Saltar para o conteúdo

Comércio e o interesse nacional

23 Junho, 2018

32168022

Se Adam Smith desmontou já há muito tempo a visão mercantilista sobre o comércio internacional, talvez o título da sua obra mais conhecida não seja o mais feliz para que se perceba que as trocas comerciais se fazem entre indivíduos e organizações e não entre países ou nações.

Não é Portugal que exporta para Inglaterra ou Portugal que importa de Espanha. Não são os países enquanto entidades abstractas que têm preferências, gostos ou que tomam decisões sobre os produtos a comprar e vender. Só indivíduos ou entidades que se organizam de forma intencional, planeada e segundo regras próprias de comando em torno de desejos e objectivos comuns (empresas ou organismos do estado, pex) têm relevância económica para análise da acção humana.

A sociedade (ou economia, se se preferir o termo), mais não é do que o conjunto não planeado das interacções entre estes agentes.

Ora, neste pressuposto, resulta obtuso que se possa tomar como desequilibrado ou pernicioso o agregado de trocas comerciais voluntárias e, portanto, mutuamente benéficas entre agentes individualmente considerados.

Dito de outro modo: se os agentes económicos consideram que para melhorar a sua condição económica é do seu interesse importar mais do que exportar, por que razão o conjunto de todas estas interações há de ser considerado prejudicial para o país?

Os sistemas contabilísticos e em particular o recurso à análise da balança de pagamentos não nos deve desviar da realidade económica que lhe está subjacente. Os países não perdem nem ganham com o comércio internacional. Isso só se verifica ao nível dos indivíduos e dos agentes económicos. E é cada uma destas unidades que tem de gerir os seus orçamentos e responder pelas suas escolhas económicas.

Se não tivermos isto presente é porque partilhamos o ideal colectivista de atribuir maior importância à “nação” do que ao indivíduo. Só assim se poderá justificar a defesa da intervenção estatal no sentido de alterar ou “corrigir” os padrões de consumo e a livre gestão dos recursos próprios dos indivíduos.

Mas, em termos económicos, o “interesse nacional” existe? Ou o que existe é o interesse de cada uma das pessoas concretas que vive num espaço comum delineado por fronteiras a que chamamos habitualmente de “país”?
*

 

Anúncios
21 comentários leave one →
  1. Euro2cent permalink
    23 Junho, 2018 20:28

    trocas comerciais voluntárias e, portanto, mutuamente benéficas

    Argumentação impecável para passadores de droga, etc.

    Gostar

  2. 23 Junho, 2018 21:53

    sim, o interesse nacional existe. existem políticas económicas que facilitam, e outras que dificultam, a criação de famílias e a educação moral da progenitura. os liberais, olhando o mundo em volta, a promoção da degeneração e relativismo moral, a promoção da substituição dos nativos europeus e da miscigenação, a incapacidade dos europeus de formarem famílias em que a mãe possa sequer ficar em casa a acompanhar os filhos durante os primeiros (importantíssimos) anos de vida, e, ou não reparam que tudo isto é activamente promovido pelo capitalismo internacional, ou acha que nada disto importa. o cúmulo do autismo ou, possivelmente, da desonestidade.

    duvido que algum destes liberais queira que os seus filhos sejam ‘beneficiados’ pelas maravilhas promovidas através da permissividade liberal. ou se calhar querem. será que o Telmo quer uma filha lésbica e transgénero que tenha um filho ilegítimo de um refugiado ‘sírio’ (do Sudão) e outro de Agola? se calhar quer. desde que ao menos trabalhe num call center de uma multinacional – ou melhor ainda: é estagiária numa ‘startup’.

    Gostar

  3. Zé Manel Tonto permalink
    23 Junho, 2018 22:10

    Isso é tudo muito bonito mas quando num país europeu que tem, entre outras coisas:

    -impostos elevados por causa de um Estado Social desenvolvido (mais nuns países que noutros, mas existe em todos);
    -contribuições de Segurança Social sobre o empregador;
    -regulamentações ambientais;
    -dias de férias, feriados e fins de semana, 40 horas semanais e horas extra pagas para os trabalhadores;
    -custos de energia mais elevados devido a não usar carvão e a impor renováveis (esta é auto infligida, mas ok)

    e um longo etc.

