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A utopia do eduquês * (com adenda)

7 Abril, 2008
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No último ‘Prós e Contras’ alguém definiu a Escola que temos como “a grande utopia”. A receita é sempre a mesma – os nossos impostos devem pagar as quimeras de alguns iluminados. E tanto pior para a realidade. A prédica inseria-se num mar de ‘eduquês’, expressão achada por Marçal Grilo para designar a linguagem indecifrável de alguns teóricos e que se difundiu como símbolo da versão romântica da Escola Moderna – uma série desconcertante de chavões do tipo “aprendizagem ao ritmo dos alunos” ou “ensinar a criança e não a matéria” que redundaram no facilitismo reinante e na crise actual da escola pública.

É urgente regressar à lógica de que aprender implica um certo grau de sacrifício. O aluno tem de interiorizar que o seu esforço compensa e que os resultados não são ‘tanto faz’. Para que a Escola prepare para a vida terá de deixar de ser uma versão mascarada daquilo que a vida é: ultrapassar obstáculos, motivar o aluno para que se supere a si mesmo, é a maior lição que a Escola pode transmitir.

Hoje muitos suspeitam do sistema público e só lhe confiam os seus filhos porque não têm meios para os colocarem noutros lugares. O Estado ensina mal e não permite que as famílias possam optar (cheque-educação). Com o nível tão alto de impostos que pagamos, o Estado deveria proporcionar a escolha de um bom serviço de educação. Diogo Feio, do CDS-PP, apresentou um projecto de lei sobre autonomia escolar – é um bom princípio mas que não pode ficar por aqui.

* HERESIAS, Correio da Manhã, 6.IV.2008

ADENDA: para confrontar com a realidade norte-americana, neste plano com poucos elementos comuns com a escola pública portuguesa (excepto no entusiasmo com a ‘utopia do eduquês’), ler “ What If Public Schools Were Abolished?“, de Llewellyn H. Rockwell, Jr., no Mises Institute.

22 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    7 Abril, 2008 13:43

    Querem o eduques, mas o eduques no privado.

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  2. Anónimo permalink
    7 Abril, 2008 13:44

    Aliás os pais colocam os filhos no ensino privado porque o eduques lá é melhor. É mais fácil.

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  3. Frei João permalink
    7 Abril, 2008 14:08

    O eduquês nos colégios privados não faz mal…
    aí é moderno, é progresso, é futuro…
    na escola pública, sim é mau…

    * * *

    Quem me esclarece uma dúvida?

    O Estatuto do aluno (publicado em Diário da República) não se aplica ao ensino privado?

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  4. 7 Abril, 2008 14:09

    CAA:

    Desta súbita (e louvável!) descoberta da Escola por parte da comunicação social e de algumas correntes políticas, está a surgir uma nova corrente do “eduquês”. Desta vez, mais do que por uma linguagem hermética, carcateriza-se por uma realidade virtual. Repare: se a escolaridade é obrigatória e o chamado Ensino Básico é único para todos os jovens portugueses, como querem organizar um percurso de aprendizagem em simples penalizações? Como se pretende obrigar que um conjunto de aprendizagens sejam conseguidas, no mesmo período de tempo, por crianças diferentes e com condições diferentes? Que vantagens existem no simples facto de se poder escolher entre público e privado, quando as escolas privadas só conseguem melhores resultados quando excluem os alunos-problema (entenda-se: os que à partida revelam ter limitações que dificultem a sua evolução)? Ou será que se quer acabar com a escolaridade obrigatória?

    Depois, como quer que alguns alunos interiorizem “que o seu esforço compensa e que os resultados não são ‘tanto faz’”, quando eles sabem (ou a família se encarrega de lhes dizer)que não há resposta, por parte da Economia, que garanta essa relação “escolaridade-bom emprego”?

    O que falha no sistema educativo português é o facto de ter pretendido chegar aos resultados dos modelos europeus, sem criar as mesmas condições. Coisas que alguma comunicação social tem apresentado como um bicho de sete cabeças (definição de objectivos por ciclo de estudos e não por ano, por exemplo), não só não são invenções do “eduquês”, como existem desde há muito em vários países da Europa. A diferença é que lá (nesses países) não se entende como pupança legítima eliminar a possibilidade de organizar apoios para os alunos com mais dificuldades. Sobretudo, não há a contradição de se promover a escolarização da população e as empresas privilegiarem a contratação de mão-de-obra barata.

