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Bye bye Facebook, sua Miss American Pie

13 Janeiro, 2020

War is peace. Freedom is slavery. Ignorance is strength.

No momento em que cedemos voluntariamente ao Facebook o benefício do canal principal de comunicação generalizada, tornando-o no distribuidor exclusivo do nosso pensamento estruturado e espontâneo, cumprimos o sonho húmido da ficção distópica. Uma única corporação mundial com todos os clientes a produzirem um único produto que consiste em obter dopamina em troca da fictícia sensação de relevância.

If you want to keep a secret, you must also hide it from yourself.

Até ao momento em que qualquer pensamento divergente é abafado, banido e eventualmente esmagado, num La La Land masturbatório da solidão emocional das sociedades contemporâneas, pós-religião, pós-arte, pós-informação, pós-independência, pós-liberdade.

Doublethink means the power of holding two contradictory beliefs in one’s mind simultaneously, and accepting both of them.

A sensação de que redes sociais são um veículo para a auto-expressão é permanentemente sufocada pela criação de regras arbitrárias de utilização definidas extra-fronteiras por neo-puritanos, gente dotada de avant-garde tecnológico e ludita sobre a extensão do comportamento humano. Enquanto activismo pro-eutanásia prolifera (e que é o extermínio consciente, deliberado e desumano dos inúteis e dos desesperançados, não haja dúvidas), Anaïs Nin é banida para a cozinha de onde o Facebook nunca quis que saísse. Emancipação feminina é dizer umas tretas bonitinhas, inócuas, parolamente genéricas, não é assumir-se como ser sexual com capacidade de contracepção e livre para escolher a suas próprias loucuras decorrentes do mistério da vida humana. Livre para cometer os seus próprios erros. Para o Facebook, logo para os seus milhões de utilizadores, a emancipação feminina é conformar-se ao lixo da histeria revolucionária anti-natureza.

Until they became conscious they will never rebel, and until after they have rebelled they cannot become conscious.

Há o que pode ser dito, originando grandes doses de dopamina em maravilhosos likes, hahas e loves, e há o que não pode ser dito, porque é era de racismo pelas minorias, de colectivismos por déspotas e de metafísica de hubris.

You are a slow learner, Winston.” Said O’Brien gently.
“How can I help it?” he blubbered. How can I help but see what is in front of my eyes? Two and two are four.”
“Sometimes, Winston. Sometimes they are five. Sometimes they are three. Sometimes they are all of them at once. You must try harder. It is not easy to become sane.

O Facebook não é exclusivamente uma plataforma. Uma plataforma seria agnóstica perante os conteúdos colocados. O argumento de que uma empresa privada pode fazer como quiser acarreta a triste realidade para liberais letrados: bastará então a um governo constituir-se como empresa privada para o total esvaziamento de qualquer causa pública.

Winston Smith: Does Big Brother exist?
O’Brien: Of course he exists.
Winston Smith: Does he exist like you or me?
O’Brien: You do not exist.

O utilizador do Facebook não existe. Milhões de pessoas são usadas pelo Facebook, mas, na realidade, nenhuma delas usa o Facebook. Em troca da droga natural, acreditamos que estamos a dizer qualquer coisa, quando estamos apenas a cumprir a igualdade socialista: a de que somos tão relevantes quanto desejamos.

The Ministry of Peace concerns itself with war, the Ministry of Truth with lies, the Ministry of Love with torture and the Ministry of Plenty with starvation. These contradictions are not accidental, nor do they result from from ordinary hypocrisy: they are deliberate exercises in doublethink.

Crer que se disponibilizam conteúdos é não ver que o que nos é oferecido pela goela abaixo é conformidade. Dizer o certo, pensar o certo, obter recompensa por conformar com as expectativas de bom comportamento da rede.

It was like trying to make a move at chess when you were already mated.

Depois de se entrar no livro dos proscritos, no códice dos danados, na alçada dos Polígrafos e dos outros reguladores da Verdade, não há saída possível. Nunca mais uma página do Do Portugal Profundo aparecerá nos ecrãs de utilizadores Facebook. As que aparecem do Blasfémias têm uma baixíssima audiência face a qualquer outra publicação sem link para o vasto campo de almas perdidas. Porque queremos pertencer a um clube que nos quer ter como membros?

On the battlefield, in the torture chamber, on a sinking ship, the issues that you are fighting for are always forgotten, because the body swells up until it fills the universe, and even when you are not paralysed by fright or screaming with pain, life is a moment-to-moment struggle against hunger or cold or sleeplessness, against a sour stomach or an aching tooth.

Assim será até à próxima dose de dopamina…

Power is in tearing human minds to pieces and putting them together again in new shapes of your own choosing.

…e até à próxima dose da imbecilidade anti-masculina. Até à próxima dose da exposição pública de patologias do foro psiquátrico a que se convencionou, de forma irónica, denominar por “feminismo”. Até à próxima falta escolar da menina Greta.

For, after all, how do we know that two and two make four? Or that the force of gravity works? Or that the past is unchangeable? If both the past and the external world exist only in the mind, and if the mind itself is controllable – what then?

Sem liberdade para publicar não há liberdade para mais nada. Só a ilusão de que repetir muitas vezes a Palavra é o mesmo que a assimilar.

Adeus, “intervenções” de Facebook. Bem-vinda, liberdade de pensamento.

12 comentários leave one →
  1. 13 Janeiro, 2020 11:30

    O momento em que os liberais e afins começam a perceber que essa história de”liberdade negativa” versus “direitos positivos” tem muito que se lhe diga.

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    • 13 Janeiro, 2020 11:43

      Não sei se isso se aplica a mim. Sempre defendi coisas como escola pública, serviço público de televisão, saúde pública… só não creio que para qualquer uma delas seja condição necessária ter funcionários e edifícios. Também nunca quis deixar um mundo radicalmente diferente do que recebi, basta-me zelar para o deixar um bocadinho mais arranjadinho.

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  2. Procópio permalink
    13 Janeiro, 2020 11:48

    Notável a intervenção do vitor.
    Realmente a dopamina barata que o facebook dá aos seus utilizadores é uma das formas do tuga aguentar a sua triste sina. Há outras formas. Tomar sedativos para acalmar, hipnóticos para dormir e anti depressivos antes de pensar em suicídio. Aí batemos recordes.
    O suicídio em forma lenta lá está, no álcool, nas drogas em geral, no tabaco, no açúcar, nos ecrans, na pedofilia, na prostituição, nos fanatismos futebolísticos, na publicidade enganosa e também no empréstimo ao banco. Dirão alguns: “Que tenho eu a ver com isso?”.
    Pois não, mas alguém acaba por pagar os vícios. Os impostos servem justamente para isso além de encherem os bolsos dos impunes, colarinhos brancos, eternamente inocentes.
    O pano de fundo é tanatos. A sociedade dirige-se lenta e inconscientemente para a sua auto-destruição, a energia que resta dos abusos das oligarquias xuxialistas alimenta os instintos de morte. Na América latrina já se vê a olho nu há muito.
    Evoluimos nessa direção sem regresso à vista. O resto é conversa fiada.
    Quando a energia maléfica é dirigida para fora e para os outros, resulta em agressão e violência que começa a ser notícia em permanência, sendo a familiar a mais chocante, Em regra é dirigida contra as pessoas e instituições erradas.
    Preparem-se para mais.

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  3. Terry Malloy permalink
    13 Janeiro, 2020 13:37

    ‘If you want a vision of the future, imagine a boot stamping on a human face – forever.’

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  4. 13 Janeiro, 2020 13:50

    Eu vejo aqui apenas alguém doutrinado no paradigma do muro de Berlin e inconsciente das contradições de que ele acredita, abismado com a doutrinação do novo paradigma e a inconsciência das suas contradições. Alguém em estado de negação e com o desejo de retorno ao antigo paradigma em que ele foi doutrinado pelo dogma e fé.

    Outrora batiam palmas à perseguição condenação e aprisionamento dos nassis e dos “negadores” da altura, enquanto abanavam o capacete ao som dos Beatles e dos Rolling Stones, e obtiam a sua dopamina com revistas da playboy escondidos debaixo do colchão. Enquanto apelavam a liberdade de “assumir-se como ser sexual com capacidade de contracepção e livre para escolher a suas próprias loucuras decorrentes do mistério da vida humana. Livre para cometer os seus próprios erros.”

    Agora ficam confusos quando lhes chamam a eles de negadores paradigma teológico e suas sacralidades .

    Mas no fundo continuam sem noção de nada.

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  5. Filipe Bastos permalink
    13 Janeiro, 2020 15:16

    Percebo as queixas do Vítor Cunha, mas não percebo o que sugere.

    Defendo que mamões – sobretudo americanos – como o Facebook, a Amazon ou o Google deviam ser, se não banidos, pelo menos divididos e submetidos a controlo democrático. Qualquer empresa acima de, digamos, mil milhões, devia ter uma ‘golden share’ estatal. Não podia ser 100% privada, não podia fazer o que lhe dá na gana.

    Mas decerto rejeita tudo isto como comunice. Ora, o FB é privado, encontrou o seu mercado – a vacuidade, o narcisismo e o carneirismo de milhões – e ganha biliões com isso. Se impõe censura politicamente correcta não é por esquerdismo: é porque mama mais assim.

    Se amanhã o PC for de direita, ou de outro lado qualquer, o FB passará a impô-lo em vez deste. Desde que mame está tudo bem. Por muito que tente aqui meter ‘socialismo’ à força, o FB e outros mamões são o capitalismo em acção. Logo, de que se queixa a direita?

    As suas citações de Orwell provêm de um mundo ainda controlado por governos e ideologias. O FB, o Google, ou os ‘mercados’ têm mais poder do que todos os governos.

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    • 13 Janeiro, 2020 15:20

      Não concordo mesmo nada com as discordâncias sobre o que (aparenta) pensar que eu penso. Nem sequer me oporia à tal “golden share” que refere.

      Quanto a virar à direita e passar a censurar a esquerda, é um cenário sem qualquer hipótese de aderência à realidade e explico porquê: à esquerda compete encontrar falhas, indignações, mudanças nos sistemas; à direita compete assegurar que qualquer mudança está sustentada na manutenção do que funciona.

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      • Filipe Bastos permalink
        13 Janeiro, 2020 15:37

        Do que funciona para quem, Vítor? É esse o busílis.

        A direita nunca percebeu, ou nunca quis perceber, que a esquerda surgiu porque os mamões mamavam de mais. E continuam a mamar. Por isso existe esquerda. A vasta maioria do planeta é pobre ou muito pobre.

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      • 13 Janeiro, 2020 15:41

        Do que funciona para manter o equilíbrio entre todos, dos pobres e dos ricos, dos que não reconhecem o equilíbrio e dos que o reconhecem, dos que aceitam “a sociedade” e dos que não a aceitam.

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      • 13 Janeiro, 2020 18:13

        “à direita compete assegurar que qualquer mudança está sustentada na manutenção do que funciona.”

        E porque é que isso impede que haja censura “de direita”? O que mais houve na história da humanidade foi censuras para preservar o status quo (p.ex., o Index da Igreja Católica, feito para combater a reforma protestante), seja ele qual tenha sido; e sobretudo, censura no sentido de “não há nenhuma lei proibindo-te de dizer isto, mas organizações poderosas que controlam os meios de divulgares o que queres dizer não te deixam fazer isso” o que mais tem havido é nos sentido conservador – não deve ser difícil arranjar uma lista de livros, filmes, etc que tiveram dificuldade em serem feitos ou publicados por serem demasiado arrojados face ao status quo da época (se alguma coisa, até imagino que as grandes empresas se sintam menos à vontade com mensagens contestatárias – que quase por definição incomodam mais gente – do que com conservadoras – que quase por definição tendem a coincidir com o sentimento vigente na sociedade).

        Aliás, até suspeito que o que leva a esses casos em que a censura do Facebook ataca os “conservadores” e beneficia os “progressistas” é que, na realidade se calhar hoje em dia são os “progressistas” que são conservadores-com-c-pequeno (no sentido de muito das suas ideias se ter tornado no establishment), enquanto muito dos chamados “conservadores” é que são contestatários da ordem estabelecida..

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      • 13 Janeiro, 2020 18:19

        É uma reflexão justa. Contudo, não vejo conservadores como meros reaccionários, tal como não vejo liberais como progressistas, independentemente das modas locais e externas. Dou um exemplo: fui contra o casamento gay; hoje sou contra a sua revogação. Há espaço para indivíduos como eu?

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      • 13 Janeiro, 2020 18:22

        Mas fico a pensar. Haverá zelotas que para preservar o ordem sejam capazes de censura à esquerda e direita. Talvez até seja humano que tal aconteça em hierarquias de poder. Talvez por isso continue a ser um liberal-conservador-agnóstico-católico, cada vez mais uma ilha solitária de apenas aparente contradição.

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