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Em Sintra não comem frango?*

1 Maio, 2009

Por enquanto talvez ainda comam mas certamente que vão deixar de comer pois o novo Regulamento de Animais de Sintra estabelece que os animais não podem sofrer psicologica ou fisicamente naquele concelho. É certo que o dito regulamento para já apenas se destina aos espectáculos – como os circos e as touradas – mas quem já entrou num aviário certamente comprovou o sofrimento psicológico e físico experimentado pelos frangos e demais seres de pena que se encontram nos ditos estabelecimentos. O mesmo regulamento, se fosse para ser levado a sério, poderia conduzir à extinção as reservas de caça existentes no concelho pois como se supõe a felicidade não é propriamente um estado de alma entre as espécie cinegéticas na época da caça. Seja em Sintra ou em qualquer outro lugar. Viana do Castelo, Braga e Cascais fazem companhia a Sintra nesta nova bandeira do politicamente correcto dos direitos dos animais ou mais precisamente dos direitos de alguns animais. Tanto mais que este tipo de medidas dá boa imprensa. Tão boa que ninguém se lembra de confrontar os partidos com o duplo critério que adoptam neste assunto. Ou será que o BE que apresentou a proposta do fim das touradas em Sintra – proposta essa que só teve os votos contra do PCP e de alguns dos eleitos do PS – também vai propor o mesmo tipo de regulamento em Salvaterra de Magos, única autarquia presidida pelo BE e onde apresentar um regulamento destes implicará com quase toda a certeza perder as eleições? Estranhamente a preocupação com o sofrimento dos animais que tanto incomoda os auto-proclamados defensores dos touros vivos – convirá não esquecer que se acabarem as touradas ninguém investirá na criação de touros bravos, logo os touros bravos passarão a touros bravos desaparecidos – não se aplica a animais menos telegénicos. A mim, por exemplo, impressiona-me muito mais a morte dos peixes do que as touradas, as matanças ou as chegas de bois. Tenho uma atávica dificuldade em entender como há quem se divirta em campeonatos de pesca e exasperam-me aquelas boas almas que passam horas imóveis, de cana de pesca na mão, à espera que um peixe morda o anzol para em seguida o deixarem morrer asfixiado. Mas não creio que fosse aceitável que um regulamento semelhante ao que foi aprovado em Sintra, Cascais ou Viana do Castelo impedisse a pesca desportiva ou outra qualquer em nome da condenação do sofrimento físico e psicológico dos peixes. Acontece simplesmente que as touradas vivem hoje, em Portugal, um momento equivalente ao que aconteceu há algumas décadas com o fado. Consoante as épocas o fado foi acusado de degenerar a raça ou de ser reaccionário e não havia escritor ou artista que não se sentisse na obrigação de declarar o seu nojo por aquilo que consideravam um arrazoado acanalhado de canções de faca, alguidar e ciúme. Até um acontecimento com características populares como a Grande Noite do Fado não merecia o menor interesse quer aos militantes da canção popular quer ao estudiosos que todos os dias lastimavam que o povo preferisse ouvir rádio em vez de cantar nas mondas e nas ceifas. Como nesses tempos não existia a figura de ministro da Cultura, o mesmo não vivia o embaraço de surgir nas fotografias ao lado de fadistas e guitarras. Hoje o fado passou de canção cantada em Portugal para uma espécie de praga nacional: à excepção daqueles que, como é o meu caso, não cantam nada, parece existir um fadista dentro de cada português. Nos locais mais recônditos do país organizam-se noites de fado e fala-se do dito como se a Severa fosse lá da terra. E, claro, os políticos e as elites já não têm vergonha de aparecer ao lado dos fadistas. Ensina aliás a última campanha presidencial que ter uma mandatária que cante fado, como aconteceu a Cavaco Silva com Kátia Guerreiro, é uma vantagem muito acrescida sobre os outros candidatos que também escolheram cantores para mandatários mas especializados noutros estilos supostamente mais modernos mas certamente menos eficazes na hora de fazer esquecer aos auditórios que o candidato ainda não chegou, veja-se o caso de Manuel Alegre com Pacman. Não sei se as touradas conseguirão fazer o percurso do fado e recuperar a popularidade. Logo nada me chocaria que as mesmas deixassem de existir, em Portugal, por falta de público. O que me parece um claro abuso de poder por parte dos autarcas é arrogarem-se o direito de decidirem que determinados espectáculos não terão lugar nos respectivos concelhos. Agora são as touradas e os circos. Amanhã podem ser as feiras, os concertos dum determinado tipo de música, uma peça de teatro ou outro espectáculo qualquer. É sempre fácil arranjar argumentos para legitimar uma proibição. Presumo que nas próximas autárquicas a questão das touradas não suscite especial interesse. Mas neste país onde o poder central e local já achou um sinal de progresso proibir toques de sinos, procissões e piqueniques, neste mesmo país onde uma autarquia achou por bem adquirir um cinema que mantém mais ou menos fechado, falo do São Jorge, em Lisboa, unicamente para impedir que uma igreja pouco institucional ali se instalasse, conviria perceber o que pensam os diversos candidatos não sobre as touradas mas sim sobre o direito a decidirem acerca dos espectáculos e eventos que podemos frequentar.

