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Estavam à espera de quê?*

4 Março, 2011

Para este mês de Março estão agendados vários protestos: CP, Transtejo, REN – Redes Energéticas Nacionais e Metro anunciam greves. Os professores não realizarão horas extraordinárias. Mas tudo isso é mais ou menos previsível. O que conta mediática e politicamente é o protesto que está agendado para 12 de Março e que dá pelo nome de Protesto da Geração à Rasca.
Segundo leio no PÚBLICO, um “desempregado, um bolseiro e uma estagiária” organizaram este protesto. Vejo no YouTube o video convocatória com as suas reivindicações. Digamos que é caso para se ficar absolutamente à rasca. Querem “direito ao emprego, o fim da precariedade e o reconhecimento das qualificações espelhado em salários e contratos justos“. Ou seja, querem viver como viveram os seus pais, num país onde a lei das rendas tornou o mercado do arrendamento mais rígido que a regulação das campas perpétuas nos cemitérios, onde os direitos eram crescentes, os empregos para toda a vida e ninguém se interrogava como se produziria a riqueza que permitiria sustentar tudo isto.
Digamos que como protesto juvenil entrámos certamente numa nova era, pois, pelo menos a avaliar pelas reivindicações, o que temos é um grupo de jovens a querer ter a vidinha dos pais. Geracionalmente assistimos a uma traição dos mais velhos, ou conspiração grisalha, como a cunhou Fernando Ribeiro Mendes, ex-secretário de Estado da Segurança Social no primeiro Governo de António Guterres, num estudo que fez sobre a Segurança Social. E o que a geração à rasca nos parece dizer é que não só isso não lhes pareceu mal como também eles, se puderem, farão o mesmo.
A solidariedade entre gerações em que se baseou o Estado Social está a tornar-se uma corrida para assegurar que aqueles que estão aflitinhos à porta ainda vão a tempo de entrar. Nesse sentido a expressão “à rasca” é verdadeiramente apropriada. Contudo, os paradoxos deste protesto agendado para o próximo dia 12 não se esgotam aqui.
A geração que se diz à rasca não se esquece que é constituída por doutores e doutoras que pretendem que essas qualificações sejam espelhadas em salários. Note-se que Portugal adora doutores. Até os arrumadores de automóveis em vez de pedirem o dinheiro a que acham que têm direito optam por esbracejar repetindo “Ó dótóra! Ó dótóra!” como o mantra que aumentará em alguns euros a moeda que a “dótóra” lhe vai entregar. Mas o que é válido no parque de estacionamento não é válido no mercado de trabalho.
Muito apropriadamente o desempregado, o bolseiro e a estagiária que organizaram este protesto são licenciados em Relações Internacionais. Será que alguma vez eles e os seus muitos colegas das Relações Internacionais e de mestrados da Paz acreditaram que iriam ter um emprego não precário que espelhasse as suas qualificações? Se assim foi, não se percebe que relações internacionais andaram a estudar, pois aquilo que lhes foi prometido e em que terão acreditado foi muito emprego público. Nos sites das faculdades que têm cursos de Relações Internacionais, para lá das referências ao trabalho em associações empresariais e no jornalismo, o que se apresenta como mercado de trabalho para os futuros licenciados em Relações Internacionais é o Estado, seja no seu sector empresarial ou nos institutos públicos, seja nas instituições europeias e na administração pública regional e nacional. Precisa o país de empregar tanto especialista em Relações Internacionais? Não me parece.
Esta autodenominada “geração à rasca” é na verdade uma geração lixada pelos garantismos de que a geração dos seus pais gozou. Mas não só. Agarra-se a um canudo como os condes e viscondes arruinados de outrora se agarravam aos títulos: querem que o tratamento que a sociedade lhes dá espelhe esse título. Mas em muitos casos o título que eles têm é pouco mais que um adorno. Preparam-se agora os ditos membros da geração à rasca não para exigir que os mais velhos mudem de vida mas sim que também eles possam manter esse tipo de vida. Quem vier depois que se amanhe. A prosseguirmos, dentro de alguns anos, assistiremos a protestos de gerações que se dirão bem pior do que à rasca.

*PÚBLICO

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32 comentários leave one →
  1. campos de minas permalink
    4 Março, 2011 11:23

    mas ainda vão a tempo: são tantos e tantos: pressionem o passos para que vote a moção de censura do bloco!

    afinal,
    querem ou não querem ajudar a resolver a coisa?

