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São areias movediças

4 Agosto, 2020

Em tempos, disseram-me que se não se tem nada de bom para dizer é melhor estar calado. Quando o ouvi achei que isso também se enquadrava em não ter nada de bom a dizer, pelo que pensei que o melhor conselho seria a própria pessoa segui-lo. No entanto, hoje penso mesmo que é necessário ter algo a dizer para que se diga alguma coisa.

À medida em que o Verão se aproximava da metade, não senti qualquer necessidade de dizer fosse o que fosse. Hoje, rodeado de areia e corpos mais ou menos destapados, sinto necessidade de dizer que muitos de nós continuam a não mudar, por muito que os outros mudem. Mais ruga, mais gravidade sobre apêndices outrora estritamente paralelos ao terreno, nós ainda estamos aqui, como diz a canção do Miguel Araújo. Perdemos alguns pelo caminho: ou por que não sabem o que vão fazer da sua vida, ou por que morreram de algo inglório como não terem COVID–19, ou por que simplesmente desistiram de tentar compreender o mundo e insistem na jogatina da escolha presidencial, da renovação da direita, da alienação perante o desastre bíblico que paira sobre nós e que, como gafanhotos caindo dos céus, nos atingirá no Outono.

Tirando o riso das crianças, a arte que baby boomers e anteriores nos deixaram, os simples prazeres da vida como mergulhar nu num dos recantos inatingíveis pelo reboliço lisboeta da aristocracia decrépita em gritos por atenção e dos encontros nocturnos com os felizardos que têm com quem compartilhar o resto da vida, tudo o resto são migalhas de bosta esmigalhada para moscas esfomeadas.

Por isso, o que tenho de bom a dizer, porque se não tivesse seria para estar calado, é que aproveitem a vida que podem ter hoje, por que esperar por amanhã para aproveita-la poderá ser bem mais difícil.

10 comentários leave one →
  1. 4 Agosto, 2020 14:28

    Belo texto!

    “morreram de algo inglório como não terem COVID–19”
    Beautifully put!

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    • carlos rosa permalink
      5 Agosto, 2020 00:25

      O ministro? Siza Vieira diz que até ao fim do ano vamos ter um banco novo, o de Fomento.
      Nem mais. É mesmo isso que está a fazer falta ao país. Há cá poucos.
      E o mais engraçado é que o bacano consegue discursar sobre o caso sem se rir.

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  2. castanheira permalink
    4 Agosto, 2020 14:54

    “Em indivíduos a insanidade é rara . Mas em grupos ,partidos , nações e èpocas , é a regra.”
    Friedrich Nietzsch

    Liked by 3 people

  3. LTR permalink
    4 Agosto, 2020 15:03

    Antigamente, antes do dr.Costa tomar conta disto tudo sem saber e deixar o resto em banho maria, quando eu não tinha nada para dizer, aproveitava as férias e contava uma daquelas anedotas do Samora Machel aos amigos, mas agora não posso porque ingresso logo na classe dos racistas criminalizáveis, enquanto brancos e pretos brasileiros contam à vontade anedotas sobre portugueses brancos. A miséria que vejo à volta é tão grande que se não tivesse família nem amigos e tivesse um botão que me fizesse desligar sem sofrer, acho que ou emigrava ou carregava já nele.

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  4. jppch permalink
    4 Agosto, 2020 15:56

    “Tirando o riso das crianças, a arte que baby boomers e anteriores nos deixaram, os simples prazeres da vida como mergulhar nu num dos recantos inatingíveis pelo reboliço lisboeta da aristocracia decrépita em gritos por atenção e dos encontros nocturnos com os felizardos que têm com quem compartilhar o resto da vida, tudo o resto são migalhas de bosta esmigalhada para moscas esfomeadas.”

    Belo e sustentado parágrafo… parabéns

    Onde descanso e banho em pleno Interior, não há entrada a essa aristocracia decrepita, oligárquica e nojenta que povoa o espaço lisboeta.

    Mais uma vez parabéns

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  5. 4 Agosto, 2020 20:09

    Há uma expressão que nunca deixa de me divertir:
    ‘Estás cada vez mais na mesma!’.
    Uma frase que se equilibra entre a ironia, a sinceridade, o elogio afectuoso e o mais tremendo e corrosivo dos sarcasmos…

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    • isabel permalink
      5 Agosto, 2020 13:56

      Belo artigo.
      O mal é que, com os elementos que vou apanhando, temo que isto não esteja cada vez mais na mesma mas antes cada vez “mais pior”.

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  6. carlos rosa permalink
    4 Agosto, 2020 21:55

    Chega/PSD………PSD/Chega

    PS à rasca.

    José Luís Carneiro, o da careca tapada insurgiu-se.

    Não quer apoios a quem lhe descobre a careca.

    Tens careca tens e o teu chefe também vai pagá-las.

