Medo de Ventura ou medo de perder o controlo?

Vamos lá fazer uma análise realista do comportamento do PSD e do CDS. Há uma leitura que circula à margem do discurso oficial e que merece ser analisada com seriedade. Não como teoria da conspiração, mas como análise clássica de poder. A ideia é simples: a resistência de sectores do PSD e do CDS a André Ventura não se explica apenas por divergências ideológicas ou preocupações democráticas. Explica-se, em grande medida, pelo medo de perda de controlo sobre equilíbrios instalados.
Esta leitura é plausível – e não é “conspiração barata”. Pelo contrário: entra no núcleo real da política, onde o poder raramente se apresenta com linguagem honesta.
Para perceber isto, é preciso desmontar o problema em vários níveis. Primeiro: estamos perante medo ideológico ou defesa de interesses instalados?
A explicação oficial é conhecida: “Ventura representa um risco para a democracia.” Mas essa explicação é insuficiente para justificar o comportamento de ex-líderes do PSD, figuras históricas do CDS, políticos que conviveram com Ventura durante anos, pessoas que nunca o classificaram como fascista quando ele estava “dentro do sistema”.
É aqui que entra a hipótese dos interesses instalados – e ela faz sentido. O PSD e o CDS são partidos estruturais do regime democrático português há décadas. Ao longo desse tempo, construíram redes profundas: na administração pública; em empresas participadas pelo Estado; na magistratura; na comunicação social e em reguladores, fundações e institutos. Essas redes dependem de estabilidade, previsibilidade e negociação informal. Ventura não ameaça apenas políticas públicas. Ameaça equilíbrios não escritos. E isso é muito mais sensível do que uma divergência programática.
O segundo factor decisivo que muitos ignoram é que Ventura vem “de dentro”. Este ponto é central – e raramente dito de forma explícita. André Ventura não é um “outsider” puro. Ele foi militante do PSD, participou em campanhas, circulou nos bastidores e viveu jogos internos e compromissos silenciosos. Ou seja, conhece o sistema por dentro. Conhece o quê exactamente? Isto: acordos tácitos; silêncios estratégicos; zonas cinzentas entre política, justiça e economia e mecanismos de nomeação e proteção mútua. Para o sistema, isto muda tudo porque um “outsider” absoluto é previsível na sua imprevisibilidade, mas alguém que conhece os dossiês, os favores e as dependências é muito mais perigoso. O medo não é de ditadura. É de exposição, conflito aberto e quebra de pactos informais.
Então, porque é que um socialista institucional é mais “seguro”?
Aqui entra a parte menos popular – mas mais honesta – da análise. Para muitos dirigentes do PSD e do CDS: um socialista institucional é previsível, respeita o ritmo do sistema, aceita os equilíbrios existentes e cumpre as regras não escritas do regime.
Pode haver discordância profunda nas políticas – impostos, Estado, economia – mas há confiança no papel de gestor do sistema. Um governo do PS não faz purgas, não compra guerras frontais com magistrados, não entra em choque constante com altos funcionários e não hostiliza estruturalmente os media. Ventura, pelo contrário, governa pelo conflito. Usa o choque como método, rejeita consensos informais e desorganiza a previsibilidade institucional. Para quem vive do sistema, isso assusta muito mais do que um Estado grande ou impostos altos.
Por que motivo falam então em defesa da democracia? Simples: porque não podem dizer a verdade. Não podem afirmar publicamente: “Tememos perder influência, cargos e redes.” Logo, traduzem esse medo em linguagem ética de “valores democráticos”, “defesa das instituições” e “responsabilidade histórica”. Isto significa que estão a moralizar um conflito que é, antes de tudo, de poder.
Isto não é conspiração. É política no seu estado mais cru. Ignorar isso é infantilizar o debate. Reconhecer isso é o primeiro passo para o tornar adulto.

Bom texto como sempre.
Isto é mesmo a realidade da nossa sociedade que está tomado por estes bandidos, e agora veem-se confrontados por esta situação e os seus lugares correm riscos muito elevados.
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Tal e qual, Catarina Miranda. Parabéns
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Sou CRISTINA e não Catarina😆
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Desculpe, Cristina. Estou farto de saber o seu nome, porque leio todas as suas crónicas e desta vez peti o pé na argola.
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É tudo uma enorme conspiração! Para o Chega, todas as forças se unem para derrubar essa divindade chamada Ventura, descido do céu para apascentar este rebanho perdido chamado Tugal. Quem não vota nele ou é ressabiado ou tem medo de perder qualquer coisa, que não se sabe muito bem dizer o quê. Mas é assim que as tropas Cheganas funcionam. São os torquemadas da Direita e, nesta lógica de contra tudo e contra todos, vão rebentar o sistema e redimir os ímpios. Até a barraca abana!
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Culpa da forma e método de campanha de Ventura. Acabou por dar nesta edição de União Nacional democrata. Escrito nas estrelas.
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O burgueso vai a todas……Será o futuro presidente do SLBenfica, certamente……..
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Bem observado. Há duas coisas que juntaria, para reflexão. Uma é que o facto de Ventura ter um partido o faz parte do sistema partidário que diz combater – terá inerentemente os mesmos vícios de bando, e será mais um “chega … para lá que eu também quero”.
Por outro lado, Ventura parece estar a fazer deliberadamente uma unipessoal. Gente mais sénior com algum peso como Mithá Ribeiro e Pedro Arroja foi arredada, e só ficou quem não faça sombra ao grande dirigente.
Se não fossem os bem-pensantes a terem faniquitos só de ouvir falar nele, nem haveria grande razão para ter algum apreço por André Ventura.
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Foi a vontade do povo estamos bem representados, e os resultados só podem ser os habituais decorrentes das escolhas que fazemos. É só vir a fazer as contas como dizia o outro. Acresce quando se persiste em fazer tudo da mesma maneira em modelo enraizado não podemos esperar resultados diferentes
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