Saltar para o conteúdo

Sem Rumo

4 Setembro, 2009
by

O primeiro debate entre os líderes partidários, que colocou frente-e-frente Sócrates e Portas, foi uma evidente demonstração da impossibilidade de Portugal vir a ser alguma vez um país de primeira linha. Sócrates e Portas passaram metade do debate numa viva disputa para decidir quem deu mais a quem e quem quer dar mais a quem no futuro. Uma competição acesa pelo título de grande distribuidor.

Ambos parecem ignorar que a redistribuição de riqueza faz-se, em primeiro lugar, pelo emprego. É uma redistribuição automática e justa, em que não se tira a uns para dar a outros. O aumento do nível de vida dos detentores de piores salários faz-se pela pressão no lado da oferta no mercado de trabalho e será apenas essa pressão elevada que permitirá reduzir o desemprego a níveis residuais, algo que já aconteceu em Portugal durante muitos anos do final do século passado.

A pressão no lado da oferta está dependente do investimento. O investimento precisa de fundos disponíveis e de investidores confiantes. Os fundos são os lucros dos investimentos anteriores e as poupanças de todos nós. No entanto, toda a lógica económica parece ser demasiado complicada para estes dois. O que discutiram é quanto mais vão sacar à economia que ainda funciona para distribuir em apoios ditos sociais. Qual dos dois tem mais vontade de matar a galinha dos ovos de ouro. Um diz mata o outro esfola. Um gaba-se da cabidela, o outro da perna assada.

A única solução para gerir as contas do estado nesta cenário de saque permanente de recursos de uma parte da economia para oferecer a outra, é a fonte da sanha fiscal que, diga-se, ambos prosseguiriam para satisfazer as suas ambições de reizinhos da caridade com o dinheiro dos outros. E como se já não bastasse esta paranóia despesista e mal direccionada, temos um governo e um candidato a primeiro-ministro que está empenhadíssimo em endividar-nos a todos numa série de investimentos destrutivos.

Aqueles 7.000 milhões que vão ser agora subtraídos à economia para construir uma obra inútil como o TGV, nunca se transformarão em riqueza distribuível. Pelo contrário, vão consumir lucros de outros investimentos para suportar os seus próprios prejuízos. São o produto de uma ilusão post-keynesiana da obra pública cujo impacto positivo aparente dura só o período de construção. É notória a incapacidade de distinguir obras públicas essenciais e benéficas do disparate anunciado. A Auto-Estrada para o Algarve ou a A1 foram obras benéficas. Todos os anos, há milhões de pessoas e empresas beneficiadas por uma rede básica de estradas. A A1 ou a A2 pagam-se facilmente, quer pelo efeito das portagens, quer pelo benefício acumulado para a sociedade. Antes da A2, não havia melhor alternativa. O TGV para Madrid, pelo contrário, pretende substituir uma alternativa muito mais económica – o avião. E só poderá concorrer com o avião, transferindo riqueza da sociedade para os futuros, poucos, passageiros do TGV.

Se um insiste neste disparate, o outro também pensa que sabe como é que se faz: em vez muito dinheiro a poucos, quer dar pouco dinheiro a muitos. Quer exportar – ainda há quem imagine que só enriquecemos vendendo o produto do nosso trabalho para fora. Portas sabe sempre mais e melhor do que os mercados em que é que os empresários devem investir – e por isso está sempre disposto a tirar os lucros dos que têm sucesso para alimentar os mais incapazes.

O nosso futuro só pode estar em investimentos que gerem lucro. Esses, nunca é o estado a fazer nem a decidir. Mas para que esses investimentos apareçam, tem que haver confiança, justiça eficaz, alívio da pressão fiscal. Precisamos de menos estado e não de mais estado. Não precisamos do Sócrates que tira a todos para dar aos grandes nem de Portas que tira a metade para dar à outra metade.

Dos 5 partidos com expressão eleitoral, dois, são os tontos do costume, em luta por comunismos mitigados, em pleno no século XXI. O PS continua a demonstrar ser um partido estatista irreformável. Em 4 anos e meio, agravou as contas do estado, aumentou todos os impostos e disparou a dívida pública para valores inimagináveis. Foi uma gestão trágica, com a desculpa da crise, como se o PS não estivesse estado no poder em 11,5 dos últimos 14 anos e tivesse alguma vez, feito algo diferente. Tudo pelo estado, tudo para o estado. Impostos, impostos e mais impostos. O PS é o partido número um da sanha fiscal. Meias-verdades, mentiras inteiras e propaganda em cada frase. Portas, é o discurso de quadratura do círculo. Eu distribuo mais do que tu, enquanto diminuo os impostos e acabo com o défice.

