Faltam médicos?
4 Abril, 2008
Joana, nome fictício, tem que fazer uma operação. Já foi chamada 3 vezes para ser operada no hospital de Santo António no Porto. Perdeu vários dias de trabalho. Joana é uma trabalhadora independente no verdadeiro sentido da palavra. Não pode meter baixa pela caixa. Não trabalha, não ganha. Das 3 vezes a operação foi cancelada. Falta de médicos? Falta de anestesista? Nope. Falta de camas. O cirurgião ficou sem nada para fazer nesses dias. Há médicos a mais e camas a menos no Hospital de Santo António no Porto. Ou talvez alguma desorganização e desrespeito pelos doentes e pelo contribuinte.
23 comentários
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Durante uma geração, foi fácil dizer que quanto mais desregulado fosse um mercado mais eficiente ele seria e mais facilmente recuperaria de crises cíclicas. Agora é o presidente do Deutsche Bank o primeiro a dizer: “já não acredito nos poderes auto-curandeiros do mercado”.
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««Agora é o presidente do Deutsche Bank o primeiro a dizer: “já não acredito nos poderes auto-curandeiros do mercado”.»»
Que relevância é que isso tem? O homem perdeu a fé, mas isso não implica que ele tenha razão.
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Há milhares de recursos humanos afectos à cobrança de impostos. Haverá algumas centenas para a fiscalização da sua aplicação. Posto isto, não deverá ser surpreendente para o contribuinte que os seus impostos (uma violência socialmente aceite, com vista ao bem comum) sejam mal aplicados, que os serviços que por eles são financiados funcionem mal e que haja uma enorme fraude e corrupção a grassar por todo o sector público.
A meu ver, isto resulta de, em Portugal, considerarmos a coisa pública como “de ninguém”, ao invés de a considerarmos como “de todos”. A chave para a resolução do problema passa por aí (isto para quem ainda acredita que o sector público deve existir…)
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Pela experiência que eu tenho, eu acho que vocês aí no Porto são um bocado desorganizados.
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deve ser do clima
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“A meu ver, isto resulta de, em Portugal, considerarmos a coisa pública como “de ninguém”, ao invés de a considerarmos como “de todos”. A chave para a resolução do problema passa por aí (isto para quem ainda acredita que o sector público deve existir…)”
Não existe diferença entre a coisa pública ser de ninguém ou ser de todos. Em ambos os casos não se podem apurar responsabilidades pelo funcionamento da coisa pública.
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Eu estava a falar dum ponto de vista psicológico, e como tal penso existir uma diferença significativa entre ser “de ninguém” e ser “de todos”. Como explicar que noutras democracias mais avançadas, haja uma muito maior fiscalização e responsabilização (de eleitos e eleitores) em relação à coisa pública? Penso que isso se justifica em grande parte pela consciencialização colectiva que o sector público é de todos e como tal, TODOS o devem preservar.
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Não é do clima Gabriel, é como em todos os países, as cidades mais pequenas vivem mais ao relenti, não há tanta pressão, até dá a sensação que estão sempre em férias. Aposto que é assim que que sente a senhora que organiza os quartos do Hospital Santo António.
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«as cidades mais pequenas vivem mais ao relenti, não há tanta pressão, até dá a sensação que estão sempre em férias. »
extraordinário!!!
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parece até que há mais cidades afectadas por esse «síndroma» de que «estão sempre em férias»:
Artigo no Público, de 2005, que comprova o que JM disse: «há médicos a mais e camas a menos»
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1239273&idCanal=
«Há hospitais em Portugal onde há mais médicos do que camas e onde o número de clínicos é superior ao de enfermeiros. Já em unidades como o Santa Maria ou os Capuchos, em Lisboa, no centro da polémica em torno do pessoal excedentário, o número de doentes internados por cada médico ronda os 35 por ano.
“O problema não é a falta de médicos, mas sim de planeamento e eficiência do sistema”, conclui o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares.
Os números são da Direcção-Geral da Saúde, num levantamento sobre recursos e produção no Serviço Nacional de Saúde em 2003. E não deixam margens para dúvidas quanto à produtividade dos hospitais ao nível do internamento de doentes e à disparidade da distribuição dos recursos.
