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“Futebol e tomates (cereja)” *

7 Julho, 2010
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Quando me deram a notícia de que o João Moutinho vinha para o F. C. Porto estava a almoçar. Nesse instante, debatia-me com uma salada que ostentava um ingrediente que me aborrece, embora esteja na moda: o chamado tomate-cereja. Trata-se de uma perspectiva ultra-restritiva do tomate tradicional, minúsculo, quase sem sabor, mas, segundo os especialistas, com grandes propriedades de aperitivo e perfeito para decorar os pratos.

Não pude deixar de pensar que a minha salada e o tema da conversa possuíam uma analogia que excedia bastante a mera coincidência – na verdade, para mim, a distância que desvia o João Moutinho de um verdadeiro jogador de futebol na sua posição no terreno e integrado numa equipa que tem de vencer mesmo a sério estará perto daquela que separa o tomate-cereja do tomate propriamente dito…

Não é só uma questão de tamanho (1,70m de altura e 60kg de peso) mas também – claro que os jogadores não se medem aos palmos. Abundam os exemplos de atletas baixotes que superam as suas limitações físicas e conseguem transformá-las em argumentos que desbaratam os adversários mais potentes.

Mas, acontece que Moutinho é realmente um jogador baixo e frágil. Mesmo quando era incensado pela imprensa desportiva (o que não aconteceu na última época) impressionava-me negativamente a facilidade com que pinchava em cabriolas no relvado mal um defesa se lhe encostava, as fitas histriónicas que faziam parecer cada falta corriqueira numa agressão mortal, o modo quase infantil como era emurchecido por uma marcação bem feita e o invariável sumiço que o acometia quando o Sporting mais precisava das suas tão apregoadas aptidões.

Depois, Moutinho representa o pior da cultura sportingista: habituou-se a não ganhar coisa nenhuma, fez da derrota um modo de vida no futebol, familiarizou-se com a lógica dos queixumes incessantes, irrealistas e inconsequentes, contra as agruras da ordem natural das coisas e do futebol, adaptou-se e conviveu bem com o facto de ser um perdedor colocando sempre o ênfase da mudança que anualmente se fingia em causas externas em vez de se tentar corrigir por si.

Para além do mais, Moutinho teve uma última época miserável e falhou claramente como capitão. Recordo o modo arrogante como se abotoava à marcação de bolas paradas, quase sempre destinadas ao insucesso. Quanto a mim, o Sporting fez um excelente negócio, Moutinho também mas o meu clube não.

Pode ser que não tenha razão – como portista, espero-o sinceramente. Entretanto, vou tentar não engolir nenhum tomate-cereja durante a época que se avizinha…

* Cabo da Boa Esperança, ontem, no Jornal de Notícias (sem link)

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