Liberalismo: era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto
Uma boa telenovela tem sempre muitos episódios; uma má telenovela, também. Não há pois motivo, independentemente da qualidade, para não se continuar a escrever sobre a contratação de Passos Coelho pela Universidade de Lisboa.
Um dos argumentos mais interessantes dos críticos é o que se baseia na suposta incoerência ideológica: o ex-PM é um liberal e, por isso, não deveria trabalhar no sector público. É uma objecção que me surpreendeu: depois de tudo o que foi sendo dito pela oposição durante os quatro anos do seu mandato, estava convencido de que já não existia nada público em Portugal! Afinal, talvez por esquecimento, parece que ainda sobrou a Universidade de Lisboa.
Como estas pessoas seriam as primeiras a criticá-lo caso fosse contratado por uma empresa privada, acusando-o de estar a levar segredos de Estado para o mundo dos negócios, conclui-se que o que não querem é deixá-lo trabalhar! Já houve um tempo em que se combatiam os adversários políticos com argumentos e raciocínios; agora, pelo que vejo, a ideia é tentar que fiquem sem dinheiro para comer. É que os liberais acreditam na “mão invisível”, mas as contas que têm para pagar, incluindo a do talho e a da peixaria, vêem-se bem. De qualquer forma, afigura-se-me uma boa estratégia: urna por urna, já que não conseguiram vencê-lo na de voto, pode ser que consigam derrotá-lo quando estiver dentro de uma fúnebre, morto por inanição.
E a quem se destinam, então, os empregos públicos? Se não são para os liberais, são para quem? Olhando para a História das Ideias Políticas e para a História do Pensamento Económico, lendo os escritos de John Locke, de Adam Smith e dos posteriores teóricos do liberalismo, devem ser para os defensores das monarquias absolutas ou das ditaduras republicanas, e para os adeptos do planeamento central de uma economia e propriedade totalmente colectivizadas. É que todos os outros, sociais-democratas e democratas-cristãos, conservadores e socialistas democráticos, são, em diferentes graus, liberais. Felizmente! Mesmo que o não saibam ou que o não queiram admitir, e que prefiram torcer o conceito à medida de uma caricatura.
Mas entremos no jogo e analisemos a questão à luz da caricatura: os liberais querem um Estado mínimo e uma economia de mercado livre; os restantes querem um Estado máximo e uma economia fortemente regulada; Pedro Passos Coelho faz parte dos primeiros. Deve, por isso, recusar-se a ganhar a vida à conta de dinheiros públicos? Por mim, tudo bem, desde que os segundos se recusem a ganhar a vida à conta de dinheiros privados. Se o Francisco Louçã pode trabalhar para o grande capital do Francisco Pinto Balsemão sem qualquer problema, não vejo motivos para desenterrar agora “incoerências”. Podem ambos defender que o país teria a ganhar com mudanças: nacionalizando a SIC e o Expresso, no caso de Louçã; privatizando a Universidade de Lisboa, no caso de Passos. No entanto, enquanto isso não acontece, vivem os dois no Portugal que existe, e têm todo o direito a trabalhar onde bem lhes apetecer. A alternativa é vivermos todos no país imaginário que idealizamos e, nesse caso, solicito desde já que me autorizem a pagar apenas metade dos impostos que pago actualmente e a cumprir apenas um terço dos decretos, portarias e despachos existentes.
Não nos esqueçamos que as oportunidades de emprego em Portugal sempre foram escassas e, ideologias à parte, o Estado que o ex-líder laranja deixou em 2015 é praticamente do mesmo tamanho do que aquele que encontrou em 2011. Se a esquerda o tivesse apoiado quando ele mostrou vontade de o reduzir, existiriam neste momento menos lugares disponíveis para o acolher. Como optaram por combater ferozmente essa estratégia, agora aturem-no.
