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Molenbeek: é uma cabala, uma campanha negra!

25 Março, 2016

Fernanda Câncio, pessoa que se considera legítima herdeira de Baudelaire e que o resto do mundo considera apenas herdeira do legado de Sócrates, decidiu épater la bourgeoisie com uma peça pungente sobre meia dúzia de gajas giras e, quiçá, sexualmente activas, que encontrou mal saiu da estação de metro Comte de Flandre em Bruxelas. Encontrou uma tal de Wafae, que “não é exatamente o tipo de rapariga que se espera encontrar num bairro que o mundo inteiro vê como um coio de radicais islâmicos”, porque Câncio, pessoa que combate estereótipos, sabe exactamente como o mundo inteiro espera que uma rapariga se pareça num coio de radicais islâmicos.

Entre momentos descritivos pejados de um bucolismo oriundo de Fernando Namora (“pessoas com aspecto normal”) e o neo-realismo de Alves Redol (“prédios baixos, antigos, mas sem especial mau aspecto, praticamente uma mercearia, com muitas caixas de fruta, em cada esquina, ruas limpas”), somos confrontados com a narrativa de Wafae, que começa (“com os seus enormes olhos escuros”) por descrever Salah Abdeslam como “não é uma pessoa violenta”. Sarah, outra gaja que captou o olhar maternal sem treino de Câncio, mais brincalhona, com um sentido de galhofa que escapa num buraco sem sentido de humor, avança que é prima de Salah e que “defende-o”. Algo incrédula, talvez por encontrar umas jovens de “pestanas postiças, unhas rosa shocking, jeans skinny a delinear as pernas rechonchudas, iphone plus na mão” prontas a ridicularizarem uma jornalista do cu do mundo, Câncio pergunta à prima se é mesmo prima, ao que ela responde que sim, é mesmo prima do primo. Uma outra, uma tal de Inez, eventualmente de apelido Gutierrez, avança com um discurso rapidamente espanholado que “bateram-lhe” quando o capturaram. Vertemos a primeira lágrima.

Passamos agora à secção seguinte, denominada “Wafae abre um link no telefone”, em que Wafae abre um link no telefone. “Repare: se eles quisessem de facto matar muita gente, acha que as coisas se tinham passado como se passaram? Em Paris, por exemplo, estavam no estádio e rebentaram-se cá fora. Podiam ter matado muito mais gente lá dentro. E o irmão do Salah nem matou ninguém”. Estou, como leitor, afectado de um grande sentimento de misericórdia pelo altruísmo com que, em Paris, decidiram não matar assim lá muita gente, só alguns, por bondade. Eis que Sarah interrompe Câncio (e a minha melancolia ecuménica) com um misericordioso “Salah não é um terrorista”.

Sem se rirem, as três moças explicam que não usam véu porque isso implicaria terem que “ir a Meca”, em vez de “ir à discoteca”. Depois dizem que há muitas nacionalidades em Molenbeek e, finalmente, lá “riem com a menção a Portugal”. Uma delas, tirando a pinta à intrépida repórter, atira com um brilhante “às vezes sinto que me discriminam quando vou procurar trabalho”, coisa que sensibiliza qualquer um, até porque devia haver uma lei que impedisse discriminação de pessoas cujo primo, “que defendo”, decide rebentar com culpados do capitalismo que mata, na sua viagem para um trabalho escravizante.

Depois, no texto, decide-se que se vai falar da “teoria da conspiração” e avança-se com uma teoria daquelas de adolescente que comove repórteres tolos, de que “o Daesh é um golpe montado pelo Estado”. Qual estado? Um qualquer. Vários. Sei lá, não façam perguntas difíceis às jovens primas que vão a discotecas com “jeans skinny a delinear as pernas rechonchudas”. Mais à frente, uma delas diz que “sentimo-nos num zoo”, o que não é de estranhar, já que até uma repórter de causas fracturantes portuguesa está lá para lhes fazer perguntas.