Há dois casos paradigmáticos na capital: quer o Hospital Egas Moniz quer o dos Capuchos tinham mais médicos a trabalhar do que enfermeiros. No Egas Moniz exerciam, em 2003, 432 médicos e apenas 421 enfermeiros, nos Capuchos existiam 429 clínicos para 390 enfermeiros.
No Egas Moniz, com 404 camas – mais de um médico por cama, tal como acontecia em unidades como o Santo António, no Porto – estiveram internados nesse ano 11.721 doentes. O que significa que, em média, cada médico internou em 2003 apenas 29 doentes.
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“Como explicar que noutras democracias mais avançadas, haja uma muito maior fiscalização e responsabilização (de eleitos e eleitores) em relação à coisa pública? Penso que isso se justifica em grande parte pela consciencialização colectiva que o sector público é de todos e como tal, TODOS o devem preservar.”
1) O que é uma democracia mais avançada ?
2) O que entende por consciencialização colectiva ?
Já agora o sector público não é de todos. É pago com o dinheiro de todos, que queiram quer não. Lá porque o Silva paga uma parte do sector público não significa que tenha qualquer poder ou direitos sobre o sector público. Aliás, de acordo com a sua definição de sector público então o Silva, eu você, somos utentes. Não somos donos, não temos direitos.
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Faltam também muitos mais JM’s.
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É extraordinário. Mas realmente – visto que isso é periodicamente falado ou, melhor, sussurrado em alguns órgãos de comunicação – ninguém sabe o que significa a palavra “camas”? Não, evidentemente, não me refiro à categoria gramatical de tão simplezinha como equivocante palavra. Refiro-me ao significado de “camas” em âmbito hospitalar e, mais concretamente, quando aplicado a cirurgias.
Passo, por conseguinte, e visto que é preciso, a explicar: “camas”, neste contexto, é uma abreviatura que quer dizer “camas de recobro”. Ou seja, trocando por miúdos: quando alguém é operado, (geralmente) torna-se necessário que – feito o penso e na condição imprescindível de a pessoa ainda estar viva – seja colocada num sítio onde existam monitores de sinais vitais, umas coisas que se põem na boca (da pessoa operada, note-se) e que servem para respirar oxigénio, uns ferrinhos onde se penduram sacos de soro, por exemplo, e mais uns fios, uns tubos e trapalhadas que tais. Ora, sucede que dá mais jeito, colocar a pessoa que foi operada, e que vai ficar por uns dias ligada àquela porcaria toda – a ver se se safa – preferencialmente numa coisa assim comprida e com uns lençóis do que propriamente numa cadeira ou, vá lá, no chão. É por conseguinte, a essas coisas compridas que se chama, por simples economia de esforço, “camas”.
O que sucede, na maior parte dos casos é que não há sistematicamente “camas” (destas, repito, nada de confusões) disponíveis porque, entre outros motivos, essas “camas” (DESTAS) estão ocupadas por velhinhos e velhinhas, em muitos casos abandonados nos hospitais pelas respectivas famílias, e por pessoas que dependem de suporte de vida básico e não têm meios próprios para os custear (ou alguém que trate disso) em sua casa (às vezes, para chatear, também não têm casa) ou num estabelecimento de saúde privado (se for preciso explicar esta, também se arranja).
Espero ter sido útil neste piqueno esclarecimento, digamos, semântico.
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Não! Se há coisa que não falta neste nosso Portugal são camas hospitalares.
Não! Se há coisa que não falta neste nosso Porto são camas hospitalares.
É um fenómeno muito dificil de compreender para quem está de fora de um sistema de saúde, seja ele público ou privado, mas o objectivo é mesmo esse, fazer parecer que faltam sempre meios. A questão é que é fácil de provar que não faltam. Ninguem sequer o tenta, porque é daquelas coisas em que dificilmente alguem acredita. Mas acreditem, sei do que falo.
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Bom, não sei se este último comentário me era dirigido mas – pelo sim, pelo não – deverei quiçá responder.
Eu cá acho que (pelo menos) também sei do que falo. Estive lá, fui operado (cirurgia cardiotorácica) e vi, com estes que a terra não há-de comer porque serei cremado: na sala de recobro, em cinco “camas” (DAQUELAS, as tais) eu era o único “menor de” 60 e o único que tinha acabado de ser operado; as outras quatro eram (todas, por coincidência) mulheres que ali estavam, pelo menos duas delas, há… anos!
Vi, da janela (Santa Maria, 5º piso), um velho a ser abandonado nos jardins; tive, na minha enfermaria, um tipo de meia-idade sem qualquer problema de saúde a não ser este: o filho despejara-o na urgência, alegando que o seu Pai tinha “uma dor no peito”. Posso garantir que o médico de ronda teve uma dificuldade dos diabos em dar alta a esse pobre homem.
E, é claro, a minha opinião – porque é de uma simples opinião que se trata, é favor não gritar, lá por causa disso – não se fundamenta exclusivamente numa única, subjectiva, pessoalíssima experiência. Com tempo, tive a oportunidade de conferir algo que, na altura, me pareceu demasiadamente estúpido e deprimente para ser verdade.
Fica a adenda. Aliás, minto. Agora reparo que o meu primeiro comentário tem duas vírgulas a mais.
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«Há dois casos paradigmáticos na capital: quer o Hospital Egas Moniz quer o dos Capuchos tinham mais médicos a trabalhar do que enfermeiros. No Egas Moniz exerciam, em 2003, 432 médicos e apenas 421 enfermeiros, nos Capuchos existiam 429 clínicos para 390 enfermeiros.»
Se o critério de análise for o n.º de horas efectivamente trabalhadas por cada um destes grupos profissionais a conclusão poderá ser diferente.
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” Não existe diferença entre a coisa pública ser de ninguém ou ser de todos. Em ambos os casos não se podem apurar responsabilidades pelo funcionamento da coisa pública. ”
Curiosamente, quem diz que não existe diferença entre a coisa publica ser de ninguém ou de todos, é evidente que vai concluir que não se pode responsabilizar ninguém.
Espero que nunca vá gerir nada público, é tudo o que lhe posso dizer.
E até privado, terei as minhas dúvidas. Só vai se o “patrão” mandar ?
Curiosamente e pelo que diz, parece que sim. Se não tiver essa tarefa, não é responsável por nada. Por exemplo um fogo que apareça. Como não é responsável pela segurança nem bombeiro, mesmo o local sendo “privado” não terá responsabilidade nenhuma se não chamar os bombeiros.
Ou se vir um desastre de aviação, também não avisará ninguém e as pessoas poderão morrer
São assim os neo-liberais. O que é público, não é responsabilidade deles. Nem as vidas humanas, quando aprofundamos a questão. Será mesmo tipo “Querido Líder” no seu máximo. A responsabilidade é de alguém outro, se nos der ordens e nos pagarem, parece e curiosamente. Não há responsabilidade, até. Há é empregos. Se se fizer mal, é-se despedido. Se o empregador for amigo, nem isso. Se for a empresa que fizer a asneira, obviamente que nada tem a ver.
Bem vindos a este Novo Mundo.
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“Como explicar que noutras democracias mais avançadas, haja uma muito maior fiscalização e responsabilização (de eleitos e eleitores) em relação à coisa pública? Penso que isso se justifica em grande parte pela consciencialização colectiva que o sector público é de todos e como tal, TODOS o devem preservar.”
Curiosamente, ou não, como são conceitos estranhos tanto a coisa pública como a responsabilidade, ficou por responder .
Faz-se novas perguntas, ou responde-se não se respondendo.
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“nelson gonçalves
Lá porque o Silva paga uma parte do sector público não significa que tenha qualquer poder ou direitos sobre o sector público. Aliás, de acordo com a sua definição de sector público então o Silva, eu você, somos utentes. ”
Donos são todos, mas tal como nos seguros por exemplo, não quer dizer que entre numa unidade/serviço e faça o que quiser. Nos seguros, tem o que alegadamente paga. Poderá não ter várias coisas.
Se não tiver, não pode dizer “eu sou dono”.
No serviço público, curiosamente, poderá dizer. Mais, poderá se unir a outros utentes como si e exigir este ou aquele serviço.
Curiosamente, se é utente, compreenda que é porque paga. Como paga tem direitos como o de ser utente.
Se não pagasse (vc e o Silva) o serviço não existia e não era utente.
Tem mais direitos sendo utente e dono , do que sendo meramente cliente.
Direitos se for cliente : Se se unir a outros clientes, pode levar o caso a tribunal, mas não pode exigir que mudem a garantia do seguro.
Direitos se for “utente” : Se for utente, pode ir para tribunal e pode se unir também a outros utentes para exigir alguma mudança.
Não é por acaso que vé várias vozes acerca de centros de saúde, mas se os seguros mudam (e mudam bastante) não vé nem uma voz contra. Simplesmente dizem “pode ir para a concorrência, incluindo para o sns”.
Ser utente, é curiosamente, melhor que ser cliente.
Cliente é uma relação em que não é dono. Está numa posição de inferioridade. Ser utente é ser um dos donos. Está numa situação de inferioridade enquanto não mudarem – independemente do mercado ser isto ou aquilo.
E ser utente, não obedece – pelo menos na teoria – a carteis, etc. E faz concorrência aos seguros, etc, para que estes sejam melhores.
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Curiosamente, em países subdesenvolvidos, não há hospitais particulares, porque não há lucro. Geralmente são feitos pelo Estado, por Ongs, por Igrejas, etc.
O mercado só depois é que entra com Hospitais, curiosamente.
Parece que há certas pessoas, que querem voltar para trás. Para os níveis de países subdesenvolvidos.
Se é mentira, porque razão não há hospitais e grandes escolas nesses países, e quando vemos algo, são sempre missões de igrejas, ongs, etc ?
A realidade não é neo-liberal.
A realidade, é que os neo-liberais querem mudar.
Por fim, já foi dito
rxc Diz: “noutras democracias mais avançadas, haja uma muito maior fiscalização e responsabilização (de eleitos e eleitores) em relação à coisa pública?
Isso se justifica em grande parte pela consciencialização colectiva [e individual] que o sector público é de todos e como tal, TODOS o devem preservar “
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Curiosamente, algumas respostas parecem de um certo blasfemo, mas devo estar enganado. Mas vou responder.
“nelson gonçalves
1) O que é uma democracia mais avançada ? ”
Já respondido por rxc : “explicar que noutras democracias mais avançadas, haja uma muito maior fiscalização e responsabilização (de eleitos e eleitores) em relação à coisa pública“
“nelson gonçalves
2) O que entende por consciencialização colectiva ? ”
Já respondido. rxc : “explicar que noutras democracias mais avançadas, haja uma muito maior fiscalização e responsabilização (de eleitos e eleitores) em relação à coisa pública“
“nelson gonçalves
Já agora o sector público não é de todos. ”
Curiosamente, faltou dizer de quem era então.
Presume-se que diga que o sector público é de privados ?
Se é mau, é porque então é de privados ? Curiosamente só poderá ser, por exclusão de partes, ou até melhor resposta CONCRETA sua de quem é o sector público.
“nelson gonçalves É pago com o dinheiro de todos, que queiram quer não. ”
Curiosamente, alguém disse o contrário ?
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«Agora é o presidente do Deutsche Bank o primeiro a dizer: “já não acredito nos poderes auto-curandeiros do mercado”.»
JoaoMiranda Diz: “Que relevância é que isso tem? O homem perdeu a fé, mas isso não implica que ele tenha razão.”
Tem a relevância de ser o presidente do Deutsche Bank. O tal conceito de Autoridade. E Conhecimento. Curiosamente, presume-se, visto ser presidente de tal banco, ter conhecimento teórico e na prática. No mundo real.
Se era uma questão de fé, então os mercados vivem com base na fé.
O que curiosamente, é estranho para tantos pseudo-racionalistas. Afinal o mercado é uma fé. Talvez uma fezada.
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Quando falei dos seguros, não foi a criticar os seguros. Curiosamente, acho que a “coisa pública” não pode e não deve abarcar tudo. Os seguros podem e DEVEM entrar aí, pois até é muito simples. E podem competir com serviços públicos. Curiosamente, acho a actividade seguradora das mais interessantes do mercado.
Mas , o serviço público não deve desaparecer, pois tal, até seria “trostkista-capitalista”. Ou seja, não haveria termos de comparação.
O problema da “coisa pública”, e como já foi dito por rxc é “explicar que noutras democracias mais avançadas, haja uma muito maior fiscalização e responsabilização (de eleitos e eleitores ) em relação à coisa pública“
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