    Eu estou para ver esta murraça toda de políticos a mamar quando o Chega correr com eles todos.
    O que é que esta gente vai fazer à vida. Só sabem dar à língua.
    Têm que fazer qualquer coisa para ganharem o pão. Comprem uma horta e uma enxada com o dinheiro que roubaram ao povo e força, cavem para “viverem ao todo mais 20 anos” como cantava o grande trovador, já falecido, Pedro Barroso.

    Pois, não fiquem baralhados. O Chega vai governar para todos os portugueses e vai ser justo para os todos os portugueses, incluindo logicamente os que andam iludidos com a conversa da Esquerda. Muitos destes são muito melhores que certos direitolas que só querem é mama como os esquerdolas.
    Ah pois.
    Por essas e por outras é que o PCP o Costa e o BE não podem com o Chega.
    Aguentem-se. O carro da mudança está em andamento e já não o conseguem parar.
    Se quiserem tomem nota disto. O André Ventura vai ter uma percentagem de votos nas eleições de Janeiro com 2 dígitos.
    Então não vai ser só o PS a ficar à rasca. Vai ficar muita tropa fandanga enrascada.

    Liked by 1 person

  7. pedro cruz permalink
    6 Agosto, 2020 20:04

    Caro Vítor,
    Se essa desculpa se destina a disfarçar algum estado temporário de ‘spleen’ ou mesmo de preguiça de Verão, está desculpado. Se, porventura, interpretou esse cliché estrita e literalmente, como se fosse um fundamentalista islâmico diante de um versículo do Alcorão, e decidiu, deveras, privar-nos do seu sarcasmo, da sua ironia, da sua, por vezes, indignação e sobretudo do seu bom humor, convido-o a fazer um pequeno esforço, exegético, antes de tomar uma decisão tão drástica para si, e empobrecedora para nós, seus leitores assíduos.
    Do pouco que sei, também os ‘Hadith’ (os ditos e feitos do profeta) integram a ‘Sharia’ (a Lei Islâmica). Porém, assim como teremos que ter em consideração as circunstâncias e o contexto em que o Mafoma disse, fez ou calou para extrairmos do seu ensinamento uma norma, também o nosso Caro e blasfemo bloguer deverá ter em consideração o contexto ou circunstância da pessoa que lhe dirigiu da frase a interpretar – ‘Se não tiveres algo de bom para dizer, não digas nada’ -, para melhor identificar o âmbito de aplicação pretendido. Poderia começar essa interpretação à moda farisaica: – «dizer» é diferente de… ‘escrever’; Mas a nós – o Vítor e eu – ainda somos cristãos, interessa-nos a ‘ratio’ da norma, a sua essência e sentido; a respectiva letra é, apenas, o veículo.
    Manifestamente, o autor da frase, norma, estava em discurso directo; «disseram-me», escreveu o Vítor. Para além do discurso directo – e aqui a interpretação literal, usada por todos os fariseus, dá o seu contributo – a norma contém duas expressões que nos convencem de que a intenção do autor dela se limitava não só ao discurso directo mas, também, à oralidade; isto porque refere: «…mais vale estar calado.». E qual a finalidade mais imediata pretendida pelo autor da norma? Certamente garantir que a convivialidade entre interlocutores se processe de forma harmoniosa, pacífica, eficaz, construtiva. É uma norma característica de uma comunidade pequena, onde toda a gente se conhece e convive (é obrigada a conviver) entre si, onde é importante manter – ainda que à custa de alguma hipocrisia – intacta a honra do interlocutor e abertos os canais de comunicação e, bem assim, os eventuais dissensos em ‘lume brando’. Nada disto se confunde com o que se publica, que, frequentemente, nas sociedades pequenas, pode revesir formas de grande duresa.
    Na ‘piolheira’ que foi, e é, o nosso país, que na parte que interessava ia apenas ‘do Rossio ao Chiado’ (ou ‘das arcadas do Martinho’, já não me lembro bem), foi publicado com sucesso e paz, durante algum tempo, um dos meus livros de cabeceira, As Farpas, que mais de um século depois ainda é republicado, sem incidentes para os Autores: Ramalho Ortigão e Eça de Queirós. De resto, V. Exas., ilustres blasfemos, mantendes este blogue há um ror de anos, também sem incidentes e com muito proveito para os autores.
    Portanto, meu Caro, faça lá o favor de regressar à lide. Verá que, a si, lhe faz bem à bílis, a nós ao (bom) humor, dominuindo o geral regime de bovinidade, em tempos de necessária diminuição dos gases com efeito de estufa*.
    Pedro Cruz
    Nota*: Como vê, a menina Greta deveria também ser seguidora deste blogue.

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    • Pedro Cruz permalink
      6 Agosto, 2020 20:09

      Para além do mais, e é a mais grave: «dureza». cfr. supra
      Pedro Cruz

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