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O suicídio público do procurador-geral, take II*

7 Agosto, 2010
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O que poderei pensar da honestidade intelectual de alguém que escreve terem tido os investigadores do caso Freeport – referindo-se implicitamente aos procuradores que emitiram o despacho final – “seis anos” para ouvirem quem quisessem quando sabe que a investigação só passou para as suas mãos no final de 2008? Que quer cavalgar o logro mediático da investigação “eterna”?
Quando Pinto Monteiro tomou posse como procurador-geral da República, a sua chegada foi saudada pelos que tinham esperança que pudesse trazer com ele “melhor justiça, não protagonismos nem espectáculos mediáticos”, como escrevi em Setembro de 2006. A desilusão não podia ser maior: depois de um Cunha Rodrigues que nos havia legado “uma PGR onde se sentia que existia uma direcção firme, onde a autonomia dos magistrados estava limitada pelos poderes da hierarquia” e de um Souto Moura que nos deixara “uma PGR ferida por casos mediáticos onde as falhas na investigação foram gritantes” (e estou a citar-me a mim próprio), Pinto Monteiro tornou-se num dos rostos do desastre da Justiça em Portugal. Pior: está a contribuir activamente para esse desastre.
O desnorte de Pinto Monteiro começou a tornar-se evidente pelo menos desde que pousou na sua secretária o processo Face Oculta. A 24 de Junho do ano passado. O dia a partir do qual a investigação deixou de ser secreta porque se produziu algures a mais grave de todas as violações ao segredo de justiça desse processo: os que estavam a ser investigados (nomeadamente Amando Vara) foram informados de que tinham os telemóveis sob escuta e trocaram de cartões e aparelhos. A partir desse momento, para qualquer magistrado do Ministério Público, tornou-se claro que levar informação delicada ao gabinete do procurador-geral pode implicar um risco para as investigações em curso. De resto, o teor do despacho do Freeport, em que os magistrados optam por heterodoxamente desabafar, deve ser visto à luz do mal-estar existente entre quem investiga e quem se espera que dirija a investigação.
Depois dessa reunião, não faltaram decisões erráticas, declarações contraditórias e despachos incompreensíveis de Pinto Monteiro. Da mesma forma que na citada entrevista por escrito ao Diário de Notícias utiliza argumentos falaciosos, num dos despachos em que não deu seguimento à pretensão dos magistrados de Aveiro de abrirem uma investigação ao caso PT-TVI, o procurador-geral usou escutas posteriores à reunião de 24 de Junho, citando conversas altamente inverosímeis e destinadas a despistar os investigadores. E, como se isso não chegasse, fez acabar o processo com uma decisão contraditória com anteriores declarações de intenção: a destruição dos seus próprios despachos, realizada de forma tão intempestiva como a queima de documentos comprometedores numa lareira antes da chegada das autoridades.
A forma como o procurador-geral se comportou no processo Freeport não foi nem mais brilhante, nem mais transparente, nem mais coerente, do que a forma como interveio noFace Oculta. De facto, como pode um procurador-geral que, muito antes de o processo estar concluído, deu a entender que o primeiro-ministro não seria acusado, escrever agora que os procuradores tiveram sempre total autonomia? Antever o desenvolvimento do processo é dar total autonomia? E será que o procurador-geral já se esqueceu da quantidade de vezes que negou a existência de pressões por parte do procurador Gomes da Mota, pressões cuja existência acabaria por ser confirmada e levar à suspensão daquele magistrado?
Mais: como pode o procurador-geral demarcar-se, em tom indignado, do teor do despacho do Freeport quando teve conhecimento do seu teor com antecedência, como registou Cândida Almeida, por escrito, no próprio despacho? Como pode dizer que os investigadores ouviram quem entenderam quando Cândida Almeida, que é sua superior hierárquica, considerou que das respostas de Sócrates “não resultariam alterações de fundo aos juízos indiciários”? Como consegue afirmar que podiam pedir a prorrogação do prazo quando, antes, o seu vice-procurador-geral indeferira um pedido de aceleração processual ao mesmo tempo que estipulava a data imperativa para o encerramento do processo?
É também muito perturbador que o procurador-geral tivesse criado uma situação de duvidosa legalidade ao manter em funções o seu vice, Mário Gomes Dias, que já atingiu a idade da reforma e se mantém ao serviço. Tanto ou mais perturbador quanto é verdade que, para o manter em funções, pediu ao Governo para fazer uma lei especial tão rocambolesca que, mesmo com o apoio do CDS, não conseguiu ser aprovada a tempo na sessão legislativa que terminou. Não compreenderá o procurador-geral que, ao fazer esse pedido, se coloca na situação de ficar a dever um favor ao Governo, o que nunca é recomendável para quem deseja manter intocável o seu estatuto de independência?
Tudo isto já seria suficientemente extraordinário para duvidar da capacidade e autoridade de alguém que, como eu próprio escrevi em Março, cometera suicídio em público durante o caso Face Oculta. Mas o procurador-geral ainda conseguiu algo mais surpreendente ao considerar que só tem “os poderes da rainha de Inglaterra”. De facto, como pode alguém exercer um lugar sem poderes durante quase quatro anos e não ter já batido com a porta? A única explicação é os seus poderes serem bem mais substanciais do que os da velha senhora do Palácio de Buckingham. E são: de acordo com a lei, compete o procurador-geral “dirigir, coordenar e fiscalizar a actividade do Ministério Público e emitir as directivas, ordens e instruções a que deve obedecer a actuação dos respectivos magistrados”. Não parece pouca coisa.
Vivemos tempos trágicos, de colapso de um dos pilares do Estado democrático. Quem semeou ventos, colheu tempestades, mas o que incomoda mais é, no Ministério Público, ter-se a sensação de que, depois de um PGR directivo e poderoso, de outro PGR menos poderoso mas que protegia os magistrados que dirigia, temos um PGR que não dirige nem protege a sua equipa. Bem pelo contrário. Jornalista (www/twitter.com/jmf1957)