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  5. johnes permalink
    7 Abril, 2008 14:22

    Falavam aí de jogo, futebol?

    E vocês, acaso, viram isto? Onde? Como? Quem jogou?

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  6. 7 Abril, 2008 14:32

    PAra ajudar, temos um PGR que diz que a escola pública é uma espécie de Beirute, mas mais violenta…

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  7. 7 Abril, 2008 14:52

    Zé Bonito,

    «O que falha no sistema educativo português é o facto de ter pretendido chegar aos resultados dos modelos europeus, sem criar as mesmas condições.»

    É verdade. Mas há mais.

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  8. Nelson Gon\c calves permalink
    7 Abril, 2008 15:09

    CAA,

    O artigo que menciona na adenda peca por um optimismo a resvalar para a fé no sistema privado. Fala em duas fases temporais após o fim do financiamento público das escolas, a primeira catastŕofica e a segunda um mar de oportunidades e de felicidade para a população em geral.

    Note-se, eu sou a favor do cheque-ensino. Só considero o artigo um bocado fantasioso.

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  9. 7 Abril, 2008 15:17

    Nelson Gonçalves,

    «Note-se, eu sou a favor do cheque-ensino. Só considero o artigo um bocado fantasioso.»

    Concordo consigo. Recomendei o artigo para dar uma perspectiva libertária baseada numa realidade diferente.

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  10. Lololinhazinha permalink
    7 Abril, 2008 15:24

    CAA,

    Os colégios privados, os bons, aqueles que funcionam e são reconhecidos pela sua eficiência jamais estariam minimamente interessados em receber alunos vindos do “cheque ensino”. Estão cheios com os filhos daqueles que estão dispostos a pagar. E tendo que escolher, vão escolher continuar a receber esse tipo de alunos.
    Comos os bons colégios privados são um bem escasso, essa conversa do cheque ensino é um mito absoluto.
    Quando muito, iria fazer com que uma série de pessoas criassem simulacros de escolas para receber os tais cheques e fazer de conta que ensinam.
    Nessa conversa do cheque ensino parece que ainda ninguém reparou que para que isso fosse viável seria necessário que existissem uma série de colégios privados funcionais vazios à espera que lhes enviassem os meninos. Ora, como isso não existe, o que é que se fazia ao cheque?

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  11. Espada permalink
    7 Abril, 2008 15:25

    A malta quer é increver-se perante um “agente oficial Pinto de Sousa”, contribuinte das estatísticas do PS, escolher entre Asus e Toshiba, receber a máquina e ir para casa. Não interessa para nada se há aulas ou não. Nós queremos é Portugal. Eles querem é números, e quem vier a seguir que pague a factura, porque alguém a vai pagar, e os primeiros vão ser os emigrantes, quando a UE começar a perceber a qualidade das equivalências e der o corte.

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  12. 7 Abril, 2008 15:53

    A única coisa que aproveitei, do que foi dito nesses P&C, foi dito pelo CEO da yDreams: “Em Portugal criamos empregados e não criamos exploradores.” Parece-me que em última análise reside aqui a única hipótese de resolver verdadeiramente o problema na próxima geração.

    O único professor/criador de “exploradores” que conheci no meu percurso ao longo dos 18 anos que estudei, foi no 11º ano em informática. O senhor não deu manuais, tratou a turma como uma empresa, cada aluno podia recorrer a ele apenas em caso de dúvidas e ninguém podia tocar nos computadores sem ter uma ideia primeiro que apresentasse ao grupo. Autonomia, perseverança, criatividade e arranjar referências no éter foram algumas da capacidades que desenvolvemos, mas nem isso impediu que o professor abandonasse o ensino e voltasse à vida empresarial no ano seguinte por se fartar de aturar os pais que entendiam que ele tinha de ter um programa, um manual, despejar matéria para os filhos poderem decorar.

    E não foi na Escola da Ponte.. foi numa das escolas mais problemáticas dos arredores de Lisboa.

