nada se cria, nada se perde, tudo se transforma
Jorge Jesus contratado para o Sporting com dinheiro de Álvaro Sobrinho.
mas nem tudo será mau
Na eventual declaração de óbito da TAP (falida já ela está há muito), já que, graças ao esforço financeiro que o governo que tiver de gerir o assunto (este, o do Costa ou outro qualquer) terá de fazer, vai ser muito provável que termine, de vez, o pastel para os pastelões do APV. Livramo-nos de dois problemas de uma só vez.
uma dúvida
Pode o «interesse público» prevalecer sobre o Estado de direito, ainda que o que resulte do direito do estado possa ser uma desgraça?
Que cena, meu
Realizador de cinema obriga contribuintes a pagarem uma empresa falida por mais tempo, como se não bastasse que pagassem para que faça aqueles filmes.
Privatização da TAP suspensa por ordem do tribunal. Governo deve contestar.
outro dia histórico
Um dia histórico
Há já muitos anos foi criado em Portugal um crime chamado “abuso de confiança fiscal” (actualmente previsto no artigo 105.º do RGIT). Tal como definido na lei, comete o crime quem não entregar à Administração Tributária impostos legalmente repercutidos a terceiros (essencialmente, IVA e IRS retido), em montante superior a 7500 euros.
O problema é que o IVA facturado (com algumas excepções) tem de ser entregue à Administração Fiscal pelo emissor da factura, independentemente de já o ter recebido do cliente. Nos casos em que a não entrega se devia ao não recebimento, tratava-se de uma verdadeira prisão por dívidas. Durante anos, os tribunais dividiram-se sobre se a não entrega de impostos ao Estado nos casos em que responsável por essa entrega não os recebera dos clientes integrava ou não o crime, pelo que a aplicação (ou não) de uma pena dependia exclusivamente do Juiz (ou do colectivo de juízes) que viesse a decidir o caso em última instância.
Dada a inércia do legislador, o Supremo Tribunal de Justiça pôs agora termo a esta velha querela, naquele que considero ser o bom sentido. É demasiado tarde para muitos contribuintes condenados ao longo dos últimos 15 anos. Mas a segurança jurídica resultante da clarificação daquilo que é e daquilo que não é crime não tem preço.
A omissão de entrega total ou parcial, à administração tributária de prestação tributária de valor superior a € 7.500 relativa a quantias derivadas do Imposto sobre o Valor Acrescentado em relação às quais haja obrigação de liquidação, e que tenham sido liquidadas, só integra o tipo legal do crime de abuso de confiança fiscal, previsto no artigo 105 n.º 1 e 2 do RGIT, se o agente as tiver, efectivamente, recebido.
A dama de mármore
Hoje, no seu artigo no jornal Público, Maria de Lurdes Rodrigues, pessoa condenada a três anos e meio com pena suspensa por prevaricação de titular de cargo político, diz-nos que a passagem da Troika por Portugal foi “uma história que acabou mal”.
Diz-nos a ex-ministra, actual condenada e futura indemnizada:
A pergunta impõe-se: acabou bem para quem?
Depois percorre um ror de gente genérica para a qual, pelos vistos, o desfecho das mármores e candeeiros Siza poderiam ter sido diferentes, caso Maria de Lurdes Rodrigues pudesse ter continuado a prevaricar à vontade lá na quintinha.
A política vale a pena para construir, não para destruir; vale a pena para proporcionar às pessoas melhores condições de vida, não para as fazer empobrecer. Porém, nestes últimos anos o que tivemos foi a destruição de instituições e empobrecimento generalizado. (…) Termino repetindo a pergunta: acabou bem para quem?
Pois, é a festa da arquitectura ou, no seu caso, a festa da loucura. Mas, que se veja, acabou bem para si, doutora: uma pena suspensa não é nada má, tomando em consideração o dano que a doutora causou ao ror genérico de gente mencionada no seu artigo no Público.
Pensões e desigualdade
Um argumento muito frequente, defendido por norma por pessoas de esquerda, a propósito da Segurança Social: “Não se pode cortar pensões a pagamento porque os reformados até estão a sustentar filhos e netos desempregados”.
Involuntariamente este argumento revela alguns problemas da sociedade portuguesa e da sua economia. Embora todos digam que querem combater a desigualdade, ela é subtilmente perpetuada politicamente por protecção de uma classe média alta abrigada no Estado. A maioria da população não tem avôs que lhes paguem uma mesada pelo simples facto de que a maioria dos avôs tem pensões baixas ou mesmo muito baixas. Salvo raras excepções, quem trabalhou no sector privado não teve a reformas generosas, e esses são a maioria esmagadora dos reformados.
