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O cenário

27 Fevereiro, 2018

Fundamental ler este artigo de  Hoje, por boas razões — vivemos todos melhor porque não vivemos quase todos da terra, como na altura —, em boa parte as elites têm uma percepção de um mundo rural que é essencialmente a de um cenário que existe naturalmente, sem gestão quotidiana e dura.

Mesmo quando se esforçam por conhecer as fileiras económicas que gerem o mundo rural, grande parte das nossas elites tem uma grande dificuldade em compreender que a gestão de fazemos do território é, essencialmente, uma luta constante contra a evolução dos sistemas naturais.

Um bom exemplo é o artigo de Manuel Carvalho, no PÚBLICO de 23 de Fevereiro, “Foi você que pediu a limpeza das matas?”, em que se defende a paranóia que tomou conta do actual Governo em matéria de “limpeza” de matas.

O argumento central do artigo é: “Os que andaram nos meses do estio do ano passado a lamentar a incúria dos proprietários ou a negligência das autarquias não podem por isso agora dar o dito pelo não dito e culpar a lei por ser imperfeita, danosa ou megalómana. Na vida das nações há prioridades e uma das maiores prioridades de Portugal é fazer tudo para que o Verão de 2017 fique confinado à memória de um pesadelo que não pode acontecer nunca mais.”

Talvez valha a pena dar uns passos atrás para tentar explicar por que razão a lei é evidentemente danosa e, mais que isso, uma demonstração de que é mesmo com o fogo que este Governo está a brincar.

O padrão de fogo que temos hoje resulta, essencialmente, da acumulação de combustíveis — matos, folhada, ervas, cascas, troncos — em consequência do abandono rural e das transformações dos processos produtivos, com especial destaque para a substituição dos estrumes por adubos.

Este processo de acumulação de combustíveis é um processo natural, acontece no terreno de qualquer pessoa, e responsabilizá-la por isso seria o mesmo que responsabilizar os agricultores por ter chovido pouco este ano e, portanto, os terrenos estarem a contribuir pouco para alimentar as barragens.

O que as actuais elites têm mais dificuldade em perceber é que, ao contrário da base da regulamentação das actividades humanas — construção, condução automóvel, alteração de linhas de água, despejo de efluentes, etc. —, não faz o menor sentido responsabilizar ninguém porque o seu terreno evolui naturalmente.

Pode argumentar-se que existe a obrigação dos proprietários gerirem bem as suas propriedades, o que, naturalmente, obrigaria a que se definisse o que é gerir bem uma propriedade que não tem potencial produtivo suficiente para pagar essa gestão.

Com base no argumento de que gerir bem é não pôr em risco o vizinho — desresponsabilizando o vizinho em relação à sua própria segurança —, Portugal fez uma opção clara depois dos grandes fogos de 2003 e 2005: responsabilizar os proprietários pela “limpeza” das suas propriedades, independentemente de essa limpeza ser insustentável, muitas vezes inútil e, com frequência, indesejável.

Esta opção, fortemente influenciada pelo então ministro da Administração Interna, António Costa, transformou um problema de economia — qual a forma mais eficiente de gerir sensatamente o fogo com os recursos existentes — num problema de polícia — tens obrigações legais de gerir combustíveis, mesmo que isso não tenha qualquer viabilidade económica, para proteger terceiros.

O Estado atribuiu uma responsabilidade privada à defesa do bem comum, criando na gestão florestal o inferno do capitalismo: privatizou os prejuízos em nome da socialização dos benefícios.

No processo, o Estado desresponsabilizou-se de fazer uma declaração de utilidade pública das faixas de gestão de combustíveis, para evitar ter de pagar as perdas de rendimento associadas, e o Estado desresponsabilizou-se de afectar as verbas do mundo rural ao pagamento de serviços de ecossistemas, para as manter disponíveis para a alimentação de clientelas.