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  13. balde-de-cal permalink
    7 Abril, 2008 15:54

    do maio de 68 sobraram as pilulas antiaborto.
    quando é que esta canalha vai embora?
    os mafiosos das escolas ainda vão ter de usar as armas

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  14. 7 Abril, 2008 15:59

    “I’m too old for this shit”, como dizia a personagem de Danny Glover no Arma Motífera.
    A verdade, admitamo-lo, é que somos já uns dinossauros os que contra tudo ainda acreditam que, na escola, as notas devem corresponder ao que os alunos aprenderam e sabem. Nada disso: tal ideia ficará cada vez mais circunscrita às escolas privadas destinadas a formar as elites.
    Porque, no fundo, pretende-se liquidar qualquer hipótese de uma pessoa de classe baixa poder ascender socialmente por via da escola. Alguém duvida que, na escola pública de hoje, no meio de selvagens, com professores esgotados, humihados e tristes, um Cavaco Silva jamais chegaria onde chegou pelo seu esforço?
    A outra verdade é que este governo esmagou as poucas hipóteses que os professores ainda tinham de proteger a sociedade contra a imbecilidade dos políticos. Por exemplo, com um sistema de avaliação que se baseia, não nos resultados dos alunos, mas na sua evolução e na comparação da de cada professor com a do resto da escola (3?, 5 anos? para acabar com quaisquer “negativas?).
    O nosso tempo verdadeiramente já passou e todas estas discussões são completamente inúteis.

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  15. Lololinhazinha permalink
    7 Abril, 2008 16:00

    Não sei porque é que custa assim tanto admitir que um dos factores mais importantes para a crise do ensino público é a falta de qualidade profissional dos docentes.
    Afinal, basta perceber que no início dos anos noventa se entrava para os cursos ligados á área de letras (de onde vêm a maior parte dos professores)com médias de 11 e 12. Milhares de pessoas seguiram a via de ensino apenas porque eram os únicos cursos superiores onde as suas notas lhes permitiam entrar. O resultado evidente é que além de haver muitos professores que nunca tiveram a menor vontade ou vocação para ensinar, também existem muitos que não têm capacidade para o fazer.
    Claro que a crise não se resume a este facto mas é algo que não pode ser ignorado.

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  16. Lololinhazinha permalink
    7 Abril, 2008 16:15

    Caro Rui,

    Não há nenhum complôt social para afastar os desfavorecidos. O ensino público não é mau de propósito para garantir a continuidade de privilégios. O que acontece é que os colégios privados escolhem professores através de métodos de selecção eficientes, exigem-lhes trabalho e resultados. E aos alunos também lhes exigem que se esforcem. Até os paizinhos são mais exigentes pelo simples facto de estarem a pagar. Claro que o facto de terem a liberdade de correrem com os alunos problemáticos também evita uma série de fenómenos típicos das escolas públicas.
    Mas, por mais lamentável que seja -e é – é uma espécie de “lei a vida” que não se altera com cheques-ensino. Apesar de tudo, ainda há escolas públicas que funcionam bem. Aquelas em que os professores gostam do que fazem, são empenhados e contagiam os professores mais novos no sentido positivo.

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  17. Anónimo permalink
    7 Abril, 2008 18:01

    A Escola Pública que podia e deveria ser exclusiva, apenas deve garantir a igualdade de oportunidades a todos os alunos.
    Pretender que a Escola distribua, ao fim de certo tempo, diplomas ou certidões que atestam que, todos atingiram os mesmos objectivos, independentemente da inteligência, do interesse e esforço de cada um, é um princípio que ninguém defende para si.
    Quem defende esse princípio para os alunos em geral, não se dá conta da injustiça que pratica sobre os que se esforçam, para que, os documentos que lhes são passados correspondam efectivamente aos conhecimentos, com esforço,adquiridos.

    Permito-me apresentar um exemplo:
    O vinho e o vinagre são importates para exercer, cada qual, as suas funções.
    Se um produtor de vinhos a quem azedou uma pequena quantidade de vinho, em vez de o utilizar para excelentes temperos, pretender tranformá-lo, em vinho de qualidade, juntando-lhe sempre mais e mais vinho, nunca conseguirá que o vinagre se tranforme de novo em bom vinho, mas transformar, isso sim, todo o vinho em vinagre.
    Por mais ignorante que seja, nenhum produtor de vinhos arriscaria toda a colheita e mesmo, em caso de a possuir, a marca, só por não querer admitir que algum vinho lhe fugiu ao controlo de qualidade.
    O mesmo se podesse afirmar, de quem tem o dever de preservar a boa qualidade do Ensino e, por seu intermédio, dos cidadãos em sociodade.

