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Não se pode ter filhos na escola em Portugal

24 Setembro, 2018

Eu não consigo compreender como é que um país que arranca a ferros tantos impostos ao orçamento familiar que ainda por cima é baixo por causa dos salários miseráveis, colocando-o a par dos países que mais impostos cobram, não distribui em todas as escolas públicas, livros e material a todos os alunos, em vez de obrigar os pais a desembolsar pequenas fortunas para dar educação aos seus descendentes. Afinal para que servem os impostos?

Até aos 12 anos meus pais nunca souberam o que era pagar para me ter a estudar na escola pública. No Canadá, era o Estado que distribuía no início das aulas, livros, cadernos e todo o restante material escolar necessário para o ano lectivo. Nada tinha de ser adquirido. No final do ano, a professora recolhia os livros, as tesouras, os marcadores entre outros materiais reutilizáveis,  que serviam depois para os anos seguintes.  Mas não era só. Tínhamos ainda escolas espaçosas, bem equipadas, grandes bibliotecas,  salas amplas, mobiliário ergonómico e de qualidade. Não faltava rigorosamente nada. Mais: a manutenção era primorosa e  não deixavam degradar um edifício escolar ou outro,  até a cair de podre para depois reconstruir de raiz gastando milhões como se vê neste mal governado país. Cuidavam com esmero do património.

Nos hospitais acontecia exactamente o mesmo. Com 5 anos tive de ficar internada, sozinha por via de uma cirurgia às amígdalas. Fiquei num quarto que nada lembrava um hospital, onde até tinha telefone e casa banho privada. O telefone que me servi para ligar aos meus pais, a chorar para me virem buscar e através do qual meu pai me sossegava prometendo uma barbie, se me portasse como uma mulherzinha corajosa. Um botão para chamar a enfermeira que usei a noite toda porque tinha dores e elas, com o maior carinho e compreensão, a virem acalmar meus medos, sempre sorridentes, sempre amigas.  A saúde e educação eram de excelência e além disso “gratuitas” para os contribuintes.

A pergunta urgente que se põe nesta altura do campeonato é a seguinte: se nós descontamos como “mouros” porque razão temos uma porcaria de serviços públicos? Mais: se o dinheiro dos impostos não vai para aquilo a  que em princípio se destina, isto não é um crime, não é roubar?

A mim parece-me óbvio que sim. É um roubo legal . Os impostos em Portugal não servem para aplicar no bem estar e qualidade de vida dos utentes. Serve os interesses dos seus governantes que por serem gulosos e terem uma oligarquia gigantesca para alimentar, nunca o dinheiro chega a quem precisa porque fica a meio do caminho e não sobra. Pior: falta. Como não prestam contas, nem ninguém os obriga verdadeiramente a isso, fazem de conta que o problema não é porque eles andam a roubar nossos impostos, mas sim, porque não são suficientes. Então nós, os burros do costume, vamos continuando a aceitar esta roubalheira sem contestar, sem exigir, enquanto ainda aumentam mais a carga fiscal. Somos mesmos tansos!

Esta semana recebi um pedido de ajuda de uma mãe desesperada que não tinha como fazer face às despesas do arranque escolar. A viver sozinha, com duas meninas, uma delas com problemas de saúde grave, era impossível ficar indiferente. O Movimento que lidero, entrou imediatamente em acção e ajudou esta mãe. Mas pergunto: porque razão é que os contribuintes têm de passar por isto?

Uma semana depois, e já com as aulas a decorrer, outra denúncia de um leitor: uma escola do Agrupamento de Santiago abre as  portas atropelando completamente a legislação ao compactar em 2 turmas alunos que, por alguns terem necessidades educativas especiais, deveriam estar em 3 turmas! Os pais indignados com esta situação que prejudica seriamente a aprendizagem destes meninos, denunciou o caso à DGEstE e DSRC, sem qualquer resultado prático. Porém a legislação é clara no artº 4º do Despacho Normativo 10-A/2018:

  • nº 1-  que as turmas do 1.º ano de escolaridade são constituídas por 24 alunos e nos demais anos do 1.º ciclo do ensino básico são constituídas por 26 alunos;

  • nº 4 –  que sempre que existem dois níveis de aprendizagem a turma deve ficar reduzida a 22 elementos;

  • nº  5 –  que qualquer turma que possua no máximo 2 alunos com NEE deve ficar numa turma de 20 alunos, desde que nos relatórios técnico-pedagógicos dos alunos seja identificada esta medida de acesso à aprendizagem e à inclusão;

  • nº 6 –  que a redução de turmas prevista, fica dependente do acompanhamento e permanência destes alunos na turma em pelo menos 60% do seu tempo curricular.

