Estão convidados
Os filhos da lei
Era uma vez…
Um referendo é um espaço privilegiado de expressão cívica, que estimula o debate e a difusão de informação sobre questões relevantes, e cuja necessidade é reforçada no caso de não haver, face à questão a referendar, homogeneidade na base social de apoio de cada partido.
(via Pedro Pestana Bastos)
Para mais, também podemos pedir que não seja necessária participação de 50% no referendo para que seja vinculativo o que nos apetecer que seja vinculativo.
Já sei, já sei: “desta vez é diferente”.
Dì qualcosa di Sinistra
O 5 Dias está como está e o Arrastão acabou! Endoidaram??? Depois de meses em delírio megalómano sobre manifestações épicas, o poder na rua… extinguem-se. Para alguns isto implicará uma radicalização. E outros a fazer fé no que sucedeu em 1976 vão dedicar-se às artes, à vida académica ou à comida.
Arrastado
É com a certeza de uma verdadeira união da esquerda verdadeira que se aproxima que congratulo o Arrastão por ter completado a sua missão blogosférica de união da verdadeira esquerda.
Enredado em si mesmo
Leio no PÚBLICO que “Na sua moção, Passos diz que o Presidente deve “comportar-se mais como um árbitro ou moderador, movendo-se no respeito pelo papel dos partidos mas acima do plano dos partidos, evitando tornar-se numa espécie de protagonista catalisador de qualquer conjunto de contrapoderes ou num catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político”. O retrato assenta na perfeição em Marcelo.”»
Ou seja Marcelo enfiou a carapuça do “catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político“. Não é que a carapuça não lhe sirva e a análise que ele mesmo faz das razões de Passos são certeiras mas apenas em parte: «“Os indicadores económicos e financeiros passaram a ser positivos, os indicadores passaram a mostrar uma grande colagem de intenção de voto já nas europeias. Passos acha que isso vai melhorar daqui até às legislativas”, descreveu Marcelo. A que soma o facto de a Europa, como um todo também estar a melhorar. “Isto significa que na cabeça dele já ganhou as legislativas ou pode ganhá-las, o que era impossível há oito meses ou um ano”, diz o comentador, para explicar este à vontade de Passos. “E se pode ganhar as legislativas [de 2015], pode definir o perfil do Presidente que quer e o que não quer, ou seja, o perfil de candidato que quer apoiar e o que não quer apoiar” às presidenciais de Janeiro de 2016.» Na verdade, Passos independentemente de ganhar ou não as eleições de 2015 – perdê-las com um resultado alto não é pessoalmente para Passos pior que uma vitória pouco expressiva – pode não só escolher o PR com quem gostaria de contracenar caso venha a ser reeleito mas também aquele com quem Seguro ou outro PM socialista terão de se haver caso ganhem as eleições. Se Passos achar que pode ser PM o nome de Barroso certamente que lhe agradará mais. Se achar que pode perder deixar Rio em Belém será o mais provável. Quanto a Marcelo esta carapuça do catavento vai demorar a sair-lhe da pele de comentador. Quanto ao resto que poderia ser quase tudo é uma espécie de tragédia de alguém que ficou cativo de si mesmo.
Dúvida
Ao ler artigos como aqueles que agora evocam Ary dos Santos fico sem perceber se quem os escreve escreve assim por preconceito ou por ignorância.
Hoje há paixão, amanhã também mas é outra
Durante exactamente 4 anos, desde a aprovação do casamento de pessoas do mesmo sexo até ontem, não havia nos média e na blogosfera a urgência que hoje há em resolver o problema das crianças formalmente não co-adoptáveis pela aprovação da dita lei.
Este súbito tsunami emocional, que inevitavelmente será recordado como a T-shirt da semana, desgastado pela típica paixão lusitana que se inflama como trifluoreto de cloro de forma explosiva e – zás – já se foi, dará lugar a novo luto por outra Amália.