Câncio deambula, sem perceber a piada que é escrever ser “espantoso é que alguém em Molenbeek ainda tenha paciência para jornalistas” logo a seguir a ter sido gozada por três jovens com tempo livre para responder a troncos sem capacidade crítica. Câncio aproveita o momento para denunciar o francês dos repórteres eslovacos, muito inferior ao da nossa brilhante correspondente, que “aqui andam, desolados, a tirar fotos e sem conseguir fazer uma única entrevista”, nem a três moças que gozam o jornalista com lérias. Na senda de encontrar mais um maluco com quem conversar, Câncio encontra uma senhora (“de 63 anos”), “que nem o primeiro nome aceita dizer”, e que lhe diz, “em roupão”, “vivo aqui há 42 anos, não temos nada a ver com essa merda, com esses merdas”. Câncio toca-lhe no braço e ela sorri. Verto a segunda lágrima.

Depois a coisa continua com uma série de inanidades, e lá se completa o círculo de 1 km à volta da estação de metro, numa “loja de ferragens” que pertence ao Ben, o indivíduo cujo nome é o mesmo do filho mais novo de Jacob. E pronto, foi a terceira lágrima, porque o texto acabou. Ficamos sem saber o que todas estas personagens pensam da eutanásia em Portugal, pelo que temos que esperar pelo próximo relato.

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46 comentários leave one →
  1. Arlindo da Costa permalink
    25 Março, 2016 19:10

    Molenbeek tem sido, é, e vai continuar a ser uma bolsa de terroristas residentes, ao serviço da Europa totalitária.
    Dali tem saído a nata dos neo-liberais. Acabar com as pessoas é o seu lema.

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  2. 25 Março, 2016 19:27

    «Pode ser que venham aí medidas securitárias, a extrema direita. Se for a extrema direita democrática, não é um problema. Podem ser mais duros, mas isso não é mau.”»

    Pois se até eles o dizem

    eheheheh

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  3. 25 Março, 2016 19:29

    Incrível como até ao pé desta a laurindinha consegue ser mais tolinha.

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  4. joshua permalink
    25 Março, 2016 19:32

    Câncio ou f. ou “namorada de SóCrash” ou legendária rabiscadora do “J’acuse”, no qual, com um paralelismo criativo com a quaestio dryfusiana, defendia a inocência do SóCrash, está para o jornalismo como o Manuel Tiago do PCP está para a deputação: hoje, já ninguém consegue passar sem um e sem outra para uma boa gargalhada.

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  5. Juromenha permalink
    25 Março, 2016 20:34

    A escriba e o cumprimento da encomenda…
    Agora uma pergunta : gente séria , que trata estes assuntos de forma ( muito)séria, o que faria , no contexto de guerra em que estamos, a esta “peça de desinformação”, para não lhe chamar outra coisa ?
    E uma ideia súbita , de uma incorreção pulhítica pecaminosa e imperdoável : se fosse na Rússia, o que teria acontecido a MolenbeeK?
    Vá lá saber-se porquê, ocorre-me que as tropas do governo de Damasco retomaram hoje Palmyra…
    Diferentes latitudes…

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  6. 25 Março, 2016 21:00

    O vítor consegue tornar uma opinião sensata de direita numa opinião de esquerda boaventura. Insuportável como o Henrique Raposo e o pior de tudo, humor cavaquista e repetidamente sem sal.

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    • Luís Marques permalink
      25 Março, 2016 21:15

      Humor cavaquista? De que buraco saiu esta bolota?

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      • 25 Março, 2016 21:28

        Pronto. Fala-se no cavaco e lá vem o testa de ferro morder as canelas.

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      • Sem Norte permalink
        26 Março, 2016 03:19

        Este R é mesmo esganiçado.

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  7. 25 Março, 2016 21:19

    Vitor, muito bem. Mesmo que eu não alinhe nas suas ideias, tenho de concordar que o seu artigo está cinco estrelas.

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  8. Baptista da Silva permalink
    25 Março, 2016 21:27

    Sexo, eis o problema da Nanda

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    • 25 Março, 2016 23:38

      Claro como água.
      A Câncio é o que se chama na gíria uma GMF.
      Levasse ela umas boas cacetadas e de amarga que é, tornava-se um docinho, até porque bom corpinho tem.

