Ontem, num jantar de amigos e conhecidos, discutiu-se o investimento português no estrangeiro. Em dado momento, um dos presentes, empresário português de alguma dimensão, queixou-se que andava há quatro anos a tentar entrar no mercado de São Paulo sem sucesso, tendo já gasto uma imensa quantidade de dinheiro para conseguir pouco mais do que meia dúzia de clientes precários. As suas principais expectativas de negócio tinham falhado, apesar de, segundo ele, ter entrado pelas portas certas, pela mão de alguns “gajos importantes”. Todos lhe prometeram muito, cobraram bem e, no fim, trouxeram nada. O nosso colega comensal não entendia a razão do seu fracasso.
Eu também só a entendi hoje. O “gajo importante” de São Paulo é o “general angolano”, o “ministro” e o “presidente de câmara” de outras paragens. Bem mais do que um indício de “chico-espertismo” de algum empresariado indígena, isto é uma clara confissão de incompreensão do que é uma economia de mercado. Nesta – a única economia que verdadeiramente existe – o consumidor é soberano, como tantas vezes lembrou Ludwig von Mises. Numa economia aberta, com reduzida intervenção do estado nas relações de mercado, não existem generais angolanos, ministros ou presidentes de câmara, isto é, “gajos importantes” que imponham aos consumidores as suas escolhas finais. O único “gajo importante” é o consumidor e é às suas necessidades que os empresários têm de atender.
Isto é o que muitos empresários portugueses, quer invistam apenas em Portugal ou no estrangeiro, ainda não entenderam. Habituados ancestralmente ao corporativismo de estado indígena e a um modelo económico onde o sucesso dependia dos favores da política e da burocracia, desconhecem o que seja o mercado. Por isso os vemos, quantas vezes, a pedir o apoio do estado e do governo nos seus negócios, como os vemos a ir para África em busca de generais que lhes facilitem os negócios, ou para o Brasil e outras paragens, em busca de influências que lhes vendam os seus produtos. Quando seguem esse caminho fracassam, invariavelmente. Gastam dinheiro e recursos com quem apenas lhes quer apanhar o que julgam que eles têm, e quando os negócios conseguem singrar, ficam-lhes com eles.
A economia dos “gajos importantes” é, desde há muito, a matriz nuclear da economia portuguesa. Está na hora de a trocarmos por uma verdadeira economia de mercado.