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Haja quem nos limpe o cu

10 Dezembro, 2017
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O assunto está na moda. Não há think-tank, jornal ou político iluminado que não fale do que aí vem: o progresso tecnológico ameaça acabar com a necessidade de trabalho humano e enviar-nos todos para o desemprego. Os mais excitados falam de um futuro em que estaremos subjugados ao poder do grande capital que deterá os robots com inteligência artificial, escravizando a classe operária. Não falta então quem sugira ideias geniais como a do rendimento básico incondicional (uma espécie de RSI para todos) ou impostos sobre o rendimento dos robots.

Estas teorias catastrofistas assentam em três pressupostos. Primeiro, que estamos a assistir a uma evolução tecnológica sem precedentes que levará à substituição de trabalhadores por máquinas. Em segundo lugar, que esta evolução tecnológica não tem precedentes na história da humanidade, que desta vez é diferente pela rapidez com que acontecerá. Em terceiro lugar, que esta mudança será negativa para a sociedade como um todo, especialmente para os mais pobres.

O problema com estas teorias é a realidade. Comecemos pelo primeiro pressuposto. Se estivéssemos a assistir a uma substituição sem precedentes de trabalhadores por máquinas, isso ficaria evidente nos indicadores de produtividade. A produtividade, grosso modo, corresponde ao volume total de produção dividido pelo número de trabalhadores. Se o dividendo se mantém igual ou cresce e o divisor cai, então a produtividade estaria a aumentar. Infelizmente, não é isso que está a acontecer: as economias desenvolvidas estão num processo de estagnação em termos de produtividade desde o início do século. A produtividade cresce a ritmos cada vez mais baixos, o contrário do que seria de esperar se estivéssemos num processo acelerado de substituição de homens por máquinas.

Mas vamos ignorar isto. Vamos então fingir que a produtividade é mal calculada e que na verdade está a crescer a um ritmo acelerado. Ou então que há outros factores não relacionados que estão a contrabalancear o efeito da automação. Ou ainda que que a automação ainda não começou a substituir trabalhadores humanos, mas que irá começar muito em breve. Não falta quem aponte números: 50% dos empregos irão desaparecer nos últimos 50 anos. Será que isto é novo? Podemos dar um passo atrás. Pensemos no mercado de trabalho nos anos 90: quantos daqueles empregos existem ainda hoje? Quantos trabalhadores em 1992 se fossem transportados no tempo para os nossos dias teriam o seu emprego tal e qual o tinham? Ou, visto de outra forma, quantos trabalhadores hoje estão em empregos que já existiam em 1992? Hoje temos muito menos bancários e mais programadores. Menos empregados de mesa e mais operadores de call center. Menos portageiros e mais hospedeiros. Mesmo os empregos que nominalmente se mantiveram iguais, alteraram-se de forma tão substancial que dificilmente se pode dizer que são o mesmo emprego (pensemos em jornalistas, por exemplo). Se fizermos a análise entre 1992 e 1967 a diferença é ainda maior. No entanto, para além das flutuações conjunturais é difícil identificar uma enorme subida do desemprego em resultado do desaparecimentos daqueles empregos. Se 50% dos actuais empregos desaparecerem nos próximos 25 anos isso não será necessariamente novo. Nem sequer, note-se, deverá causar desemprego temporário, uma vez que 50% dos trabalhadores também deverá reformar-se nos próximos 25 anos. Apesar de tudo, o perfil dos jovens que hoje começam a sua carreira é bastante diferente da média dos actuais trabalhadores. E certamente diferente do que será daqui a 25 anos.

Por outro lado, a substituição de trabalhadores é feita de forma lenta e gradual. O facto de uma tecnologia estar disponível não quer dizer que venha a substituir imediatamente todos os trabalhadores que pode substituir. Pensemos no caso da Via Verde que existe em Portugal há mais de 20 anos. Durante este período, muitos empregos de portageiro desapareceram. No entanto, os portageiros desapareeram do mercado de trabalho mais rapidamente que os empregos nas portagens. Fruto disso, apesar da Via Verde ser uma tecnologia madura, a Brisa ainda hoje contrata portageiros. Ou seja, uma tecnologia simples que substitui empregados de forma directa e com poucos custos de implementação falhou em substituir todos os empregados disponíveis para a profissão. Imaginem agora o que será com tecnologias complexas como inteligência artificial ou carros autónomos.

