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Reflexões a propósito de um dia de fúria*

28 Janeiro, 2011
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A fúria não foi dos que ficaram em casa, abstendo-se: apesar de tudo, foram votar no domingo passado mais portugueses do que nas eleições presidenciais de 2001. A fúria teve o seu epicentro nos que, indo votar, votaram em branco, votaram nulo ou votaram (sobretudo no continente) José Manuel Coelho. O resultado verdadeiramente extraordinário de domingo passado foi, em primeiro lugar, o do total de votos brancos e nulos (mais de 277 mil) e, depois, os quase 190 mil votos em José Manuel Coelho. Ou seja, um equivalente a mais de metade do número de eleitores que saíram de casa, enfrentando o frio, o vento e o cartão de cidadão, para votar em Manuel Alegre, o equivalente a mais de 10 por cento do total de eleitores, incomodou-se com o único propósito de depositar na urna um voto contra todos os candidatos (os votos brancos e nulos) ou então um voto no candidato que era contra todos (contra Jardim, contra Sócrates, contra Cavaco). É obra.

Por que é que isto sucedeu? Por que se bateram todos os recordes no que respeita aos votos nulos e votos em branco? E por que conseguiu Coelho a sua extraordinária votação? Não possuo nenhum estudo pós-eleitoral, mas arrisco uma resposta: não ocorreu apenas um fenómeno de desinteresse ou de não identificação com os candidatos, muitos destes eleitores deram-se ao trabalho de ir votar porque estão furiosos e desorientados. Furiosos pelas promessas quebradas, furiosos por sentirem que a eleição de domingo pouca coisa ajudaria a resolver. Desorientados porque não percebem para onde vai o país e só vêem a sua vida a andar para trás.

A eleição de domingo reforçou a percepção de um país adiado à espera de um outro ciclo. Não apenas de novas eleições: de um ciclo novo.
Nos próximos meses, o país estará suspenso dos resultados da execução orçamental – ou do que se fizer apresentar como resultado do deve e haver do Estado. Curto objectivo. Do lado do Governo, trata-se de navegar à vista e de assegurar que a seguir a um dia no poder se segue outro dia no poder. Tudo servirá para que cumpra esse desiderato. Do lado do Presidente, Cavaco não aproveitou a campanha eleitoral para dizer ao país o que achava que devia ser feito, pelo que tem um país tão desorientado agora como tinha antes de a campanha começar. Mais: fez o pior discurso de vitória de que há memória, e isso não ajudará a unir um país que, como a votação comprovou, está profundamente dividido. Só do lado da oposição, sobretudo da oposição que pode ser alternativa, não há pressa, o que é um bom sinal, parecendo haver a preocupação de preparar o caminho. Possa isso acontecer, mas não será fácil.

Os anos que temos pela frente não serão fáceis. Embriagámo-nos com o euro e o dinheiro fácil e temos hoje um país que não só não é competitivo, como tem vindo a escavar, ano atrás de ano, o buraco em que está metido.
De certa forma, é indiferente que o FMI venha ou não. Se não vier, alguém tomará por ele as medidas. Se vier, talvez só ganhemos em disciplina e velocidade, mas nunca nos trará a pílula da salvação. O que é difícil de fazer tem de ser feito pelos portugueses: mudar de hábitos. Para reconquistarmos a competitividade, teremos de alterar quase tudo no Estado e muita coisa nas empresas. Os empregos serão menos seguros. Os salários não vão aumentar como aumentaram. O número de horas de trabalho crescerá. O total de anos na vida activa também. Acabaremos, de uma forma ou de outra, a comparticipar as despesas de saúde, talvez até as de educação.
Era importante que, para realizar estas mudanças, metade de Portugal não estivesse contra a outra metade. Que não chegássemos ao ponto de ter desempregados contra empregados, ou jovens contra velhos. Ou toda a direita contra toda a esquerda.
Era importante que não se falasse apenas de amanhã – cumprir o Orçamento -, mas também do depois de amanhã – retomar o crescimento, um crescimento que não poderá depender das linhas de crédito do Governo ou de activismos ministeriais, antes radicar num empreendedorismo livre e com gosto pelo risco. Que os entendimentos – entre os parceiros sociais ou na Assembleia – tivessem uma base muito mais ampla do que a imposta pelos taticismos do costume.
Infelizmente, a campanha mostrou que estamos mais longe do que mais perto de cumprir qualquer destes objectivos.

