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Elias, o Pacheco Pereira de Soutelo

30 Abril, 2016

Elias, filho de Germano e Dona Elisa, é um homem franzino, mas trabalhador, esforçado e dedicado, apesar da tendência para a indulgência em grandiosidade pomposa a pretextos despropositados, como da vez que gravou com diferentes ângulos o ensaio do rancho folclórico recorrendo a 23 câmaras de vídeo de 8 mm não sincronizadas. Dona Elisa foi varina, depois ardina, isso antes de se reformar aos 49 por espondilose, o que lhe permitiu dedicar-se ao cultivo do talento que lhe alcançaria a distinção da mais afinada das cantadeiras a ornamentarem a estridência do Rancho Folclórico e Etnográfico da Vila de Soutelo Norte, “O Arado”.

Elias cresceu no rancho e, aos 8 anos, já era o primeiro cavaquinho da tocata, superando com entusiasmo e dedicação a falta de formação, gosto e conhecimento musical. Munido de um amplificador de guitarra eléctrica que parecia um histórico Marshall JTM45 mas com marca escrita com o alfabeto cirílico, foi o primeiro tocador de folclore português e além-mar a incorporar longos solos distorcidos de cavaquinho na vertente rancho-folclórico-sinfónico com pastiche de psicanalismo. Estávamos em pleno período hippie português, pelo menos em Soutelo, no Verão quente da campanha que permitiria a Cavaco Silva a primeira maioria absoluta.

Aos 22 anos, Elias fazia parte da direcção do rancho. Era terceiro vogal – o “i” – e tinha a responsabilidade de organizar coisas, desde a gestão do bar da sede até à logística para albergar o rancho visitante de Güzçimeni, Turquia, os esquisitos que nem tocaram na valente feijoada à transmontana com que Elias e “O Arado” os acolheu. Nove meses depois desse célebre festival com ranchos de todo o mundo (Portugal e Turquia), nascia o primeiro filho de Elias, um rapaz de tez particularmente escura que, dizia-se, “sai ao bisavô, que era cigano”.

Em 1997, em plena época da explosão da estética punk, pelo menos em Soutelo, Ramirez, o galego com bigode que o tornava no perfeito actor para o senhorio malvado num filme de Chaplin, foi eleito, por dois votos, o novo presidente do Rancho Folclórico e Etnográfico da Vila de Soutelo Norte, “O Arado”. Pela primeira vez desde a sua formação como associação cultural e recreativa, a direcção de “O Arado” não tinha qualquer membro da família Leite-Silva, a prole de Germano, Elisa, Elias e sua irmã Hirondina. Recordo-me de na noite de 24 de Outubro de 1997, uma sexta, ter ido com o meu amigo Ildefonso ao bar do rancho beber um Pisang Ambon com Sumol de ananás – o único sítio que conhecíamos onde o enjoativo néctar custava apenas 120$00 – e de ter assistido à mais eloquente cena de pancadaria da minha vida, envolvendo cadeiras, garrafas de Super Bock e dentes sortidos. Elias, um dos vários intervenientes da cena de pugilato e arremesso, entre múltiplos socos, pontapés e uma prancha de Tabopan, ficou com a cara em papos e polpa sanguínea, enquanto, mesmo assim, arrancou à dentada o polegar de Ramirez, que ficou irreconhecível até pela filha de 12 anos, a Jacinta, que brincava junto à televisão.