    Um país desses, a competir com a China em que não existe nada disso, deixa de ser uma questão de trocas voluntárias. O preço chinês não é mais baixo por melhor produtividade, melhores métodos de trabalho ou matéria-prima mais abundante.

    Não estamos a falar de comprar um carro alemão ou francês. Não estamos a falar de comprar azeite português ou espanhol.

    Nem todas as pessoas têm capacidade para fazer trabalhos altamente qualificados na economia de serviços, nem cabe na cabeça de ninguém com bom senso perder a indústria. Em caso de necessidade extrema uma fábrica de carros faz tanques, uma fábrica de aviões comerciais faz caças, uma fábrica textil faz uniformes e vai ser preciso cimento para fazer abrigos de bombas. Um escritório seja do que for não produz nada que não seja papel.

    Não só por questões estratégicas, mas por questões económicas (mercado de trabalho) produtos de países que não tenham um contexto comparável devem ser barrados, ou a sua entrada deve ser condicionada a melhorias num conjunto de indicadores mensuráveis pelo país que recebe os produtos.

    Liked by 1 person

    • JCA permalink
      24 Junho, 2018 07:39

      .
      “-impostos elevados por causa de um Estado Social desenvolvido (mais nuns países que noutros, mas existe em todos);”
      .
      Acha mesmo que por haver Saude, Educaçao e Pensoes de Velhice para todos os Portugueses é que são AntiCapitalistas ou que houve, e há, Impostos elevados ?
      .
      Ou por exemplo defender o Salario Minimo Nacional de 1.000 € brutos mês é comunismo ?
      .
      Bom se defender Capitalismo avençado em contratos publicos ou consequentes derivados ‘merceeiristas’ entao dou-lhe o beneficio da duvida, não a razão. Mas olhe para a divida publica derivada e os aumentos de impostos :)))
      .
      .
      Dá gozo de raciocinio (nao de politica academico que muito maioritariamente é sempre ‘vender’ mais do mesmo, mais ou menos enjorcado para melhorar a embalagem, mas nada inova ou enriquece ou sustenta, apenas gasta o que há e não há),
      .
      ou partir pão com adversarios que valha a pena, donde provoco mais um bocadito para ‘incendiar a criatividade e a capacidade de raciocinio e inovação alta politica para seguir para novos rumos capitalistas e liberais humanistas’:
      ..
      os sócios do Sporting votaram, uma séria de papagaios andaram a piar na CS; vamos la ao bailarico e ao lavar dos pratos do ‘follow the money de quem ganha a guerra, jogadores e atleticos de madrid e não sai quantas é treta na camada de cima o money
      .
      (socio que vota quere é golos ao domingo);
      .
      eis:
      .
      Vai contnuar o Sporting dos “socios” a viver à pala e contribuindo para a falencia da Banca ou dos Impostos dos Portugueses sacando do Estdao por portas e travessas ?
      .
      Ou o Sporting vai ser propriedade de angolanos difamados pela CS por terem tambem desfalcado os depositantes BES em muitas centenas de milares de Euros ?
      .
      Ou mais simplesmente vamos ter um Sporting propriedade da China que ao menos nem desfalcou nem viveu à conta do Estado ou da banca poruguesa ?
      .
      Ora aí está à vista o que os socios votaram e na cara que o Sporting falido nunca mais será dos socios ………
      .
      .
      tao so na geringonça portuguesa a quase totalidae dos portueses aceita pagar a divida e a falencia do Sporting ou do Benfica ou doutro qualquer,
      .
      com mais sobre a divida galatica de Portugal ou com os impostos gigantescos das empresas e familias portuguesas ou com os depositos que têm nos Bancos.
      .
      .
      E atenção todo o fime de milhares de horas nas TV´s e radios mais os quilometros de paragrafos escritos em jornais potenciaram o que chamam de ‘populismo’ em que BC é o grande vencedor mas no campo politico/novo partidarismo,
      .
      e tudo começou com o beneplacito no tempo politico desnorteado de Socrates … e mais não digo para concluirem cada um por si o que é melhor ou pior visto eu não me interessar ser estrela politica.
      .
      Declaração de interesses, não me interessam nem me entusiaamam clubes nem a jogos de futebol, salvo quando é a seleção nacional do estrangeiro embora o meu modelo organozativo seja mais a Islandia e não a INDUSTRIA empresarial e bancaria FUTEBOL portuguesa, conflitualmente até politico/paridaria,
      .