É um bocado escusado as pessoas zangarem-se por questões que ainda há duas semanas não lhes passavam pelo pensamento mas – que fazer? – é assim o português: um querido, emocionalmente envolvido, brutamontes-que-isto-resolve-se-e-é-já e quem não salta não é filho de boa gente. É o mesmo português que rebenta com as contas, inventa narrativas, culpa os outros e, chegando a casa, ainda abre a garrafa de vinho com que brinda a esperteza que conta usar para não pagar a prestação da casa; mas não se preocupem, é só conversa: ele paga a prestação da casa.
Não há melhor povo no mundo. It was the best of times, it was the worst of times.
Em França o dia começa tarde!
Para lá do fascinante caso de nós somos tão mas tão progressistas que não queremos saber de casamentos para nada – se formos heterossexuais porque se formos homossexuais não pensamos noutra coisa! – e depois acabamos a fazer disso uma questão de Estado (a culpa era do protocolo indiano não era?) e a criar problemas ao Estado (Valérie Trierweiler, com quem Hollande também não casou, mas que, no entanto, era até há pouco sua companheira, era, por isso, primeira dama? E ainda é companheira, embora traída? Ou já não é primeira dama? E deixa de ser primeira dama pela traição amorosa de Hollande, automaticamente? Ou só quando Hollande disser? Ou logo que Trierweiler o diga?) mas enfim para lá destes assuntos já de si fascinantes o que me tira do sério é esta informação dada por Sébastien Valiela, o fotógrafo que vendeu as fotos de Hollande à Closer: Hollande llegaba a las 23.00 horas de la noche y se iba a las 11.00 horas de la mañana del día siguiente. Portanto às 11h lá ia para o Eliseu. Não ’tá mal. Imaginem que o protagonista era outro. Ou que era uma mulher. Enfim la Liberté, Egalité, Fraternité quando nasce não nasce igual para todos.
Disciplina de voto é consequência da lei eleitoral
No dia em que Sócrates levou o 4º PEC a votação, era suposto todos os deputados socialistas votarem em conformidade? Era.
No sistema eleitoral, com listas de deputados elaboradas pelas direcções partidárias, a disciplina de voto é um mal necessário. A fidelidade dos deputados é naturalmente dirigida para quem os colocou na lista, não necessariamente para os eleitores que (normalmente sem saberem) os elegem.
Só através da escolha popular de deputados a serem incluídos nas listas poderá ser exigido que a sua representatividade seja reflexo dos eleitores que efectivamente os escolhem.
Agora que estamos na fase da discussão dos modelos de família em que as crianças sorriem, sorriem confirmando nos seus sorrisos as certezas dos adultos – Não, não faço link para as imagens porque agora o que temos são fotografias e filmes de crianças reais e não ilustrações – e os jornalistas fazem reportagens sobre o amor recordemos outras propagandas em que descontado o enquadramento da época as certezas eram similares e as crianças estavam lá para as confirmar:
Let’s raise the generation utterly devoted to the cause of communism!
A saber
Referendos que a esquerda acredita ganhar são bons. Referendos que a esquerda teme perder são maus.
As pessoas que defendem os referendos bons são pessoas muito inteligentes. As pessoas que defendem os referendos maus são muito estúpidas.
E assim sucessivamente até que os maus e estúpidos se conformem com a sua condição e deixem de pensar que têm algo a dizer.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito da Constituição
Alguém consegue explicar porque precisam N pessoas livres da benção estatal para assinarem um contrato de partilha de poderes paternais?
estar quieto
E o que deve o legislador fazer quando não sabe o que a sociedade quer sobre os seus valores fundamentais?
Mais cedo ou mais tarde, a resposta ser-lhe-á dada.
não será um referendo a dar-lhes resposta
A família é, porventura, a instituição social de natureza privada, por excelência.
Por definição, aquilo que é de índole privada não deve estar sujeito a referendo público, mas somente à vontade das partes envolvidas.
O vínculo histórico e tradicional de início de constituição da família é o casamento.
Até há bem pouco tempo, o casamento era um contrato celebrado por duas pessoas de sexo oposto, que tinha diversos fins, entre eles a constituição de família e a procriação. A adopção, também.
A partir do momento em que a lei portuguesa passou a admitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a natureza desse vínculo jurídico mudou profundamente. As repercussões sociais dessa transformação serão inevitáveis e profundas.
