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Só mamam e eu quero que mamem outros

14 Julho, 2022

A propósito dos dois últimos posts — uma expressão recorrente que se arrisca a uma cardinalidade crescente em homenagem a todos os números naturais —, alguém levanta o problema recorrente que consiste em “mamar na teta do estado”. É, realmente, uma questão séria para todos os liberais. Tão séria que até merece que deputados que se denominem liberais considerem abdicar de prestações pecuniárias para que não sejam vistos como seres mamadores da tão concorrida teta estatal. Isto porque, meus amigos, nós não somos de hipocrisias: apesar de não ser mamar, pois é a execução de um trabalho, de uma função essencial à democracia e a outras coisas bonitinhas sem qualquer significado que a malta regurgita alegremente do vasto pasto de clichês regimentais, poderia ser confundido com um cantor pimba qualquer, que vai ali cantarolar umas coisas sobre só levar no pacote (mensagem ecológica) ou enfiar na garagem da vizinha (cooperação estratégica e planeamento rodoviário para melhor fluxo de trânsito nas congestionadas cidades).

As câmaras municipais torram dinheiro dos contribuintes, disso não há dúvidas. Bem, há algumas dúvidas, mas são conceptuais, nomeadamente sobre se o dinheiro é dos contribuintes mesmo. Se uma árvore é roubada na floresta e continua a eleger os mesmos ladrões, será que foi mesmo roubada? — já questionava o velho dizer zen. Mas vamos admitir que torram. Torram então em maravilhosas edificações como piscinas municipais (por acaso estão encerradas para obras desde o dia em que foram autorizadas a abrir mal passou a tormenta da pandemia que passou a matar mais pessoas quando acabou do que durante — devem reabrir lá para… é este século, de certeza). Mas também em gimnodesportivos para idosos, parques de chuto com áreas de “arte” “urbana” (aquela que consiste em “Júlia, deixa que te vá ao pito” seguida da resposta “Quero tatuar o teu nome no anus, Fred Grosso”). Isto sem esquecer as maravilhosas rotundas com calhaus de diamante (pelo preço) a enfeitar e que representam a opressão do proletariado pelos russos portadores de monkeypox. Ou até sem esquecer os procedimentos lindos como compensar a autarquia por parcela de terreno não cedido sem que tal tenha sequer sido solicitado — foram 5000€ aqui do Gervásio só para não se armar em latifundiário de terreno previamente devoluto, fora as restantes taxas.

Consta também que pagam a músicos para entreter as populações. Alguns de gosto duvidoso, outros bem fixes, enfim, uma miríade de mamadelas de teta completamente diferentes das mamadelas da deputação nacional (diferentes porque os músicos efectivamente conseguem entreter alguém, mesmo sem estarem nas televisões 24 horas a mostrarem que qualquer corte precisa de bobo). Ou seja, de todo o dinheiro torrado pelas autarquias, aquele que é gasto com artistas é o que realmente pode originar satisfação dos habitantes locais.

Temos que acabar com isso. No próximo ano, quando chegarem as festas de Verão da vila, a autarquia deve contratar um deputado que entretenha com o seu discurso sobre a beleza que é viver em Lisboa, ser reconhecido na rua e participar em marchas de orgulho da supremacia gay. É o que vai cair mesmo bem com as farturas e o algodão doce.

4 comentários leave one →
  1. Atento permalink
    14 Julho, 2022 19:10

    Cunha, mamar na teta do Estado não é apenas ser pago por um bem ou serviço adquirido pelo Estado: é aproveitar o relaxe, o amiguismo, a cunha, a corrupção ou a negligência de quem administra o Estado – políticos, funcionários, ‘gestores’ – em benefício próprio. É ser chulo ou mamão.

    (Outro dia, com mais tempo, podemos distinguir entre chulos e mamões.)

    Como na célebre Tragedy of the Commons, que decerto lhe será familiar, o que é de todos não é de ninguém, e acaba estourado, roubado ou mamado pelos que têm acesso à teta. Como em tudo, a escala pode variar. A EDP mama em grande, o Tony Carreira um pouco menos.

    Talvez, como sugere, alguns queiram ser entretidos pelo Tony. Mas não cabe ao Estado encher um mamão como ele, ou degradar ainda mais o já duvidoso gosto dos cidadãos. O Estado deve elevar e instruir; deve ser frugal e exigente. Deve dar o exemplo. E deve, já agora, taxar mamões como o Tony.

    Daí a urgente necessidade de uma democracia mais participativa e de controlar esta canalha política. Esta canalha não pode continuar a decidir tudo sozinha; a carneirada não pode continuar a lamber o rabo a Tonys e outras ‘celebridades’ enquanto é chulada e roubada. Isto precisa duma grande volta, Cunha.

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    • 14 Julho, 2022 19:18

      As coisas precisam sempre daquilo que nunca terão. Admiro o optimismo, mas tenho que viver no mundo real, o de não sofrer desilusões por me ter iludido.

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      • Atento permalink
        14 Julho, 2022 20:30

        Prefere desistir? Tem algo melhor?

        Daqui a uns tempos estará morto. Eu também. A sua família e amigos, lamento, também. Que temos realmente a perder?

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    • 16 Julho, 2022 08:05

      Se passar os ouvidos pela Antena 1 poderá encontrar aí os verdadeiros mamões da música ligeira e de “qualidade” nacionais. O Tony nem lá passa, tão idolatrado pelo povão e nem merece menção na radio publica. No entanto passam por lá com grande destaque “génios” musicais que sobrevivem a fazer o circuito dos auditórios “rurais” e das entradas gratuitas.

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