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Notícias Sábado, 6.VIII.2011

8 Agosto, 2011
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 Quarenta dias que quase parecem anos

Não é honesto, sensato ou decente, pedir a um Governo com quarenta dias de vida para fazer tudo aquilo que os Executivos anteriores não conseguiram – sobretudo, quando essa exigência peremptória parte precisamente daqueles que desperdiçaram anos e anos preciosos na fascinação iludida e ilusória com realidades políticas e financeiras ficcionadas, tragicamente afastadas dos factos como estes são, isto é, sem a tarefa marketeira de os açucararem até ao irrealismo mais ameigado possível dos interesses dos que estavam no poder.

Contudo, desde os media mais respeitados até aos roncos mais comuns dos teóricos de café, o grau de exigências imediatas, quase instantâneas, a este Governo superou tudo aquilo que a lógica e a história poderiam considerar. Nesse contexto, talvez seja apropriada a seguinte «prelecção do óbvio», dirigida a todos os que se especializaram em emaranhar as verdades mais simples:

– Não bastam quarenta dias para corrigir o mal que foi infligido a Portugal nos últimos seis anos. Não bastam quarenta dias para que se invertam, por completo, os caminhos eticamente sinuosos, falaciosos e cheios de ruas sem saída que foram prazenteiramente percorridos pelos dois governos anteriores. Não bastam quarenta dias para que todos se compenetrem que muitos hábitos, na política e fora dela, cessaram de vez e que o País tem mesmo de trabalhar mais, ser mais produtivo, competitivo, cumpridor e sério. Não bastam quarenta dias para se restaurar a dignidade que Portugal merece aos olhos dos nossos parceiros europeus. Não bastam quarenta dias para reaver alguma réstia de credibilidade internacional. Não bastam quarenta dias para que os portugueses percebam cabalmente que é preciso fazer ainda mais sacrifícios. Não bastam quarenta dias para que todos se convençam de que vamos ter de continuar a atravessar épocas amargas durante mais tempo do que desejaríamos – como condição indispensável para, finalmente, nos reabilitarmos como um País que vale a pena. Não bastam quarenta dias para se conseguir aprontar a ínfima parte daquilo que se tem de mudar nesta legislatura. Sobretudo, não bastam quarenta dias para que alguém possa dizer-se desiludido ou inteiramente satisfeito – a não ser aqueles que já sobrestavam, inabaláveis, nessas sensações propositadas fossem quais fossem as decisões governativas e as suas circunstâncias.

 

Shakespeare é mais Seguro

António José Seguro tem de cumprir o Memorando acordado com a Troika que o Governo socialista negociou. Porém, esse facto tolda-lhe a acção política e pode atenuar-lhe a imprescindível afirmação como líder, ainda neófito, da Oposição. Só assim se percebe a posição declarada de apenas cumprir as condições e exigências que constem do Memorando de modo expresso e inequívoco, ou seja, palavrinha por palavrinha. Para o novo secretário-geral socialista, tão mal circundado pelos socratistas que nos desgovernaram nos últimos anos, deverá ser recusado tudo aquilo a que o PS não reconheça uma directa correspondência verbal com o texto do Acordo.

Não nos iludamos – o pior modo de satisfazer um acordo é submetê-lo a uma interpretação aridamente literal, esquecendo o sumo do seu sentido lógico.

Shakespeare, no Mercador de Veneza, conta a história de um homem que deu como garantia de uma dívida a um usurário, Shylock, uma libra da sua própria carne. A dívida não foi paga e o credor exigiu a execução específica. Então, uma mulher, Pórcia, disfarçou-se de juiz e deu a sentença: «Podes cortar uma libra exacta de carne». Mas teria de ser justamente essa quantidade, ao grama, nem mais nem menos: «Se uma só gota de sangue a mais for derramada serás castigado». Como é evidente, o contrato nunca foi cumprido…

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  1. Nem advento nem quaresma « BLASFÉMIAS

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