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  2. será permalink
    4 Março, 2011 11:26

    ou será que o passos, qual leonor que vai à fonte, está à espera que a marktest lhe dê 60% de intenções de voto???

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  3. 4 Março, 2011 11:40

    Querem “direito ao emprego, o fim da precariedade e o reconhecimento das qualificações espelhado em salários e contratos justos“. Ou seja, querem viver como viveram os seus pais, …

    Que conclusão tão interessante.
    Querer viver com alguma estabilidade e ter a possibilidade de ver o seu valor reconhecido significa querer “viver como viveram os seus pais”? Porquê?
    Ou será que não querem continuar a ser indecentemente explorados para pagar as reformas e o “assistencialismo” aos pais. Afinal, quem é que está a explorar quem?

    http://umjardimnodeserto.nireblog.com/post/2011/01/21/pequena-alegoria-do-estado-social-em-portugal

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  4. 4 Março, 2011 11:46

    Essa treta do “garantismo dos pais”, se fosse verdade, teria garantido para os filhos um futuro sem ser à rasca.

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  5. 4 Março, 2011 11:47

    E, no auge da escuridão, quando tudo parecer perdido, toda esta nova geração de gente ansiosa por viver mas com a vida encurralada pelo Potentado Socauron, libertar-se-á e vencerá. É inominável estupidez encurralar toda uma geração. Vae victis.

    http://umjardimnodeserto.nireblog.com/post/2011/01/01/visoes-de-2011

    É uma inominável estupidez a geração que vai ficar dependente maltratar a geração que vai tornar-se independente, duma forma ou de outra. Ou estas reacções são já fruto do medo que essa dependência não venha a ser sustentada?

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  6. tina permalink
    4 Março, 2011 11:48

    Bem, eu vou à manifestação “fim à chulisse”, que é no mesmo dia e mesmo lugar.

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  7. Anonimo permalink
    4 Março, 2011 11:51

    .
    E se a malta nova e os desempregados dos bairros à volta das grandes cidades resolverem aparecer em massa para se juntarem aos dóttores e dótoras ? Como seria ? Que quando toca a movimentos nacionais de juventude ninguém os pára, quanto mais os atacam mais os espicaçam e fortalecem. Lá isso é verdade, mostra a história. O mundo não acaba.
    .
    Quando aos ‘luxos’ de querer automovel, ipods, computadores etc não é mais nem menos o mundo normal de hoje. Como há 30 anos a normalidade era outra perante a critica acida dos mais velhos. E assim sucessivamente até ao ano 0001. O habitual sem consequências além de desabafos sobre Passados nem melhores nem piores, só diferentes.

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  8. Luís Marques permalink
    4 Março, 2011 11:55

    O Armando Vara é licenciado em Relações Internacionais, safou-se bem.

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  9. Bernardo Hourmat permalink
    4 Março, 2011 12:17

    “Precisa o país de empregar tanto especialista em Relações Internacionais? Não me parece.”

    A avaliar pela quantidade de “tudólogos” que polulam tanto na bloga como nos meios de comunicação mais “tradicionais” , diria que ainda fazem alguma falta, por acaso.

    Fiz licenciatura e mestrado em RI. Felizmente arranjei um trabalho há coisa de 3 anos e por cá ainda vou andando…Não se pode dizer que tenha propriamente a ver com a área, mas preciso de pagar contas e isso vale bastante. Simplesmente optámos por um curso daqueles por gosto, porque achámos que vale a pena tentar perceber melhor como é que o Mundo funciona, o que lendo muitos comentários ao facto de os organizadores terem a licenciatura que têm, é algo profundamente imbecil e motivo de chacota, mas enfim, também não podemos ser todos Drs. Engºs não é?
    Não me lembro de muitos colegas meus que tivessem grandes ilusões s0bre as perspectivas de um curso como aquele. Basicamente, cada um agarra-se ao que pode, quando pode e se tiver a sorte de se conseguir agarrar.

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  10. campos de minas permalink
    4 Março, 2011 12:23

    passo a citar JM Pureza:
    A perversidade da mensagem que os conservadores hoje querem tornar senso comum em Portugal é flagrante. Dois tempos: primeiro, para que os pais possam ter empregos estáveis, é preciso que os filhos sejam precários; segundo, quantos mais pais forem precários mais filhos cabem no mundo do trabalho.