*PÚBLICO

Nota: convém não esquecer que algumas destas localidades tinham ou ainda têm praças de touros. Ao probirem as touradas as autarquias interferem também na questão da propriedade: se um espaço está licenciado como praça de touros e se não se podem realizar corridas as autarquia licenciam outros usos? No caso de Viana do Castelo a praça foi vendida ao município por um  preço assaz interessante

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41 comentários leave one →
  1. lucklucky permalink
    1 Maio, 2009 12:07

    É o que se pode esperar de gente sem Cultura…

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  2. lucklucky permalink
    1 Maio, 2009 12:09

    …dá Tirania.

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  3. José Manuel Santos Ferreira permalink
    1 Maio, 2009 12:17

    #1#

    Onde é que é o almoço ???

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  4. :-) permalink
    1 Maio, 2009 12:27

    em sintra podem-se matar moscas?

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  5. Anónimo permalink
    1 Maio, 2009 12:29

    a helena apresenta traumas de educação de aviário, são mais preocupantes as touradas da oposição na arena de s. bento que em benavente.

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  6. olhão permalink
    1 Maio, 2009 12:39

    Com o fim das touradas, extingue-se a já diminuta praga de “inteligentes” deste país!!!

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  7. olhão permalink
    1 Maio, 2009 12:42

    ” 1
    O manjar deve ser acompanhado, com que tintol?

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  8. 1 Maio, 2009 12:46

    #8.
    Um tinto Colares de Visconde Salreu, é óptimo.

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  9. olhão permalink
    1 Maio, 2009 12:48

    “…Agora são as touradas e os circos. Amanhã podem ser as feiras…” Coitado do Paulinho…
    As “pocilgas e os porcos” estarão, haja o que houver, sempre a salvo.

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  10. 1 Maio, 2009 12:49

    Sempre me perguntei qual era o tamanho mínimo do animal a ser defendido.

    Será que quem toma estas “medidas” deixa de usar insecticida?
    As moscas, as pulgas e as formigas são o quê?

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  11. olhão permalink
    1 Maio, 2009 12:50

    Alguém me explica, por que é que uns comentários têm fundo branco e outros têm fundo cinzento?!?!?!

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  12. olhão permalink
    1 Maio, 2009 13:01

    Se forem parasitas, com pedigree, estarão a salvo.

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  13. 1 Maio, 2009 13:03

    Agora a HM imagine os aviários terem uma bilheteira (ou um site para venda online), dando acesso a umas bancadas para o público assistir à morte dos frangos.
    Com os matadores de frangos a sairem em ombros.

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  14. olhão permalink
    1 Maio, 2009 13:08

    ” 9
    Estava tentado por um Esporão, Reserva de 2005, Alentejo-DOC-Reguengos, que teima em não sair da minha garrafeira, mas vou experimentar a sugestão.