Ao tempo, houve quem chamasse a atenção para o facto de que o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo género sexual sob a forma de casamento abriria, inevitavelmente, a porta para a aquisição de todos os direitos inerentes a esse tipo de vínculo. A adopção, também.
Quem na altura defendeu que esse contrato, embora devesse atribuir às partes firmantes os mesmos direitos para si constituídos pelo vínculo do casamento, não deveria ser um contrato de casamento tal e qual o descreve a lei civil, tinha em mente preservar a liberdade de todas as pessoas para contraírem vínculos familiares para si mesmos, independentemente das suas opções sexuais, mas considerava também que era necessário pensar nos efeitos que a plena igualdade jurídica dessas situações criaria perante terceiros. A adopção de crianças, principalmente.
Na verdade, até à questão da adopção, a discussão do vínculo jurídico de casamento entre duas pessoas do mesmo género dizia respeito quase somente à liberdade individual de ambos. Após a introdução da questão da adopção, passa também a dizer respeito à vida das crianças adoptadas.
Dito de outro modo, a celebração de um vínculo jurídico que firme a união entre duas pessoas afecta o direito de ambas disporem sobre si próprias. Ao passo que a adopção de uma criança não pode ser entendida como um direito do casal adoptante, porque dispõe sobre um terceiro, mas uma expectativa de vida da criança adoptada que o casal realiza.
Sobre isto, há quem entenda que a educação de um menor só será plenamente realizada numa família tradicional, isto é, onde exista um pai e uma mãe, porque só nela se poderão transmitir os valores essenciais à sua formação moral, que condicionará as suas escolhas futuras, enquanto que uma criança educada num lar formado por duas pessoas do mesmo género sexual terá a sua formação e futuras opções de vida condicionadas por esse facto.
Pelo contrário, há quem defenda que o essencial na educação de uma criança é a transmissão de amor, de carinho e de valores de carácter que podem ser transmitidos fora do casamento até agora considerado tradicional. E mais: que o número elevado de crianças sem lares de adopção deve forçar esta possibilidade. Trata-se, este último, de um argumento utilitarista, mas nem por isso deverá ser desmerecido.
No fim de contas, a solução hoje encontrada na Assembleia da República é, de longe, a pior de todas: considera, por falta de coragem política, somente a co-adopção e não ainda a adopção plena (embora seja uma evidente porta de abertura para lá se chegar), como se vai colocar a referendo público uma questão que não deverá ser objecto de discussão politicamente enviesada, como inevitavelmente sucederá.
No fim de contas, há duas perguntas a merecerem resposta: como é que a sociedade portuguesa do nosso tempo valora a família e quem tem legitimidade para responder a essa questão?
Não será certamente um referendo a dar-lhes resposta.
Ainda não se arrependeu?
António José Seguro está a debitar na AR os tempos de espera nas urgências hospitalares. O exercício vale o que vale e pode ser feito por qualquer figura da oposição a qualquer governo sobretudo durante um surto gripal. O que é interessante é que António José Seguro podia estar a discutir eleições, eleições que provavelmente ainda ganharia.
A ler/ver
É desta que o Ricardo Araújo Pereira deixa de me falar por Alberto Gonçalves
A cultura de direita em Portugal por António Araújo
Militância ou teatro
Em dia de votação para um referendo, falar-se-á do amor. O argumento mais utilizado será a capacidade de sicrano e beltrano para amarem. Nos outros dias só se fala na capacidade de sicrano e beltrano para odiarem mas, hoje, o que parece estar em causa pelos militantes é a capacidade inata de pessoas não especificadas se amarem.
Não me apetece ter opinião sobre o amor na terceira pessoa. Tal como no casamento gay, os média estarão cheios de heterossexuais militantes da causa alheia. Não seria possível ouvir os que efectivamente se consideram prejudicados? É que, se é mesmo de amor que se trata, as melhores histórias são as contadas pelos próprios protagonistas.
Seja como for, em caso de referendo, a única hipótese da vitória do “sim” será através das histórias reais em nome próprio de pessoas reais. A ideia abstracta não interessa nem é suposto interessar a quem não se sente prejudicado.