Resta o PSD, liderado pela senhora do ‘já cá canta’. Por lá, pululam em lutas internas alguns dos piores e mais indesejáveis políticos desta geração. Tal como o PS, é prisioneiro duma anti-elite autárquica poderosa. Mas na prática, também é o único partido com capacidade de governo que nos pode surpreender pela positiva. Já o fez, uma vez. Poderá fazer outra. Não acredito muito, mas é o que me resta.

31 comentários leave one →
  1. Hugo Ricardo permalink
    4 Setembro, 2009 09:53

    É o que me resta a mim também…não há outra alternativa!

    Gostar

  2. 4 Setembro, 2009 09:54

    Como todos os intervenientes são um bocadinho socialistas, o espectáculo do frente-a-frente está direccionado apenas para que os debatentes (quando não concordam em tudo) exibam a sua capacidade de passar rasteiras ou de lhes sobreviver.

    Gostar

  3. 4 Setembro, 2009 09:56

    Excelente.

    Gostar

  4. JHB permalink
    4 Setembro, 2009 09:58

    Mas quem é que quer um Portugal de primeira linha? Melhor, o que é um país de primeira linha?

    Gostar

  5. JHB permalink
    4 Setembro, 2009 10:04

    “O nosso futuro só pode estar em investimentos que gerem lucro”

    Frase interessante. Exactamente que tipo de lucro é que nos trará para a primeira linha? Será o lucro financeiro? Isso já existe abundantemente. Basta olhar para os bancos…

    E o lucro que se obtém investindo na Educacao, Cultura, Saúde, Justica, etc… Outros lucros menos imediatos e mais díficeis de contabilizar? Também nos trarão um futuro risonho?

    Gostar

  6. JoaoMiranda permalink*
    4 Setembro, 2009 10:13

    ««E o lucro que se obtém investindo na Educacao, Cultura, Saúde, Justica, etc… Outros lucros menos imediatos e mais díficeis de contabilizar?»»

    Se é difícil de contabilizar como é que sabe que é lucro?

    Gostar

  7. Filipe permalink
    4 Setembro, 2009 10:18

    O verdadeiro altruismo seria ver quanto os partidos do poder estariam dispostos a redistribuir entre os cidadãos se eles também fossem obrigados (na mesma percentagem) a redistribuir os votos que recebem pelos partidos mais pequenos.
    A “justiça social” também se devia fazer pela redistribuição de poder!

    Gostar

  8. Lusitânea permalink
    4 Setembro, 2009 10:35

    Oi internacionalistas e bons homens de esquerda eternos lutadores pelos pobres e deserdados e pela justiça social causada pelo capitalismo explorador e predatório neoliberalista:empliquem-me lá o que consideram por “POVO”!Porra que estou farto de pedir definição e nada!Não me querem converter é?A vossa amada constituição(podem limpar-lhe o rabinho) feita em 1975 com assembleia cercada tinha cá um “povo”.Agora só um parvo e cego não vê que existe outro “povo”.E cada vez menos capitalistas.E cada vez menos contribuintes.Portanto têm que definir o que é POVO e o que é que defendem de facto.Preto no branco.Á escuta…

    Gostar

  9. Lusitânea permalink
    4 Setembro, 2009 10:44

    Oi internacionalistas e bons homens de esquerda eternos lutadores pelos pobres e deserdados e pela justiça social causada pelo capitalismo explorador e predatório neoliberalista:expliquem-me lá o que consideram por “POVO”!Porra que estou farto de pedir definição e nada!Não me querem converter é?A vossa amada constituição(podem usá-la para limpar o rabinho) feita em 1975 com assembleia cercada tinha cá um “povo”.Agora só um parvo e cego não vê que existe outro “povo”.E cada vez menos capitalistas.E cada vez menos contribuintes.Mas mais esquerda, sob diversos formatos.Portanto têm que definir o que é POVO e o que é que defendem de facto.Preto no branco.Á escuta…

    Gostar

  10. 4 Setembro, 2009 11:12

    No que respeita às lideranças políticas nacionais, batemos no fundo.
    http://intransmissivel.wordpress.com/2009/08/07/dilema/

    E porque não esta sugestão:
    http://intransmissivel.wordpress.com/2009/09/03/promessas-e-programa/

    Gostar

  11. JHB permalink
    4 Setembro, 2009 11:23

    #6,

    Por experiência.