Para os portugueses que ainda tenham dúvidas, há uma forma ainda melhor de ficar descansado. Portugal, como um país atrasado no conjunto dos países desenvolvidos, tem a capacidade de conseguir de antecipar o futuro, olhando para os países 20 anos à frente. É o caso do Japão, o país com o maior número de robots do Mundo, com um nível de automação a que Portugal só conseguirá chegar daqui a 15-20 anos. E no entanto, o desemprego é praticamente inexistente. Com uma densidade de robots 20 vezes superior à portuguesa, o Japão praticamente não tem desempregados e os seus trabalhadores queixam-se mais do excesso do que da falta de trabalho.

O terceiro argumento é de que a automação, substituindo empregos manuais e pouco sofisticados, afectará principalmente os pobres. Mais uma vez, contraria a história: o progresso tecnológico é uma força equalizadora. O progresso tecnológico torna luxos apenas disponíveis para os mais ricos em bens essenciais e generalizados. Pensemos em algo que há umas décadas ainda era um luxo: água canalizada. Um membro do topo da hierarquia no século XV teria acesso constante a água (trazida pelos aguadeiros de serviço). Para pessoas no topo da hierarquia o aparecimento de sistemas de água canalizada trouxe menos benefícios do que para os pobres (que não podiam ter empregados a transportar água). O mesmo acontece com a alimentação, a arte e o entretenimento. O progresso tecnológico (seja ele na forma de água canalizada, máquinas agrícolas, televisões ou aviões) beneficiou sempre desproporcionalmente os mais pobres. A água canalizada tirou emprego a centenas (milhares?) de aguadeiros, mas foi o que permitiu às classes menos afortunadas ter acesso a água

Nesta altura da discussão, há sempre alguém que se levanta e pede exemplos específicos de empregos que irão substituir os actuais. Eu só consigo imaginar o desespero destas mesmas pessoas se em 1930 lhes dissessem que daí a 50 anos, 3% dos trabalhadores seria suficiente para produzir os bens alimentares de toda a população. Consigo imaginar o seu desespero ao tentar imaginar onde trabalhariam os outros 60% de trabalhadores que nessa altura se dedicavam à agricultura. A verdade é que hoje não temos 60% de pessoas desesperadas de enxada na mão de porta em porta à procura de trabalho. Tal como as pessoas em 1930 não conseguiriam imaginar que empregos iriam substituir os empregos na agricultura entretanto automatizados, também para nós será difícil fazê-lo.

Uma boa forma de tentar adivinhar que empregos serão esses é analisar a sua vida e pensar o que é que gostava de ter e não tem. Em 1930 poucas pessoas faziam férias, jantavam fora ou tinham acesso a entretenimento de qualidade. A simples ideia de que estas seriam actividades normais mesmo entre a classe média baixa seria ridicularizada. Mas isto é hoje uma realidade porque muitos dos recursos humanos utilizados na agricultura foram automatizados e o seu esforço desviado para a prestação deste tipo de serviços.

Em 2017, o que vos falta? A mim salta-me logo uma tremenda necessidade presente e que tenderá a agravar-se no futuro: o cuidado a idosos. O cuidado a idosos com problemas de mobilidade é hoje caro e inacessível à maioria das famílias. Muitos dependem de cuidadores informais ou são abandonados em hospitais. Com o envelhecimento da população, o problema apenas tenderá a agravar-se. Será preciso desviar muitos recursos de outros sectores para suprir todas estas necessidades nas próximas décadas.