É assim que o Estado, evitando cuidadosamente referir que as faixas de combustíveis previstas na lei resultam na retirada do processo produtivo de uma área que se poderá estimar em um milhão de hectares (10% do território nacional), consegue convencer a sociedade de que o problema da gestão sensata do fogo, nas condições sociais e económicas que temos, se resolve se, ao mesmo tempo que se inviabiliza a exploração económica desse milhão de hectares, se obrigar os proprietários prejudicados a gerir essas propriedades de forma absolutamente ruinosa.

Só elites sem a menor noção do que é a gestão do mundo rural podem defender que é irrelevante discutir se a lei é danosa porque a prioridade está em “fazer tudo para que o Verão de 2017 fique confinado à memória de um pesadelo que não pode acontecer nunca mais”.

Não, caro Manuel Carvalho, o que interessa não é “fazer tudo”, é mesmo fazer só o que está certo, é sustentável e se baseia num contrato social justo, é mesmo só isso, nada mais. E nada disso tem vindo a ser feito pelo Estado, bem pelo contrário.»

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17 comentários leave one →
  1. 27 Fevereiro, 2018 14:28

    Neste ano ou nos imediatos, se houver nova tragédia por causa dos incêndios, mesmo que alguns dos mais violentos e devastadores não tenham origem em áreas por limpar, este governo trafulha, mentiroso e passa-culpas, é bem capaz de despudoradamente acusar os proprietários atingidos de…desleixo. E se houver áreas do Estado queimadas por incúria de quem nos desgoverna, então não hesitam um minuto: culpa doutros, sempre doutros.

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  2. Kapagrillos permalink
    27 Fevereiro, 2018 15:20

    As elites lêem isto e pensam: a palavras loucas, orelhas auditivamente desfavorecidas (moucas não tem lugar no newspeak).

    Querem lá saber as elites (incluo as locais) destas justas considerações, pensamento crítico, da fragmentação da propriedade dos terrenos onde uma idosa, que ainda consegue, tem duas couves e um silvado numa nesga de terra sobre o comprido.

    Que diz o povo urbano/suburbano – a coutada eleitoral?

    “Limpe-se!”

    E os políticos, nada demagógicos nem sequer populistas, limpam.

    Perdão, mandam limpar.

    “Alguém” há-de pagar.

    Mais: a comoção este ano foi porque ainda se ouviam uns velhotes aos gritos e uns cães ou caprinos chamuscados.

    Em breve não haverá lá nada e nem valerá a pena limpar – ficaremos na televisão a ver os “fogos selvagens”.

    “Não ‘podermos’ limpar a naturalidade”, dirá o pm da altura, Costa versão 11.0.

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  3. Churchill permalink
    27 Fevereiro, 2018 15:29

    A principal causa dos incêndios do ano passado foi a baixíssima quantidade de humidade no solo e na baixa atmosfera.
    Depois se existir combustível é evidentemente mais fácil a propagação.

    Se os terrenos ficarem totalmente limpos não arde, óbvio, mas a seguir teremos o deserto (como já dizia o Ministro do outro!).

    Ou seja, a solução passa por criar alguns corredores, para evitar a propagação do fogo, mas passa muito por ter preparados meios de detecção precoce dos focos.

    Disse

    PS – Como é evidente, sou mais um dos imensos especialistas que falam deste assunto com enormes certezas

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  4. Leunam permalink
    27 Fevereiro, 2018 15:34

    E muito fácil fazer leis com o rabo sentado à secretária, no centro de Lisboa.

    Estou em crer que quem fez esta lei do dia 15 de Março, nunca andou a pé por essas encostas montanhosas, onde nem se ouve cantar o cuco, e que muitas cobrem grande parte do interior centro e norte de Portugal.
    Zonas pouco acessíveis, com mato e arvoredo que é difícil de gerir por diversas razões entre as quais menciono:

    1) custo muito elevado do corte do mato e nem se sabe bem o que fazer com ele depois de cortado.
    2) rentabilidade nula ou negativa sobretudo por a madeira, se a houver, ser comprada ao preço da uva mijona (excepto se for de eucalipto).
    3) falta de mão-de-obra para o trabalho florestal.
    4) acessibilidade difícil em muitos casos.
    5) um Proprietário que viva e trabalhe em Lisboa e tenha que se deslocar no fim-de-semana à zona do Pinhal interior tem de desembolsar +- 70 € só para a viagem!

    As Câmaras foram autorizando que se construíssem casas junto a pinhais e eucaliptais já existentes; agora os donos destes têm que os cortar por causa das casas dos vizinhos.

    Muitos terrenos que eram cultivados estão a criar silvados por não haver ninguém que os queira cultivar.
    Os madeireiros dizem que não dão mãos a medir e que não podem atender a todas as solicitações.
    Zonas de arvoredo que estavam limpas arderam tal e qual as que não estavam.

    Os incendiários apanhados levam penas suspensas.

    O Estado que agora fez estas leis prepotentes foi o mesmo que acabou com os guardas florestais, que deixou queimar 80% do Pinhal de Leiria que é da sua responsabilidade e fez negócios altamente ruinosos para Portugal, com os meios aéreos e com os meios de comunicação de segurança; tem mesmo moral para ser tão exigente…

    Eu penso que uma solução para a gestão da floresta passaria pelo emparcelamento em áreas de tamanho significativo, geridas por empresas estatais e quando fossem rentáveis, o Estado ressarcia-se do que gastou e, se algo sobrasse, seria distribuído pelos respectivos proprietários segundo as áreas que lhes pertencem; mas aqui, impunha-se a seriedade e não a trafulhice que arruína Portugal.

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  5. José da Costa permalink
    27 Fevereiro, 2018 16:29

    Se as previsões de chuva baterem certas para os próximos 10 dias e se chover mais qualquer coisa até Maio, o que não seria nada de extraordinário, ainda a lei Costa de limpar até 15 de Março se vai declarar melhor como estúpida, de ignorantes, de incompetentes. E o próximo verão pode ser pior de fogos do que foi o de 2017.
    Quem não perceber isto que vá viver para o campo e talvez dentro de meia dúzia de anos já perceba o que escrevi.

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  6. Arlindo da Costa permalink
    27 Fevereiro, 2018 17:27

    A doutrina «liberal» aplicada aqui à limpeza das matas dá-me vontade para rir.

    Acham que o Estado não deve meter o bedelho na propriedade privada mas quando é para fazer algo de útil e fundamental chamam o São Estado e nada fazem. E vocês que acham que a propriedade privada é direito divino? Vão continuar com as mãos nos bolsos e a fazerem artigos esquizofrénicos?

    Querem um país livre de fogos? Então comecem a trabalhar!!!!!!!!

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    • 27 Fevereiro, 2018 18:20

      E o Sr Arlindo já começou?

      Ou é daqueles que preferem ter uma mão inchada do que uma enxada na mão?

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    • jmpg permalink
      28 Fevereiro, 2018 00:51

      Estou de acordo com o professor Arlindo. As matas deve o estado cuidar, ensino, saúde também, transportes idem . Fala-se já nas escovas de dentes que tb devem ser geridas pelo estado no sentido de evitarem as caries, e os maus hálitos, são os implantes que os mais pobres não podem . etc.

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  7. weltenbummler permalink
    27 Fevereiro, 2018 18:03

    o desgoverno de antónio das mortes
    oscila entre o circo e o lupanar

    ponha as putas a fazer a limpeza como fez Fidel

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  8. Procópio permalink
    27 Fevereiro, 2018 18:08

    O cenário vai-se degradando enquanto os geringonços inventam futuras desculpas.
    O sítio está em acelerada decomposição. Nas escolas, nos centros de saúde, nos hospitais, é só passar por lá. Milhares de alunos desaprendem, nas instituições de saúde a falta de assistência é cada vez mais difícil de disfarçar.
    O cenário tem cantinhos bem alinhados para estrangeiro ver e gozar e um número elevado de estrumeiras, pinhais queimados, rios poluídos e montes de lixo por onde calha lançado a esmo por empreiteiros e outros cangalheiros.
    Há quem não goste de estrumeiras. Errado.
    É o lugar predileto de insetos pestilentos. Aí se alimentam, sugam as autarquias no meio de promessas mil. A vespa asiática também se chegou à frente. Deram-lhe caminho livre em troca de alguns vinténs. É muito sôfrega, chega a comer os insetos locais e é capaz de mudar o cenário em poucos anos. Difícil saber se para melhor. Já estamos por tudo, né?

