, não diga nada, mas isto é o que os espanhois chamam ‘Schlüsselroman’, uma palavra francesa que eles pronunciam muito mal.

      (Troquei uma coisas para o caso dos lacaios do ministro dos iogurtes andarem por aqui. São tão broncos, perdão, apatosauros, que não percebem nada que não venha na cartilha que lhes fornecem.)

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  2. Manuel permalink
    8 Março, 2016 19:46

    Lembrei-me do “felizmente há luar” do Luís Sttau Monteiro.

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  3. Luís Marques permalink
    8 Março, 2016 19:55

    Já li a prosa 44 vezes, brilhante.

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  4. 8 Março, 2016 20:13

    A assessoria militar (Força Aérea) de Marcello está escolhida: uma mulher, tenente-coronel. Boa notícia, não só porque surgida hoje, Dia da Mulher.

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  5. Baptista da Silva permalink
    8 Março, 2016 20:17

    Esqueceu-se que fagundes é filosofo.

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  6. 8 Março, 2016 20:17

    Brilhante. Agora ficamos a espera das esganiçadas a clamar desforra.

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  7. 8 Março, 2016 20:20

    Bom post, mas prefiro de longe a Dita Von Teese à Maria von Trapp.
    E o Fagundes que tenha juízo.

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  8. 8 Março, 2016 20:23

    Bom post, mas o VCunha devia ter introduzido (no yexto, não no Fagundes) um magala ou coronel do quartel de Abrantes ou do quartel de Santa Margarida.

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  9. 8 Março, 2016 20:54

    Não consigo perceber as razões da ascensão de certos tugas nos corredores e secretárias do poder. Por exemplo, Pedro Mexia.
    Renunciou como comentador do Eixo do Mal porque não se revia naquele tipo de painelerice e não queria ter protagonismo via TV.
    Foi para director-adjunto da Cinemateca Nacional.
    Escreveu mais uns poemas assim-assim.
    Cavaco Silva distingui-o no passado 10 de Junho, como comendador (porra !, porquê ? Valeu mesmo tudo — “foge barão…”).
    Dizem-me que é actualmente e afinal, comentador dum programa da TVI idêntico ao Eixo.
    A partir de amanhã é assessor para a Cultura do PR Marcello.

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  10. paula permalink
    8 Março, 2016 21:42

    Brilhante!

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  11. 8 Março, 2016 22:10

    a cancio ainda não disse nada ? eu acho que dia da mulher é discriminatório , dá ideia que há dois géneros diferentes , pelo menos , claro , não estou contar com o fagundes ,mas se calhar devia .às tantas são tantas as regras do politicamente patético que uma pessoa fica confusa.

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  12. procópio permalink
    9 Março, 2016 00:19

    As mulheres não são más, vitor, são o que se pode arranjar. Uma mulher realmente boa pode valer milhares e não gosta de andar com tipos provincianos, mesmo de coração aberto, a falar com toda a franqueza, verdade verdadinha e essas coisa todas. Eu sei, eu sei, em Abrantes também há dinheiro, também há amigos. Quais as razões presumíveis de tanta amizade que rodeava o fagundes? Em primeiro lugar da lista, a paixão. Os poetas falam do amor arruinado, naufragado, a paixão assolapada, alienada, interrompida por procuradores, juízes impiedosos, jornalistas coscuvilheiros que afligem.
    Bons tempos em que os malandros dos jornalistas se encostavam à parede.

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  13. Arlindo da Costa permalink
    9 Março, 2016 00:28

    Complexos freudianos qb.

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  14. das Recht permalink
    9 Março, 2016 07:32

    cunha. tá giro e bem feito…mas para mandar os comunas para o caralho basta isto assim: comunas, vão todos “pró” caralho…perdoe a linguagem do último estivador de direita do cais de lisboa

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  15. fernando moniz permalink
    9 Março, 2016 08:29

    Abrantes Gay Parade? Isso é ofender a cidade…

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  16. Filipe permalink
    9 Março, 2016 09:10

    “Fagundes endividou-se à mesma taxa que Sócrates endividou o país”

    O VC não quereria dizer “Fagundes endividou-se à mesma taxa que Sócrates (nome fícticio) endividou o país”?

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  17. basto_eu permalink
    9 Março, 2016 10:44

    No dia internacional da mulher cessa funções aquele que foi, (na minha opinião) o melhor Presidente da República dos últimos 80 anos, (os meus), chama-se Aníbal Cavaco Silva.

    Fragoso Carmona, na parede em frente, ao lado do crucifixo, quando o Sol estava quente e queimava a nossa cara, e O Vale Era Verde: chamava-me gazeteiro.
    Oliveira Salazar, o ditador, topava-os à légua (vocês sabem do que é que eu estou a falar…)
    Craveiro Lopes, quis voar, deu à dica, cortaram-lhe as asas e o pio.
    Américo Tomaz, sempre de tesoura em punho, dizia sempre que era a primeira que ali estava desde a última vez que ali tinha estado e zás !!!!!. Dezempalmava a fita.
    Spínola, da maioria silenciosa, era cumócamões, tinha olho de vidro e cara de mau.
    Costa Gomes viu-se aos papéis com o Vasco, já não me lembro.

    Ramalho Eanes, o destemido, sozinho qual rambo, meteu a tropa na ordem e nos quartéis.
    Mário Soares era fixe, para os da camarilha dele.
    Jorge Sampaio foi o mais inútil e estúpido deles todos. Enfardou-nos com o Sócrates no lombo e, este, sozinho em 6 anos duplicou a dívida que os outros quatro anteriores tinham feito em 30.
    O prof. Cavaco foi o melhor deles todos. Por isso foi o mais detestado, por aqueles que queriam ter sido como ele. É que ganhar 4 maiorias, ainda por cima absolutas é obra.
    Não é para qualquer um.

    O prof. Marcelo, tou céptico. Pela minha virgindade juro que o pior do futuro é o que ainda está para vir.
    Se apadrinhar esta ditadura de esquerda patrocinada pelo aluno.
    Tamos phodidos.

    Quanto ao tema, uma maravilha, como sempre, me digam onde e quando devo comprar o resto do livro.

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  18. 9 Março, 2016 10:55

    Céus. Pior que a ironia do Henrique Raposo, só mesmo o Vítor.

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  19. procópio permalink
    9 Março, 2016 11:23

    das recht, não se lide com os comunas em termos ofensivos. Deixemos isso para eles.
    Mostrem-se as suas incongruências, o ódio patológico aos que pensam diferente, do que são capazes quando detêm o poder.
    Patriotas em tempo de guerra e internacionalista em tempo de paz.
    A Internacional seria um instrumento em tempo de paz, lembrem-se da associação do miserável costa gomes para a paz, mas a maior parte do tempo eles/elas estão em guerra. Só estão bem declarando fatwas sobre os infiéis. Quando não podem amordaçar, recorrem ao canto alentejano, artistas lentos vestidos de farpelas ridículas, transpiram tolerância na cantiga, mas os olhos e os gestos exibem raiva mal contida.
    Curiosamente nunca atacam o fagundes, ao contrário de outros bem mais modestos que têm lugar permanente no seu radar e que motivam de intervenções pidescas a vários níveis, nomeadamente nas finanças. Porquê tanta complascência?
    Deixo aqui a pergunta inocente. Eu destas coisas não percebo nada.
    Só sei que os comunas são mestres na arte do sortilégio. Hoje internacionalistas amanhã patriotas da sujidade. A múmia fria dá para todos os lados

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