    Gostar

  12. campeão permalink
    4 Setembro, 2009 11:23

    4 milhões de portugueses trabalham no duro para sustentar os outros 6 milhões que vivem dependentes dum estado dominado por demagogos , ignorantes e alguns ladrões !
    Dos 6 milhões pelo menos metade devia trabalhar se estivessemos num país minimamente decente . Como os partidos representados na assembleia da republica assim o não entendem os portugueses não devem votar em tal gente , pois não respondem ao essencial do estado que é :
    1º Defesa e segurança de pessoas e bens ( cada vez há menos)
    2º Sistema de justiça a funcionar ( neste momento pura e simplesmente não existe)
    3º Criação de condições de liberdade e justiça que proporcionem o investimento e consequentemente a criação de riqueza e de emprego.
    Como os governantes socialistas têm feito exactamente o contrario destes requisitos , assim como socias democratas, temos assim um futuro muito dificil á nossa frente!
    Não votem nesses ignorantes , votem nulo ou branco ( perigoso pela falcatrua) ou abstenham-se , não colaborem nesta pantomina!

    Gostar

  13. 4 Setembro, 2009 11:25

    O artigo é muito bom.
    Tem dois grandes erros.

    O senhor trata Sócrates e Portas pelos nomes próprios e á outra verdadeira alternativa chama à sua dirigente senhora do ‘já cá canta’
    Isso mostra a sua ética.
    O outro é que estes debates
    são para o povinho ouvir de raspão, não são nem para o senhor, nem para os seus colegas do Blasfémias nem para a maioria dos comentadores.

    Eles sabem isso e sabendo-o mostram-se mais espertos que o senhor ao atingir o público que querem.

    Gostar

  14. El Terrible permalink
    4 Setembro, 2009 11:42

    Sem rumo… totalmente de acordo! Triste país em que sucessivos governos ao invés de tornarem o custo do trabalho mais barato, e por essa via permitir às empresas que contratem mais e com melhores contrapartidas financeiras, aumentam sistematicamente a carga fiscal de empresas e funcionários para pagar um número sempre crescente de subsídios de desemprego e rendimentos mínimos…. Já viram as recentes alterações tributárias? È um autentico desespero para cobrarem mais e mais. Enfim, qualquer dia terei que emigrar.

    Gostar

  15. Rxc permalink
    4 Setembro, 2009 11:48

    15, e acha que se conseguem elevar acima desse discurso? Tenho as maiorias dúvidas, tendo em conta a praxis governativa das últimos governos.

    “O nosso futuro só pode estar em investimentos que gerem lucro”. Substituiria lucro por “valor para a sociedade”. O relevante é a criação de valor, e não obrigatoriamente o lucro. De que nos serviu os lucros do BPP se deixou um buraco enorme para ser tapado por todos?

    Gostar

  16. Micas permalink
    4 Setembro, 2009 11:52

    Há posts que nem sequer deviam gerar controvérsia, simplesmente porque dizem tudo.
    Este é um deles.
    Parabéns, JCD.

    Gostar

  17. António permalink
    4 Setembro, 2009 12:05

    Muito boa análise

    Gostar

  18. 4 Setembro, 2009 12:15

    15, e acha que se conseguem elevar acima desse discurso? Tenho as maiorias dúvidas, tendo em conta a praxis governativa das últimos governos.

    Não sei.
    Mas sei que se quiser ser presidente do (ponha aqui o nome de um clube de futebol) devo dizer a quem pode votar em mim que vou comprar muitos jogadores e prometer títulos.
    Se for para lá falar de defices e planeamento com rigor sou corrido á batatada.
    E é outro que vai para presidente.
    Quem é que quer isso?

    Gostar

  19. Ana permalink
    4 Setembro, 2009 12:18

    Subscrevo.

    Gostar

  20. lucklucky permalink
    4 Setembro, 2009 12:44

    “E o lucro que se obtém investindo na Educacao, Cultura, Saúde, Justica, etc… Outros lucros menos imediatos e mais díficeis de contabilizar? Também nos trarão um futuro risonho?”

    Essa tem sido a propaganda dos Madoff’s Sociais – do PCP ao CDS-. Nestes 30 anos os investimentos em Educação pelos contribuintes não têm parado de aumentar, quais foram os resultados desses investimentos?

    Miseráveis e como consequência altamente especulativos.

