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Mises versus Pedro Sales

21 Março, 2008

Escreve Pedro Sales:

Estranhamente, e quando a questão já não é saber se estamos em recessão mas perceber a natureza da sua dimensão, a blogosfera liberal em peso está calada ou a assobiar para o lado. Compreende-se. Afinal, tanto latim a tentar explicar-nos os mecanismos infalíveis da mão invisível e, quando as coisas começam a dar para o torto, lá tem que ser o dinheiro público a intervir e a nacionalizar as perdas dos lucros privados. Isto tem dias que mais vale estar calado.

Caro Pedro Sales,

A crise financeira actual é uma consequência das polítias monetárias dos bancos centrais que, caso não saiba são instituições publicas e não instituições de um mercado livre. Aliás, se o Pedro Sales quer conhecer melhor a posição liberal sobre a emissão de dinheiro pelos bancos centrais convido-o a ler o que o Mises tem a dizer sobre o assunto, começando pela importância de uma moeda sólida:

It is impossible to grasp the meaning of the idea of sound money if one does not realize that it was devised as an instrument for the protection of civil liberties against despotic inroads on the part of governments. Ideologically it belongs in the same class with political constitutions and bills of rights. The demand for constitutional guarantees and for bills of rights was a reaction against arbitrary rule and the nonobservance of old customs by kings. The postulate of sound money was first brought up as a response to the princely practice of debasing the coinage. It was later carefully elaborated and perfected in the age which—through the experience of the American continental currency, the paper money of the French Revolution and the British restriction period—had learned what a government can do to a nation’s currency system.

Na passagem seguinte Mises explica que quando o Estado emite moeda de forma arbitrária os individuos não têm forma de se defender de uma possível desvalorização:

The characteristic mark of this freely vacillating currency is that the owner of any amount of it has no claim whatever against the Treasury, a bank, or any other agency. There is no redemption either de jure or de facto. The pieces are not money substitutes but money proper in themselves.

No texto seguinte, Mises explica como poderiamos voltar a ter uma moeda sólida:

The total amount of dollar bills, whatever their name or legal characteristic may be, must not be increased by further issuance. No bank must be permitted to expand the total amount of its deposits subject to check or the balance of such deposits of any individual customer, be he a private citizen or the U.S. Treasury, otherwise than by receiving cash deposits in legal-tender banknotes from the public or by receiving a check payable by another domestic bank subject to the same limitations. This means a rigid 100 percent reserve for all future deposits; that is, all deposits not already in existence on the first day of the reform.

Dos textos citados parece-me claro que a tentativa do Pedro Sales para relacionar a actual crise com o liberalismo é um tiro ao lado só explicável pelo desconhecimento do que muitos autores liberais têm dito do actual sistema monetário.

Ah, e o Pedro Sales não devia atribuir à mão invisível a responsabilidade pelas intervenções públicas em bancos falidos. Quem opta por salvar bancos falidos, contra todos os princípios de uma eonomia de mercado, são as autoridades públicas.

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11 comentários leave one →
  1. anti-comuna permalink
    21 Março, 2008 12:44

    É engraçado que os neokeynesianos, que tanto pedem baixas nas taxas de juro (manipulações da moeda, contra o credo da maioria dos Liberais), que tanto pedem novas fronteiras no acesso ao crédito (e a crise do subprime começa com a atribuição de crédito ao deus dará), no fundo, que tanto desejam a política monetária ao serviço do consumo, estejam agora a acusar os Liberais de apoiarem estas más políticas.

    Mas em parte compreendo porque os antiliberais o fazem. Porque, é verdade e é terrível que assim o seja, muitos liberais confundem Liberalismo com Capitalismo. E esta confusão, que se nota sempre que se ataca os bancos e as suas políticas antiliberais, muitos Liberais confundem defesa do Liberalismo económico com a defesa de um tipo de capitalismo, abraçado pelos bancos e banqueiros.