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    • 27 Fevereiro, 2018 18:47

      Quanto menos Estado melhor! Depois queixem-se que as escolas não funcionam, os incêndios blá-blá, os hospitais público blá-blé.

      Quem faz casas em zonas de alto risco, arrisca-se ! na floresta do “contnente” ou nas lavadas da Madeira…

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  9. 27 Fevereiro, 2018 18:31

    Com as habilidades do dótor Costa, Portugal vai descer mais baixo do que desceu com o Sócrates.

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    • 27 Fevereiro, 2018 18:38

      Que provavelmente o estado da nação terá nova bancarrota ou lá perto, acredito. Mas porra, uma ainda pior do que do que a criada e deixada pelo “menino de ouro do P’S'”, seria uma hecatombe total !

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      • 27 Fevereiro, 2018 18:40

        Como político, o AC-DC está ao nível do Sócrates. Como cidadão impoluto, se verá.

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  10. Procópio permalink
    27 Fevereiro, 2018 22:12

    Vamos pensar em cenários do futuro.

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  11. Procópio permalink
    28 Fevereiro, 2018 00:36

    O cenário

    A realidade
    Os diretores dos três serviços de Medicina do Hospital de Faro estão demissionários devido à falta de resposta para a sobrelotação de doentes e à alegada pressão para altas precoces
    dos jornais

    A fantasia
    Saúde: a prioridade das prioridades
    Paulo Trigo Pereira

    O número de óbitos evitáveis no súltimos tempos está por calcular.
    O sofrimento causado a inúmeras pessoas, em particular aos idosos, ainda não é associado à geringonça, mas vai ser. O péssimo estado de saúde da generalidade do povoléu que nela vota comparado com outros países europeus, é fácil de demonstrar

    https://www.dn.pt/sociedade/interior/portugal-tem-elevadas-desigualdades-em-saude-5226526.html

    A geringonça agarra-se ao 14º lugar do “Euro Health Consumer Index”, longe de traduzir a situação atual. A degradação prossegue. O semtino assegura um sub investimento criminoso com autorização superior, mas mesmo com mais pessoal a situação continuará a degradar-se. São as nomeações políticas que causam o caos e a partida de pessoal altamente qualificado que aguentava o barco. Construam o muro como fizeram na alemanha oriental para não deixarem sair os que mais falta fazem.
    Peçam à extrema esquerda, eles sabem e não levam nada por isso.

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  12. Mario Figueiredo permalink
    28 Fevereiro, 2018 09:02

    O grande drama dos incêndios de 2017 não foi a área ardida que, apesar de enorme e merecedora de debate alargado, foi “apenas” a terceira maior desde 2000. O grande drama de 2017 foi, isso sim, a mais de uma centena de mortos. E isto nada — mas absolutamente nada! — teve a ver com os incêndios de 2017.

    Esta importante separação não tem sido feita. Associa-se o drama de 2017 aos incêndios e assim tem sido possível a este governo assobiar as suas responsabilidades para o lado. Afinal foram os incendiários. Afinal foi a má limpeza. Até mesmo nestes artigos eu vejo esta associação que tanto jeito tem dado a este governo. Quando, por exemplo, se diz que 2017 não se pode repetir e há que limpar matas, o que se deveria estar a debater é que 2017 não se pode repetir e há que limpar este governo irresponsável e criminoso que por má gestão matou mais portugueses em solo nacional desde as cheias de 1967. Ironicamente, estas mesmas cheias foram merecedoras de um programa televisivo aqui à cerca de 2 meses. Onde a realização não se coibiu de responsabilizar o governo de Salazar pelas inúmeras mortes.

    A verdade é que em 2017 eu assisti a uma tragédia que nunca pensei ter de assistir em tempo de paz. E ninguém, mas mesmo ninguém, fala dela! Só se fala da merda dos incêndios. Foda-se para isto tudo!

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