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24 de agosto de 1820

24 Agosto, 2018
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Portuguese_Cortes_1822O dia 24 de Agosto de 1820, que hoje celebra 198 anos, foi de extraordinária importância para a História Contemporânea de Portugal, graças à Revolução Liberal iniciada, nesse dia, no Porto, com um pronunciamento militar no Campo de Santo Ovídeo, que verdadeiramente deu inicio à modernidade política de Portugal.

Por esse tempo, o país encontrava-se numa das suas mais profundas crises de sempre. Com o rei ausente no Brasil desde 1807, transformado num protectorado da Inglaterra, às mãos do Marechal William Beresford, entregue a um Conselho de Regência que perpetuava as velhas estruturas sociais do nosso Ancien Régime, o país encontrava-se desamparado, desmoralizado e sem rumo.

É verdade que D. João VI, então ainda apenas Príncipe Regente, não foi para o Brasil em fuga dos exércitos napoleónicos, ou, pelo menos, foi-o de acordo com a Inglaterra, com quem assinou um tratado secreto, a 22 de Outrubro de 1807, para fazer a transferência da coroa portuguesa para o Brasil e evitar que Napoleão a capturasse e destituísse. Desse modo, permaneceria a soberania portuguesa salvaguardada numa nova capital – o Rio de Janeiro – e Napoleão teria maiores dificuldades em executar as suas pressentidas intenções de retalhar Portugal, que o Tratado de Fontainebleau, assinado com os espanhóis a 27 de Outubro, tornariam claras. Mas, depois de fracassadas as incursões napoleónicas em Portugal, pelo ano da terceira expedição peninsular, capitaneada por Massena, em 1810, e da segunda e definitiva abdicação de Napoleão, em 22 de Junho de 1815, já nada justificava a ausência do rei no Brasil. Todavia, cinco anos após aquela última data, D. João VI não dava quaisquer sinais de querer regressar à pátria. E esta continuava, assim, entregue à tutela inglesa.

Foi esse, então, o móbil aglutinador dos homens que, a partir da cidade do Porto, reunidos numa associação secreta, posteriormente denominada de «Sinédrio», organizaram o 24 de Agosto de 1820: o regresso de D. João VI a Portugal.

Mas não foi apenas por aqui que esses homens, ou, pelo menos, parte deles, se ficou. Se tivesse sido uma mera «Restauração» da soberania nacional e do rei, 1820 teria sido igual a 1640. Mas foi muito mais do que isso.

Na verdade, o partido civilista do Sinédrio, os «becas» ou «rábulas», em referência à sua condição maioritária de juízes e advogados, influenciados pelas ideias iluministas e liberais vindas de França e de Inglaterra, leitores de António Ribeiro dos Santos, de Montesquieu e de Locke, queria que essa «Restauração» fosse acompanhada de uma profunda transformação política do país, recuperando velhas tradições representativas, como as Cortes, que já não reuniam desde o longínquo ano de 1698, com a sua última reunião promovida por D. Pedro II em Lisboa, e estabelecendo uma Constituição política moderna onde figurassem os princípios liberais da soberania nacional, da separação de poderes, da garantia dos direitos individuais da liberdade, da segurança e da propriedade.

Foi essencialmente isso que conseguiram os homens do Sinédrio, entre eles, com natural destaque, Manuel Fernandes Tomás, José da Silva Carvalho e José Ferreira Borges. Contra o partido militar da revolução, que prontamente se rendeu a D. João VI e até a D. Miguel, quando se apercebeu que a Revolução não fora uma mera «Restauração». Restauração do rei, das instituições tradicionais do absolutismo e dos seus direitos no exército, que Beresford relegara em benefício dos oficiais ingleses.

Depois de aprovada a primeira Constituição Portuguesa, em 23 de Setembro de 1822, que criava um sistema de governo verdadeiramente liberal e parlamentar, o 24 de Agosto de 1820 terminaria poucos meses mais tarde, a 27 de Maio do ano seguinte, com o golpe miguelista da Vilafrancada. E o país entrou, então, numa nova e profunda crise política, que adiou a sua modernização e industrialização, cujas consequências ainda hoje estamos a pagar.

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14 comentários leave one →
  1. Leunam permalink
    24 Agosto, 2018 13:46

    Naquele tempo a Maçonaria em Portugal não era o que é hoje.

    Sabia distinguir entre o Bem-comum e o interesse pessoal.

    Quando faleceu, Manuel Fernandes Tomás,estava tão pobre que foi necessário fazer um peditório entre os seus amigos e apoiantes, para pagar o seu funeral e ajudar a sua Viúva.

    Ele não reclamou para si uma PENSÃO VITALÍCIA SECRETA, apesar dos enormes serviços que prestou à Nação.

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    • Monti permalink
      24 Agosto, 2018 19:55

      Os deputados sabem que podem contar comigo para defender a imagem a que temos direito, que é uma imagem de dignidade. E é uma dignidade acrescida pelo sentido de entrega que é superior ao do cidadão comum, à das pessoas que estão habituadas às suas vidinhas’.
      Madame Assunção Esteves, reformada, pensionista e prestamista
      No Circo S. Bento.

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  2. JgMenos permalink
    24 Agosto, 2018 14:06

    «…cujas consequências ainda hoje estamos a pagar.»!
    Exageramos ou devemos invocar Alcácer-Quibir?

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    • rui a. permalink*
      24 Agosto, 2018 14:53

      Nem uma coisa nem outra. Apenas 50 anos de atraso na industrialização e 150 para se chegar a uma democracia parlamentar. O que não foi coisa pouca.

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      • JgMenos permalink
        24 Agosto, 2018 18:15

        De 1820 a 1926 não faltaram experiências parlamentares que agora estão a ser emuladas pelos treteiros seus descendentes.

        Sobre a industrialização, nada que hoje possa ser medido como consequência. A Abrilada tratou de nos conduzir ao fim da grande indústria.

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      • ocni permalink
        24 Agosto, 2018 21:20

        o maior estrago para a industrialização já tinha sido feito pelo marques de pombal ao destruir o ensino em portugal em 1759.
        em poucos anos passamos de 4,5 mil estudantes no ensino superior para cerca de 500
        uma destruição sem igual do nivel de instrução de um país de que nunca mais recuperamos

        Liked by 1 person

  3. Procópio permalink
    24 Agosto, 2018 18:36

    Como diz Leunam os aventais de hoje são outra coisa. Ver Portugal Profundo
    O domínio britânico também foi largamente substituído por oligarcas que não precisam de força militar, grandes armadas, nem infantarias. Usam os media a seu prazer, tal como manipulam esquerdas e direitas, marionetas divertidas, por vezes até se levam a sério.
    Os mercados, o fmi, a goldman sachs, a ue tratam das veleidades dos indígenas.
    O futebol, as telenovelas, os festivais, o álcool e a droga omnipresentes tratam do resto.
    A profusão informativa alimentada por notícias falsas põe-nos ora tontos, ora abúlicos, ocasionalmente apopléticos. Triste de se ver, levando as coisa a sério. Não levem.
    Com o totalitarismo sanguinário dos comunas seria melhor?
    Há quem esconda a escopeta e afirme que sim a pé juntos.
    “Democracia” e “iberdade” sempre, sai-lhe pela boca suja sem hesitações.
    Deixemos os mitos e assentemos na realidade.
    Ao indígena não cabe escolher o melhor, escolherá o menos mau.
    Enquanto deixarem. Muitos já nem se levantam para lá pôr o papelinho seboso.

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  4. 24 Agosto, 2018 21:41

    De liberal o liberalismo português não tinha nada…

    De libertino tinha tudo e mais alguma coisa…

    Os ‘liberais’ oitocentistas queriam apossar-se dos bens da Igreja e da antiga Aristocracia – e conseguiram…

    Os ‘Ricardo Robles’ não apareceram com a ‘Geringonça’…

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  5. 24 Agosto, 2018 21:42

    Verdadeiramente a Monarquia Constitucional e a 1ª República institucionalizaram essa idiossincrasia das Elites – para gáudio dos Novos Ricos, cujo objectivo era ficarem com o que era dos antigos nobres, mas sem a responsabilidade do ‘status’ – só os privilégios…

    E o Povo apercebeu-se da charada..:

    • No Século XIX se instituiu os Condes, Vicondes e Barões:

    De tal forma que o Povo motejava:
    – Foge cão, que te fazem Barão
    – Mas para onde, se me fazem Visconde!

    A 1ª Républica seguiu o esquema – e a 3ª nunca quis outra coisa…
    As ‘Famílias’ da Elite dominante de agora – são a sequência das predominantes no Séc. XIX e República.

    E, não por acaso, abominavam Salazar – que para essa Elite era um ‘Botas’ de Sta. Comba…

    Fernando Pessoa até os conhecia de ginjeira como se vê nesta sua soberba descrição…:
    “Este português (que é o que forma grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa. É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido”.
    Note-se: «É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido”»

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  6. 24 Agosto, 2018 22:41

    Olhe para o que Londres e Paris se tornaram. Os nossos 50 ou 150 de anos de atraso, são uma vantagem para evitar cair no precipicio do suicidio étnico cultural onde a vanguarda liberal do ocidente se está a meter. Neste momento a nossa melhor defesa é termos o nosso pote de mel vazio.

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  7. Joel Campos permalink
    25 Agosto, 2018 02:51

    Depois tivemos grandes reis sabios que fizeram de tudo para modernizar o
    pais D. Maria II a educadora , D. Pedro V o Esperançoso, D.Luis I o Popular e D.Carlos o Diplomata mas como os republicanos aliados com os absolutistas,sionistas e maçonaria mataram a 2 de Fevereiro de 1908 El Rei D.Carlos e o principe real D.Luis Filipe (que deveria ter sido D.Luis II), 2 anos depois contra 92% do povo portugues implantaram a republica e portugal morreu ai

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  8. Arlindo da Costa permalink
    26 Agosto, 2018 00:28

    Foi preciso a Revolução do 25 de Abril de 1974 para resgatar os ideais liberais, entretanto interrompido pelo regime salazarista e um regime republicano burguês.

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  9. Gabriel Silva permalink*
    27 Agosto, 2018 18:56

    uma vez mais, excelente memória

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  10. 29 Agosto, 2018 20:21

    Os ‘Liberais’ em Portugal…:

    «Iniciativa Liberal. No Facebook, antes de o ser, era uma página de apoio a António Costa»

    Fonte: https://waa.ai/aRf6

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