Nos anos 60 muitos previam que as viagens espaciais se tornariam comuns no final do século. As pessoas da minha idade cresceram a ver os Jetsons com a certeza de que quando fossem adultos não teriam que realizar tarefas domésticas básicas. A verdade é que hoje as viagens à lua são extremamente raras e lavar a louça extremamente frequente. Enquanto tantos economistas se preocupam com a legião de desempregados que a automação e robotização irão criar, talvez nós, pessoas na casa dos 20-40 anos, devêssemos estar mais preocupados em que o progresso tecnológico liberte recursos suficientes para um dia termos quem nos limpe o cu. Ou então que nos próximos 40 anos apareça um robot capaz de o fazer. Suavemente.

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9 comentários leave one →
  1. Procópio permalink
    10 Dezembro, 2017 19:59

    Não me parece particularmente difícil robotizar o ato.
    Haverá sempre empregos para quem queira fazer alguma coisa, naturalmente.
    Pode é não haver comida suficiente para os biliões que aí vêem.
    Isso é outra história.

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  2. Weltenbummler permalink
    10 Dezembro, 2017 21:49

    vão desaparecer empregos que como sempre serão substuidos por outros
    o rectângulo terá problemas de adaptação
    censo de 2011: 50% tem no máximo 4 anos de escolaridade
    abandono escolar muito elevado
    ‘trabalhar é bom para o preto’

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  3. 10 Dezembro, 2017 22:19

    É o renascer do movimento Ludita, no início da Revolução Industrial…

    Os Iluminados da Cátedra já estão a tratar do assunto…
    O Reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, é o mais recente Ludita:

    Estipula ele, na sua imensa Catedratice:

    “Não sei porque é que a máquina que substituiu as pessoas na portagem da autoestrada não paga taxa social única. Acho que devia pagar”

    Movimento Ludita – «um movimento operário que em 1812, na Inglaterra se dedicava ao assalto de fábricas para destruição das máquinas»

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  4. Procópio permalink
    10 Dezembro, 2017 22:48

    No sítio o problema já está parcialmente resolvido. Uns a trabalhar e a pagar impostos para uma multidão de inaptos desinteressada em trabalhar vegete. Ninguém os aceitaria para trabalhar fosse no que fosse.
    Os que pagam impostos já estão a perceber que o futuro está noutros lados, os inaptos acabam por ser a maioria, ganham as eleições votando nos partidos que sabemos, e tudo corre para eles às maravilhas até que….o cacau começar a faltar. Nessa altura o que restar é espoliado e passa para mãos sequiosas de bem fazer de preferência com fogo de artifício.
    A UE olhará à distância e lamentará o sucedido. O QE esfuma-se.os juros sobem, quem se safar safa-se, quem não for a tempo…daqui à venezuela é mais perto do que pensam
    Na venezuela já não há papel para limpar o cu. Em cuba só a hierarquia limpa.
    E não é sempre.

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  5. Arlindo da Costa permalink
    10 Dezembro, 2017 22:51

    Há dias o Hugo Soares apresentou uma proposta que vai «colmatar essa lacuna» que o ilustre autor antecipa.

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    • 11 Dezembro, 2017 01:16

      “Em 2017, o que vos falta? A mim salta-me logo uma tremenda necessidade presente e que tenderá a agravar-se no futuro: o cuidado a idosos.”

      PS+PCP+BE+PAN+Verdes resolvem: EUTANÁSIA para toda a gente!

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  6. 10 Dezembro, 2017 23:55

    com uma impressora 3 D em casa o que mais me apoquenta são os robots , pois são 🙂 já agora publico um anúncio de emprego : precisa-se pessoa habilitada para construir coisas ( casas , carros ,mesas , robots e assim) a partir de módulos impressos . obrigada.

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  7. VFS permalink
    11 Dezembro, 2017 11:01

    Haja contraditório. É sempre bom.

    Contudo, o texto e os pressupostos estão incompletos. A questão não é a apenas a tecnologia e a rapidez a que se propaga. Nem tampouco os efeitos da mesma no mercado de trabalho. A problemática é muito mais ampla. E uma parte dela diz respeito aos efeitos resultantes do aumento da esperança de vida. É um paradoxo. E, como este, também os pressupostos de Raymond Vernon experimentam essa circunstância.