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  9. ali kath permalink
    25 Março, 2016 22:26

    Arnaldo ”isto é tudo um putedo«”?

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  10. lucklucky permalink
    25 Março, 2016 22:39

    “jeans skinny a delinear as pernas rechonchudas”

    A Comissão de Igualdade de Género não tem nada a dizer sobre isto?

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  11. 25 Março, 2016 22:53

    O novo Cancioneiro Geral. Rói-te de inveja, Mário Soares!

    Perdão… roa-se de inveja, senhor Presidente!

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  12. Eu_mesmo permalink
    25 Março, 2016 22:54

    Mas não há uma alma caridosa que tape estes buracos? Pode começar pela boca. Ficamos agradecidos…

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  13. Arlindo da Costa permalink
    25 Março, 2016 23:34

    Molenbeek não é cabala. É canalha às ordens da direita para aterrorizar os cidadãos, A sua 5ª coluna.

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    • 25 Março, 2016 23:35

      Você é um cómico profissional ou é um talento nato?

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    • Sem Norte permalink
      26 Março, 2016 03:34

      Tem razão camarada Arlindo da costa, e a pobreza dos países socialistas como cuba, coreia ou Venezuela é por causa do capitalismo. Até tiveram de construir o muro de Berlim para impedir as pessoas de fugirem da pobreza do capitalismo da rfa para o paraíso do socialismo da rda. Só os burros não percebem.

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  14. Ana Vasconcelos permalink
    26 Março, 2016 11:30

    Parece-me que a esquerda portuguesa ainda não se deu conta de que a atitude de compreensão e simpatia para com os terroristas já não está na moda.

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    • Tiradentes permalink
      26 Março, 2016 11:48

      Nada disso. Dantes estava realmente na moda ir mostrar solidariedade como o BE fazia que ninguém se incomodava pois o terrorismo matava “os outros” (sobretudo israelitas e americanos) e a maioria “abanava o capacete” atribuindo-lhes culpa.
      Agora a coisa tornou-se um pouco mais difícil pois que escorre sangue dos próprios e uma acção de solidariedade cairia muito mal.
      É apenas um recuo tácito embora não se inibam de atribuir a “razão” ás “políticas de direita”, ás “desigualdades”, “à falta de perspectivas de futuro” dos jovens e mais um sem número de auto-culpabilizações que se estendem pelo politicamente correcto sociológico.

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      • 26 Março, 2016 12:14

        É mais perverso que isso. Leia aqui porque esta consegue sempre condensar todos os golpes de rins da escardalhada.

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      • 26 Março, 2016 12:45

        A esquerdalhada só quer (o “só” justifica-se por ironia) alterar o paradigma da sociedade. Para o efeito, no pós-marxismo-revolucionário, a única forma possível é através de revolução permanente e, preferencialmente, de forma mais invisível possível, pelos “direitos humanos” e outras expressões sem grande sentido no contexto em que são usadas. Como diz Zizek, o problema do Hitler foi ser pouco radical, ficando-se por um extermínio que não visou alterar o paradigma e sim manter a sociedade dentro dos limites do paradigma pré-existente. A diferença da esquerdalhada hoje para a esquerdalhada Baader-Meinhof é que há peões para rebentar com as coisas por eles, sejam malucos muçulmanos, sejam marcianos que querem casar com carvalhos. Daí que a esquerdalhada de hoje se possa arrogar ao plano “intelectual”, de activismo de jornal enquanto os patos rebentam com eles próprios, “por causa das políticas de direita”‘e do vil metal. Nada disto é novo, só triste.

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      • 26 Março, 2016 12:16

        A imbecil passa a vida a cuspir nos tugas, achando-se alemã, e até faz isso para esbater o fanatismo islâmico.

        Como se tudo fosse igual e apenas meros casos de polícia individuais.

        Esta é a maior perfídia que se pode fazer.

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      • 26 Março, 2016 12:58

        Há peões e até há “donos” como lhes chama o Euro2Cent.

        Impressionante é isso- os que viram às avessas têm patrocínio dos mesmos que eles dizem querer tirar de cena.

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      • 26 Março, 2016 13:14

        Por exemplo, de quem é este lobby?