Elias jurou não mais voltar ao rancho. Nunca mais colocaria os pés em tal antro de ignomínia. Explicou que a briga foi motivada pela inveja de Ramirez, que queria ser dono do grupo e que achava que mandava alguma coisa só porque era o presidente eleito, sabe-se lá com que votos, mesmo sabendo que o rancho sempre foi da família Leite-Silva. Desde 1997, sempre que vejo o Elias, conta-me a mesma história, de como o Ramirez lhe roubou o rancho, que nunca mais tocou cavaquinho eléctrico, que a etnografia de Soutelo nunca mais será a mesma e que o único destino possível para o grupo folclórico é a sua extinção. Vi, noutro dia, que o rancho mudou-se para um edifício maior, bem mais bonito. Por coincidência também vi o rancho a actuar num programa da manhã da TV, não sei se na RTP ou na TVI. Lembrei-me do Elias, rapaz franzino e obcecado com o velho rancho em plena idade de quem casa os filhos, ao ler este artigo de Pacheco Pereira. Tenho a certeza que seriam os dois grandes amigos, se as circunstâncias da vida acabassem por os juntar.

6 comentários leave one →
  1. JCA's avatar
    JCA permalink
    30 Abril, 2016 16:37

    .~
    Soutela lembrou-me a aldeia, a minha, onde sobre o PAN -> glifosato -> vulgo Roundup (que é o mesmo e por este nome todos os agricultires saberiam do que fala o PAN):
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    recordo-me uma vez comprei Roundup ou se quiserem em ‘latinês cientifoide’ glifosato para arrasar as silvas uma aldeã da serrania disse-me ‘não ponha, é veneno e as minhas cabras pastam aí’ (atenção as silvas podem atingir uns 6/7m de altura em autenticas ‘selvas tropicais intransponiveis’),
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    o PAN, ou outro qualquer, poderia falar dum muitissimo mais espalhado pela população, o tal que subsitui o açucar e vende-se a pontapé nos hipermercados em comprimidinhos para ‘adoçar’ o café etc):
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    Chronically Ill for Years – Aspartame Poisoning – Do You Have The Symptoms
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    Aspartame is marketed as a diet product, but it is not a diet product at all. In fact, it will cause you to GAIN weight because it makes you crave carbohydrates
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    Aspartame is extremely poisonous, and here is why. One of the toxic ingredients of Aspartame is wood alcohol. When the temperature of Aspartame exceeds 86 degrees F, the wood alcohol in the Aspartame is converted to formaldehyde, and then to formic acid, which in turn causes metabolic acidosis.
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    Formaldehyde is grouped in the same class of poisons as Cyanide and Arsenic – which are very deadly toxins. The only difference is… Formaldehyde kills quietly, and it takes a little longer. And, in the process of killing people, it causes all kinds of neurological problems
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    There are 92 documented symptoms of Aspartame Poisoning leading to coma and death. The majority of these symptoms are neurological, because the Aspartame attacks and destroys the nervous system. Some of the symptoms of Aspartame Poisoning are covered below.
    One of these symptoms is Lupus, which has become almost as rampant as Multiple Sclerosis, especially with Diet Coke and Diet Pepsi drinkers

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    People who have aspartame poisoning often suffer from symptoms like breathlessness, elevated blood pressure, diarrhea – that’s always fun, right? – stomach pain, intense itching, and hives.

    http://www.naturalblaze.com/2016/04/chronically-ill-for-years-aspartame-poisoning-do-you-have-the-symptoms.html
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    Porquê só os glifosatos ? Alguma questão de oncorrências ? Porque não o aspartamo este sim direto nos cafezinhos etc de milhões de Portugueses ? Talvez questão de erro de prioridade, dou de barato.
    .

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  2. Arlindo da Costa's avatar
    Arlindo da Costa permalink
    30 Abril, 2016 18:29

    Não percebi, mas prometo ler outra vez.

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    • vitorcunha's avatar
      30 Abril, 2016 18:31

      Não perca tempo, comente só, não leia.

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      • Tiradentes's avatar
        Tiradentes permalink
        30 Abril, 2016 22:23

        é demasiado complexo e figurativo para quem usa apenas um dos hemisférios cerebrais…melhor mesmo é só comentar….

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  3. Fernando Fernandes (@feralfernandes)'s avatar
    12 Maio, 2016 23:20

    Quanta raiva destilais, só pelo simples facto de ainda existir um (1) social-democrata no PPD…

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