      Gostar

      • 24 Junho, 2018 11:34

        a pergunta devia ser a contrária. Acha bem que nos outros países não tenham ou promovam as “politicas sociais” tipo europeias dos “direitos civilizacionais” e com isso explorem os seus povos e ainda vendam os seus produtos mais baratos por causa disso?

        Gostar

      • Zé Manel Tonto permalink
        24 Junho, 2018 12:35

        Não me pronunciei sobre ser a favor ou contra Estado Social. Constatei apenas que existe na Europa e nos restantes países ocidentais, e que não existe na China e restantes países que competem com a indústria ocidental.

        Isso é factual.

        Quando sobre o salário do trabalhador português é acrescentada uma parcela considerável para Segurança Social, quando há IRC e IRS sobre distribuições de dividendos, taxas ambientais, taxas de uso de solos, de captação de águas, de deposição de resíduos, etc e na China não há, a competição não é justa.

        Se eles produzem mais barato por não competirem com as mesmas regras, os productos deles devem ser barrados à entrada ou, no mínimo, levarem com taxas que os ponham a preço semelhante ao producto europeu. As taxas devem ser levantadas gradualmente à medida que introduzirem o mesmo tipo de medidas que as nossas economias têm que suportar.

        Ou isso ou as fábricas vão continuar a fechar.

        Liked by 1 person

    • 24 Junho, 2018 20:26

      Quem fez a pergunta foi o JCA, Acha mesmo que a Educação, a Saúde………?

      Gostar

      • JCA permalink
        26 Junho, 2018 22:54

        Simples, com tanta regra e regrimha
        .
        (incluindo o labirinto fiscal que expulsa toda a vontade de empreender salvo se com renda garantida por contratos com o Estado),
        .
        porque nao aplicam ao comercio internacional:
        .
        é proibido importar produtos estrangeiros (chineses ou seja donde forem) desde que a origem garanta que foram cumpridos os mesmos direitos civilizacionais e sociais europeus em toda a cadeia de produção, comercialização e exportação ?
        .
        A diferença entre alimentar o dumping desses países demolidor do avanço civilizacional europeu que produz tudo o que precisa ou proreger.se contra o obscurantismo, nalguns casos até medieval ou ‘comunista’ ?
        .
        Isto é o Liberalismo do sec XXI
        .
        (longe de quem teorizou antes do sec XX, e ajustado ao sec XXI),
        .
        capitalismo avançado absorvendo e incorporando as velhas teorias leninismo-trotkistas-estalinistas etc que hoje são prazeres inteletuais apenas necessarios de curiosidade e leitura historica das geraçoes mais novas,
        .
        mas teorias essas responsaveis pela confusao trapalhona em que a Europa se encontra por ainda não encontrou quem a conduza para ser um parceiro no multilateralismo mundial que ou é conseguido rapidamente ou entao entrará num sec inteiro da sua auto terceiro mundialização.
        .
        Ou em ´salvação’ o regresso obscurantista aos fascismos e totalitarismos pela mão silenciosa de direitas ou esquerdas para conservarem os previlegios monetarios das neocoroas republicanas.
        .
        Como se vê, tudo isto está a evoluir vertiginosa e energicamente e não se vê competidores à altura entre os ‘habitués em palco’
        .
        Adorava estar enganado :)))
        .

        .

        Gostar

  4. 24 Junho, 2018 00:04

    Resumindo e concluindo, as meninas do Bloco de Esquerda estão cada vez mais ricas e os portugueses cada vez mais na mesma.

    Gostar

    • Manuel Dias permalink
      24 Junho, 2018 14:26

      Antes fosse “mais na mesma”. Estão cada vez pior.

      Gostar

  5. Arlindo da Costa permalink
    24 Junho, 2018 01:25

    Explica isso aos neo-liberais dos EUA ou Reino Unido, os quais estão a por barreiras alfandegárias em tudo.

    A única economia liberal e de comércio livre do Mundo é a chinesa..