Novas PPP
A seguir com atenção as novas PPP. Teixeira Duarte ganhou um concurso de 3,5 mil milhões de euros para fazer uma auto-estrada na Venezuela. A Venezuela não tem qualquer possibilidade de pagar esta verba, por isso alguém terá que assumir a responsabilidade pelo dinheiro. O mesmo para os asfalteiros que agora parece que vão ser feitos pela Martifer. Era bom que ficasse claro que compromissos é que o Estado português anda a assumir nestes negócios.
Projecto Troika
Há um “projecto troika” que, de acordo com os artistas, pretende traçar um “trajecto em Portugal”. Considerando que “fomos ‘invadidos’ por um grupo de homens que, a mando da regulação e regulamentação, a par dos governantes por nós eleitos, vai introduzindo medidas ‘imprescindíveis’ para a nossa salvação”, afirmam que “desde 2008 que a sociedade portuguesa é assaltada por ameaças de colapso: económico, primeiro, mas consequentemente de toda a estrutura social”.
Com uma série de fotografias e um vídeo, querem “mostrar as consequências e resultados na sociedade portuguesa das intervenções impostas a todos nós”. Uma das fotografias (ver foto não censurada), de Adriano Miranda, “fotojornalista no jornal Público”, revela perfeitamente a forma com que os portugueses vêem o ajustamento e pode ser traduzida por “prefiro que me tirem a roupa a tirarem-me o Mercedes”.
Quem quiser contribuir, pode, através de caridadezinha.
Já agora, à matrícula do veículo corresponde um seguro Açoreana, do grupo Banif, iniciado a 1 de Agosto de 2013, porque isto, pá, isto não se aguenta.
Nota: apresento uma versão da foto censurada para que eventuais partilhas no Facebook deste artigo não acarretem problemas pela política de proibição de nudez nesta rede social.
Nostradamus doméstico
Segundo o DN «Em declarações aos jornalistas, à saída de uma sessão evocativa sobre o ensino técnico-profissional em Moçambique, que hoje se realizou no instituto Camões, Mário Soares ficou a saber que hoje vai ser debatida, na Assembleia da República, uma petição da iniciativa de um conjunto de cidadãos que se solidariza com uma carta aberta ao Governo por ele subscrita em 2012. “Isso já foi há muito tempo”, disse, sublinhando, porém: “Eu não costumo mudar de opiniões.” Questionado em concreto sobre se continua a pedir a demissão do Governo, repetiu: “Não mudo de opinião quanto a isso. Eu sou dos que não mudam de opinião.”» Sendo já de si misterioso o que terá Mário Soares a ver com o ensino técnico-profissional em Moçambique (já agora em que época?) mais misterioso ainda que nenhum jornalista o tenha interrogado sobre as suas profecias de ontem sobre a desintegração da Terra. Afinal não é todos os dias que um dirigente de um país escolarizado, seja no técnico-profissional ou noutro sistema, anuncia a desintegração da Terra ainda para mais ” num universo totalmente desconhecido” e “no máximo dentro de cinquenta anos”.
Embora assim à partida eu na minha enorme ignorância não consiga distinguir a diferença para os habitantes do planeta Terra deste se desintegrar num universo conhecido em vez de ser num totalmente desconhecido como afiança o dr. Soares que acontecerá estou em crer que alguma informação específica terá o dr. Soares sobre essa assinalável diferença entre desintegrarmo-nos em universos conhecidos – devem ser os frequentados por socialistas – versus os totalmente desconhecidos que certamente devem ser povoados por partículas neo-liberais. Mas mais misteriosa é conclusão do dr. Soares sobre as consequências dessa desintegração que terá lugar “no máximo dentro de cinquenta anos”: “a probabilidade da desintegração da Terra, num universo totalmente desconhecido, no máximo dentro de cinquenta anos, com as terríveis consequências que daí advirão, poderá ser fatal” Aqui é que me perdi de vez: o que poderá não ser fatal do ponto de vista humano numa desintegração da Terra?
Alegando
Estudante de escola de Braga que morreu tinha outros problemas além do alegado bullying– PÚBLICO. Insondáveis são os caminhos que levam os jornalistas a escrever o termo alegado. Porque há-de neste caso o bullying ser alegado e os outros problemas um dado adquirido?