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  11. berto permalink
    4 Março, 2011 12:25

    De facto esta gente não merece ter um emprego decente, onde possam usar os conhecimentos adquiridos no curso, que por acaso não deve ter sido à borla, certamente muitos paizinhos entraram com as propinas com muito sacrifício. De facto nem uns nem outros merecem nada.
    Em vez de manifs proponho para uns o suícidio, para os outros um tiro na nuca. Problema resolvido.

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  12. lucklucky permalink
    4 Março, 2011 12:29

    “Querer viver com alguma estabilidade e ter a possibilidade de ver o seu valor reconhecido significa querer “viver como viveram os seus pais”? Porquê?”
    .
    A estabilidade depende do preço. Quem quer estabilidade tem de ganhar pouco. Não há certezas.
    Que raio é que quer dizer “ver o seu valor reconhecido”? Fizeram alguma coisa com valor para outrem de modo a que esse outrem lhe esteja disposto a pagar?
    Ou você não percebe que o valor de uma pessoa depende do que faz pelas outras – aka mercado-?
    Falam tanto do Social mas não passam Aristocratas Sociais. Não querem fazer nada a que sociedade – aka mercado– dê valor.
    .
    “Ou será que não querem continuar a ser indecentemente explorados para pagar as reformas e o “assistencialismo” aos pais. Afinal, quem é que está a explorar quem?”
    Não os vejo a protestar contra impostos, a reinvindicarem para si o controlo das próprias vidas.
    Não, querem mais do mesmo.

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  13. J. Alves permalink
    4 Março, 2011 12:54

    Devem manter essas reivindicações porque isso é a melhor forma de desmascarar o Estado Social insustentável que se criou com a cumplicidade de muuitos portugueses. Dvem reivindicar os doreitos adquiridos para si também porque, primeiro, têm direito a eles, e segundo, assim levarão finalmente esta choldra à bancarrota e poder-se-á então construir algo novo. O Monstro mata-se à fome. caberá aos políticos que permitiram que isto chegasse aonde chegou explicar às novas gerações porque não poderão ter direitos adquiridos. Não são os jovens que têm de fazer contas que os outros antes deles não se deram ao trabalho de fazer. Os jovens não têm culpa das dívidas que lhes impuseram no lombo. Se o Estado Social é insustentável é insustentável para todos e não só para alguns.

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  14. lucklucky permalink
    4 Março, 2011 13:05

    É resultado da perversidade dos incentivos que os “campos de minas” e JM Purezas ajudaram a construir.
    Se os Pais querem empregos estáveis nada melhor que serem eles a cria-los.
    Mas quando se cria o próprio emprego já a estabilidade não interessa para Campos de minas e JM Purezas…
    .
    Ou seja não passa tudo de uma encenação para o Poder da esquerd@.

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  15. 4 Março, 2011 13:15

    Se os Pais querem empregos estáveis nada melhor que serem eles a cria-los.

    Portanto, segundo o lucklucky, se os pais criarem empregos para os filhos, os filhos deixarão de ser dependentes dos pais. As boas conclusões abundam hoje por aqui… Será o efeito fim-de-semana de Carnaval prolongado (para quem pode pagá-lo)?

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  16. Anonimo permalink
    4 Março, 2011 13:59

    (cont 11.51H)
    .
    salvo qualquer douta melhor opinião, foi aqui que a Fatinha dos Prós e Contras andou a fazer filmes cor de rosa. Virtuais, mundos sonhadores que não existem. A coisa está muito preta como se apercebem, bem tentam ‘dar-lhe a volta, mas são muito fraquitos. É claro que é preciso usar Comunicação, Dialectica, Discussão etc. Mas desta o melhor é ficarem calados. Pareciam passaritos de aviário salvo uma ou duas excepções. Mas mesmo estas falhas ainda de saber para onde e como queriam andar, muito de ‘salão, chá and scones’.
    .
    Vamos lá ver o que é que isto vai dar. Que nada vai ficar igual é já ponto assente.
    .

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  17. JPT permalink
    4 Março, 2011 14:10

    Temos de perguntar aos génios que aqui pululam como é que se propõem criar empregos para os jovens (não vale dizer “ir pedir dinheiro aos alemães para fazer mais institutos públicos e empresas municipais”, porque eles já avisaram que não mandam). É que o rei desses génios que dizia que ia criar 150 mil empregos, viu desaparecer muito mais do que isso. Só tenho pena que tenha sido o Professor Pureza que tenha cunhado o slogan que devia ser, sem medos, adoptado por quem quer que este país se mexa: “quantos mais pais forem precários mais filhos cabem no mundo do trabalho”. É que é mesmo isso, sem tirar, nem pôr. Vejam lá se percebem: o universo, a natureza, a vida, a felicidade, SÃO PRECÁRIOS. Porque é que só o raio do emprego há-de não ser?

