Maio de 2008 *

O melhor dos liberais franceses (embora a colheita não seja abundante), Guy Sorman, tem uma visão positiva do Maio de 68: abriram-se janelas em cada um de nós, os excessos foram “desvios”, já que a sua essência era não violenta, “um cruzamento entre hippies e Gandhi”. Sobretudo, escreveu, a utopia então clamada encontrou-se com a lógica vital do Ocidente que é a “capacidade de se reinventar”.
Desta vez, Sorman exagerou. No que disse e no que omitiu. Dali despontaram os grupos terroristas que assassinaram em Itália, Alemanha e na América Latina. Os que berraram nas ruas de Paris há 40 anos falharam em quase tudo: exigiam a liberdade em nome de Mao!
Mudou o que tinha de mudar para o bem e para o mal e não por causa deles. Apesar de a geração de 68 estar no poder em toda a parte, o Mundo está cada vez mais igual ao que era, principalmente nos seus piores aspectos.

* Correio da Manhã, 1.V.2008

32 Comentários

  1. anti-comuna
    Posted 2 Maio, 2008 at 00:30 | Permalink

    O homem está de volta.

    PSL, em grande forma, desta vez mostra o caminho do PSD. E do país?

    Deu uma excelente entrevista à RTP. Foi crítico com os seus adversários sem ser caceteiro. Não diz ser liberal nem reformista mas promete reduzir em 100 mil funcionários públicos, sem recorrer às manigâncias da CA.

    Ora, é este savoir faire que falta ao PSD.

    O PSD tem pelo menos dois candidatos: Ferreira Leite e PSL.

    Daqui a uma semana teremos oportunidade de conhecer em profundidade o que pensam estes candidatos. Hoje PSL marcou pontos pelo que disse. Ferreira Leite pelo que não disse.

    Cuida-te Pinócrates. A tua hora está a chegar. ;-)

  2. Posted 2 Maio, 2008 at 00:37 | Permalink

    “Dali despontaram os grupos terroristas que assassinaram em Itália, Alemanha e na América Latina.”

    Os grupos “terroristas”/”guerrilheiros” da América Latina apareceram na sequência da Revolução Cubana (quase 10 anos antes!); quanto aos protestos estudantis na Alemanha (que deram origem a Baader-Meinhoff e grupos afins) começaram antes do Maio de 68 francês.

    “Os que berraram nas ruas de Paris há 40 anos falharam em quase tudo: exigiam a liberdade em nome de Mao!”

    Os maoistas franceses nem eram entusiastas do Maio 68 – nos primeiros dias denunciaram-no como um movimento “pequeno burguês” e só mudaram de posição quando o proprio Mao organizou um desfile em Pequim de apoio.

    Os estudantes de 68 eram basicamente anarquistas (como Cohn-Bendit), trotskistas (como Krivine) ou maioritariamente esquerdistas não-alinhados, não maoistas (o maoísmo só entro na moda nos anos 70).

  3. José
    Posted 2 Maio, 2008 at 00:43 | Permalink

    Há vários livros em francês, para se perceber o que foi Maio de 68. Não foi nada disto que está escrito na crónica.

    E é perigoso, avançar com ideias erradas, baseadas em mitos, historicamente deslocados.

    Há uma coincidência, no terrorismo dos anos setenta. A Itália, a Alemanha e o Japão, foram precisamente os paises do Eixo e onde houve terrorismo mais violento.
    Por cá…houve as FP25, 10 anos depois ( meados dos oitenta).

    Não faz sentido ligar o Maio de 68, ao aparecimento do terrorismo, até porque em Maio de 68, nem houve mortos. A Revolução do joli mois, foi pacífica, tirando uns tijolos arremessados a montras e uns carros incendiados.

  4. Andronic
    Posted 2 Maio, 2008 at 04:19 | Permalink

    “Os que berraram nas ruas de Paris há 40 anos falharam em quase tudo: exigiam a liberdade em nome de Mao!”
    Então, Marcuse e Pompidou eram maoistas?
    É preciso estudar antes dos exames…!

  5. balde-de-cal
    Posted 2 Maio, 2008 at 05:18 | Permalink

    estão todos os falhado da geração de 68. a revolução da pílula contra as camisas de vénus.meses depois estava em paris a estudar e tive ocasião de apreciar o desastre in loco.

  6. Juca
    Posted 2 Maio, 2008 at 07:02 | Permalink

    Uma das Figuras do Maio de 68 em Paris, que é actualmente uma espécie de menino da mamã dos deputados europeus e da imprensa parlamentar, co-presidente dos Verdes Europeus, é autor de afirmações pedófilas, imbecis e de mau gosto.
    Durante as manifestações de 1968 e, segundo eles, para chocarem os valores vigentes, despiram-se com criancinhas e estiveram a tocar nos sexos uns dos outros, ou seja, segundos os valores vigentes da actualidade, este Deputado Europeu, esteve em práticas PEDÓFILAS.

  7. piscoiso
    Posted 2 Maio, 2008 at 07:54 | Permalink

    Maiistas, sim.
    Maoistas, não.

  8. Posted 2 Maio, 2008 at 09:12 | Permalink

    Corriere della Sera – 30 de Novembro de 2007

    Francesco Cossiga, ex-Presidente de Itália, foi forçado a demitir-se após ter revelado a existência, e a sua participação na criação, da Operação Gládio – uma rede de operações secretas sob os auspícios da NATO que executou atentados bombistas por toda a Europa nos anos 60, 70 e 80. A especialidade da Gládio era executar o que se chama “false flag operations,” ataques terroristas que eram imputados à oposição doméstica e geopolítica.

    As revelações de Cossiga contribuíram para uma investigação do parlamento italiano em 2000 sobre a Gládio, durante a qual foram reveladas provas de que os ataques foram administrados pelo aparelho de inteligência americano.

  9. Posted 2 Maio, 2008 at 09:22 | Permalink

    “Durante as manifestações de 1968 e, segundo eles, para chocarem os valores vigentes, despiram-se com criancinhas e estiveram a tocar nos sexos uns dos outros”

    Penso que (de acordo com os escritos originais de DCB) isso foi nos anos 70, não nas manifestações de 68.

  10. Anónimo
    Posted 2 Maio, 2008 at 09:51 | Permalink

    Se alguém conseguir explicar qual é a teoria liberal que impede uma pessoa de se despir onde quiser.

  11. José
    Posted 2 Maio, 2008 at 09:52 | Permalink

    A única coisa que pode ligar Maio de 68 aos terroristas da década que se seguiu, é a Utopia.

    Mas isso…até agora, o neo-liberalismo, partilha com esses crentes. A fé na salvação através da mudança de paradigma.
    A violência, nem vem sempre da força das armas. Por vezes, impõe-se através das ideias.

    Por isso é que um escapado de Maio de 1968, Luís Cília, emigrado nessa altura, cantava num disco do início dos setenta: “Contra a ideia de violência, a violência da ideia”…

  12. caramelo
    Posted 2 Maio, 2008 at 10:09 | Permalink

    “O Mundo está cada vez mais igual ao que era, principalmente nos seus piores aspectos.”?
    O CAA está a precisar de fazer uma viagem no tempo. Enquanto não inventam a maquineta, pode ir-se entretento a perguntar aos mais velhos a diferença entre o mundo há quarenta anos e o mundo de agora.
    E a diabolização da “geração de sessenta” continua: terroristas, pedófilos, inúteis, falhados, etc. Isto deve ter qualquer explicação psicanalitica que eu ainda não alcancei.

  13. Anónimo
    Posted 2 Maio, 2008 at 10:49 | Permalink

    O problema foi desde que se instalou a crise dos mercados financeiros. Quando tudo corria bem com crescimento da economia mundial, era a maravilha do capitalismo, do liberalismo. As coisas correm mal, os parolos encontram logo outros culpados. Who cares! They are nuts. Metam a história deles no saco.

  14. Posted 2 Maio, 2008 at 15:37 | Permalink

    Miguel Madeira,

    «Os maoistas franceses nem eram entusiastas do Maio 68 – nos primeiros dias denunciaram-no como um movimento “pequeno burguês” e só mudaram de posição quando o proprio Mao organizou um desfile em Pequim de apoio»

    Ah, então ‘mudaram de posição’ e apoiaram a revolta francesa! E não me importa o que é que asorganozações maoístas pensavam no início – o que é relevante que se gritou contra a sociedade ‘burguesa’ e favor da liberdade em nome de Mao naquela altura em Paris. Isto é um facto, ainda esta semana o ABS e o El Mundo o noticiavam.

  15. Posted 2 Maio, 2008 at 15:39 | Permalink

    José,

    «Não faz sentido ligar o Maio de 68, ao aparecimento do terrorismo, até porque em Maio de 68, nem houve mortos. A Revolução do joli mois, foi pacífica, tirando uns tijolos arremessados a montras e uns carros incendiados.»

    Pacífica!!??
    É melhor voltar a reler alguns desses livros – se calhar, ganha mais em optar por outros que não em francês nem escritos pelos que estão a defender a sua linda actuação.

  16. Posted 2 Maio, 2008 at 15:40 | Permalink

    «Então, Marcuse e Pompidou eram maoistas?»

    Pompidou?! Quem o Georges???

  17. Posted 2 Maio, 2008 at 15:40 | Permalink

    «Então, Marcuse e Pompidou eram maoistas?»

    Pompidou?! Quem o Georges????

  18. Posted 2 Maio, 2008 at 15:41 | Permalink

    E desculpem lá, meninos que o eram em 1968, peço-vos perdão por vos ter beliscado os dogmas da V. geração…

  19. José
    Posted 2 Maio, 2008 at 16:00 | Permalink

    CAA:

    Facto: houve menos mortos no Maio 68 do que por cá no 25 de Abril. E ninguém se atreve a proclamar a revolução dos cravos, como sendo uma tragédia…

    Pois não? Ahahaha!

  20. José
    Posted 2 Maio, 2008 at 16:03 | Permalink

    Precisamente, um dos pontos que costuma ser analisado nesses livros, é a ausência de violência extrema. E explicam-na de vários modos: o trotskismo mandava mais do que o extremismo esquerdista revolucionário e a intelectualidade francesa era avessa a violências na terra deles. Nas dos outros,já não se pode dizer o mesmo.

    Resumindo: o Maio de 68, em França foi uma revolução em tom suave.

  21. José
    Posted 2 Maio, 2008 at 16:04 | Permalink

    A grande figura intelectual do Maio 68 é Sartre. O símbolo maior. Morreu há alguns anos, desiludido com aquilo em que acreditara.
    Para mim, Maio 68, morreu com ele.

  22. Posted 2 Maio, 2008 at 16:21 | Permalink

    O CAA escreveu “os que berraram nas ruas de Paris há 40 anos falharam em quase tudo: exigiam a liberdade em nome de Mao!”, o que parece implicar que os estudantes de 68 (ou a maioria) eram pró-Mao; efectivamente, os maoístas participaram no Maio 68, mas a inversa não é verdadeira: a maioria dos 68istas não era maoista.

  23. Posted 2 Maio, 2008 at 16:24 | Permalink

    Compare-se com a seguinte expressão: “os que apoiaram os comandos de Jaime Neves no 25 de Novembro fizeram-no em nome de Mao”; acham que isso fazia algum sentido (apesar do apoio do MRPP e da AOC ao 25/11)?

  24. José
    Posted 2 Maio, 2008 at 16:35 | Permalink

    Uma boa parte dos apoiantes de Maio 68, da parte estudantil, era trotskista. A JRC, fundada por Henri Weber e Alaian Krivine, entre outros, foi uma das forças mais intervencionistas na organização das manifestações.
    Daniel Cohn-Bendit, era qualquer coisa, talvez anarquista, socialista utópico ou assim uma coisa cor de burro a fugir, como aliás, outros que assim fizeram naquele tempo.
    Dany le rouge, era de facto um pouco noir. O irmão, Gabriel Cohn-Bendit, já com 32 anos e já professor em Saint-Lazare, esse sim, era lido em Bakunine e Kropotkine. E achava que o Estado era o mal absoluto. A propriedade também. E de Deus nem se fala. Em relação aos neo-liberais que vou conhecendo, só falha o pequeno detalhe da propriedade que o mesmo achava que era um roubo e estes entendem ser um produto do mais forte.

  25. caramelo
    Posted 2 Maio, 2008 at 17:16 | Permalink

    Épá, iso são tudo minudências sem jeito nenhum! Se não gritavam Mao, gritavam outra coisa qualquer barulhenta! O que interessa é que aquilo era tudo gente daninha e malfazeja, que partia coisas às pessoas com paus e pedras e que depois deram em pôr bombas e coisas assim e nos lixaram a vida daí para a frente!

  26. Posted 2 Maio, 2008 at 17:43 | Permalink

    Miguel Madeira:

    «a maioria dos 68istas não era maoista.»

    Divulgue lá os dados da sondagem…

  27. Posted 2 Maio, 2008 at 18:01 | Permalink

    José,

    Se alguma coisa caracterizou aquela coisa foi a confusão: ideológica, nos acontecimentos, nos propósitos, nos fundamentos.
    Ficou a utopia desgarrada, a violência em potência que a derrota agravou, a pose da certeza moral absoluta e a tendência para a continuação da ‘luta’ por outros meios.

    O que me importava dizer é que o mundo mudou onde e quando tinha de mudar – e não por causa daquela geração maldita que quis destruir sem evoluir e que se julga moralmente superior às que estavam antes e que vieram depois. E, também aí, estavam errados.

  28. José
    Posted 2 Maio, 2008 at 19:22 | Permalink

    Essa geração “maldita”, não desapareceu de um dia para o outro. Reciclaram as bandeiras e logo em 1973, fundaram o Libération. Sartre e Serge July, precisamente. Aquele, tinha andado com a La Cause du Peuple, na mão, a distribuir na rua.

    Depois disso, reciclaram-se no…liberalismo! Tal e qual.

    Quer a explicação? O José Manuel Fernandes, tem-na dado por vezes, em editoriais.

    O liberalismo e fruto do Maio de 68…voilà!

    E esta, hein?

  29. José
    Posted 2 Maio, 2008 at 19:24 | Permalink

    Por isso é que se diz que os neocons americanos, têm uma ascendência esquerdista. Bem vincada, aliás.

  30. Posted 2 Maio, 2008 at 21:36 | Permalink

    «O liberalismo e fruto do Maio de 68…voilà!
    E esta, hein?»

    Já sabia, daí a condescendência de Guy Sorman.Mas, que fazer: c’est la France!

  31. jonny
    Posted 4 Maio, 2008 at 23:40 | Permalink

    sera?

  32. Posted 5 Maio, 2008 at 01:07 | Permalink

    Eu não sei qual o espanto- desde os primórdios da humanidade que os revolucionários se sistematizaram…a dança é sempre a mesma- luta-se contra o poder para se ficar com ele e não para o modificar.
    Exemplos:
    Revolução Francesa: argumento principal: luta contra o despotismo monárquico (liberdade, igualdade e fraternidade). Resultados: oligarquia aterrorizante.
    Revolução Bolchevique: argumento principal: luta contra o despotismo monárquico. Resultado: oligarquia aterrorizante
    Maio de 68: argumento principal: liberdade e ruptura do sistema burguês. Resultado: emburguesamento das elites.
    25 de abril de 74: argumento principal: democracia. resultado: partidocracia, oligarquia.
    Estão a ver? Os exemplos são tantos…


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