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Socialismo democrático: a maldição de Saturno*

15 Abril, 2011

Isto está a acontecer-nos a nós e não é nada como nos tinham contado. Ninguém nos diz que estamos a fazer História, não há turistas que venham de longe para ver esta nossa revolução e contudo amargamo-la: Portugal vive hoje os dias do fim do chamado socialismo democrático. Ou seja dessa espécie de compromisso entre as liberdades dos cidadãos e um Estado que se vê como um grande cobrador de impostos e distribuidor da riqueza.

E esta não é uma pequena revolução. Infelizmente é uma revolução sem grandeza – chegamos a ela não pelo desejo de mudança mas sim porque não há dinheiro para sustentar o Estado –, sem símbolos, a não ser que por símbolos se entendam aquelas malditas linhas do juro a subir e as do rating a descer e sem narrativa pois o que nos contaram sobre revoluções passa por muros a serem derrubados, multidões na rua festejando a liberdade e presos políticos a saírem das cadeias.

Na verdade nós não queríamos mudança alguma. Se pudéssemos continuaríamos sempre com as nossas progressões automáticas, com os subsídios e abonos crescentes e com as autarquias transformadas nos maiores empregadores da região. Tudo e todos presos a essa cadeia de repartição de serviços e bens a que doutro modo, segundo o socialismo vigente, os portugueses não teriam acesso.

Afinal há décadas que os líderes da direita, do centro e da esquerda reduzem as divergências entre si às matérias da divisão ou melhor dizendo ao que cada um deles se propõe fazer com o dinheiro dos nossos impostos para o efeito despersonificado em dinheiro do Estado. A produção de riqueza é constitucionalmente vista com desconfiança e tem sido menosprezada quando não achincalhada pelas élites culturais e políticas. Grandes empresários como Alfredo da Silva ou Champallimaud são menos valorizados e conhecidos que os autores de qualquer quadro, poema ou filme de vigésima categoria.Mas é sobretudo perante os pobres que aspiram a deixar de o ser pelos seus meios, e que portanto não esperaram que o Estado distribuidor faça deles menos pobres, que mais se assanha o discurso dessa nomenclatura de sociólogos, jornalistas e deputados com ordenado assegurado e que nunca criaram um emprego na vida, garantindo que aqueles empresários não têm rasgo, que só sabem fazer contas de merceeiro e que as suas empresas não passam duma estrutura de vão de escada. Aquilo que devia ser motivo de elogio – o ser capaz de criar quanto mais não seja o seu posto de trabalho num vão de escada e o ser prudente nos gastos – tornaram-se pretextos para a crítica e o escárnio daqueles que, como boa parte destas élites, são freqentemente sustentados pelo Estado e que corporativamente amplificam em eco a ideia do Estado enquanto grande cobrador/divisor.

Esta ilusão de que a justiça social e o combate às desigualdades se fariam através de um Estado cada vez mais tentacular e controlador teve o seu epílogo não no dia em que foi oficialmente formalizado o pedido de ajuda externa – há um ano que dependíamos dessa ajuda – mas sim quando se pôs a hipótese de alguns organismos do Ministério da Administração Interna não estarem a entregar ao Estado a retenção de IRS dos seus funcionários e de o Fundo de Capitalização da Segurança Social poder vir a comprar ainda mais títulos da dívida portuguesa.

Em resumo, sobre o socialismo abate-se a maldição de Cronos/Saturno: quis criar uma Idade de Ouro e acabou a alimentar-se dos seus filhos com medo de ser destronado.

E só pode ser assim pois o socialismo para ser socialismo ou tem dinheiro para distribuir ou é cada vez menos democrático pois só com a desvalorização da democracia se conseguirá manter a sociedade em permanente estado de exaltação maniqueísta distraindo-a do essencial. Por isso assistimos à  desvalorização da democracia, oficialmente feita em nome do país mas na prática visando salvar os responsáveis por essa fraude que se chamou “vida para lá do défice”: as eleições que são em democracia a forma natural de resolver as crises passaram a ser vistas como um incidente que pode aumentar os juros. As divergências políticas passaram a ser apresentadas como sinónimos de crispação e mais crispação que pode baixar o rating. O apurar das responsabilidades dá um sinal de desunião que assusta os nossos credores… Inevitavelmente o funcionamento da democracia começa ser apresentado como um factor de perturbação.