    Gostar

  21. artur mendes permalink
    4 Setembro, 2009 14:36

    Socrates, usa e abusa até à nausea o argumento estúpido: ” O sr quando esteve no governo…” O que fez o seu governo?”……” Nos conseguimos… o vosso governo.. o que fez?…
    Haja alguém que o cale replicando: – ” O sr PM foi responsável pelo Ambiente durante 10 anos… logo, podemos depreender que o ESTADO CALAMITOSO DAS ARRIBAS DA NOSSA COSTA MARITIMA SAO DA SUA RESPONSABILIDADE…
    Acho bastaria este argumento para o fazer mudar a “agulha”

    Gostar

  22. 4 Setembro, 2009 15:56

    “Mas na prática, também é o único partido com capacidade de governo que nos pode surpreender pela positiva. Já o fez, uma vez. Poderá fazer outra. Não acredito muito, mas é o que me resta.”

    Talvez. Mas eu prefiro preparar o futuro e votar num dos pequenos partidos moderados. Se o BE conseguiu 10% em menos de 10 anos, talvez daqui a 15 anos um desses partidos dê um governo a sério ao país.

    Gostar

  23. Pinto permalink
    4 Setembro, 2009 16:45

    Excertos do debate (que escrevi, também, no Arrastão e Jugular, mas infelizmente não foram … como devo dizer … seleccionados):

    Paulo Portas: “Depois cometeu erros com as leis penais (…) essas leis aumentaram a intranquilidade (…) e o senhor já o devia ter reconhecido, e tem um relatório, que não mostra, da avaliação das leis penais.

    Constança Cunha e Sá: “E esse relatório de facto não apareceu ainda

    (…)

    Sócrates: “Eu compreendo que alguém atribua a alteração das leis penais a um pico de insegurança. Não foi o caso.

    Paulo Portas: “ai não, ai não, então mostre o relatório, então mostre o relatório.

    Gostar

  24. Pinto permalink
    4 Setembro, 2009 16:47

    Paulo Portas: “Depois cometeu erros com as leis penais (…) essas leis aumentaram a intranquilidade (…) e o senhor já o devia ter reconhecido, e tem um relatório, que não mostra, da avaliação das leis penais.

    Constança Cunha e Sá: “E esse relatório de facto não apareceu ainda

    (…)

    José Sócrates: “Eu compreendo que alguém atribua a alteração das leis penais a um pico de insegurança. Não foi o caso.

    Paulo Portas: “ai não, ai não, então mostre o relatório, então mostre o relatório.

    Gostar

  25. Pinto permalink
    4 Setembro, 2009 16:47

    Paulo Portas: “O Primeiro-ministro, para resolver o problema da insegurança no Cacém ou na Damaia, vai até ao Iraque. E de caminho coloca muito mal o Ministro dos Negócios Estrangeiros dele, que teve exactamente a mesma posição que eu tive. Não foi em entrar em guerra porque Portugal não fez nenhuma participação militar durante o conflito.

    Gostar

  26. Pinto permalink
    4 Setembro, 2009 16:48

    Paulo Portas: “Vou-lhe falar do Cacém, vou-lhe falar da Damaia e vou-lhe falar de Setúbal (…) Sabe quantos elementos tem a polícia na Esquadra do Cacém? Tem 56 efectivos para 60 000 pessoas. Agora divida os 56 efectivos por 5 turnos e veja quanta gente lhe fica: 11 pessoas, que ainda têm de fazer tarefas administrativas, têm de fazer investigação criminal e ainda têm de fazer averiguações de penhora. Para proteger 60 000 pessoas. Sabe quantos efectivos tem a polícia na Damaia Sr. Primeiro-ministro? 40. Para proteger 21 000 pessoas. Divida por 5 turnos e veja quantos efectivos lhe sobram: 8. Para proteger 21 000 pessoas.

    Gostar

  27. Pinto permalink
    4 Setembro, 2009 16:49

    Paulo Portas: “O CDS propôs, no Parlamento … certo? … que o julgamento rápido dos presos em flagrante delito fosse feito em 48 horas. Os senhores votaram contra. Era a medida mais importante para repor a confiabilidade e para contrariar a impunidade. É as pessoas saberem que um meliante é detido em flagrante e é julgado efectivamente, em vez de sair em liberdade. Porque é que votou contra?

    Gostar

  28. Anónimo permalink
    5 Setembro, 2009 22:24

    Apreciação deste comentário no link que se segue:

    http://ktreta.blogspot.com/2009/09/treta-da-semana-redistribuicao-pelo.html

    Gostar

  29. JGED permalink
    5 Setembro, 2009 22:26

    Apreciação deste post no link que se segue:

    http://ktreta.blogspot.com/2009/09/treta-da-semana-redistribuicao-pelo.html

    Ou clicar aqui.

    Gostar

Trackbacks

  1. Sócrates e Portas: uma competição acesa pelo título de grande distribuidor « O Insurgente
  2. Leituras indispensáveis « (in)Transmissível

Indigne-se aqui.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers gostam disto: