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Um buraco como outro qualquer

20 Fevereiro, 2019

O que me fez aborrecer com o liberalismo português foi a necessidade dos protagonistas optarem pela confortável visão de que o Homem encerra em si mesmo a génese da Justiça, crendo que, através de ferramentas como a democracia, é conferida ao mortal a autoridade sobre os princípios éticos da sociedade. Não é mais que um problema filosófico e, ao mesmo tempo, é o único problema filosófico que explica a dissonância entre um país cristão e a sua apetência pelo socialismo.

A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

Se a autoridade advém da equiparação a legitimidade para a exercer, então tanto faz que alguém creia no liberalismo como no socialismo, ambas as ideologias tornadas em fracas religiões. A liberdade só ascende a valor absoluto — e com ela a inviolabilidade da propriedade — se o Livre Arbítrio se conjugar com a propriedade do próprio Homem não lhe pertencer. No momento em que o Homem não é propriedade de nada ou ninguém, como pode o Homem possuir algo se não por atribuição do próprio Homem? Locke resolveu o problema atribuindo a propriedade do Homem a Deus; Rousseau optou por atribuir a propriedade do Homem à serpente do Éden num gesto que meramente substitui uma dentada numa maçã por hubris.

Se a propriedade são coisas, porque legislamos sobre pessoas?

Deviam os liberais portugueses ser crentes? Não necessariamente. Contudo, sem a dúvida que angustia crentes e sem a indiferença à dúvida que apazigua agnósticos, serão só vítimas da certeza jacobina plena de hubris por serem tão socialistas como os outros.

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19 comentários leave one →
  1. Daniel Ferreira permalink
    20 Fevereiro, 2019 13:35

    “Thanks to the terrible power of our International Banks, we have forced the Christians into wars without number. Wars have a special value for “the banksters”, since Christians massacre each other and make more room for us. Wars are the ‘banksters’ Harvest: The banksters banks grow fat on Christian wars. Over 100-million Christians have been swept off the face of the earth by wars, and the end is not yet.”

    “You have not begun to appreciate the real depth of our guilt. We are intruders. We are disturbers. We are subverters. We have taken your natural world, your ideals, your destiny, and played havoc with them.”

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  2. MJRB permalink
    20 Fevereiro, 2019 19:04

    Ó p’ra ela a mãozinha Rosa a tentar, a tentar… Hoje, O Tribunal da Relação anulou uma, mais uma decisão, no caso EDP.
    EDP, Caso Marquês, pois. Compreende-se.
    De tentativa em tentativa, se as instâncias superiores não estiverem atentas…

    Sobre o post: muito bom.
    Mas o VCunha arrisca-se a ser admoestado e no mínimo informado, segundo “novo paradigma”, já não há Homem, mas sim…humano, animal. Esta gentinha da tal nova e ortodoxa religião e vegan mete náuseas.

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  3. Mario Figueiredo permalink
    20 Fevereiro, 2019 19:28

    Aqui acho que discordo com o VC. Mas também posso estar a fazer uma interpretação errada do que estou a ler.

    Em primeiro lugar, nenhum liberal deve aspirar a tornar a Liberdade um valor absoluto. O absolutismo das ideias é precisamente a razão porque muito hoje se discute o papel nefasto que as ideologias têm sobre a sociedade. Sou frontalmente contra esta ideia e defendo com todas as forças que a Ideologia é a única forma do Homem Politico se fazer representar. O Um sistema declarado de crenças é tão fundamental para a política, como o é para a religião. Mas certamente concordo que a deriva para o fundamentalismo político é a razão porque tanta gente hoje desconfia dos termos e práticas ideológicas. Mas tal como a religião, podemos construir dois tipos de sistema de crenças (ideologias): prática ou fundamentalista.

    Se liberais há que defendem que o valor Liberdade deve ser absoluto, pois estamos a falar de libertários — e não de liberais. E esses francamente não contam para nada. O Liberalismo por outro lado deve — ou deveria, porque de outra forma se confunde com tudo o que não é liberalismo — olhar para a Liberdade como uma orientação e não um destino. Um bom liberal deverá saber distinguir liberalismo social de político ou económico, e perceber que todos se apresentam com diferentes pesos e medidas. E que Liberalismo Social em particular é um anacronismo que convém lidar com especial cuidado.