Se tivermos isto em conta percebe-se que o congresso do PS em Matosinhos só podia ter corrido como correu: ali não houve nem podia haver sombra de política. O que aconteceu naquele pavilhão foi um encontro de motivação para um grupo de funcionários, muito deles ocupando cargos de nomeação, e fornecedores de serviços ao Estado. Estes, reunidos em torno do seu chefe, acertaram a estratégia para continuarem a assegurar que controlam a máquina estatal. Ou mitologicamente falando, que eles que têm tido como fonte de rendimentos cargos em que nos prometem uma Idade de Ouro, cheia de carros eléctricos, TGV, cheques-bébe e computadores à borla, estão dispostos a quase tudo para não serem destronados.

*PÚBLICO

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22 comentários leave one →
  1. 15 Abril, 2011 11:49

    O fim é evidente
    http://existenciasustentada.blogspot.com/2010/09/14socialismo.html?utm_source=BP_recent
    mas vamos penando com os nossos “actores dessa peça…”
    http://irresponsaveis.blogspot.com/

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  2. 15 Abril, 2011 11:50

    Este texto devia de ser de leitura obrigatória em todas as turmas de todas as escolas do país. E a leitura deste texto devia abrir os telejornais das 20:00 durante pelos menos uma semana. Para ver se este iletrado eleitorado acorda de vez para a realidade.

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  3. José permalink
    15 Abril, 2011 12:26

    Muito bem texto. Apenas um reparo: a expressão “socialismo democrático” pode muito bem ser substituída pela palavra Esquerda. É mais abrangente e vai ao ponto certo apesar de ser incorrecta.

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  4. Isabel permalink
    15 Abril, 2011 12:54

    Texto brilhante…
    e concordo com o José. Note-se que na esquerda se inclui o PSD. A social democracia i.e. comunismo reformado para aplicar em economias de mercado prósperas.

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  5. Dazulpintado permalink
    15 Abril, 2011 13:09

    Eu diria mais, este texto devia ser lido no início de cada sessão legislativa da AR.

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  6. 15 Abril, 2011 13:17

    Eu diria mesmo
    que este texto deveria ser fornecido
    às maternidades
    para ser lido aos recém-nascidos
    com uma efigie em loiça
    da Matos.

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  7. Portela Menos 1 permalink
    15 Abril, 2011 13:26

    Relatorio do Senado dos USA – esses perigosos esquerdistas antcapitalistas – arrasam as nossas queridas Agencias de Rating e o seu papel na crise financeira.

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  8. JPT permalink
    15 Abril, 2011 14:10

    Cara Helena Matos, a questão está em que nenhumas diferenças se detectam nos partidos “do arco da governação” em relação àquela seita que se reuniu em Matosinhos no fim-de-semana passado. Nenhuma. Tudo, mas mesmo tudo, indica que estamos, apenas (e isso se tivermos sorte), perante um rearrumar de cadeiras (em quantidade menor, mas apenas por força da “crise financeira”) e nada mais. Quem manda no PSD nada diz de realmente novo. E quando diz são generalidades, sem qualquer convicção (género: “vamos fechar empresas públicas deficitárias”… mas não se diz uma só); quem não manda no PSD, ainda é pior: tudo o que se ouve das Manelas e dos Aníbais, e dos Santanas e dos Menezes, fede ao pavor de perder as suas reformas douradas e as suas verbas para túneis e rotundas, e por isso clamam por um “bloco central” que os salve (e aos seus veneráveis irmãos “socialistas”) dessa tal sua putativa “revolução”; o CDS, esse então, nada diz – absolutamente nada (o que no meio da alarvidade que para aí vai até não é necessariamente mau). Creio, por isso, infelizmente, que não vem aí revolução nenhuma. Vem, como de costume, o esbulho dos pobres, dos jovens e da classe média, para assegurar que se mantêm, mais ou menos na mesma forma, o Estado e a coligação espúria de interesses que ele alimenta (funcionários públicos, de empresas públicas e de “sectores protegidos”, sindicalistas, “sociólogos”, “politólogos”, “agentes culturais” e afins, banqueiros, empresários de construção civil, 20 andares de advogados, resmas de reformados dourados e prateados e respectivos dependentes). Sejamos claros: o únicos motivos que justificam que uma pessoa racional vá votar são o interesse próprio e/ou o asco a Sócrates. Não é começar nenhuma revolução.

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  9. lucklucky permalink
    15 Abril, 2011 14:21

    Muito bom texto.

    José
    Posted 15 Abril, 2011 at 12:26 | Permalink

    A cultura é de Esquerda mas o Soci@lismo também existe na Direita.
    Muita gente na Direita é igual à Esquerda: cada vez mais dinheiro dos outros é para distribuir e assim corromper legalmente.
    Até agora não houve um político da Direita em Portugal que tenha cortado na despesa do Estado e diminuído impostos.