    Irá a sociedade que se aproxima ser diferente da que vivenciamos? Sem qualquer dúvida. Mas isso não significa que não se verifiquem traços comuns entre as distintas fases de desenvolvimento da sociedade. Porque razão irá a IA escravizar a classe operária? Indubitavelmente, quem apregoa tal pregão não esconde a sua ideologia. Neste âmbito, penso que a IAE é potencialmente muito mais problemática. Gradual, ou não, é necessário reflectir e planear os impactos.

    Ora, não é desaconselhável ter em mente a seguinte realidade: Existe uma diferença substancial entre aquilo que é dito por um think tank ou por político e o que é, por exemplo, afirmado por um físico, um geneticista, por um biólogo, ou um imunologista.
    Estes possuem, sem qualquer dúvida, um conhecimento muito mais apurado do se avizinha. E, razão ainda maior, é procurar ver quem os financia. O futuro está muito mais dependente das decisões dos Sergey Brin, Elon Musk, Bill Gates, Jeff Bezos e afins, do que de qualquer decisor político.

    Sim, a imaginação humana instintivamente almeja um futuro melhor. E o argumento positivo é utilizado por diferentes entidades com distintos interesses. Isto não é novidade. O Carlos diz, e bem, que as viagens à lua são extremamente raras. Todavia, até há poucos anos, não existiam viagens comerciais ao espaço. O espaço era uma prerrogativa dos Estados. Hoje já não é assim. Para além disso, o objectivo que já foi traçado pelos Estados é outro: Marte! Como tal, podemos considerar a possibilidade duma “cooperação” entre agentes privados e públicos, com objectivos distintos, mas complementares. Seja como for, não deixa de ser estranho que países como o Irão tenham aumentado consideravelmente o orçamento do seu programa espacial.

    Quanto ao robot que nos poderá vir a limpar o cú é, sem dúvida, uma possibilidade. Todavia, é uma visão limitada. Se é uma questão de futurologia, porque não considerar a hipótese do vestuário? Porque razão não poderá ser a roupa que vestimos a fazer esse trabalho. É que até a merda que fazemos é energia.

    Dito isto, concordo consigo. Não só é evidente que será necessário alocar e realocar recursos como também é inegável que o progresso ajuda a mitigar a diferença e que sempre beneficiou os mais desfavorecidos e/ou pobres.

    Obrigado pela reflexão.

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  8. Zé Manel Tonto permalink
    11 Dezembro, 2017 13:38

    Quem diz que os robots vão substituir os trabalhadores humanos em massa só pode ser palerma.

    Ainda há dias estava a ler um livro de robótica, publicado há cerca de 15 anos, em que o autor fazia referência a um método de programação dos robots que pode ser descrito como macaco de imitação: um operador humano com uma consola faz manualmente os movimentos do robot, que depois são repetidos em modo automático durante o processo produtivo.

    O senhor doutor professor engenheiro que escreveu o livro classificou esse processo como arcaico, quase em desuso, e nem ia desperdiçar mais de um parágrafo do livro com isso. Como disse, o livro tem 15 anos. Eu trabalho numa fábrica com umas centenas de robots, e todos eles são programados assim. Aliás, a gargalhada é geral, na fábrica, quando descrevo os métodos propostos para controlo de robots por professores de robótica de universidades por esse mundo fora.

    Quem acha que os robots podem substituir o trabalhador humano é porque, claramente, nunca trabalhou com robots no mundo real. Fora das web summits, das googles e das salas de aulas das universidades, toda a gente sabe que as máquinas dão problemas mesmo quando estão em vigilância permanente.

    Muitos dos trabalhos que estão a desaparecer prendem-se mais com ignorância/estupidez dos gestores, que acham que mandando sempre mais um trabalhador embora os restantes aguentam (até que começa a haver problemas por todo o lado), do que propriamente com substituição por máquinas. Essa substituição já veio. É a via verde, o multibanco, etc…

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