    No entanto, temos que ser honestos. As políticas monetárias, sobretudo a criação de dinheiro do nada, praticada pelos bancos, com a Reserva Federal à cabeça, são uma espécie de moderno keynesismos, pois, lembramonos sempre dos antiliberais, dizendo: “o essencial de um banco central não se esgota na luta contra a inflação. E o crescimento económico?”

    É claro que o actual sistema financeiro está dorido. Está combalido. Mas não está derrotado, como muitos apregoam. E tanto não o está, que na hora da verdade, o Estado e os políticos tudo fazem para salvar o sistema financeiro. Porque dele, do actual, dependem para manter o eleitorado na ilusão que vivemos num mundo ideal. Que é podermos aceder ao crédito fácil, barato e, pasme-se, sem poupança, imprindo sobretudo a tónica no consumo.

    Infelizmente, também por culpa de muitos liberais, que confundem capitalismo com liberalismo, agora as forças antiliberais ganham pontos junto da populaça, para criticarem, quer o liberalismo, quer o próprio bom capitalismo. Sim. Porque há vários capitalismo, inclusivé o capitalismo socialista. Como o Hitler e o Mussolini, como maiores porta-estandartes deste tipo de mau capitalismo.

    É a vida. 😉

    PM Invente-se uma nova moeda. A moeda do trabalho! 8)

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  2. Anónimo permalink
    21 Março, 2008 12:57

    Nem sei como o JM se dá ao trabalho de responder ao iletrado do Pedro Sales.

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  3. anti-comuna permalink
    21 Março, 2008 13:25

    Acho que vale a pena meditar na coisa:

    http://www.ndn.org/advocacy/globalization/031908shapirointerview.html

    E acentuo aqui algumas ideias que partilho com o entrevistado: o fim da regulção principal que rege o sistema bancário americano, criado durante a Grande Depressão.

    Muitos Liberais, não compreendendo a essência do funcionamento dos mercados, são sempre qualquer tipo de regulação. Mas depois esquecem-se que o mercado é dado a euforias, manias e depressões. E que a natureza humana não muda assim tanto como se possa pensar, com o evoluir do tempo. E com o fim das regulações, surgem os erros dos agentes económicos. Aliás, a premissa de todo o sistema económico livre é baseado no erro. No risco e na sua avaliação. E nas suas consequências. O mercado livre é o que melhor concilia a avaliação do erro com o desenvolvimento económico. Mas um mercado livre deve sempre ter algumas regras, sobretudo para evitar riscos sistémicos. A tal regulação necessária. E, o erro de muitos liberais, é o oposto dos anti-liberais. Quase se mimetiizam, por antagonismo. O que é uma ideia estúpido. Os liberais não querem nenhuma regulação. Os antiliberais matam os mercados com excesso de regulação. Talvez no meio termo exista a virtude, não?

    É claro que esta crise sistémica surge com o fim da regulação operada em 1999. Assim como a crise sistémica que varreu os países nórdicos, nos fins da década de 90, foi originada pela desregulação demasiado rápida e contraproducente. Mas depois dos excessos teriam que vir as correcções. Mas nestas correções, geralmente, os mais penalizados são os mais fracos, pobres e desfavorecidos da sociedade. Ao passo, normalmente, os causadores principais das crises safam-se bem. E muitas vezes beneficiam bastante com a própria crise. Conseguindo o bom dos mundos. Recolhem o milho na eira e colhem bastante no nabal. Moral hazard? 😉

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  4. bipennis permalink
    21 Março, 2008 15:46

    tanto sábio, tanto comissário politico, tanto bufo a defender o nacional-socialismo actual e portugal na cauda da europa

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  5. Hird permalink
    21 Março, 2008 16:47

    Um depósito de 100 € num banco gera moeda num valor igual 1000€, já que a razão de reserva é 0,1. Mises propõe reservas de 100% que é mesmo que propor um bloqueamento á economia . Claro que criação de mais moeda não significa necessariamente criação de mais riqueza. Mas o mecanismo do multiplicador de moeda significa. Esse Von Mises de economia percebia pouco.

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  6. 21 Março, 2008 18:05

    Caro Hirf

    Não acha que um pouco nistico dizer que 100 dá lugar a 1000?

    Quando um Banco concede crédito por criação de dinheiro (a começar pelo próprio Banco Central – “instituições” que deviam desaparecer):

    1. O resto das pessoas que detém saldos monetários são prejudicadas porque mais moeda passa a existir (efeito inflação).

    2. O Banco e o receptor do crédito beneficiado porque recebeu dinheiro a preço mais baixo do que se tivesse de ter paado o preço para que o crédito recebido o tivessse sido à custa da convencer aforradores a concederem-lhe o crédito.

    3. O receptor do crédito é também beneficiado porque vai usar essea nova quantidade de dinheiro criada do nada, a preços que ainda não reflectem o facto de ter passado a existir mais moeda na economia…

    4. A economia é como que enganada nas suas contas, porque mais investimento vai ter lugar sem que esteja assegurado que exista a poupança real para a suportar, dado que como foi dito em 2 não foi necessário convencer aforradores a suportar esse investimento, tendo isto sido suportado pr pura criação monetária e não captação de poupança.

    5. O efeito “multiplicador” o que faz na verdade é multiplicar os ciclos económicos, que com se vê bem , é o resultado do socialismo monetário e não do capitalismo.

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  7. Luis Moreira permalink
    21 Março, 2008 19:18

    A verdade é que há regras que o bom senso e a experiência já mostraram serem
    essenciais para o bom e justo funcionamento dos mercados.São esquecidas sempre que a euforia de uns tantos ganharem dinheiro fácil,os leva a esquecerem o bom senso e a experiência!

    E quem paga os erros desses gananciosos são os restantes agentes da economia que produzem riquesa!incluindo os empresários não bancários como muito bem foi lembrado pelo Engº Belmiro!

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  8. 21 Março, 2008 19:23

    É fantástico como o João Miranda consegue escrever que “a crise financeira actual é uma consequência das políticas monetárias dos bancos centrais” sem depois pôr um bonequinho amarelo qualquer, daqueles tipo messenger, só para vermos que ele está a gozar connosco. Como toda a gente sabe, foram os bancos centrais que andaram a comprar e vender títulos sub-prime como pastilhas elásticas.

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  9. 21 Março, 2008 22:40

    Para além de serem os Bancos Centrais os responsáveis pela capacidade do sistema financeiro em criar moeda para conceder crédito, na verdade neste momento, os Bancos Centrais, em especial o FED, está a financiar directamente carteiras de crédito imobiliário.

    Se antes tinhamos apenas a “monetização” da dívida pública (financiamento dos déficts por criação monetária) paassmos agora a ter também a monetização do crédito à habitação (ou sejam financiamento directo via criaçáo de moeda do BC).

    E já temos até o financiamento directo: Nothern Rock e Bear Sterns.

    O sistema monetário vai fazendo fugas para a frente até…

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  10. rxc permalink
    22 Março, 2008 01:42

    …até todas as pessoas acordarem e se aperceberem que estão a pagar aos bancos por algo que estes não têm.

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  11. Micas permalink
    22 Março, 2008 17:34

    “João Diz:
    21 Março, 2008 às 7:23 pm
    É fantástico como o João Miranda consegue escrever que “a crise financeira actual é uma consequência das políticas monetárias dos bancos centrais” sem depois pôr um bonequinho amarelo qualquer, daqueles tipo messenger, só para vermos que ele está a gozar connosco. Como toda a gente sabe, foram os bancos centrais que andaram a comprar e vender títulos sub-prime como pastilhas elásticas.”

    Evidentemente.
    É preciso ter paciência para o JoãoMiranda. Muita paciencia.

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