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  18. Arlindo da Costa permalink
    4 Março, 2011 14:36

    Façam como eu quando era jovem.
    Vão para África!
    Ofereçam-se como mercenários. Ganha-se bem!

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  19. 4 Março, 2011 14:39

    Emigrem ou filiem-se num partido, de preferência PS ou PSD!

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  20. certo permalink
    4 Março, 2011 14:46

    É só a onda que vem de África, o seu eco que tardava por aqui.

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  21. lucklucky permalink
    4 Março, 2011 16:28

    “Portanto, segundo o lucklucky, se os pais criarem empregos para os filhos, os filhos deixarão de ser dependentes dos pais. As boas conclusões abundam hoje por aqui… Será o efeito fim-de-semana de Carnaval prolongado (para quem pode pagá-lo)?”
    .
    Qual criar empregos para os filhos. Criar empregos para eles próprios.
    .
    Porque é que você julga que poucos querem criar empresas, que cada vez menos há empresas em Portugal.
    Por causa do seu tipo de discurso. Que denota uma cultura.
    O desemprego real português -sem a dívida que paga muitos empregos- deverá andar pelos 20%.
    São os custos da estabilidade e da dívida que esconde a degradação da economia Portuguesa.
    .
    Quando acabar a possibilidade de endividamento os portugueses ou escolhem ser 20% mais pobres – seja por inflação ou descida dos salários – ou terão muito mais desemprego.
    Depois vamos a ver de que estabilidade você fala.
    .
    Por acaso antes do texto que escrevi aí acima tinha-lhe respondido, mas os monstro do blasfémias comeu a mensagem.

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  22. JoseB permalink
    4 Março, 2011 19:10

    «Redes Energéticas Nacionais»
    Vale, que acabam de contratar uma especialista em “marqueting”
    a 8 ou 9 mil euros.
    A bem da retoma.

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  23. 4 Março, 2011 19:37

    Tenho sempre em entender a relação entre quem escreve e o que escreve, de modo que gostaria de saber em que geração se inclui Helena Matos, que profissão tem e qual a estabilidade do seu emprego. Fico sempre apreensiva com textos em que se colocam tantas coisas em causa, como se fosse um pecado mortal desejar estabilidade (como pode um ser humano investir numa profissão se não tem no horizonte alguma estabilidade?). Eu sei que ” a vida está difícil”, mas custa-me assistir a este tiroteio entre gerações e entre cidadãos.

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  24. 4 Março, 2011 19:49

    Continuando curiosa em relação à autora destes textos, eu gostava de saber se Helena Matos contribui para a riqueza do país e como o faz. E ainda se tem algum direito a usufruir de escolas ou hospitais públicos ou se acha que não deveria ter. E também gostaria de saber qual é o rendimento mínimo mensal que ela acha aceitável para viver com dignidade, seja-se doutor ou não. E ainda o que pretende fazer para corrigir os erros do tipo de vida da sua geração, que anda provavelmente a sustentar os filhos que por sua vez não têm emprego. É só para eu entender um pouco a sua visão do mundo e poder criar a minha.

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  25. Zegna permalink
    4 Março, 2011 21:38

    Esta é a democracia que esta geração escolheu ou não escolheu porque nas ultimas eleições ficaram em casa, a fazer o quê? esta geração parva não vota mas quer fazer manisfestações ?! uma manisfestação em Portugal não serve para nada ou será que ainda não descobriram?
    A democracia economica chegou agora em força , quem não quer trabalhar para os outros com as regras deles faz-se patrão e depois vão ver o que custa.

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  26. Gege permalink
    5 Março, 2011 21:41

    São 37 Anos de asfixia,o Estado interfere de tal forma em toda a actividade economica, que não permite um desenvolvimento aberto de acordo com as necessidades do mercado.Quer no aspecto laboral,a lei não estimula o investimento em novas empresa, quer na sobrecarga de impostos,quer no mercado de arrendamento,e nquanto a democracia não chegar às empresas e quem tem algum dinheiro para investir este Páis não vai evoluir…

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