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  10. zazie permalink
    15 Abril, 2011 14:36

    Mas qual Direita, Luck? não existe. É isso que o José se farta de demonstrar.

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  11. José permalink
    15 Abril, 2011 14:49

    Lucky:

    E daí? A minha ideia é a de que não existe Direita em Portugal. Há a Esquerda comunista ( PCP e BE ) e a social-democracia.
    E não quero associar a essa ideia de Direita a extrema-direita troglodita, porque não é disso que se trata. É outra coisa.

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  12. Portela Menos 1 permalink
    15 Abril, 2011 15:40

    Ouviu Luck? De direita e não extrema direita, logo, não è nada consigo!

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  13. Analfabeto informáti permalink
    15 Abril, 2011 15:51

    É uma pequena revolução a que metade do país assiste a banhos, em estado catatónico de tanta preocupação!

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  14. certo permalink
    15 Abril, 2011 16:23

    A brincar ou ao sério, não há muito vidente senhora bem nos avisava que Saturno se encontra numa órbitra de acção directa ao globo terrestre e, parece, com epicentro focado na ponta da Europa, incidentemente, como a tirar prova deste povo valente, se não só em razão da sua vaidade, gosto de grandeza e pecados que se acumularam nos seus dirigentes, que, para lá da urgência de gastar, de gastar mais, sempre, compulsiva e sectariamente, nenhum mais objectivo aprenderam na vida. Não limpam uma casa e nem uma horta fazem, se não fazem nada. Mas de carros de luxo, jantares, negócios à mesa, são ases, uns grandes senhores, que dizem lá fora, isto é sem vergonha, mas que arrebentados.

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  15. licas permalink
    15 Abril, 2011 16:37

    . . . E Sucateiros generosos que roubam com a conivência dos Ratos do Largo
    (desde que hajam sacos , a cor não importa . . .)

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  16. Arlindo da Costa permalink
    15 Abril, 2011 16:48

    E banqueiros trapaceiros e aldrabões com a conivência da São Caetano à Lapa?

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  17. Jose Domingos permalink
    15 Abril, 2011 18:04

    Quem enriquece, na politica, como administrador de dinheiros públicos, é LADRÃO. Deve ser exemplarmente punido. Os descontos, feitos por todos nós, muitos, com muito sacrificio, esse dinheiro é SAGRADO.
    O resto da conversa, é para encher chouriços.
    Portugal, não se discute

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  18. Isabel permalink
    15 Abril, 2011 19:59

    O problema vem detrás. Não rebentámos na altura vamos rebentar agora.

    Pensamento/Reflexão
    Portugal Está a Atravessar a Pior Crise

    Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: – mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não – pelo menos o Estado não tem: – e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior – e sem cura.

    Eça de Queirós, in ‘Correspondência (1891)’

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  19. Isabel permalink
    15 Abril, 2011 20:05

    É importante que o CDS saia da sombra. São os únicos que ainda não provaram do que são capazes. Portugal é o único país da Europa que tem medo da Democracia Cristã, onde se prospera pelo valor do seu trabalho e empreendedorismo e não à custa do estado. Por isso outros países já provaram do sucesso e Portugal continua à cabeça de África.
    Pois é. O sucesso dá trabalho, (custa ouvir mas é a verdade).

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  20. Portela Menos 1 permalink
    15 Abril, 2011 23:03

    “É importante que o CDS saia da sombra. São os únicos que ainda não provaram do que são capazes”
    .
    Errado, já lá estiveram várias vezes e não me lembro de terem deixado saudades. E nem falo das centenas de assinaturas na véspera de serem despedidos.

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  21. Eulália permalink
    15 Abril, 2011 23:45

    Texto muito bom. Concordo plenamente com o que diz a Helena Matos

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  22. 27 Abril, 2011 18:58

    Empresa
    Uma forma de organizar o trabalho em que muitos trabalham para o bem de poucos, em que se dá o menos possível em troca de tudo o que for possível para prestar o pior serviço possível ao maior preço possível, para maximizar o lucro e encher os bolsos a uns quantos, esmifrando o que é precário para alimentar o que é demasiado sólido.
    ou
    Uma forma de criar emprego para quem as faz e para outros, de prestar serviços a clientes e de sustentar o Estado através do pagamento de impostos. São as empresas que criam o emprego e combatê-las é destruir o emprego privado e público (porque são elas que sustentam o Estado, com os impostos que pagam e com os impostos que paga quem nelas trabalha).

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