    “No momento em que o Homem não é propriedade de nada ou ninguém, como pode o Homem possuir algo se não por atribuição do próprio Homem? Locke resolveu o problema atribuindo a propriedade do Homem a Deus;”

    Locke não resolveu problema nenhum. Locke primeiro apresentou um falso paradoxo e de seguida atirou a solução para a esfera da religião, não respondendo à pergunta que imediatamente se seguiria: Mas então como pode o homem atingir a liberdade absoluta se a Deus pertence?

    Trazer de novo o papel que a Igreja teve sobre a propriedade física e espiritual do homem, é voltar a tempos muito negros da nossa história. E não existem sinais alguns que a Igreja aprendeu a sua lição. Basta olhar para os escândalos de abusos sexuais para perceber como a instituição olha para si própria e para o exterior.

    É claro que a Liberdade pode coabitar perfeitamente com a ideia que a propriedade ao homem pertence e a mais ninguém. Certamente não pertence aos governos e muito menos a Deus, o qual certamente não tem registo nenhum. A livre atribuição de propriedade é precisamente a maior dádiva da Liberdade. É uma falsa ideia aquela que pretende afirmar que sou menos livre porque tenho de negociar a propriedade com quem a possui. Procurar a génese desta atribuição é como discutir a galinha e o ovo.

    Deviam os liberais portugueses ser crentes? Não necessariamente. Contudo, sem a dúvida que angustia crentes e sem a indiferença à dúvida que apazigua agnósticos, serão só vítimas da certeza jacobina plena de hubris por serem tão socialistas como os outros.

    Penso ter deixado algumas pistas porque considero esta afirmação um perfeito absurdo. Na realidade é fácil (demasiado!) argumentar precisamente o oposto, que não existe melhor exemplo do socialismo do que a instituição e as práticas religiosas. E não é mistério nenhum porque ambos, Igreja e Socialismo, foram grandes inimigos no passado e ainda hoje se limitam a apertar a mão com indisfarçável desconforto. Não é porque são o oposto um do outro, mas porque reconhecem no outro a mesma capacidade para o controle absoluto sobre a população.

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    • Martim Moniz permalink
      21 Fevereiro, 2019 16:29

      “E não é mistério nenhum porque ambos, Igreja e Socialismo, foram grandes inimigos no passado e ainda hoje se limitam a apertar a mão com indisfarçável desconforto. Não é porque são o oposto um do outro, mas porque reconhecem no outro a mesma capacidade para o controle absoluto sobre a população.”——–Exacto.E como “porteiro” de ambos(ou mestre de cerimónia,além de master dos afectos e do comentário avulso e a granel)temos o “mais alto representante” do rectângulo,que tanto anestesia a populaça a favor do “socialismo costista” como vai a Roma(ou ao Panamá)beijar a mão ao sr Chico e anunciar mais uma “festa” para 22,isto se ainda houver mundo e rectângulo por essa altura(o vaticano esse parece que,apesar de tudo,vai continuar a organizar suas “festas” para gáudios dos jovens)

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  4. Mario Figueiredo permalink
    20 Fevereiro, 2019 19:41

    São portanto inimigos porque disputam o mesmo recurso.

    Mas tudo isto é porque falamos de liberalismo. Falemos antes de Conservadorismo. Ou seja, da visão de uma sociedade assente na na família como os dois grandes pilares da sociedade, que promove a livre iniciativa e a propriedade individual, mas que recusa grandes mudanças sociais e defende valores como a Tradição para a defesa e continuidade da estabilidade social.

    Este conservadorismo, ou conservadorismo de direita, não disputa recursos com a Igreja. Partilha-os. E aqui sim, não é possível ou é francamente difícil afirmar-se conservador sem reconhecer no mínimo o papel fundamental da Igreja na construção de uma sociedade.

    Não aceito de modo algum que o Liberalismo é verdadeiramente apenas possível quando se olha para Deus. É precisamente o contrário. O Liberalismo inevitavelmente renuncia a Deus. Já agora ou amanhã.

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    • 20 Fevereiro, 2019 19:44

      Se o liberalismo rejeita Deus é ele próprio uma religião.

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      • José Monteiro permalink
        20 Fevereiro, 2019 20:34

        Semelhante ao credo comunista.

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      • Mario Figueiredo permalink
        21 Fevereiro, 2019 00:27

        Não estou para aqui a defender o Liberalismo. Muito mais interessante é expor o seu absurdo. Mas prefiro algo de mais substancial do que um non sequitor que pode ser facilmente desmontado.

        Se o liberalismo rejeita Deus, de modo algum isso significa que é uma religião. Está por demonstrar esta ideia que falta de crença num Deus é uma forma de religião. O Vitor pode querer construir a sua versão pessoal do que significa a palavra Religião, mas a única coisa que isso me faz lembrar é o outro a dizer que tudo é sexismo, tudo é racismo, tudo é politica e agora, tudo é religião.

        Francamente não há pachorra. Fico-me por aqui.

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      • 21 Fevereiro, 2019 05:48

        A rejeição taxativa do não demonstrável é dogmática na remoção da metafísica. Portanto, é a base de qualquer religião.

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      • Mario Figueiredo permalink
        21 Fevereiro, 2019 07:44

        Portanto, é bolo porque leva farinha. Está bem.

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      • 21 Fevereiro, 2019 07:50

        Uso duas vezes a palavra hubris. Aqui apareceu pela terceira vez. Pedro não chegou à quarta.

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      • 21 Fevereiro, 2019 11:40

        A remoção da metafísica só é possível, em termos racionais, pelo dogma do materialismo.
        O realismo materialista acaba numa aporia incapaz de se sustentar.

        A menos que divinize a própria matéria e passe a questão metafísica para a divinização da Ciência.

        De todo o modo, nenhum filósofo materialista conseguiu sustentar as suas teses sem ter de recorrer a outra variantes transcendente.

        Chame-se o que se quiser. Ou é determinismo científico, ou liberdade de clinamen e mesmo na liberdade e acaso dos próprios átomos, tinha-mos então partículas pensantes, capazes de pelo acaso organizarem a vida.

        A Filosofia faz muita falta, ai faz, faz…

        Por exemplo- o marxismo, que se considera ateu e materialista, tem de inventar pressupostos ideais para chegar à ideia de síntese dialéctica da luta de classes com o advir do “homem novo”. Logicamente nada o permitiria deduzir.
        É um pressuposto hegeliano, truncado de forma holística

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      • 21 Fevereiro, 2019 12:30

        Eu penso que divergência vem mais pelo erro de associar a metafísica à existência de igreja. Ou seja: não podemos abolir um estado (o Estado) mantendo outro estado (a Igreja) (lá se vai o municipalismo também, mas agora não interessa). Mas não era disso que o post falava e sim da incompatibilidade do liberalismo com o ateísmo demonstrada pela certeza imposta sem autoridade (com consequência de proibição de questões metafísicas que colocariam em causa a “autoridade” liberal).

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      • 21 Fevereiro, 2019 12:34

        Ou ainda de outra forma, liberalismo ateu é paganismo.

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      • 21 Fevereiro, 2019 11:41

        tinha-mos???!!

        Eu estou parva? escrevi isso?
        ehehe anormalzinha

        tínhamos, claro

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      • 21 Fevereiro, 2019 20:19

        Sim- a confusão é essa- tudo o que está para lá da realidade conhecida é beatice se lhe chamarmos metafísica.
        Mas o liberalismo também tem variante que parte de pressuposto apriorístico- o caso da Escola Austríaca.

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  5. 20 Fevereiro, 2019 20:21

    Que texto tão curioso
    Parece a carta de Epicuro a Meneceu- para se ser escravo do determinismo da Ciência, então antes ter esperança nos deuses

    O Max Stirner também levou a questão a um paradoxo idêntico

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  6. 21 Fevereiro, 2019 01:17

    O s Liberais querem ser “Livres” usando o Estado para impor a todos os outros a garantia do direito da sua “propriedade”. Quando o Estado depois lhes impõe a “liberdade” e a “garantia” dos outros daquilo que eles consideram ser “propriedade” deles, eles reclamam e queixam-se do Estado e apela à sua abolição.
    Liberais/Jacobinos , Mecheviques/Bolsheviques, quem os veja na forma como aludem aos marxistas e vice versa, até parece que não são todos filhos da mesma mãe.

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  7. pitó permalink
    21 Fevereiro, 2019 14:44

    VC, por qual razão Vexa escreve hubris (mui fino) em vez de cagança (plebeu rasca)?

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