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Já murchaste uma das versões, pá / Fico contente

5 Junho, 2018

chico

 

Chico Buarque, o homem que eu gostaria de ser e que a minha mulher, as minhas amigas, as minhas vizinhas, as minhas colegas de trabalho e todas as restantes senhoras com quem me cruzo no dia-a-dia gostariam que eu fosse, está em Portugal. Não tendo conseguido arranjar bilhetes para os concertos, tive de me socorrer de outros meios para esclarecer a “questão essencial”: afinal, qual das versões de “Tanto Mar” foi oferecida ao Coliseu do Porto? A primeira, que até Jaime Nogueira Pinto deve trautear no banho quando está distraído? Ou a segunda, que os esquerdistas mais duros cantam a plenos pulmões em estado de atenção plena?

Comecemos por relembrar a história: após o 25 de Abril, Chico Buarque compõe uma pequena (em duração) e lindíssima (não sabe fazer outras) música a homenagear a festa da liberdade em que Portugal estava mergulhado, realçando a diferença entre a primavera democrática que nos tinha atingido e a doença ditatorial que continuava a assolar o Brasil; em 1978, vendo que a deriva bolchevique iniciada em 1975 tinha sido interrompida pelo 25 de Novembro, sente-se obrigado (palavras do próprio) a alterar a letra, passando a referir a festa como um acontecimento do passado que alguém tinha tratado de estragar. Chico ainda mantém algumas esperanças revolucionárias (“… certamente / esqueceram uma semente / nalgum canto do jardim”), mas o verso “já murcharam tua festa, pá” revela bem o desgosto presente nesta segunda versão.

Felizmente, de acordo com os relatos do concerto do Porto, o artista brasileiro reconciliou-se com a normalidade democrática do nosso país e percebeu que murchar certas festas é a atitude mais correcta. Tal como vemos nos filmes sobre adolescentes, a chegada da polícia à festa caseira que se desenrola durante a ausência dos progenitores pode salvar muita louça e, no limite, a própria casa. E quem diz polícia diz as tropas de Jaime Neves e de Ramalho Eanes.

Sim, Chico Buarque cantou aos portuenses a primeira versão de “Tanto Mar”. E eu, fazendo minhas as palavras da canção, fico contente.

 

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9 comentários leave one →
  1. Henrique Oliveira permalink
    5 Junho, 2018 16:53

    Também gostava de pelo menos ver o espectáculo nem que fosse em video.

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  2. 5 Junho, 2018 19:02

    Chico Buarque é um extraordinário e icónico compositor !
    Quanto à letra dessa canção, se o SBCosta presume que até o JNogueira Pinto mesmo distraído a canta no duche…

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    • Sérgio Barreto Costa permalink
      8 Junho, 2018 10:24

      Acho que sim, ele já está na fase da aceitação:)

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  3. Mario Figueiredo permalink
    5 Junho, 2018 19:09

    Este texto de imediato me fez lembrar o outro magnifico texto de Maria de Fátima Bonifácio na edição especial do Observador em papel (e que infelizmente não está disponível no site) em que a autora relata as suas experiências revolucionárias no Maio de 68. Mas desta feita, sob a lupa do realismo de quem já viveu a vida bem para lá da juventude.

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    • Arlindo da Costa permalink
      5 Junho, 2018 22:41

      Essa Fatinha Bonifácio é do mais ridículo que existe. Uma extremista de esquerda convertida ao nacional-parolismo. Enfim…e levanta-se o padeiro para sustentar estas inutilidades!

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      • Mario Figueiredo permalink
        6 Junho, 2018 01:35

        — Arlindo da Costa, em Ainda me dói o 28 de Maio

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      • Isabel permalink
        6 Junho, 2018 02:40

        Se o Sr. Arlindo C. não acha que também é uma inutilidade sustentada pelo padeiro eu direi: presunção e agua benta….etc.
        Post scrptum: Pelo meu lado, não faço parte do filme porque não como pão.

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  4. A. R permalink
    6 Junho, 2018 00:18

    O gajo já fez o luto pela Dilma do dentinho aguçado ou anda a carpir?

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  5. pitosga permalink
    6 Junho, 2018 11:20

    Sérgio Barreto Costa, muito bom post! Eu diria mesmo mais… na mouche.

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