P.S.: Tenho as maiores dúvidas sobre a existência (desde 1975) de um sindicato no Ministério Público. Mas tenha a absoluta certeza de que não deveria haver qualquer associação sindical de um órgão de soberania, como são os juízes. Por isso estranhei a fúria de um antigo dirigente da Associação Sindical de Juízes (o nosso procurador-geral) contra o alegado poder do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. Não me pareceu coerente.
Público, 6 de Agosto de 2010

25 comentários leave one →
  1. Primus Pilus's avatar
    Primus Pilus permalink
    7 Agosto, 2010 09:38

    que poderei eu pensar da honestidade intelectual de jornalistas que se mantiveram calados durante todo o processo apito dourado quando era por demais evidente que a sua finalidade era a perseguição pessoal, servir de cortina de fumo para entreter basbaques suburbanos enquanto se safavam alguns pedófilos, e, a reboque, salvar o benfica da falência?

    que poderei eu pensar da honestidade intelectual de jornalistas que se mantiveram calados durante anos de fugas selectivas de informação do citado processo em direcção ao correio da manhã?

    que poderei eu pensar da honestidade intelectual de jornalistas que nada disseram sobre o espectáculo grotesco e siciliano que a morgado deu no Porto, metendo carros a alta velocidade e guarda-costas, quando tomou posse do citado processo a mando do pgr?

    que poderei eu pensar da honestidade intelectual de jornalistas que se mantiveram calados quando o pgr agiu colonialmente e com preconceito regionalista no chamado processo noite branca?

    que poderei eu pensar da honestidade intelectual de jornalistas que se mantêm calados quando o processo apito dourado acaba com uma única condenada, exactamente a principal testemunha de acusação?

    que poderei eu pensar da honestidade intelectual de jornalistas e directores de jornais cuja “indignação” é tão selectiva? que são uma bosta como são todas as oligarquias políticas e mediáticas da centralista Lisboa.

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  2. socialista sem escroto's avatar
    socialista sem escroto permalink
    7 Agosto, 2010 09:38

    A ignorância é audaz; a sabedoria, reservada.. Tucídedes…..

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  3. regada mertório's avatar
    7 Agosto, 2010 09:59

    Já me convenci de que não há nada a fazer,porque já me convenci também de que quem poderia não quer.Portanto,deixar correr até um dia.

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  4. José's avatar
    José permalink
    7 Agosto, 2010 10:36

    Essencialmente concordo com o teor do texto, com alguns pormenores. A entrevista de Pinto Monteiro, ao Expresso de hoje é esclarecedora de alguns pontos mas levanta outras questões de fundo e forma. Pinto Monteiro diz que só tomou conhecimento do despacho final do Freeport, por telefone ( Cândida de Almeida telefonou-lhe a dizer que estava pronto…) e depois só o leu no dia em que se tornou público ou coisa que o valha. Isto precisa de ser afinado porque este “beirão honesto” já provou que é capaz de não o ser tanto assim.

    O mais grave do consulado de Pinto Monteiro é o que se passou em 24 de JUlho de 2009. Isso é crime grave e se fosse descoberto daria prisão, pela certa. Mas continuo a dizer que até prova em contrário deve presumir-se inocente quem se declara honesto.

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  5. José's avatar
    José permalink
    7 Agosto, 2010 10:37

    PInto Monteiro deveria ter sido corrido em Setembro do ano que passou, logo que foi tornada pública a questão do Face Oculta. O presidente da República lavou as mãos como Pilatos. Desde aí, o beirão honesto, anda em roda livre e respaldado pelo poder xuxa. Com todo o garbo que se lhe conhece.

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  6. karocha's avatar
    karocha permalink
    7 Agosto, 2010 12:24

    # 1

    Se fossem só esses!!!

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  7. Tico's avatar
    Tico permalink
    7 Agosto, 2010 12:47

    É muito extenso e eu não leio.

    O começo da prosa é uma lastima

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  8. Tico's avatar
    Tico permalink
    7 Agosto, 2010 12:50

    “”””O mais grave do consulado de Pinto Monteiro é o que se passou em 24 de JUlho de 2009.”””

    O que se passou de concreto?

    24 de julho, é um dia de parada militar, que hoje não se faz

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  9. MJRB's avatar
    7 Agosto, 2010 13:05

    Óptimo, JManuel Fernandes !

    A SENSAÇÃO QUE SE TEM SOBRE ESTE CASO FREEPORT/SÓCRATES, É QUE O PGREPÚBLICA E CALMEIDA “RESPONDERAM” POR SÓCRATES…
    ALMOFADARAM E ILIBARAM SÓCRATES…

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  10. lop's avatar
    lop permalink
    7 Agosto, 2010 13:35

    Este é o MP do PS e do PCP.

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  11. António P. Castro's avatar
    António P. Castro permalink
    7 Agosto, 2010 13:39

    A trempe de serviço ao socretinismo – Proença de Carvalho, Miguel Júdice e Marinho Pinto – acorre imediatamente à chamada, sempre que se trata de defender a sua fonte de negócios…
    Despudoradamente e sem um pingo de vergonha na cara.

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  12. Tico's avatar
    Tico permalink
    7 Agosto, 2010 13:42

    PPassos Coelho, aderiu ás “novas oportunidades”, para tirar um curso de 6 meses, em Economia Avançada Exponencial

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  13. António P. Castro's avatar
    António P. Castro permalink
    7 Agosto, 2010 13:56

    12, Tico

    Já o falso engenheiro não precisou sequer de 6 dias. Bastou-lhe enviar um fax e deram-lhe a licenciatura no domingo seguinte.

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  14. Tico's avatar
    Tico permalink
    7 Agosto, 2010 13:57

    “””Contas foram feitas pelo procurador Rosário Teixeira, do DCIAP. Há suspeitas de burla agravada e fraude fiscal.”””

    http://dn.sapo.pt/bolsa/interior.aspx?content_id=1475830

    Disto ninguem fala

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  15. piscoiso's avatar
    piscoiso permalink
    7 Agosto, 2010 15:06

    A minha análise, é que o árbitro Fernandes, é uma espécie de Bruno Paixão.

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  16. Licas's avatar
    7 Agosto, 2010 16:24

    A MINHA CERTEZA É QUE O PISCOISO TEM A MANIA QUE É INTELIGENTE, ALÉM DE . . . ESPIRITUOSO (???????)

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  17. Alexandre Carvalho da Silveira's avatar
    Alexandre Carvalho da Silveira permalink
    7 Agosto, 2010 17:52

    O PGR anda numa roda viva a dar entrevistas( por escrito, para não haver confusões), porque se sente intocavel. E o governo, vai aprovar tudo o que ele propuser em termos de poderes do PGR. Dizem que com a ajuda do Portas, mas isso se calhar já são as más linguas do costume.
    E sente-se intocavel, porque ele é das poucas pessoas que conhece o teor de todas as conversas que foram escutadas do Socrates com os amigos Vara, Rui P Soares, e outros que se calhar a opinião publica nem conhece. Por isso, tomem cuidado com o homem, porque ele tem mais poder do que se imagina.
    Não tem menos poderes do que a Rainha de Inglaterra como ele disse; tem mais poderes do que o Cardeal Richelieu.

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  18. Tico's avatar
    Tico permalink
    7 Agosto, 2010 18:15

    AGENDA DO PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA

    Agosto 2010

    Dia 02 a 17 Férias

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  19. José's avatar
    José permalink
    7 Agosto, 2010 18:51

    #8:

    Corrijo: 24 de Junho de 2009. Dia da violação do segredo de justiça, aos suspeitos que andavam a ser escutados. Foi nesse dia, de manhã que o PGR recebeu os procuradores do distrito judicial de Aveiro que lhe entregaram em mão o expediente das escutas e os demais elementos para um inquérito que não se fez.

    Foi nesse mesmo dia que os suspeitos souberam o que se passava porque até aí nada sabiam e isso é um facto indesmentível.

    Logo, das duas uma: ou o PGR teve azar e alguém o escutou ou então…

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  20. CAA's avatar
    7 Agosto, 2010 18:52

    Clap, clap, clap.

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  21. José's avatar
    José permalink
    7 Agosto, 2010 19:39

    Então mais uma achega:

    Esta violação de segredo de justiça, a mais grave de que há memória na Justiça portuguesa ninguém fala nela. Nem os abrantes nem os jugulares nem o Proença na entrevista obscena à sonsita Ana Lourenço. Nada. É como se o caso nem existisse, porque não lhes interessa falar nisso, porque há violações de segredo de justiça que são judiciosas e esta foi-o. Olá se foi! Se não tivesse existido, o negócio da PT/TVI tinha avançado e o estouro era de estrondo maior ainda. Basta pensar na hipótese e no que o tal Rui.Pedro.Soares andava a preparar com todo o desplante.

    Agora o mais importante: este crime de violação de segredo de justiça está a ser investigado em Coimbra pelo DCIAP, dirigido ( superiormente, diga-se) por Euclides Dâmaso, um magistrado do MP de referência. Um dos melhores.

    Pois eu não sei mais nada mas se fosse eu a investigar, os telefonemas de Sua Exª o Senhor PGR daquele dia, seriam escrutinados. Todos.
    Por causa daquela hipótese celerada e para afastar suspeitas sobre a a honestidade de um beirão.
    Mas é que nem tinha espinhas: processo para o STJ, para a secção criminal, a fim de o PGR ser investigado por um juiz do STJ, por sorteio. Era assim e já tinha sido, se fosse comigo.

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  22. José's avatar
    José permalink
    7 Agosto, 2010 19:54

    Em bom rigor, esta violação de segredo de justiça matou a execução de um crime que era o de atentado ao Estado de Direito. Um cínico não poderia fazer melhor que isto. Irónico? Nem tanto, a meu ver. E é uma hipótese explicativa. Se assim fosse, e se confirmasse a hipótese celerada, o PGR, contribuiu para evitar a prática de um crime, ao cometer outro. Estado de necessidade desculpante pode ser a defesa…

    PS. Não levem a sério este comentário.

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  23. António P. Castro's avatar
    António P. Castro permalink
    7 Agosto, 2010 20:59

    José,

    Mas ainda lhe restava alguma dúvida? Não é por acaso que os despachos do beirão se baseiam apenas em matéria das escutas posterior à data em que foi consumada a violação do segredo de justiça… Isto é, escudam-se nas manobras de diversão ensaiadas a partir dessa data pelos escutados.
    Pobre país! Será que ainda vamos a tempo de evitar o fim às mãos destes coveiros socretinos?

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  24. Nuno Martins Pina's avatar
    7 Agosto, 2010 21:49

    Se fôssem todos dar banho ao Cão,faziam melhor figura….

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  25. anonimo's avatar
    8 Agosto, 2010 01:31

    «Os arguidos no ‘processo Face Oculta’ deixaram de usar os seus telemóveis habituais a partir de 25 de Junho, no auge da polémica causada pelo negócio PT/ TVI, existindo a suspeita de uma fuga de informação nessa altura, quando começaram a chegar a Lisboa as
    primeiras certidões enviadas pelo DIAP de Aveiro» – SOL

    «No dia 24 de Junho de 2009, decorreu uma reunião na PGR com o PGR e magistrados do processo. No dia 25 de Junho, de manhã os telemóveis dos actuais arguidos deixaram de cantar. Ficaram subitamente mudos. Soube-se depois que todos eles, numa estranha
    coincidência decidiram mudar de aparelho e de cartão.
    Todos, menos um deles: o principal suspeito. Esse só mudou de cartão. O IMEI lá ficou para se saber …»

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