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  15. Anónimo permalink
    1 Maio, 2009 13:15

    #12 – se fosses aficcionado sabias a diferença entre sol & sombra.

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  16. Anónimo permalink
    1 Maio, 2009 13:25

    #1 – frango!!!… só à-guia, no restaurante do estádio, acompanhado com um tinto dos diabos.

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  17. A. R permalink
    1 Maio, 2009 13:51

    E os anopluros também terão alguns direitos?

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  18. A. R permalink
    1 Maio, 2009 13:56

    olhão disse
    1 Maio, 2009 às 12:50 pm

    Alguém me explica, por que é que uns comentários têm fundo branco e outros têm fundo cinzento?!?!?!

    PARA CONTRASTAR UM COMENTÁRIO DOS COMENTÁRIOS VIZINHOS

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  19. olhão permalink
    1 Maio, 2009 14:00

    # 16
    Desde a prisão, em Peniche, que sei essa diferença. Provavelmente, ainda, não tinhas nascido!!!

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  20. José Manuel Santos Ferreira permalink
    1 Maio, 2009 14:50

    #9# e #15#

    Sem dúvida o Colares

    E os frangos, de preferência, com nitrofuranos

    Têm outro sabor, faço questão

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  21. Pi-Erre permalink
    1 Maio, 2009 14:52

    E não se podem matar piscoisos?

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  22. Anónimo permalink
    1 Maio, 2009 15:11

    #20 – se calhar tinha, frequentava outros sítios avistáveis do teu quarto, a consolação de apanhar sol & sombra na praia. em caso de ofensa, manda a conta do prejuízo.

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  23. Pirata Somali permalink
    1 Maio, 2009 15:13

    Há um ponto relevante e indiscutível, hoje em dia a tourada tem mais espectadores do que nunca, mais do que nos supostos anos auréos da dita. Os anos auréos da dita estão a ser agora.
    Além disso, a Helena de Matos levanta um ponto extremamente importante, que eu também já tinha pensado: se acabarem as touradas acabam os touros bravos. Portanto, quem defende a vida (relativamente ) selvagem terá que pensar nisso. Condenar as touradas é condenar os touros bravos à extinção.

    De modo que por querer proteger uns quantos, acaba-se por levar a extinção de todos. Não parece sensato nem eficaz da parte de quem diz defender os direitos dos animais.

    Também me parecem absurdos os campeonatos de pesca, em que depois não se come o peixe. O desporto não devia viver apoiado em cadáveres.

    Por outro lado, quem visitar qualquer local em que os animais são criados como “produtos” e estão condenados a viver quase imóveis, com o único fito de engordar, pensará duas vezes – se tiver um mínimo de sensibilidade (coisa que rareia cada vez mais) – se quer participar na continuação de tais parques-matadouros, que são perigosamente à imagem de toda uma sociedade parqueada e aprisionada.

    Para o gourmet sem moral, e que se borrifa para as condições dos animais, a verdade é que o sabor dos animais-produto-industrial é de baixa qualidade. A comida industrial será sempre isso, comida industrial, de fraco gosto, de gosto “normalizado”, enfarinhado, trufado de penicilinas, corantes, conservantes. Enfim digno do riso amarelo de Visnhu : brreuagh!

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  24. Carlos permalink
    1 Maio, 2009 15:48

    Sinto orgulho por viver em Sintra

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  25. Scriptor Calamus permalink
    1 Maio, 2009 15:55

    # 25

    Espero que Sinta tenha orgulho em si, não tem é na vizinhança de betão que a rodeia como um abraço de polvo.

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  26. 1 Maio, 2009 15:57

    Cara Helena,

    Só para sugerir que uns parágrafos e umas linhas em branco facilitam a leitura dos posts, obrigado!

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  27. rui.baptista.ml permalink
    1 Maio, 2009 16:22

    This article needs additional citations for verification

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  28. Pifas permalink
    1 Maio, 2009 16:31

    Na Argentina abatem os bovinos a tiro no prado para não sofrerem psicológicamente. Parece que a carne fica melhor assim. Infelizmente com os humanos não tem havido tantos cuidados por esse mundo fora.