As pensões a pagamento que seriam alvo de corte seriam pensões altas, bastante mais altas que o salário médio de quem trabalha.Ou seja, trabalhadores que ganham 800 euros por mês contribuem para pagar pensões que nunca terão de 1500 ou 2000 euros.
As pensões a cortar seriam também pensões que se formaram graças à preponderância política dos sindicatos da função pública, que ao longo dos anos defenderam a minoria rica da população. No entanto, o Tribunal Constitucional entende que estas pensões não podem ser cortadas, o que força a população trabalhadora a alimentar um conjunto de Donos Disto Tudo que nada fizeram para merecer as pensões que têm.
Portanto, a ideia de que não se pode cortar pensões a pagamento perpetua uma desigualdade com origem no poder de um pequeno grupo sobre o resto da população. A emigração jovem não é alheia ao sistema de segurança social que temos. O peso das pensões na economia é demasiado elevado, inibindo o trabalho e o investimento. Para um jovem com ambições a melhor saída é emigrar para um país onde existam mais oportunidades e menos direito adquiridos.
Uma promessa por dia XIII – não cortar pensões
António Costa. Com um Governo socialista “não haverá cortes nas pensões”
Nota: no cenário macro do PS está previsto congelamento de pensões e inflação acumulada de cerca de 6% ao fim de 4 anos. Portanto, PS quer cortar as pensões todas por igual. A alternativa seria cortar aquelas que manifestamente estão muito acima daquilo que os beneficiários descontaram.
Catálogo
O catálogo da última causa mais causa de todas anda agora às voltas com os homens que se transformam em mulheres (o inverso tb existe mas não dá capas tão giras) mais os meninos que nasceram sem género. Como já deixámos para trás os que gostam de pessoas do mesmo género e estamos agora nas mudanças de género começa a parecer-me que como o mundo é redondo bastam-nos mais duas ou três causas e voltamos à casa da partida, ou seja aquele tempo em que a humanidade não fazia género e tinha sexo.
Clássicos
Na Madeira “Primeiro-ministro desbloqueou 43 milhões de euros do Fundo de Coesão Regional este ano e admitiu rever condições dos empréstimos.” – ora aqui está uma notícia que é uma espécie de clássico pré-eleitoral em Portugal.
prognósticos…
Rui Rio permanece indeciso sobre a sua eventual candidatura a Belém. E só tomará uma decisão definitiva depois de Janeiro de 2016.
Se bem percebo o professor Boaventura
os contribuintes europeus têm a obrigação de patrocinar o programa eleitoral do Syriza. Meu caro professor Boaventura abra uma conta na CGD e faça um apelo à solidariedade com o Syriza, partido que o caro professor confunde com a Grécia. O grande problema com a solidariedade do professor Boaventura é que a solidariedade dele passa sempre por os outros lhe pagarem os ímpetos solidários.
Uma promessa por dia XII – renacionalizar a TAP
PS quer renegociar participação na TAP para 49% para o vencedor da privatização
Nota: a ideia é recomprar 12% da TAP ao vencedor da privatização. Vai ser interessante ver como o PS convence o comprador a tornar-se minoritário.
Temos pena!
Tema do meu artigo de hoje no Observador: O que está agora a acontecer com a discussão sobre a Segurança Social parece decalcado daquilo a que agora chamamos tragédia dos retornados. Em Abril de 1974 a descolonização ia ser algo de verdadeiramente extraordinário. Quando o que fora anunciado como um processo histórico único e superior se tornou numa tragédia, eles, os anteriormente cheios de certezas, os proclamadores de um futuro radioso, desapareceram literalmente de cena. Ou mais propriamente desapareceram daquela cena porque outras cenas e outros palcos esperavam o seu brilhantismo, o seu espírito libertador e a sua clarividência.
Obiang, o justiceiro…
Obiang, o ditador da Guiné-Equatorial entendeu, por «conveniência de serviço», dissolver todo o poder judicial. Não me recordo de tal medida ter alguma ver sido tomada em lado nenhum. Mas quem pode manda e Obiang não se fez rogado: tudo para a rua, ali quem manda é mesmo ele.
Nem perdeu tempo, como se informa aqui. Para além da paralisia do sistema judicial, o ditador foi lesto em mandar que fossem a casa de cada juíz dos vários tribunais buscar os carros oficiais que estes tinham ao serviço e que agora já não eram necessários por o «serviço» ter sido extinto. Ao serviço é como quem diz: Obiang pessoalmente adquire os carros ficando o serviçal do estado a pagar uma renda sob o respectivo salário….
Fez entretanto a nomeação, certamente também por «conveniência de serviço» de um novo presidente do Supremo. Já o irmão do ditador continua a ser o PGR lá do sítio. O que é, por natureza, conveniente….As cenas dos próximos capítulos devem ser igualmente divertidas, é estar-se com atenção.
Dez mitos sobre a Segurança Social
Em 1970, quando Marcello Caetano lançou as bases do Estado Social, os pensionistas eram 260.807, em 2012 chegaram aos 3.584.902. Em 1970 por cada idoso (indivíduo com 65 e mais anos) existiam 6,4 indivíduos em idade activa, ou seja, com idades entre os 15 e os 64 anos. Em 2012 essa percentagem caiu para 3,4. Em 1970 nasceram em Portugal 180.690 crianças. Em 2012 esse número foi menos de metade: 89.841.
Desde 2008 que o crescimento das despesas com pensões vem sendo superior ao das receitas das contribuições.
Qualquer semelhança entre esta situação e a onda de um tsunami que se vai formando no horizonte não é coincidência: a insustentabilidade da Segurança Social vai cair-nos em cima. Mas até lá os mitos vão-nos entretendo.
1 A conta imaginária A imagem é poderosa, mas é falsa
2 Os meus descontos chegam e sobram para pagar a minha reforma Temos pena mas não é verdade
3 As reformas actuais são muito baixas Só se for por ilusão de óptica
4 Os cortes permitiram equilibrar as contas da Segurança Social Infelizmente é falso.
5 A Segurança Social gasta muito dinheiro em intervenção social É verdade, mas essa verdade não explica quase nada
6 A Segurança Social deve deixar de pagar o desemprego/reconversão profissional Uma falsa boa ideia.
7 A Segurança Social é um contrato entre gerações É verdade. Mas é um mau (para não dizer péssimo) contrato para uma das partes
8 É o crescimento económico que tem de garantir a sustentbilidade da Segurança Social É óbvio que sim, mas o óbvio só é óbvio quando dá jeito.
9 A Segurança Social deve alargar a sua base de financiamento Essa opção pode ser tomada, mas vai prejudicar os jovens.
10 Devemos apostar numa reforma que resolva definitivamente o problema Esqueça o definitivamente.
Uma promessa por dia XI – escalões do IRS
António Costa promete mexer nos escalões do IRS
Nota: Poucos dias depois da publicação do cenário macro do PS, António Costa prometeu uma medida com impacto orçamental que não fazia parte desse cenário.
Pelo que consigo perceber, vou deixar de poder comer um pastel de Chaves que não seja uma vil falsificação excepto se me deslocar a Chaves ou se aceitar comer um menos fresco. A outra hipótese parece ser comer um pastel de Chaves que não se chame pastel de Chaves, passando então a chamar-se “pastel que parece, sabe e em tudo se assemelha a um pastel de Chaves apesar de não ser um pastel de Chaves”.
– Pode ser um pastel de Chaves.
– Pastel de Chaves não temos…
– Então são dois copos de vinho branco.
Uma promessa por dia X
Rendimento mínimo para ex-reclusos.
Nota: ex-reclusos vão ter direito a rendimento mínimo mesmo que não verifiquem as condições de acesso válidas para o resto da população?
Os erros da narrativa do PS sobre Segurança Social
Este artigo de Rui Cerdeira Branco tem todas as falácias sobre a actual narrativa do PS sobre a Segurança Social.
1. Cortar pensões a pagamento mina a confiança no sistema de pensões.
Errado. O facto de não se cortarem pensões a pagamento não acrescenta nada à confiança dos mais jovens no sistema. Estes sabem que a fórmula de cálculo já foi alterada e sabem que não terão pensões tão generosas.
Seja como for, a confiança no sistema de pensões é irrelevante, dado que o sistema é obrigatório e imposto por maioria democrática. Num contexto em que os pensionistas tendem a ser o grupo demográfico com mais eleitores, não há como os outros fugirem ao sistema. Por pouco que um jovem confie na Segurança Social, ele não tem escolha.
2. Cortar pensões hoje não garante dinheiro para as pensões futuras
As pensões actuais são pagas com dívida. Cortar as pensões actuais reduz as necessidades de endividamento. Logo, cortar pensões hoje assegura que os pensionistas do futuro terão mais rendimento disponível.
3. O desemprego e os baixos salários tornam o colapso da Segurança Social é inevitável
Errado. Um sistema de Segurança Social bem desenhado adapta-se ao rendimento da geração que beneficia e é compartimentado em relação aos subsídios de desemprego (os quais por sua vez têm que se adaptar ao rendimento e aos descontos efetuados pelos beneficiários). O que poderá tornar o colapso da Segurança Social inevitável é a insistência em não corrigir os erros do actual modelo.
4. Crescimento económico é alternativa ao corte de pensões
Errado. Se o sistema de pensões for demasiado generoso para os actuais pensionistas, como é o caso em Portugal, estes sugam recursos que de outra forma seriam dirigidos para investimento e incentivo ao trabalho. Portanto, não se pode dizer que o crescimento económico é alternativa ao corte de pensões quando o corte de pensões é condição necessária para libertar recursos para o crescimento.
Se as pensões não prejudicam o crescimento económico, o que nos impede de contrair mais dívida ou de aumentar a TSU para pagar pensões ainda mais generosas?
5. Devemos aliviar as taxas e impostos das empresas de trabalho intensivo
Errado. Impostos devem ser neutros e as taxas devem servir para pagar os custos que cada actividade efectivamente tem. Empresas de trabalho intensivo têm que remunerar o trabalho correctamente, o que inclui as reformas dos respectivos trabalhadores. Se assim não for, os agentes económicos passam a alocar recursos onde eles são menos eficientes.
6. Devemos aumentar o IRC para pagar o alívio de impostos às empresas de trabalho intensivo
Errado. Esta ideia pressupõe que as empresas de capital intensivo criam menos emprego que as empresas de trabalho intensivo. Ignorância. O emprego resulta da alocação correcta dos diferentes factores de produção num mercado suficientemente líquido e sem distorções. A acumulação de capital é o que gera procura por trabalhadores e é o que faz subir os salários.
Mas é divertido que os socialistas, que tanto falam em salários altos, proponham penalizar as empresas de capital intensivo, que são as que, pela sua produtividade geram a procura para o aumento de salários.
Marinaleda, Hotel California
Ontem falei do meu tio Jerónimo e hoje, por coincidência, li no Observador sobre Marinaleda, descrita como “um paraíso na Terra, onde os conceitos de socialismo e de democracia parecem funcionar em pleno”. O tio Jerónimo chegou a viver numa comuna socialista uns tempos após sair da prisão. Nessa altura caracterizava a experiência como de plena felicidade mas, tal como o Observador, também o tio Jerónimo acabou por corrigir a descrição da vida na comuna, passando do extremo inicial de brochura turística enganosa para uma versão mais realista. Importante não é dizermos asneiras, é sermos capazes de evoluir para as dizermos em menor número, pelo menos suponho ser uma boa forma de ir vivendo.
O problema das descrições efusivamente entusiásticas de paraísos terrenos, para além da inerente burrice de quem as profere (reitero o sublinhado), é o desprezo que evidenciam pela realidade. A vida real é uma aproximação muito mais fidedigna ao paraíso terreno que a artificialidade comunitária destas experiências opressivas. Em primeiro lugar, só uma sociedade liberal permite a existência de comunas socialistas: laissez-faire, laissez-passer; inversamente, nenhuma comuna socialista permite uma sub-comuna liberal no seu seio: QED, carimbe-se, publique-se e envergonhe-se. Em segundo lugar, não é só a sociedade liberal permitir a existência como também a subsidiar, tirando ao seu próprio bolso, mantendo vivo o experimentalismo bacoco destes chanfrados com o dinheiro dos outros. Em terceiro lugar, como em qualquer outro culto religioso ou dependência de estupefacientes, entrar é fácil, difícil é sair.
Agora que já tiramos do sistema a palermice, que já desopilamos o fígado com uma momentânea alucinação enviesada sacada de um Pravda, que já corrigimos o texto de uma pessoa que precisa de atenção, carinho e tratamento ou, pelo menos, um dedo mais ponderado a clicar no botão “publicar”, vamos só assegurar que tal não volta a acontecer desta forma tão à bruta.
Uma promessa por dia IX – não privatizar
Costa promete não privatizar setores considerados “bens de primeira necessidade”
Nota: Promessa na categoria “não fazer X”. Promete não privatizar, mas concessionar a privados, como defende o actual governo para vários casos, mantém-se como opção.
O princípio da proporcionalidade
Todos? Bem, quase todos. Em 2013 o parlamento aprovou uma Lei que restringia o acesso ao Rendimento Social de Inserção, exigindo, para os cidadãos estrangeiros não comunitários (ou de países sem acordos de livre circulação com a UE), residência legal em Portugal há pelo menos três anos (excepto se fossem menores de 3 anos).
Para os portugueses ou outros cidadãos da UE, o período mínimo de residência legal exigido era de um ano.
Há pouco mais de dois meses, o Tribunal Constitucional tinha declarado inconstitucional o prazo de um ano para cidadãos nacionais, por violação do princípio da igualdade (os portugueses são todos iguais, mesmo que tenham saído do país, já que sair do país é uma liberdade fundamental).
Esta semana foi a vez do prazo de três anos para não comunitários ser declarado inconstitucional, por violação do princípio da proporcionalidade (três anos é demais).
Resta agora saber quanto tempo demorará ser declarado inconstitucional o prazo que ainda permanece na lei (um ano, para cidadãos comunitários ou de países com acordos de livre circulação com a União Europeia), não abrangidos por nenhum dos dois acórdãos (no mais recente foi apreciada a legalidade, mas não a constitucionalidade da norma que se lhes aplica…).
Aceitam-se apostas quanto ao quando e quanto ao princípio constitucional que servirá de fundamento do terceiro acórdão.
Sobre a vil acusação à FIFA
Foi com grande admiração que descobri pelas notícias que ainda se fala de corrupção no mundo do futebol profissional. Quando o meu tio Jerónimo era árbitro, lembro-me de uma situação extremamente desagradável que ocorreu quando o treinador do Águias de Vila Chã entrou aos gritos na sala de jantar da Pensão Camélia, queixando-se de favorecimento ao Desportivo de Cabeço Sul no jogo realizado durante a tarde. O meu tio Jerónimo era uma pessoa muito honesta e ficou muito aborrecido e até transtornado por o Abílio dar-se a figuras destas em público, mesmo ali, em frente ao presidente do Cabeço Sul, com quem jantava. A situação subiu de tom – já se sabe, as pessoas ouvem falar em corrupção e compreensivelmente salta-lhes a tampa – e, vai nas tantas, até a Dona Armanda, cozinheira da pensão, sai com a acusação de que o meu tio andava a dormir com a mulher do Silva, o presidente do Cabeço Sul.
A Armanda já na altura era bastante gorda mas, vista de trás, com a mini-saia, até era bastante irresistível, disse-me o meu tio, que diz que passou dois dias no quarto dela naquele fim-de-semana em que a tia Arminda foi na excursão para ver o Tony Carreira no Pavilhão Atlântico. Ainda me lembro, estava eu a acabar de ver O Justiceiro na televisão, quando me contou que nem aquele carro KITT conseguiria saltar sobre a seira da Armanda como ele tinha conseguido. Na altura nem percebi à primeira o que ele quis dizer com isso, que no meu 5º ano ainda não se falava tão abertamente de sexualidade humana na escola. Mas adiante, para a corrupção propriamente dita.
O que se tinha passado, alegadamente, é que o meu tio tinha recebido um relógio imitação de Roskopf para inventar um penalty contra os Águas de Vila Chã. De acordo com o Abílio, aquilo não era penalty em lado nenhum, que nem os bandeirinhas tinham assinalado e, para mais, nem sequer estavam jogadores dentro da área excepto o guarda-redes. O meu tio exaltou-se, levantou-se e gritou que ele é que tinha feito o curso de árbitros e se há gente que não conhece as regras do futebol nem devia ser treinador de um clube com o prestígio dos Águias. O Abílio insistiu, que treta de regra é essa, onde está escrita e que ele tinha é que ir fazer queixa à federação e sei lá mais o quê. O meu tio Jerónimo enervou-se mesmo a sério, atirou com a cadeira as ventas do Abílio, sacou do cartão vermelho do bolso das calças e expulsou o Abílio, mesmo ali, da Pensão Camélia directamente para o hospital.
Tinha eu 12 anos e percebi, logo ali naquela altura, que se uma pessoa tão honesta como o meu tio Jerónimo podia ser acusado de atrocidades relacionadas com corrupção, qualquer outro inocente poderia. Desde então não acredito em nada do que dizem sobre o desporto-rei e é por isso que a FIFA é inocente e deve ser imediatamente libertada já que nenhum juiz a condenou de nada. Digam ao Obama que eu também sou jurista e que isto não é assim como ele quer, em nome da verdade desportiva.
Emigração e sustentabilidade da Segurança Social
Um argumento muito ouvido nestes dias: a Segurança Social só não é sustentável porque nos últimos 4 anos houve muita emigração e desemprego.
Ou seja, aquilo é tudo muito sustentável se não acontecessem coisas desfavoráveis.
Periodos de desemprego e emigração são um facto da vida. Se um sistema só é sustentável se estes factos não existirem, então não é sustentável.
Um sistema de Segurança Social verdadeiramente sustentável não é afectado por este tipo de eventos. Se há emigração, o tempo em que a pessoa está emigrada não é contabilizado para o calculo da reforma futura. Cada corte na receita corresponde a um corte nas obrigações do sistema. Se há desemprego, o tempo que a pessoa passa no desemprego não conta como tempo de contribuição para o sistema e logo não cria obrigações futuras.
A insustentabilidade intrínseca da Segurança Social portuguesa não resulta da emigração ou do desemprego. Resulta de uma fracção importante dos actuais pensionistas estarem a receber pensões que não são justificáveis pelas suas contribuições.
Uma promessa por dia VIII – anti-FMI
António Costa promete “política contrária” ao FMI
Nota: Várias das propostas do PS são propostas do FMI, ou propostas que o FMI aprovaria, como a descida da TSU, o imposto negativo ou o contrato único.
Do mau gosto
De manhã fiz uma experiência que consistiu em associar um cólon à escolha gráfica do cartaz do PS e esperar pelas as reacções. Ninguém me acusou de mau gosto. Vocês estão a dormir?
Estão. O comentário político está em hibernação, o que é só natural, com a quantidade de comentadores em tudo quanto é palanque. Quando podemos abusar do mau gosto é porque sabemos que não há muito mais a dizer. Isto é particularmente interessante num país pantomineiro, em regime permanente de campanha eleitoral. As pessoas estão cansadas e não querem saber das eleições para nada; nem sequer se indignam por dá-cá-aquela-palha, como parece à primeira vista; só se indignam se conseguirem que a indignação providencie entretenimento por tempo suficiente para não passarem pelas brasas. Até ao estado natural das coisas, com os socialistas habituais no governo, não há muito para ser dito. Sobra o divertido istonãoseaguentismo que, mais cedo ou mais tarde, terá que ser libertado para servir de sustento aos dias da conformidade que tanto tardam.
Ou isso ou já tanto foi dito sobre o Cavaco que, mais imagem de cólon, menos imagem de intestino, já não há mau gosto que nos surpreenda.
Quem é o deputado que o representa?
No sistema eleitoral português esta pergunta não tem resposta. Ou melhor, as respostas possíveis são “todos os 230 deputados” ou, o que é o mesmo, “nenhum”.
De acordo com o artigo 147.º, n.º 2 da Constituição, a Assembleia da República “é a assembleia representativa de todos os cidadãos portugueses”. No entanto, ao contrário de outros sistemas eleitorais, de acordo com o artigo 152.º, n.º 2, “os Deputados representam todo o país e não os círculos por que são eleitos”.
As eleições legislativas servem, em teoria, para eleger deputados. Na prática, porém, a generalidade dos eleitores não vota em candidatos a deputado mas em partidos, uma vez que as listas de deputados são em regra definidas pelas cúpulas partidárias, sem qualquer participação dos eleitores ou sequer dos militantes. A escolha dos deputados não é muito diferente da escolha dos jogadores da selecção portuguesa de futebol: o seleccionador escolhe os jogadores e espera-se depois que os cidadãos a apoiem e se identifiquem com ela apenas porque é composta por jogadores portugueses. Ler mais…
O tamanho não é tudo
O rapaz das orelhas majestosas que, numa indignação passada – há vários milénios em termos de atenção nas redes sociais (mais ou menos 15 dias) -, fez uma otoplastia, cortesia de uma clínica que, desta forma, vê o seu nome associado a causas sociais fracturantes. Infelizmente, esta clínica – que só pode usar ciência e técnica de experiência acumulada – nada pode fazer pela voz do jovem, para sempre condenado a cantar mal. Só a família do rapaz podia, efectivamente, fazer algo por ele nesse sentido; já que se demitem disso, avanço eu, que ninguém lê: jovem, tu cantas mesmo mal e isso mostraste a toda a gente que te viu as orelhas. No teu lugar teria uma conversa muito séria com quem nada fez para te ajudar a perceber as limitações. Aliás, se nunca te ajudarem a perceber as coisas para as quais não tens jeito, podes acabar numa carreira de sucesso a dar aulas numa escola ou universidade pública ou, pior, conseguir acumular isso com participação na vida política.
Reconhecendo que existem “problemas sérios” no sistema gerados pelo desemprego, Vieira da Silva admitiu fazer incidir os ajustamentos necessários nas novas pensões.
“Faremos as correcções que forem necessárias para garantir a equidade e o equilíbrio do sistema”, disse, acrescentando que as pensões futuras, que o PS diz querer “proteger”, dependem da capacidade de “recuperar emprego”.
A importância da terceira casa de banho
Se forem à casa de banho, depois de entrarem pela porta, pensem em como sabiam em que porta entrar. Ora aqui está um atavismo transcendente
A maioria de nós nem sequer pensa duas vezes em que porta entrar. Entra e pronto. – Vamos fazer um dolitá..
Mas as casas de banho balizam e definem o género. — Logo ficamos sem balizas ou sem casa de banho?
Faço este exercício para os fazer pensar sobre a evidência do género. — Primeiro tínhamos sexo, depois género agora temos o problema de estarmos balizados no género
As casas de banho são um elemento preocupante para as pessoas transgénero, por exemplo.– O que propõe? E as sapatarias?
Se entrarem na casa de banho que os outros consideram a errada, podem ser importunados e violentados pelos outros.” — Portanto isto é tudo um problema de sanitários e o que se pretende é uma terceira casa de banho? Que fiquemos todos sem casa de banho? Que vamos todos à mesma casa de banho?
Todas estas temáticas de géneros provavelmente alargadas às cozinhas, despensas, marquises, arrecadações e garagens estão em discussão no Teatro Maria Matos “palco de desconstruções sobre a política de género, reflexões sobre o corpo, sobre o feminismo e sobre as concepções ligadas à comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero)” O sector da construção civil deve contar-se entre os patrocinadores porque isto vai ser muito sanitário para adaptar!!!
Na verdade o PS tem-se lembrado a cada segundo
Sobre o ø amarelo no cartaz de Cøsta

Rigør, Cøsta
Há um tom escandinavo no cartaz do goês, com aquela linha amarela que une os círculos da mesma cor nas palavras. Uma possibilidade, para mim a mais verossímil, é que se trata de uma subtil representação matemática do conjunto vazio, ∅, com uma única linha condutora que une Costa a Rigor, uma espécie de TGV do vazio existencial anunciado pelo ex-edil lisboeta.
Ao lado, imagem não relacionada de cólon sem alterações, uma das muitas formas circulares em tons pastel que se encontram na natureza.
Uma promessa por dia VII – TSU
Costa promete redução gradual da TSU
Nota: A evolução e justificações à volta desta medida vão ser divertidas.
PS rejeita negociar cortes nas pensões actuais e promete as “correcções” necessárias nas futuras
Tradução: não haverá cortes nas pensões actuais, que estão a ser pagas pelos trabalhadores actuais, os quais verão as suas pensões cortadas no futuro.
Entrevista a Joana Amaral Dias
por Joana Amaral Dias
Joana, em que fase da tua vida estás agora?
Essa é uma questão curiosa e que não estava à espera que me fizessem. Enfim, assim sem pensar muito na questão, diria que estou na fase da vida que Shakespeare caracterizou como de som e fúria, desprovida de especial significado profundo e que Faulkner imortalizou na afirmação de que a história não é só o que fomos mas também aquilo que agora somos.
Lembras-te do teu primeiro namorado?
Sim, era um rapaz muito bem parecido. Porém, éramos incompatíveis, eu sendo de esquerda e ele sendo muito inteligente.
De que te arrependes, na tua militância na esquerda?
Basicamente não me arrependo de nada excepto de me ter inscrito no Bloco, um partido cheio de pessoas bem intencionadas mas que não sabem que são de direita, muito conservadoras e pouco vanguardistas na sua concepção do mundo artístico e multiculturalmente globalizado.
O que não dispensas na praia?
A toalha e o biquini. As pessoas são muito preconceituosas em Portugal, não há sequer igualdade no direito à exposição solar do peito sem um grupo de embasbacados a oprimirem a liberdade da mulher. Um bom livro, como qualquer um do Chomsky ou do Umberto Eco. Uma boa companhia. Protector solar.
Já leste o último livro dele?
Já. É um importante texto no qual procura definir os limites da pesquisa semiótica bem como fornecer uma nova compreensão da disciplina segundo pressupostos buscados em filósofos como Kant e Charles Sanders Peirce. Curiosamente, é um dos poucos autores que conciliam o trabalho teórico-crítico com produções artísticas, exercendo influência considerável nos dois âmbitos.
Achas que o teu pai foi uma grande influência na tua vida?
Foi e ainda é.
De que falam, a nível profissional?
De nada, é raro termos oportunidade para uma conversa séria, com o meu trabalho tão absorvente na luta pela união das esquerdas.
Não achas que é um bocado utópico querer unir as esquerdas?
Acho que, com esta austeridade, temos que ver o lado positivo, seguindo o exemplo de Anne Frank. Claro que a Anne Frank não assistiu à pobreza originada pela austeridade enquanto estava escondida na casa em Amsterdão, o que lhe confere uma certa frieza na análise. No meu caso, ao fim de um certo tempo comecei a ficar mais alterada com a desgraça testemunhada no holocausto da austeridade da Troika e do Passos Coelho. Sabias que a casa da Anne Frank fica mesmo em frente a um canal cujo nome, em Português, é o Canal do Príncipe? Claro, o Príncipe é também um livro de Maquiavel sobre a centralização do poder político, no fundo só possível através da união da verdadeira esquerda. Isto responde à tua questão?
Responde, claro. Achas que Marinho e Pinto pode ser a solução da união das esquerdas?
Eu não quero personalizar e criar uma espécie de Sebastião messiânico, até porque o valor da esquerda está na opinião de cada um e não na frieza da matemática ou das ciências exactas. Dito isto, tenho grande esperança que, mais cedo ou mais tarde, o povo português acorde para a necessidade de unir as esquerdas. Como dizia Wilfried Laurier, “fraternidade sem absorção, união sem fusão”.
Muito obrigado pela tua disponibilidade para esta entrevista.
De nada, foi um prazer.
Nota do autor: este texto é uma obra de ficção não subsidiada.
Vanity projects
Nos Globos de Ouro da SIC/Caras, Diogo Infante, ao receber o objecto dourado, tentou uma piada sobre a inexistência de um Ministério da Cultura. Aparentemente, esta lacuna ministerial prejudica severamente este e outros actores que, mesmo assim, recebem prémios dourados (com ministério até iam à lua).
Ontem, na RTP1, passaram uma gala da SPA que consistia em autores a premiarem outros autores. Estes elaboravam sobre a miséria que é o desinvestimento em cultura, mesmo após a aprovação da enaltecida Taxa Barreto Xavier sobre silício, o 2º elemento mais abundante no planeta Terra logo a seguir ao oxigénio (este ainda não taxado).
Em Cannes, Miguel Gomes apresentava o seu filme de 6 horas, “As Mil e Uma Noites”, sobre a austeridade em Portugal imposta pela Troika, aparentemente sem perceber nem fazer perceber ao público a ironia que é a produção de um filme de 6 horas sobre austeridade.
O que todos estes têm em comum* é a falta de vergonha. A república popular portuguesa, com contribuintes que além de suportarem pensões, rendas, salários, empresas falidas, abortos gratuitos no SNS – só para mencionar as pacíficas -, têm também que suportar estes negociantes da indignação cujo lucro deriva da crítica institucionalizada ao culto da mula de carga que são os contribuintes privados no país dos tolos.
António Costa devia endereçar já estas preocupações e assegurar que não faltarão fundos para a elite autoral poder assegurar a continuidade do trabalho endógamo de autores para o público de autores.
* Não vi o filme do Miguel Gomes, posso estar a ser injusto ao colocá-lo de antemão no rol de hipócritas que obtêm receitas no negócio da crítica da austeridade.
A utopia anda por aí
Depois do Syriza e do Tsipras entrámos no arrebatamento nível local com Ada Colau em Barcelona e Carmela em Madrid
Uma promessa por dia VI – emprego para ex-presos
Bolsa de emprego para antigos presos
Nota: Passarão à frente de outros candidatos que não tenham sido presos?