Feios, recos e maus

Pink Floyd – Animals (1977)
“Hey you Whitehouse, ha ha, charade you are”
Mais cedo ou mais tarde teria que surgir uma nova polémica com porcos. Depois do pânico de se ficar socialista ao ingerir carne bovina com doença de Creutzfeldt-Jakob, surge a nacionalização da bonomia fraudulenta selectiva com recos vítimas de infanticídio.
Se cobraram mais do que o devido no restaurante, isso é irrelevante. O que é relevante é a disponibilidade dos progressistas para apoiarem essa forma de castigo, que consideram ser o ladrão que rouba ladrão. Aproveitando esse ímpeto, devemos considerar a hipótese de assaltar funcionários assalariados do estado cujas funções executadas não consideramos justificarem salário. Por exemplo, os ainda existentes horários-zero na escola pública. Se ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão, ladrão que rouba estadão terá mais cêntimos de pensão.
um insulto desnecessário
O Aventar, um dos blogues neo-esquerdistas mais lidos em Portugal, acaba de publicar um post no qual qualifica o Instituto Mises Brasil, o mais influente e activo think tank liberal lusófono, como “o núcleo central do chamado neoliberalismo em português”. Caramba, apesar das dissensões culturais e ideológicas serem propensas à radicalização discursiva, não havia necessidade de atacar de forma tão baixa. Há limites para tudo!
o que a direita e o cds devem a paulo portas
Agora que terminou o congresso do CDS e se começa a falar, entre membros do partido e na comunicação social, na sucessão de Paulo Portas e na existência de duas oposições, uma declarada e outra silenciosa, à sua liderança, é conveniente tratar do tema com alguma cautela, para se não cair no ridículo. Dito de outro modo, o CDS e a direita devem esforçar-se por perceber o que são e quem é Paulo Portas e o que lhe devem, independentemente de gostarem muito, pouco ou nada dele.
E Paulo Portas foi o único verdadeiro líder que a direita teve nos quarenta anos que já leva o regime democrático, e quem verdadeiramente fundou o único partido que declaradamente lhe pertence. Entendamo-nos: os fundadores do primeiro CDS não foram Freitas do Amaral nem Adelino Amaro da Costa, mas, como pode ler-se no primeiro volume das memórias de Freitas do Amaral, a ala esquerdista do MFA, que precisava de um partido de “direita ordeira” e, sobretudo, indiferente ao destino do Ultramar, para credibilizar internacionalmente o novo regime e concretizar os objetivos de descolonização imediata das antigas colónias. A caminho da reunião agendada com os militares, conta Freitas do Amaral, ele e Adelino Amaro da Costa não sabiam ao que iam. Chegaram mesmo a pensar que seriam presos. Pedir-lhes que fundassem um partido é que não lhes passava pela cabeça. Quando Amaro da Costa, que ainda imprimiu ao partido algum dinamismo e coerência, faleceu, o CDS desapareceu pelo ralo do regime, e todos, ou quase todos, os seus “fundadores” abandonaram a política ou foram a correr para o PS, com o qual claramente se identificavam. A experiência da liderança de Lucas Pires foi um fogo-fátuo inconsequente. Apesar das suas notáveis qualidades intelectuais e tribunícias, Lucas Pires não era um líder partidário e iniciara já, por essa altura, um caminho de afastamento muito crítico em relação à direita.