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  29. 1 Maio, 2009 17:07

    #24.
    Explique lá melhor como é que “condenar as touradas é condenar os touros bravos à extinção”.

    Se isso fosse verdade, até concordaria com “patadas” (touradas com patos) para condenar os patos bravos à extinção.

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  30. 1 Maio, 2009 17:10

    Em nome da coerência, o Bloco de Esquerda deverá apresentar em breve no único concelho onde elegeu um presidente da câmara, o de Salvaterra de Magos, uma proposta idêntica à que fez aprovar no concelho de Sintra, onde as touradas passaram a ser proibidas. Se não o fizer, volta a provar que, como aconteceu com a votação da lei de financiamento dos partidos, uma coisa são as suas lições de moral e outra a sua real prática. É pois necessário que Louçã diga rapidamente se vai ou não pregar contra o sofrimento dos touros para Salvaterra de Magos. Temos uma data para lhe sugerir: domingo 10 de Maio, altura da Festa do Melão, que terá como ponto alto o toureio de, citamos, “6 terroríficos touros 6” da “mais antiga ganadaria de Portugal”. Era de homem.

    José Manuel Fernandes Público de hoje

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  31. 1 Maio, 2009 17:16

    Só para sugerir que uns parágrafos e umas linhas em branco facilitam a leitura dos posts, obrigado!

    Não é um post.
    É copy-past do artigo publico no jornal Público.

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  32. Tribunus permalink
    1 Maio, 2009 18:05

    Estmos na epoca da palhaçada…….

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  33. olhão permalink
    1 Maio, 2009 21:51

    #24
    “…nos supostos anos auréos da dita. Os anos auréos da dita estão a ser agora.”

    Os auréos são comestíveis, tipo gambusinos???

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  34. olhão permalink
    1 Maio, 2009 21:52

    #33
    Foste convocado?

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  35. Ibn Erriq permalink
    2 Maio, 2009 08:54

    Helena, Oh Helena, Em Sintra comem-se frangos, frangas e tá mesmo galinhas, por isso, apareça, quem sabe não terá sorte!

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  36. Pedro Freire permalink
    2 Maio, 2009 22:10

    Habitualmente aprecio muito os artigos da Helena Matos e, além de apreciar, concordo quase sempre e aplaudo o que escreve. Mas desta vez estou frontalmente contra a sua tese, e note-se que não sou sócio de nenhuma associação de defesa dos animais. Acho as touradas um espectáculo bárbaro e lamentável e para isso não necessito de ser vegetariano. Como frango, sim senhor. Lamento as condições em que quase sempre os animais destinados à alimentação são criados e engordados e sou de opinião que essas condições deveriam ser melhoradas, mesmo com maiores custos. Claro que reconheço que numa economia de mercado isso deverá ser muito difícil. Parece-me que o organismo humano está adaptado a uma alimentação omnívora que inclua carne e/ou peixe e a alimentação vegetariana, para ser completa e saudável, requer cuidados e recursos difíceis de manter na nossa sociedade. Isso não me leva a gostar de touradas e não vejo que a contradição seja flagrante, simplesmente porque as touradas são espectáculos e o abate de animais nos matadouros não o são. Já visitei, no âmbito da minha vida profissional, matadouros, aviários, vacarias e suiniculturas e não fico indiferente à morte dos animais, mas considero-a uma necessidade. Já a morte do touro e o sofrimento que a precede não são de modo nenhum necessários, são praticados para prazer dos espectadores. O único argumento de Helena Matos com que concordo é o da inevitável extinção do touro bravo caso as touradas viessem a ser proibidas. Mas é uma triste sina livrar uma espécie de extinção com o fim de a poder torturar em público.

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    • C. Monteiro permalink
      22 Agosto, 2013 12:21

      Pedro Freire, amigo, que se extinga pois o toiro se o móbil da sua existência é unica e exclusivamente a festa bárbara!
      Leia o conto infra de Miguel Torga “Míura” e dár-me-á razão!
      Abraço…

      Miura
      Miguel Torga: Miura
      Fez um esforço. Embora ardesse numa chama de fúria, tentou refrear os nervos e medir com a calma possível a situação.Estava, pois, encurralado, impedido de dar um passo, à espera de que lhe chegasse a vez! Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão! Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão. Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. Os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais… Palmas e música lá fora. O Malhado dava gozo às senhorias…
      Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. Dali a nada, ele. Ele Miura, o rei da campina! A multidão calou-se. Começou a ouvir-se, sedante, nostálgico, o som grosso e pacífico das chocas. A planície!…O descampado infinito, loiro de sol e trigo… O ilimitado redil das noites luarentas, com bocas mudas, limpas, a ruminar o tempo… A fornalha escaldante, sedenta, desesperante, que o estrídulo das cegarregas levava ao rubro. Novamente o silêncio. Depois, ao lado, passes incertos de quem entra vencido e humilhado no primeiro buraco… Refrescou as ventas com a língua húmida e tentou regressar ao paraíso perdido. A planície… Um som fino de corneta. Estremeceu. Seria agora? Teria chegado, enfim, a sua vez? Não chegara. Foi a porta da esquerda que se abriu, e o rugido soturno que veio a seguir era do Bronco.Sem querer, cresceu outra vez quanto pôde para as paredes estreitas do cárcere. Mas a indignação e os músculos deram em pedra fria.
      A planície… O bebedoiro da Terra-Velha, fresco, com água limpa a espelhar os olhos… Assobios.O Bronco não fazia bem o papel… Um toque estranho, triste, calou a praça e rarefez o curro. Rápida e vaga, a sombra do companheiro passou-lhe pela vista turva. Apertou-se-lhe o coração. Que seria? Palmas, música, gritos. Um largo espaço assim, com o mundo inteiro a vibrar para além da prisão. Algum tempo depois, novamente o silêncio e novamente as notas lúgubres do clarim. Todo inteiro a escutar o dobre afinado, abrasado de não sabia que lume, Miura tentava em vão encontrar no instinto confuso o destino do amigo. Subitamente, abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão, e uma ferroada fina, funda, entrou–lhe na carne viva. Cerrou os dentes, e arqueou-se, num ímpeto. Desgraçadamente, não podia nada. O senhor homem sabia bem quando e como as fazia. Mas por que razão o espetava daquela maneira? Três pancadas secas na porta, um rumor de tranca que cede, uma fresta que se alargou, deram-lhe num relance a explicação do enigma da agressão: chegara a sua vez. Nova picada no lombo. Dum salto todo muscular, quase de voo, estava na arena. Pronto ! A tremer como varas verdes, de cólera e de angústia, olhou à volta. Um tapume redondo e, do lado de lá, gente, gente, sem acabar. Com a pata nervosa escarvou a areia do chão. Um calor de bosta macia correu-lhe pelo rego do servidoiro. Urinou sem querer. Gritos da multidão. Que papel ia representar! Que se pedia do seu ódio? Hesitante, um tipo magro, doirado, entrou no redondel. Olhou-o a frio. Que força traria no rosto mirrado, nas mãos amarelas, para se atrever assim a transpor a barreira? A figura franzina avançou. Admirado, Miura olhava aquela fragilidade de dois pés. Olhava-a sem pestanejar, olímpica e ansiosamente. Com ar de quem joga a vida, o manequim de lantejoulas caminhava sempre. E, quando Miura o tinha já à distância dum arranco, e ainda sem compreender olhava um tal heroísmo, enfatuadamente, o outro bateu o pé direito no chão e gritou:
      -Eh! boi Eh! toiro!
      A multidão dava palmas.
      -Eh! boi Eh! toiro!
      Tinha de ser. Já que desejavam tão ardentemente o fruto da sua fúria, hei-lo. Mas o homem que visou, que atacou de frente, cheio de lealdade, inesperadamente transfigurou-se na confusão de uma nuvem vermelha, onde o ímpeto das hastes aguçadas se quebrou desiludido. Cego daquele ludíbrio, tornou a avançar. E foi uma torrente de energia ofendida que se pôs em movimento. Infelizmente, o fantasma, que aparecia e desaparecia no mesmo instante, escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora. Os cornos ávidos, angustiados, deram em cor. Mais palmas ao dançarino. Parou. Assim nada o poderia salvar. À suprema humilhação de estar ali, juntava-se o escárnio de andar a marrar em sombras. Não. Era preciso ver calmamente. Que a sua raiva atingisse ao menos o alvo. O espectro doirado lá estava sempre. Pequenino, com ar de troça, olhava-o como se olhasse um brinquedo inofensivo. Silêncio. Esperou. O homem ia desafiá-lo certamente outra vez. Tal e qual. Inteiramente confiado, senhor de si, veio vindo, veio vindo até não poder sair do domínio dos chifres. Agora ! De novo, porém, a nuvem vermelha apareceu. E de novo Miura gastou nela a explosão da sua dor. Palmas, gritos. Desesperado, tornou a escarvar o chão, agora com as patas e com os galhos. O homem! Mas o inimigo não desistia. Talvez para exaltar a própria vaidade, aparentava dar-lhe mais oportunidades. Lá vinha todo empertigado, a apontar dois pequenos paus coloridos, e a gritar como há pouco:
      – Eh! toiro! Eh! boi!
      Sem lhe dar tempo, com quanta alma pôde, lançou-se-lhe à figura, disposto a tudo. Não trouxesse ele o pano mágico, e veríamos! Não trazia. E, por isso, quando se encontraram e o outro lhe pregou no cachaço, fundas, dolorosas, as duas farpas que erguia nas mãos, tinha-lhe o corno direito enterrado na fundura da barriga mole.Gritos e relâmpagos escarlates de todos os lados. Passada a bruma que se lhe fez nos olhos relanceou a vista pela plateia. Então?!Como não recebeu qualquer resposta, desceu solitário à consciência do seu martírio. Lá levavam o moribundo em braços, e lá saltava na arena outro farsante doirado. Esperou. Se vinha sem a capa enfeitiçada, sem o diabólico farrapo que o cegava e lhe perturbava o entendimento, morria. Mas o outro estava escudado. Apesar disso, avançou. Avançou e bateu, como sempre, em algodão. Voltou à carga. O corpo fino do toureiro, porém, fugia-lhe por artes infernais. Protestos da assistência. Avançou de novo. Os olhos já lhe doíam e a cabeça já lhe andava à roda. Humilhado, com o sangue a ferver-lhe nas veias, escarvou a areia mais uma vez, urinou e roncou, num sofrimento sem limites. Miura, joguete nas mãos dum Zé-Ninguém! Num ímpeto, sem dar tempo ao inimigo, caíu sobre ele. Mas quê! Como um gamo, o miserável saltava a vedação. Desesperado, espetou os chifres na tábua dura, em direcção à barriga do fugitivo, que arquejava ainda do outro lado. Sangue e suor corriam-lhe pelo lombo abaixo. Ouviu uma voz que o chamava. Quem seria? Voltou-se. Mas era um novo palhaço, que trazia também a nuvem, agora pequena e triangular. Mesmo assim, quase sem tino e a saber que era em vão que avançava, avançou. Deu, como sempre na miragem enganadora. Renovou a investida. Iludido, outra vez. Parou. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação? Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor. Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento?
      Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque. Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?! Calada, a lâmina oferecia-se inteira. Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume.

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  37. Scriptor Calamus permalink
    2 Maio, 2009 22:36

    Há-de me espantar sempre o conformismo português que gosta de se ver ao espelho nas multidões.

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  38. Scriptor Calamus permalink
    3 Maio, 2009 11:52

    #37
    Pondo as coisas como são: a tourada é um acto sado-masoquista colectivo. As pessoas deliram em ver sangue a correr dos flancos do touro. Deliram quando o touro é espetado com ferros.

    Entretanto não há dúvida que se acabarem por decreto as touradas dificilmente se tornaram ilegais, dado o volume do toiro.
    Por isso a criação de touros bravos acabará. Só se poderá ver um ou outro toiro bravo no jardim zoológico.
    A criação de cavalos também baixará imenso. Os campinos irão para o desemprego. As coudelarias que preparam cavalos de alta equitação desaparecerão.

    Fecharão uma série de praças (para gaudio dos empreiteiros). Serão transformadas em shopping centres. Onde se massacrará e cloroformizará e conformizará o bom senso e o bom gosto das ifónicas gerações que aí vem.

    Diz que acha penoso a visão dos matadouros, mas acha que é um mal necessário. Não lhe parece que é muito pior o crime lento e contínuo e massivo dos matadouros, à sucapa, sem espectadores, executado silenciosamente ainda por cima em animais que viveram toda a vida prisioneiros? do que uma tourada? Em que o animal, enfim, não é morto.

    Alguns touros voltam, à revelia das leis, a ser lidados. Outros se demonstrarem ter sido excepcionalmente bravos vão para cobridores, e tem uma vida de pachá.

    Comer carne de escravo prisioneiro como é a de todos os animais – declarados “produtos industriais” – é ignominioso para eles, para o bom gosto – sabem todos a farinha e antibióticos e para a raça humana.

    Mas se calhar esta já acabou, não se deu foi por isso.

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  39. C. Monteiro permalink
    21 Agosto, 2013 12:53

    Caríssimos ciber-leitores:
    ESTAMOS NA PRESENÇA DO MAIS EXECRÁVEL/RIDÍCULO/ABSURDO/INDIGENTE/ ARTIGO DE OPINIÃO ALGUMA VEZ PUBLICADO NUM QUALQUER JORNAL EM PORTUGAL.
    Tomei a liberdade de, na altura interpelar a sua (insana?) autora mas sem sucesso. Faço-o de novo…

    Boa noite, Exmª Helena Matos (HM):
    Só ontem tive a infelicidade de ler o seu extensíssimo artigo (publicado no jornal “Público” de 30 de Abril de 2009 p. 29) intitulado “Em Sintra não comem frango?”.
    Sendo alérgico à exaltação da mediocridade (consubstanciada na publicação do supracitado artigo), incomoda-me sobremaneira ver alguém abordar, num dos diários de maior tiragem em Portugal, um “dossier” tão melindroso como o das touradas, de uma forma leviana e irresponsável, socorrendo-se de argumentos ridículos e analogias completamente descabidas.

    A saber:

    Sou um convicto anti-taurino por uma única e irrefutável razão: considero inconcebível que qualquer forma de sofrimento seja fonte de divertimento e que a morte de um ser vivo seja, ainda que esporadicamente, promovida a espectáculo! Advogo, como tal, a proibição das touradas em Portugal, à semelhança do que acontece com as lutas de cães e de galos (por incrível que pareça, os aficionados argumentarem que a suposta arte “pedestre” e equestre exibida pelos intervenientes deste degradante espectáculo legitima o sofrimento infligido ao toiro! Notável!).

    Reina certamente na cabeça de HM (e também dos autarcas de Sintra) uma enorme confusão!

    Garante-nos HM, dando início a toda uma série de dislates, que “quem já entrou num aviário certamente comprovou o sofrimento psicológico e físico … experimentado pelos frangos…”. Ser-me-ia difícil descortinar argumento mais primário, no âmbito da presente discussão! Presumo, antes de mais, que HM ostenta um generoso par de caninos, indício mais do que evidente da apetência genética do ser humano para ingerir carne e peixe (imponha-se uma dieta exclusivamente vegetariana a um bebé, recentemente desmamado, para o vermos sobreviver a muito custo)!

    Tenho, também, a mais firme certeza, que os trabalhadores de um aviário – profissão que HM certamente abominaria exercer – não se regozijam com o sofrimento ou morte das galinhas (por lidar!), jamais sendo vistos a abandonar o seu posto de trabalho em ombros, depois de cortarem duas asas e uma crista…

    Ao abordar o tema da caça e da pesca, HM continua a presentear-nos com chavões completamente descabidos! É sabido, e assim rezam os códigos informais da caça (e da pesca) que o caçador deverá infligir o menor sofrimento possível à peça, matando-a o mais rapidamente possível. O mesmo se verifica para os pescadores, que se privam de matar os peixes com requintes de malvadez (ie fazendo-os nadar concentricamente dentro de uma bacia com água enquanto lhes cravam anzóis no dorso).