Ora, tendo estas 2 turmas  todos estes atropelos à lei, pergunta-se porque a escola, tendo condições físicas (existe uma sala livre para o efeito) para constituir mais um turma do 4º ano, se nega a fazê-lo? Mas afinal,  vivemos numa república das bananas quando é o Estado a cumprir a lei? é isso?

O Estado que deveria dar o exemplo, infringe ele próprio  a legislação por ele criada (que irónico!) para poupar na criação de uma turma extra essencial para dar qualidade de ensino a estes meninos, mas é capaz de gastar milhões em despesa fútil, como candeeiros de Siza Vieira ou torneiras de 500€ cada uma em balneários escolares!

Porque infelizmente é mais importante neste país corrupto, encher o bolso dos empreiteiros  com luvas a políticos, em projectos escolares  megalómanos, do que servir bem a população. É a porcaria de educação que temos.

 

 

 

 

12 comentários leave one →
  1. lucklucky permalink
    24 Setembro, 2018 12:39

    Ainda não percebeu?
    Uma coisa muito simples o Ministério da Educação não existe para os alunos.

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    • Andre Miguel permalink
      24 Setembro, 2018 15:00

      Claro que existe, para os formar desde tenra idade para o marxismo.
      O procópio resumiu a coisa: os portugueses nascem para serem de esquerda e servirem à mesa.

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      • lucklucky permalink
        24 Setembro, 2018 18:10

        Confirmou o que eu disse.

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  2. José Domingos permalink
    24 Setembro, 2018 13:31

    Nem mais. O ministro da educação, o dr. tavarish mario nogueira faz o que quer na 5 de outubro e do rebanho dos profs. Somos uma naçãozinha, presa ao parlamentarismo blindado, com a agravante de termos um povozeco que aplaude de pé, o que quer que seja, se isso lhe trazer algum benefício económico.
    O Canadá é um país doutro planeta, corruptos também existem, a diferença é que se forem apanhados, comem pela medida grande, depressa e com bons modos.
    A “justiça “ em Portugal é com avental ……….

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  3. Arlindo da Costa permalink
    25 Setembro, 2018 00:55

    Já no tempo do kamarada Lenine Passos Coelho as famílias portugueses poderiam ter até 8 filhos e matriculá-los todos em colégios privados pagos com o dinheiro dos contribuintes mais remediados….

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    • Cristina Miranda permalink
      25 Setembro, 2018 08:05

      É preciso ser muito ignorante pra dizer isto. As escolas públicas não são “grátis”. São pagas com impostos dos portugueses. Ora porque razão aqueles que pagam impostos, do mais pequeno ao mais alto escalão não podem usufruir de materiais e livros entregues pelas escolas? Para q serve os impostos brutais q se pagam aos governos? Mais: se fossemos aplicar essa sua lógica absurda, então quem não poderia usufruir do serviço público seria o cidadão que não paga impostos e nunca ao contrário. Entendeu ou faço desenho?

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      • Carlos permalink
        25 Setembro, 2018 14:06

        Cristina, não confunda o Arre Lindo. Qualquer questão com mais de três palavras está além do que o cérebro dele consegue processar.

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      • Cristina Miranda permalink
        25 Setembro, 2018 14:56

        Eu sei. Mas com ar ou sem ar, q não desrespeite quem luta pelos cidadãos.

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  4. Luis Lavoura permalink
    25 Setembro, 2018 17:14

    Porque é que a Cristina não volta para o Canadá? Se, pelos vistos, nasceu lá, então tem cidadania canadiana e o direito a residir no Canadá. Não entendo, com franqueza, que raio está a fazer em Portugal alguém que tem o direito de estar no Canadá!

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    • Cristina Miranda permalink
      27 Setembro, 2018 15:09

      Onde leu que eu nasci no Canadá?

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    • Cristina Miranda permalink
      27 Setembro, 2018 15:12

      Sobre livros e material escolar, estamos a leguas ainda dos países bem governados. Continuo a ver muita gente aflita a gastar centenas de euros no arranque escolar. Não estou desatualizada. Estou no terreno. E a realidade deste país é muito diferente da sua propaganda. Por falar em sair, saia voce q faz menos falta cá.

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  5. Luis Lavoura permalink
    25 Setembro, 2018 17:17

    A Cristina está desatualizada. Até ao governo anterior todos os pais eram, de facto, obrigados a desembolsar pequenas fortunas para os manuais escolares dos filhos. Hoje em dia, graças a uma reforma em boa hora posta em prática pelo atual governo, isso já não é assim – os manuais são gratuitos para alunos até ao 6º (salvo erro) ano.
    Já estamos um poucochinho mais próximos do Canadá, Cristina!

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