Foi, assim, Paulo Portas quem refundou a direita do regime, ou, se preferirem, quem verdadeiramente a criou. Primeiro, lançando um jornal político de excelência – O Independente – que trouxe ao país um conjunto de novas ideias de fácil manejamento e divulgação (as dúvidas sobre o europeísmo, a defesa de princípios conservadores, a apologia da economia de mercado, etc.), um sem número de opinion makers de grande nível e um grupo de colaboradores com os quais ele futuramente municiaria as estruturas dirigentes do CDS. Depois, tomando conta de um partido deixado moribundo por Freitas do Amaral, fazendo-o, numa fase inicial de transição, pela interposta pessoa de Manuel Monteiro, que nunca percebeu o seu papel verdadeiro em todo este filme
Passando por inúmeros episódios em que a sua morte política foi certificada, por sondagens que lhe chegaram a dar, a poucos meses de eleições, menos do que 2% das intenções de voto, Paulo Portas levou o CDS duas vezes para o governo, onde ainda permanece e do qual dificilmente sairá nos próximos anos. Conquistou posições em todo o aparelho do regime, nas autarquias e em todos os centros de poder nacional. Em termos eleitorais, o que tem valido ao partido é a sua cara. Na verdade, o CDS não tem outro discurso que não seja o seu, nem ninguém que o protagonize. A ilusão que o Dr.Ribeiro e Castro acalentou, durante alguns meses, de fazer voltar o CDS às suas origens genuínas da democracia-cristã e do freitismo era uma impossibilidade material: essas origens nunca existiram.
Por conseguinte, goste-se ou não do que é o CDS, a verdade é que, em quarenta anos de regime democrático, a direita portuguesa foi incapaz de fazer melhor. E o que existe tem um autor: Paulo Portas. Enquanto ele desejar, será ele o dono do partido e da direita portuguesa. E ele não sabe fazer outra coisa senão isso.
O frenesi das tricoteuses
Ganhámos! Somos o melhor jogador do mundo!
A alegria dos portugueses pela Bola de Ouro de Cristiano Ronaldo, a julgar pelos telejornais, é imensa. Afirmações como “os portugueses choraram com Ronaldo” demonstram a mutualização expectável do galardão com toda a república, isto em consonância com o dito “quando ganha um português ganham logo dois ou três”.
Tal como a dívida da Madeira, que os do continente assumem como sua numa verdadeira união monetária, este é o galardão de todos.
Questionado acerca da importância do prémio para Portugal, Ronaldo afirmou que em Portugal já deixou a sua marca, ambiciona sim deixá-la no mundo. De acordo com o filósofo Miguel Real no Prós e Contras de ontem, está será uma atitude hedonista de Ronaldo; a competitividade desenfreada, diz o autor, leva à destruição criativa da sociedade com uns contra os outros num crescimento gigantesco e não sustentável da destruição da dignidade humana. Por isso é preciso explicar a Cristiano Ronaldo que ele não venceu qualquer prémio, quem venceu foi o português; e, quem não chora com Ronaldo, é porque é cubano.
Só para homens
a sucessão no cds
Paulo Portas pertence àquela rara categoria de homens públicos que gosta de prover a sua sucessão durante a vida activa, para evitar o “depois de mim o dilúvio”, como muitos outros preferem fazer. Nesta categoria de líderes abnegados e desinteressados do poder encontramos exemplos lapidares, como António de Oliveira Salazar, que sempre manteve no bolso do casaco um bilhete de comboio para regressar ao remanso do lar em Santa Comba Dão, Álvaro Cunhal, que se manteve no seu posto como um simples funcionário do partido enquanto, e só enquanto, o colectivo assim o quis, e Mário Soares e Aníbal Cavaco Silva, que abandonaram os seus postos pelo próprio pé e nunca interferiram na gestão dos seus antigos partidos. Paulo Portas pertence a este escol de políticos que vivem bem sem a política, pelo que é mais do que natural que esteja a pensar na sua sucessão como líder do CDS. A última vez que isso aconteceu, o feliz contemplado na linha sucessória foi José Ribeiro e Castro, que, por alguma razão ainda hoje ignorada, permaneceu por pouco tempo no posto. O Dr. Nuno Melo, se quiser manter a serenidade de espírito, que se deixe manter por Bruxelas, cargo para onde o (ainda) líder do CDS o enviou há uns anos, e ao qual ele certamente se candidatará em próximas eleições, enquanto o CDS tiver eleitorado para o eleger. Se, entretanto, o deixar de ter, também não vem para cá fazer nada.
ninfomaníaca
N’ O Insurgente.
um destroçador de corações
Este Monsieur Hollande, verdadeiro macho latino das gálias, que, não fosse o cargo que ocupa não lhe dar tempo para nada, mudaria de namorada todos os dias como quem troca de camisa. Assim, coitado, vê-se na contingência de ser obrigado a gastar os seus imensos talentos masculinos no velho clichê “a legítima em casa, a outra no escritório”, como tem sido noticiado ultimamente, embora com algumas variantes sobre a versão original: nem a “legítima” tem estado por casa, nos últimos dias, mas mais pelo hospital, ao passo que da “outra” só em sentido figurado se poderá dizer que trabalha no Eliseu. De todo o modo, o que interessa retirar desta vulgar estória de costumes é a lição de moral política que ela encerra: num país que proclamou o célebre tríptico da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, onde as figuras públicas podem ter a sua vida privada estampada na comunicação social, o socialista François Hollande conseguiu proibir a divulgação de notícias sobre o seu affaire amoroso. Como dizia o outro, somos, sem dúvida, todos iguais. Mas uns bem mais iguais do que os outros.
Mas que coisa maravilhosa!!!
A entrevista do DN à embaixadora de Cuba em Lisboa é uma peça de antologia. Qualquer embaixador, ministro, empresário… devia ser entrevistado assim.Uma coisa tocante. A senhora embaixadora explica como é que o presidente dos EUA pode ou não intervir na “proibição de os cubanos [que vivem nos EUA] visitarem a ilha.“ ( Coitadinhos dos cubanos que vivem nos EUA e têm limitações nas visitas à terra donde a maioria fugiu!) E, pelo menos na edição on line nem uma linha, nem uma pergunta sobre os cubanos que vivem em Cuba e coitados não podem visitar nem ilhas, nem penínsulas, nem arquipélagos, nem istmos, nem continentes, nem ilhéus… além daquela terra governada por uma clique gerôntica que goza de uma bela imprensa.
Não fosse a senhora embaixadora colocar as coisas em seu devido nível – “Os EUA negoceiam com os talibãs, com países que têm arma nuclear, com terroristas. Mas não se sentam a negociar com Cuba“ – e até pareceria que os dirigentes cubanos são assim uma espécie de líderes suecos perseguidos pela intolerância dos EUA.
Por fim acho sempre tocante as críticas ao embargo norte-americano pois até mais ver são a defesa mais entusiástica do capitalismo que conheço já que atribuir ao embargo norte-americano a responsabilidade pela pobreza em Cuba – coisa ainda mais interessante se se tiver em conta que o regime cubano se construiu numa retórica anti-americana com a consequente nacionalização dos bens e companhias dos norte-americanos naquele país – é um reconhecimento da derrota de todas as quimeras socialistas.
A Terra move-se
Para lá do enredo em torno de Hollande e da sua “companheira oficial de”, “mulher de”, “primeira-dama”, “companheira” – na hora das crises a alegada informalidade das relações desaparece automaticamente – a França vive momentos fantásticos. Por um lado temos um maire às voltas com uma imagem da Virgem num caso cujos contornos ultrapassam o guião de Dom Camillo versus Peppone e por outro a seguir com mto interesse é esta notícia sobre o gás de xisto. Depois duma fase e que a exploração deste gás foi proibida em França por Hollande e o próprio Conselho Constitucional reforçou essa proibição donde a exploração desse gás ser inconstitucional em França algo começa mudar: para já os gigantes franceses ganham terreno no estrangeiro mas é provável que dentro em breve algo mude em França.
um equívoco irreparável
Pedro Passos Coelho foi recebido ontem, no começo da tarde, “de forma gélida” no Congresso do CDS, noticia o Expresso. Esta reacção dos congressistas só pode, contudo, ter sido fruto de algum equívoco, supondo-se, por exemplo, que entrara no recinto Seguro e não Passos, erro provocado, quem sabe, por alguns excessos comemorativos cometidos durante o almoço. Caso esse lapso não tivesse sucedido e os senhores congressistas tivessem mesmo visto Passos Coelho entrar no congresso, o primeiro-ministro teria sido certamente aplaudido de pé, com entusiasmo e ruidosa ovação que se prolongaria por largos minutos. Na verdade, eles só ali estão graças a ele, que conseguiu que o CDS sobrevivesse, em Julho, a uma crise desonrosa, que provavelmente lhe teria seria fatal.
Espaço para contrição de comentadores e outros devotos
O Bem dogmatizou que não tinha aulas ao Sábado de tarde em Julho de 1966.