Em política, tudo tem um preço, e às vezes bastante elevado.
Assistimos, nesta campanha, a um coro quase unânime: como sentenciou Mário Soares, a campanha decorreu “sem chama”, já que “os debates não trouxeram ideias novas”. É verdade. Mas não foi a primeira vez que tal aconteceu. A nossa memória é que é curta. As últimas eleições legislativas, há pouco mais de um ano, não foram muito diferentes: “quase tudo foi ruído, “casos” e um “pingue-pongue” orquestrado pelos especialistas em marketing que, infelizmente, cativou muito mais os jornalistas do que a substância das propostas”, escrevi na altura, escreveria de novo hoje.
Poderíamos continuar a recuar, mas quem segue a política portuguesa de perto sabe que, no relacionamento entre as maiorias e as oposições, na transformação de todo o problema numa batalha e numa gritaria, na utilização dos processos próprios da dirty politics, há um antes e um depois de José Sócrates. Mesmo Santana Lopes faz apenas figura de aprendiz de feiticeiro nesta deriva.
A maneira como hoje se debatem ideias ou se procura chegar a plataformas de entendimento sofreu muito, muitíssimo, com os novos hábitos políticos dos últimos cinco anos. Não há elogio à “combatividade” ou à “coragem” que possa iludir uma tendência para fazer política como um general que ordena uma estratégia de “terra queimada” ou manda dinamitar todas as pontes. De resto, não será fácil reaproximar os agentes políticos enquanto continuar a haver – como denunciou o director de um jornal – quem entregue envelopes nas redacções (várias ao mesmo tempo) para conseguir efeitos eleitorais imediatos.
É como se houvesse qualquer coisa do ambiente corrompido e arruinado de Blade Runner em todos os cenários do debate político. Tudo são escombros à nossa volta, pelo que será árdua a tarefa de reconstrução.

A melhor notícia da eleição de domingo foi a do desastroso resultado de Manuel Alegre. Não pelo candidato, que merece respeito, mas pelo que significou. Primeiro, porque provou, de novo, que os eleitores portugueses são moderados. Depois, porque enterrou, de vez, o discurso “antifascista”. Finalmente porque, apesar de pouca gente o ter dito, representou uma derrota pesada, talvez definitiva, para a estratégia do Bloco de dividir o Partido Socialista. Louçã não saiu derrotado apenas porque o seu candidato não foi à segunda volta, como quis fazer crer: saiu derrotado porque não há no PS outro Alegre que possa utilizar para pressionar um partido com tradição de moderação.

Público, 28 Dezembro 2011

18 comentários leave one →
  1. 28 Janeiro, 2011 21:09

    Zé Manel, ao que parece finalmente acordáste, isso só te fica bem…
    🙂
    A.S.C.

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  2. 28 Janeiro, 2011 21:13

    Entretanto, o Egipto está “a ferro-e-fogo” !
    Por cá, “bananas governados por sacanas” — e votam no palhaço do Coelho, ou, no ex-CANDIDATO DE SÓCRATES… Talvez “a pão-e-água” conseguissem discernir porque assim estão, e porque pior estarão…

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  3. Gol(pada) permalink
    28 Janeiro, 2011 22:08

    Aqui são sodomizados a sangue frio e com areia, e ainda votam neles.
    .
    .
    Siga o circo…

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  4. António Vieira Lopes permalink
    28 Janeiro, 2011 23:08

    Onde JMF vê uma amarga derrota, na coluna do lado, Helena Roseta vê uma “Maioria de Futuro”.
    Onde JMF vê um derrotado, HR vê um “Pioneiro”.
    No mesmo espaço do Público, temos o “Alegre Derrotado” e o “Alegre Pioneiro”. A história repete-se
    e reinventa-se.