Não sou porta-voz de nenhum movimento de reforma liberal mas, salvo melhor opinião, a ordem dos acontecimentos não poderá ser outra que não esta: o Estado retira-se progressivamente de algumas áreas, o que permitirá a diminuição dos seus gastos e dos regulamentos que emite, o que permitirá a diminuição dos impostos que cobra às pessoas e às empresas e a diminuição da carga burocrática, o que permitirá um aumento da poupança e do investimento, o que permitirá um crescimento da riqueza nacional, o que permitirá novas e melhores oportunidades de trabalho na economia privada. É que esse desejo socialista de ter um sector público gigantesco, omnipresente e em permanente expansão, para depois tentar impedir que lá trabalhe quem com ele não concorda é, à primeira vista, um bocadinho maldoso. Embora compreenda a sua potencial eficácia: se à mesa do Orçamento não há lugar para liberais, e se os cargos que mais influenciam as decisões políticas são sempre pagos pelo Orçamento (deputados, governantes, chefias militares, dirigentes da administração central, dos IPs, das EPs, etc.), então está montada a espiral de morte dessa filosofia e dos seus partidários. Seria a versão portuguesa do “fim da história”, com uma conclusão ligeiramente diferente da que Fukuyama nos apresentou. De todas as esparrelas que já vi, esta é, sem dúvida, das mais bem concebidas.
Agora, se o objectivo de toda esta polémica não é armadilhar o debate, mas apenas brincar com os significados de “coerência” e de “incoerência”, então estão todos perdoados e deixo também aqui o meu contributo: desde a publicação da Riqueza das Nações, com a sua história do talhante, do cervejeiro e do padeiro*, que a perspectiva liberal sobre a natureza humana está definida e o papel do interesse próprio no andamento do mundo devidamente sublinhado. Ora, se na opinião de Passos Coelho os funcionários públicos são relativamente privilegiados em relação aos trabalhadores do privado, não vejo qual é a incoerência na escolha que acaba de fazer. Quem deve refazer o raciocínio são os seus opositores, que andam sempre a reclamar das condições de trabalho do funcionalismo e dos múltiplos sacrifícios que lhe são impostos. É altura de serem coerentes e de agradecerem ao ex-PM a disponibilidade que demonstra em carregar tamanha cruz.
* “Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm o seu próprio interesse” – Smith (1776); livro I, cap. 2

Post excelente e subscrito !
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Nada tendo a contestar sobre a argumentação acima – antes pelo contrário – submete-se à apreciação de quem de direito uma sugestão de ocupação para PPC: cria-se mais um Observatório pois há ainda muitas áreas ainda não cobertas por esses gajos nascidos em Olhão mas adeptos do Boavista. Senão, por exclusão de partes, vejamos se há ou não temas a necessitar de lupa e microscópio:
1) Observatório do medicamentos e dos produtos da saúde
2) Observatório nacional de saúde
3) Observatório português dos sistemas de saúde
4) Observatório da doença e morbilidade
5) Observatório vida
6) Observatório do ordenamento do território
7) Observatório do comércio
8) Observatório da imigração
9) Observatório para os assuntos da família
10) Observatório permanente da juventude
11) Observatório nacional da droga e toxicodependência
12) Observatório europeu da droga e toxicodependência
ESTE É UMA AGENCIA EUROPEIA DESCENTRALIZADA, NÃO ESTÁ NO ERÁRIO PUBLICO PORTUGUES
13) Observatório geopolítico das drogas
14) Observatório do ambiente
15) Observatório das ciências e tecnologias
16) Observatório do turismo
17) Observatório para a igualdade de oportunidades
18) Observatório da imprensa
19) Observatório das ciências e do ensino superior
20) Observatório dos estudantes do ensino superior
21) Observatório da comunicação
22) Observatório das actividades culturais
23) Observatório local da Guarda
24) Observatório de inserção profissional
25) Observatório do emprego e formação profissional
26) Observatório nacional dos recursos humanos
27) Observatório regional de Leiria
28) Observatório sub-regional da Batalha
29) Observatório permanente do ensino secundário
30) Observatório permanente da justiça
31) Observatório estatístico de Oeiras
32) Observatório da criação de empresas