    Toldada pela sua anarquia de raciocínio, toma HM, em seguida, o partido dos amantes da “festa brava”, ao garantir-nos que “… se acabarem as touradas ninguém investirá na criação de touros bravos, logo os touros bravos passarão a touros bravos desaparecidos…”! Surpreendente! Tivesse HM lido o conto de Miguel Torga – “Míura” – e jamais ousaria proferir tal afirmação! Criar um animal tão nobre e distinto, num bordel ao ar livre (a lezíria), para lhe reservar tão cruel e humilhante fim? Se lhe corre algum pingo de discernimento nas veias, HM, antes a extinção! Para lhe aclarar as ideias (ou a falta delas) tomei a liberdade de transcrever um parágrafo do referido conto: “(…) Humilhado, com o sangue a ferver nas veias, escarvou a areia mais uma vez, urinou e roncou, num sofrimento sem limites. (…) Parou. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação? Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor. Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento?(…)”

    Quanto à proibição decretada por alguns regulamentos municipais, HM considera-a descabida, desde logo porque selectiva, em virtude de apenas proteger toiros e animais de circo! De uma irracionalidade atroz! Para HM, ou os animais sofrem todos, solidários e em uníssono, ou então não sofre nenhum! Lutemos pela igualdade dos animais no acesso ao sofrimento, pois então! Se HM se tivesse, ao invés, documentado, dando-nos umas breves noções de direito administrativo que nos elucidassem acerca das legítimas competências camarárias, talvez dotasse o seu artigo de uma dose mínima de interesse.

    E porque não frisou HM o facto de, no que concerne aos circos, o divertimento dos espectadores se cingir às proezas executadas pelos animais que (infelizmente) não deixam transparecer o sofrimento a que, regra geral, são diariamente submetidos?! No circo, o sofrimento fica atrás das cortinas, não sendo ,portanto, fonte de divertimento, o que faz toda a diferença! (já agora, e em meu entender os circos pouco diferem dos ZOO’s, no que às parcas condições de alojamento que proporcionam aos animais diz respeito. Jamais esquecerei, criança ainda, o ar deprimido do gorila “estátua” do Zoológico de Lisboa, enclausurado numa jaula de não mais de 4 m2).

    Recorre HM, em seguida, a uma absurda e descontextualizada analogia com o fado! Esta forma de expressão artística (em tempos utilizada como instrumento do antigo regime, mas muito anterior a este – o fado foi, de facto, “Manholas”) é, na sua génese e essência completamente inofensiva (relembro-a que o fado apenas se socorre de vozes, guitarras, violas e vestes). Não se descortina, como tal, qualquer explicação para tão descabida comparação ou para o traçar de percursos eventualmente paralelos.

    Para finalizar, surpreende-nos a cronista com frases delirantes, resgatadas ao seu sub-inconsciente: “Agora são as touradas e os circos. Amanhã podem ser as feiras, os concertos de um determinado tipo de música, uma peça de teatro ou outro espectáculo qualquer. É sempre fácil arranjar argumentos para legitimar uma proibição”. Apesar de me parecer muito nova para tal, HM, o seu discurso, porque anacrónico e alarmista/catastrofista, afigura-se-me genuinamente característico daqueles que, sedentos de atenção e reconhecimento, se vangloriam publicamente de terem sido presos pela PIDE, invocando a omnipresença da censura e do fascismo! Ridículo!

    Pois eu dir-lhe-ia, HM, em abono da verdade, que é sempre fácil arranjar prosa bacoca para se escreverem artigos de opinião… A culpa não é sua, cara amiga, mas tão somente de quem lhe publica o que escreve (para quem também tomei a liberdade de enviar uma cópia deste texto).

    Atenciosamente,

    C. Monteiro ,
    15 Maio 2009

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