Serve este espaço para comentadores e restantes devotos se redimirem do pecado de tentarem passar inverdades acerca do Bem, justificando a plausibilidade não sancionada pelo dogma. Podem começar.
Mais complicado que ir à escola num sábado à tarde, num mês de Julho
Se bem percebi Portas justifica a sua demissão no passado mês de Julho como uma espécie de manobra táctica integrada numa estratégia que lhe permitiria reequilibrar os poderes dentro do governo e levar este a entrar numa “nova fase”. A explicação funcionaria caso ele não tivesse escrito aquela palavrinha “irrevogável” que lhe estraga a narrativa desta crise em que ora faz de Maquiavel ora de Egas Moniz. As narrativas a posteriori têm destas coisas como bem se sabe em Portugal – Sócrates é um protagonista recorrente desse género de ficção embora no último caso talvez não tenha ficcionado tanto quanto possa parecer pois não é de todo improvável que, na província, se usasse nas férias o campo de jogos sobretudo numa escola particular como parece que era a que Sócrates frequentava. Já quanto a Portas a explicação “do que teve que ser” funciona para enquadrar o fim da crise mas não o seu início. E sobretudo tendo em conta o que custou aquela crise ao bolso dos portugueses a explicação por mais sofisticada que seja é de uma tremenda leviandade social e nacional.
Escolaridade inconstitucional
Obrigar indivíduos de 16 anos a frequentarem a escola até obterem o 12º ano ou os 18 anos que permitam – finalmente – usufruir do seu direito constitucional ao trabalho é uma violação do princípio da confiança, nomeadamente a confiança em que alunos do secundário estão na escola porque querem aprender.
Nota: é perfeitamente natural que este post seja criticado pelas pessoas que dependem da imposição estatal para assegurar as suas profissões lectivas (vulgo “rendeiros”). Essa crítica é natural e pode ser compreendida pela insegurança decorrente do trabalho prestado ser insuficiente para manter alunos.
Ditador? Não!
Num artigo que relata a última aparição de Fidel o DN usa os termos “o ex-líder cubano”, “o antigo comandante”, “o líder histórico da Revolução”, “o líder cubano”. Ditador é que não! Isso fica para outros. Num pormenor tocante o DN ainda afiança que “É visível como os cubanos aplaudiram a chegada de Fidel ao “Laboratório para a arte”, no bairro de Romerillo, próximo da casa do ex-líder cubano. ” Não duvidando eu da verdade do que foi escrito e descrito não posso deixar de comparar a forma como se escreve sobre Fidel com os termos reservados no mesmo periódico a outros líderes.
só faltou o júnior
A família socialista esteve ontem reunida em torno do seu patriarca, o Dr. Mário Soares, por ocasião da entrega do prémio Personalidade do Ano de 2013, que lhe foi justamente atribuído pela Associação de Imprensa Estrangeira. Estiveram presentes António Costa, José Sócrates, Ferro Rodrigues, Almeida Santos, João Galamba, Sérgio Sousa Pinto, Paulo Campos, Marcos Perestrello, entre outros. Verdadeiramente, a crème de la crème socialista. A nata do Rato. A elite da oposição democrática. O patriarca, do alto da sua longevidade, lucidez, grandeza histórica e magnanimidade democrática deve ter-se sentido profundamente orgulhoso com tamanha homenagem. É que estavam lá todos. Não faltou ninguém. Pelo menos, ninguém que lhes fizesse falta.
À escuta
Como percebem aqueles que por aqui vão passando a minha vida profissional leva-me a vários arquivos. Nos últimos anos o recurso aos arquivos de imagem e às hemerotecas tem servido de base a séries de televisão, livros, documentários… Menos trabalhados os arquivos rádio têm potencialidades interessantíssimas. Ao longo deste ano a Antena 1 vai ter no ar um programa no qual colaboro que tem por base e pretexto os sons do seu arquivo num período que vai de 1973 a 1976. Chama-se Sons de Abril. No mundo dos sons cabe quase tudo. Um dos sons daquele arquivo que mais me surprendeu até agora é esta conversa entre os serviços de censura