33) Observatório do emprego em Portugal
34) Observatório português para o desemprego
35) Observatório Mcom
36) Observatório têxtil
37) Observatório da neologia do português
38) Observatório de segurança
39) Observatório do desenvolvimento do Alentejo
40) Observatório de cheias
41) Observatório das secas
42) Observatório da sociedade de informação
43) Observatório da inovação e conhecimento
44) Observatório da qualidade dos serviços de informação e conhecimento
45) Observatório das regiões em reestruturação
46) Observatório das artes e tradições
47) Observatório de festas e património
48) Observatório dos apoios educativos
49) Observatório da globalização
50) Observatório do endividamento dos consumidores
51) Observatório do sul Europeu
52) Observatório europeu das relações profissionais
53) Observatório transfronteiriço Espanha-Portugal
54) Observatório europeu do racismo e xenofobia
55) Observatório para as crenças religiosas
56) Observatório dos territórios rurais
57) Observatório dos mercados agrícolas
58) Observatório dos mercados rurais
59) Observatório virtual da astrofísica
60) Observatório nacional dos sistemas multimunicipais e municipais
61) Observatório da segurança rodoviária
62) Observatório das prisões portuguesas
63) Observatório nacional dos diabetes
64) Observatório de políticas de educação e de contextos educativos
65) Observatório ibérico do acompanhamento do problema da degradação dos povoamentos de sobreiro e azinheira
66) Observatório estatístico
67) Observatório dos tarifários e das telecomunicações
68) Observatório da natureza
69) Observatório da qualidade
70) Observatório quantidade 71) Observatório da literatura e da literacia
72) Observatório nacional para o analfabetismo e iliteracia
73) Observatório da inteligência económica
74) Observatório para a integração de pessoas com deficiência
75) Observatório da competitividade e qualidade de vida
76) Observatório nacional das profissões de desporto
77) Observatório das ciências do 1º ciclo
78) Observatório das ciências do 2º ciclo
79) Observatório nacional da dança
80) Observatório da língua portuguesa
81) Observatório de entradas na vida activa
82) Observatório europeu do sul
83) Observatório de biologia e sociedade
84) Observatório sobre o racismo e intolerância
85) Observatório permanente das organizações escolares
86) Observatório médico
87) Observatório solar e heliosférico
88) Observatório do sistema de aviação civil
89) Observatório da cidadania
90) Observatório da segurança nas profissões
91) Observatório da comunicação local
92) Observatório jornalismo electrónico e multimédia
93) Observatório urbano do eixo atlântico
94) Observatório robótico
95) Observatório permanente da segurança do Porto
96) Observatório do fogo
97) Observatório da comunicação (Obercom)
98) Observatório da qualidade do ar
99) Observatório do centro de pensamento de política internacional
100) Observatório ambiental de teledetecção atmosférica e comunicações aeroespaciais
101) Observatório europeu das PME
102) Observatório da restauração
103) Observatório de Timor Leste
104) Observatório de reumatologia
105) Observatório da censura
106) Observatório do design
107) Observatório da economia mundial
108) Observatório do mercado de arroz
109) Observatório da DGV
110) Observatório de neologismos do português europeu
111) Observatório para a educação sexual
112) Observatório para a reabilitação urbana
113) Observatório para a gestão de áreas protegidas
114) Observatório europeu da sismologia
115) Observatório nacional das doenças reumáticas
116) Observatório da caça
117) Observatório da habitação
118) Observatório Alzheimer
119) Observatório magnético de Coimbra
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Só na saude, conte-os, depois multiplique por 3 directores com carro, tlm e tretas, depois por 2 acessores cada um e mais 3 secretárias. Por fim, coloque tecnicos e motoristas. A maralha tem que comer.
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Excelente post.
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Muito bom, excelente argumentação, muitos parabéns
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Já troquei e saí a perder…
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