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      • Tiradentes permalink
        26 Março, 2016 15:56

        As sociedades mudam os seus paradigmas ao longo da história não porque haja uma ideologia dominante que pugne por esse novo paradigma. O que a história tem mostrado é precisamente o contrário. Em reacção as sociedades se revoltam contra os belos desígnios dessas ideologias e normalmente com revoltas assustadoras.Foi assim com as cruzadas, foi assim com a Igreja , foi assim com o Nazismo e com o Stalinismo.
        Éramos todos “boa gente” até ao momento em que fomos capazes de tais atrocidades

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  15. Expatriado permalink
    26 Março, 2016 14:18

    Os esquerdalhos ja fizeram queixinhas `a tal comixao dos generos?

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  16. Juromenha permalink
    26 Março, 2016 23:21

    E esta,hein ?!
    Faiçal Chaouff, colega da câncio & CA. no internacionalíssimo “jornalismo de causas”, preso como o terceiro terrorista dos atentados de Bruxelas…
    Algum comentário por parte do jornalixo “engagé” cá do burgo, ou por parte da ralé “pulhítica” que justifica o terrorismo , como o bloco de esterco ou o crápulazito do tiago do pc?…

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    • 26 Março, 2016 23:25

      Ela justifica.

      Vá lá ler a nojeira que escreveu no Jugular e percebe como o terrorismo é natural porque também nós nos rebentamos na terra deles e eles já se habituaram a conviver com isso.

      Agora calha-nos a nós e é a vida. Venha mais que ainda é pouco

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  17. Juromenha permalink
    26 Março, 2016 23:42

    Ela “justifica”…
    Minha cara utente do”metro” parisiense, ela justifica,(e se lho disserem não percebe), agora sem aspas, os (abençoados ) métodos russos de lidarem com estes animais.
    Russos, sublinho – disclaimer : sou um “anti-comunista” primário, como se dizia no “meu”, já longínquo,tempo…

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    • 27 Março, 2016 00:06

      Isto que ela escreveu é um vómito sem igual

      «caminhar nas ruas desta cidade com soldados de camuflado, capacete, colete anti bala e máscara, com metralhadoras enormes nos braços, remete-me para imagens de outras reportagens. de há 23 anos em belfast, há 24 anos em jerusalém. quando o horrível passa a ser normal, quando cada saída à rua, cada viagem de metro, comboio, avião é um risco cujo cálculo já integrámos, já nem fazemos.
      não vale a pena perguntar se podemos viver assim, porque sabemos que sim: outros vivem assim e muito pior, e vivem. e quando não vivem dizemos-lhes, nas nossas fronteiras, que o problema é deles.
      »

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    • 27 Março, 2016 00:08

      Podemos viver assim. A cretina diz que isto é que é a forma de vida do mundo multicultarista que criaram.

      E consegue ser de tal modo perversa que finge que também por lá, os tipos são vítimas de atentados de fanáticos europeus que se rebentam por tudo quanto é sítio e lhes estragam a boa paz que tinham construído.

      pqp esta côncia.

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      • 27 Março, 2016 00:09

        Podemos viver assim porque isto é um buraco, o cu do mundo. Está tudo nas escutas.

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      • 27 Março, 2016 00:13

        Ela foi marginal. Acho que isso explica muito. Contou que até participou em espancamento a uma rapariga no Bairro Alto e a deixaram para lá toda partida.

        Foi à conta desse ilustre passado que conheceu o cura de passeata que a levou para os jornais.

        Isto é chunga.
        A laurindinha é uma palerma que só vê sofrimento igualzinho e até os selvagens que atiram uma criança borda-fora são para meter dó.

        Esta vê tudo marginal e terrorismo como destino comum para aprendermos também por termos a mania que temos uma sociedade um pouco menos bárbara.

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      • 27 Março, 2016 00:14

        É isso é tudo escuro e nietzcheano como uma vez também escreveu. Até os góticos são nazis por causa do nihilismo nietzscheano.

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    • 27 Março, 2016 00:09

      Era mesmo deportá-la para a Síria para se habituar ao que lamenta ser um destino comum.

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