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  18. Anónimo permalink
    7 Abril, 2008 20:15

    O post continua com aquela ideia errada, mas muito difundida, de que o ensino privado é melhor que o público.

    O que há é um número de colégios, que só aceitam os melhores alunos e têm, por isso, os melhores resultados.

    Expurgados os erros estatísticos, comparando apenas o que é comparável, em média, o ensino privado É PIOR que o público.
    Não continue a tentar tirar conclusões certas de premissas erradas…

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  19. MJP permalink
    7 Abril, 2008 20:30

    Longe vai o irrealismo…
    Primeiro, na escola pública não se desmotiva os alunos mostrando-lhes que é preciso esforço e muito menos que a vida é dificil. Alcançam-se notas para contar na família, entre amigos e vizinhos. Lá estão os pais a reivindicar sempre melhores notas para os seus rebentos porque ainda não perceberam que à medida que estas sobem por facilitismo também as dos filhos dos vizinhos sobem.
    Segundo, no particular não se compram notas, nem saber, mas estatuto. Esse estatuto, tão apreciado na sociedade portuguesa, que consiste em ser diferente da ralé, não por educação, nem por saber, nem por trabalho, mas por aquilo que se tem. O que os colégios oferecem, em termos de ensino, não é melhor que o público, é apenas dirigido a outros. Oferece, por outro lado, status e oportunidades de convívio com “quem interessa”. Não deixa de ser uma boa aposta no futuro dos filhos, sobretudo para quem não tem grande esperança neles.

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  20. 7 Abril, 2008 21:45

    Lololinhazinha:

    Ao contrário do que diz, nos anos 90 já existiam as Escolas Superiores de Educação (ESE), instituições em minha opinião muito discutiveis, mas que formam grande parte dos professores (sobretudo até ao final do 2º Ciclo). É muito duvidoso que aqueles que optam por ir para uma ESE não queiram ser professores.

    Sobre o que diz a respeito da selecção de professores do ensino privado, é necessário dizer a que ensino privado se refere. Àquela meia-dúzia de colégios de elite, ou a todos os outros? Convém saber que, valendo isso o que vale, a escola pior classificada nas avaliações externas é… um colégio privado.

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  21. 7 Abril, 2008 23:10

    Saibam que há diferentes tipos de colégios privados. A saber: Os que têm contrato total de associação; os que têm contrato parcial de associação e os que não têm qualquer tipo de apoio estatal. Nos primeiros os ensino é totamente gratuito, nos segundos é comparticipado pelos pais numa pequena parte e nos terceiros são os pais que suportam todas as despesas. Depois, cada uma das modalidades anteriores pode ter ou não autonomia pedagógica e administrativa, i. e., têm autonomia os que têm permissão para realizar exames, produzir instrumentos de avaliação e passar diplomas e os que não a têm são obrigados a levar os seua alunos fazer exames a outras escolas onde os processos dos alunos estão arquivados e onde podem ser passados os diplomas.

    Quanto à aplicabilidade do estatuto do aluno:
    Nos colégios onde os alunos não pagam ou apenas pagam uma pequena parte, o estatuto do aluno aplica-se exactamente da mesma maneira que nas escolas estatais e, ao contrário do que aí se diz por esses comentários fora, estes colégios NÃO PODEM recusar ou expulsar alunos, porque são obrigados à mesmíssima legislação aplicada ao ensino estatal. Se o fizerem, podem ver resolvido o seu contrato de associação.
    Os colégios totalmente financiados pelos pais são, obviamente, mais selectivos e não têm que se preocupar com aquelas tratas todas dos direitos sem deveres. No entanto, se tiverem autonomia administrativa e pedagógica, SÃO OBRIGADOS a cumprir a mesmíssima legislação das escolas estatais. E quase todos a têm.

    Há muitas diferenças entre estatal e privado, mas TODOS são escola pública. Acontece, por exemplo, que o custo por aluno numa escola privada gratuita é cerca de METADE do custo desse mesmo aluno numa escola estatal. Tudo porque ninguém sabe, nem pode, gerir eficientemente recursos humanos na escola estatal.

    Mas nisto a ministra não mexe! E era por aí que devia começar.

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