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  5. Arlindo da Costa permalink
    28 Janeiro, 2011 23:25

    Quem votou em Coelho – que foi o meu caso! – quer um Portugal limpo de ne+potismo, clientelismo, corrupção, ladroagem e limpo desta ditadura de politicos profissionais malandros e mentirosos.
    Tão só, Mr. Jmf.
    Não gaste os seus nweurónios a encontrar teorias sociológicas da treta, muito habitutal nos tiriricas da televisão, a começar pelo Marcelo!

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  6. 28 Janeiro, 2011 23:52

    Furiosos pela perda de dignidade, de respeito ao estilo dons gangs americanos, honra entre ladrões, roubem mas deixem-nos comer

    E a ira começa a fermentar

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  7. Isabel permalink
    29 Janeiro, 2011 00:07

    Arlindo da Costa

    Também votei no Coelho e exactamente pelas mesmas razões.
    Até parece que querer um país limpo é uma coisa extraordinária…

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  8. Arlindo da Costa permalink
    29 Janeiro, 2011 00:29

    Na net já corre uma petição para pedir a repetição das eleições de domingo passado.
    Com observadores internacionais.
    Aquele boicote do cartão de cidadão pode ter influenciado uma muito provável 2ª volta.
    Na Venezuela, o Chavez até pode ser um ditador, mas foi eleito em eleições limpas, transparentes, participadas e com observadores da OEA e da União Europeia.
    E já não falo do Brasil que é a 2ª maior democracia do Mundo, logo a seguir aos EUA, pois a India ainda tem o regime de apartheid das castas e outras segregações sociais.

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  9. 29 Janeiro, 2011 01:14

    Pois sim, mas a Índia é um estado federal, e essa cena das castas é como os ‘encantadores de serpentes’, folklore p’ra turista.
    Em termos eleitorais na Índia, um homem/uma mulher 0 um voto.
    Há décadas…
    E olhe que eu sei bem do que estou a falar, não li isto em nenhum livro, vivi lá, todos os antepassados do meu falecido Pai até 1600 e troca o passo , incluindo ele, nasceram lá, um dos meus primos é o 0 ‘atorney-general’ de um estado lá, vá desfazer na Índia (se lhe fôr realmente essencial…) para outra freguesia mais estúpida, pretensiosa ou ignorante.
    Ou em alternativa, vá lá ver akilo…
    🙂

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  10. 29 Janeiro, 2011 01:33

    caro JMF, votei no Sr. Coelho de forma convicta. Dos candidatos a concurso, a escolha era entre ele e o Dr. Nobre. E votei nele pq me informei, pq li e vi/ouvi (por exemplo, a entrevista à Sabado).
    Se este país precisa de algo, é de quem combata a corrupção e o nepotismo. Por aqui tb temos os nossos Ben Ali’s, os nossos Saleh, etc. etc. Dão pelo nome de Cavaco, de Sócrates, dos Jardins que existem em todas, quase sem excepção Cãmaras Municipais.
    A sua teoria está completamente errada.

    melhores cumprimentos,

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  11. Bulimunda permalink
    29 Janeiro, 2011 07:57

    Claro nem já se queima a mulher depois da morte do marido nem se fazem abortos por nascer filha em vez de filho..

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  12. 29 Janeiro, 2011 10:35

    Pois Bulimunda isso existe, infelizmente.
    Por razões idiotas (as mulheres vão para putas se não tiverem marido, eles é que são supostos sustentar o ‘rancho’ todo) vai demorar algum tempo a mudar.
    Em compensação aki somos muito mais ‘civilizados’, damos cabo do outro à machadada por causa de um conflitinho de terras ou de onde passam as águas…

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  13. rhianor permalink
    29 Janeiro, 2011 16:04

    Bom Artigo… a data de publicação está errada (Público, 28 Dezembro 2011)
    Os verdadeiros desiludidos ficaram em casa.. quem ainda acredita sai para votar nem que seja em branco…
    Veremos nas próximas se estes votos brancos não se transformam em mais abstensionistas…

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  14. Amigo de Peniche permalink
    29 Janeiro, 2011 16:31

    A pseudo elite cultural e política (transversal as direitas e esquerdas políticas) resiste a aceitar e reconhecer o Prof. Cavaco Silva apesar das “4 vitorias 4 “ com maioria obtidas na sua vida ao serviço do povo português.
    O “pai da pátria” impante de vaidade e autoconvencimento não quer aceitar que a democracia tenha reconhecido alguém que lhe faz sombra na sua pretensa e sobrevalorizada importância política para o bem do povo.
    Assim em 2006 antecipando uma vitoria do Prof. Cavaco Silva por margem elevada, e escamoteando a vaidade em lógica política, sujeita-se ao voto, não para se medir com o poeta ( cujas possibilidades ele, observador atento e experiente, sabia a que patamar chegavam ) mas com o objectivo de desvalorizar, reduzindo a amplitude da vitoria do Prof. Cavaco Silva.
    Em 2011 perante o mesmo objectivo, o clã e seus apaniguados, não hesitam em recorrer a processos menos claros e utilizando dois idiotas úteis atacam o HOMEM.
    Perderam mas demonstraram mais uma vez a influencia que ainda tem esta “elite” na política, na cultura, nos media e como ainda entravam o desenvolvimento social e económico do país.

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  15. Amigo de Peniche permalink
    29 Janeiro, 2011 16:34

    Os comentários dos pseudo-analistas ao resultado das eleições confirmam: a pseudo elite cultural e política só aceitará o Prof. Cavaco Silva quando obtiver um vitória superior ao do seu mentor e patrono, mais de 70,35 % (resultado de Mário Soares no 2º mandato em 1991 ).
    Para esta pseudo-elite o Prof. Cavaco Silva não ganhou as eleições. Que interessa a abstenção ter vindo a subir… que interessa Jorge Sampaio ter perdido mais de 600 mil
    votos do primeiro para o segundo mandato…
    Valoriza-se que o Prof. Cavaco Silva perdeu 500 mil votos , que a abstenção foi da ordem dos 53,57%, que os votos nulos e brancos somam….
    Para esta pseudo elite o Prof. Cavaco Silva quase perdeu as eleições…. para o povo o Prof. Cavaco Silva ganhou as eleições… contra todos mas… ganhou!!!

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  16. Bulimunda permalink
    29 Janeiro, 2011 22:11

    Pois mas também porque se for filho os pais não pagam dote.se for filha estão tramados…quanto ao caso que refere é verdade..mas não chegamos ao ponto de matar milhares de pessoas por regos de água…nem assassinamos um homem santo como o Gandi…

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  17. 30 Janeiro, 2011 09:54

    Bulimunda, tome atenção às proporções please… o tamanho deles e o nosso, akilo é um “sub-continente”, lembra-se ?
    Dez milhões para um milhar e duzentos milhões ??
    Do the math.
    🙂

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  18. 30 Janeiro, 2011 17:44

    «Mesmo Santana Lopes faz apenas figura de aprendiz de feiticeiro nesta deriva.»

    Não lhe parece, José Manuel Fernandes, que após todos estes (seis) últimos anos, e quando já se tem uma perspectiva completa e correcta dos acontecimentos, que o anterior primeiro ministro e o seu governo merecem mais e melhores palavras de desagravo do que essas? Que já está mais do que na hora de muitos fazerem um «mea culpa» relativamente ao modo injusto e vergonhoso como procederam para com eles?

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