    Ironia da História.

    Gostar

    • 24 Junho, 2018 11:39

      A ironia da história é que os liberais dos EUA plicam impostos mínimos a todos os produtos enquanto europeus e chineses carregam sobre todos os produtos e no caso chinês sempre sobre os importados até com contigentação de importação. O que no caso chinês é normal porque nunca se poderia ver um partido comunista a tratar de igual para igual qualquer assunto que seja.

      Liked by 1 person

    • Zé Manel Tonto permalink
      24 Junho, 2018 12:37

      Estúpido.

      Não se vende um carro na China se 60% das peças não forem de fabrico chinês.

      Nunca deviam ter deixado esse país entrar no organização mundial do comércio.

      Gostar

    • André Miguel permalink
      24 Junho, 2018 14:36

      Ignorante.

      A China tem tarifas aduaneiras mais altas que a Europa e EUA, e com imensas restrições e produtos proibidos de importar.

      Informe-se melhor.

      Gostar

  6. Isabel permalink
    24 Junho, 2018 03:11

    Para alem de ser fácil provar que esta tese levada ao extremo conduz ao desaparecimento da sociedade onde o indivíduo funciona, nenhum ser vivo se pode desenvolver se não conjugar o seu individualismo com a pertença a um colectivo.
    Grosso modo, estas conversas sao usadas para propagandear temas fracturantes, baseando-os no argumento populista de que os direitos humanos sao o mesmo que direitos individuais absolutos.

    Liked by 1 person

  7. Sérgio Gonçalves permalink
    24 Junho, 2018 08:46

    Bela reflexão. Obrigado

    Gostar

  8. Luis Lavoura permalink
    24 Junho, 2018 10:47

    O Telmo Azevedo Fernandes é, portanto, contra as sanções comerciais que a União Europeia aplica contra a Rússia. Essas sanções prejudicam os indivíduos e empresas europeus e russos que, no seu melhor interesse, pretendem negociar entre si. Certo?

    Liked by 1 person

    • 24 Junho, 2018 11:43

      Acho que não, mas percebi que o Luis Lavoura é a favor da invasão de territórios e países por parte de países poderosos e os submetam às suas tiranias ou que isso no caso da Crimeia, Ucrânia e Georgia não se apliquem os direitos dos manos, o direito à independência dos povos e coisa tal…….. Longe vão os tempos em que no materialismo dialéctico politico , estas eram as vacas sagradas.

      Gostar

  9. 24 Junho, 2018 11:41

    “Os países não perdem nem ganham com o comércio internacional”.

    Ignorância sobre economia ou confusão gerada pelo Café Hayeck? O “país” para efeitos de estatisticas da balança de pagamentos é o conjunto de residentes num dado território. Não é o conjunto de cidadãos com a mesma nacionalidade nem uma qualquer entidade mitica propagandeada por políticos. Esse conjunto de pessoas tanto pode ser constituído por dez milhões our por dez pessoas. Imagine mesmo que é constituido por apenas duas pessoas uma em cada país.

    O que nos diz a lei das vantagens comparativas é que elas serão mais produtivas se dividirem o trabalho de acordo com a respetiva vantagem comparativa e trocaram entre si o produto do seu trabalho. Por isso ambos ganham com o comércio … internacional!

    Gostar

  10. André Miguel permalink
    24 Junho, 2018 14:29

    “E é cada uma destas unidades que tem de gerir os seus orçamentos e responder pelas suas escolhas económicas.”

    Isso é muito bonito de dizer quando se tem uma moeda forte, o problema é quando o país tem uma moeda não conversível, aí vai consumir as reservas em moeda estrangeira. Ou ouro, como no tempo de Adam Smith e que ele tão bem explicou.

    Ou nao leu Adam Smith até ao fim, ou então já esqueceu como era viver no tempo do Escudo…

    Gostar

  11. Sigmund Vienna permalink
    29 Junho, 2018 23:25

    Foi o actual Vice-Governador do BCE, quando na sua famosa função de Governador do Banco de Portugal, que disse que, com a moeda única, o saldo externo deixava de ter importância. Como sabemos, enganou-se redondamente.

    Gostar

Indigne-se aqui.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: