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O agradecido e o sócio-económico*

21 Outubro, 2011

O sócio-económico funciona em termos de retórica como aqueles apelidos com hífen e consoantes dobradas: não se sabe ao certo o que representam mas impressionam. Como não podia deixar de ser, o argumento sócio-económico foi invocado mais uma vez para criticar os rankings das escolas. Dizem os críticos dos rankings que estes não ponderam o meio em que as escolas estão inseridas e a origem sócio-económica dos alunos. E será que deviam ponderar? O que ganhávamos com isso: uma realidade mascarada pois na hora de escolher um médico não íamos certamente preferir o licenciado numa faculdade que ponderasse o critério sócio-económico na hora de atribuir as avaliações. Os rankings não ponderam o enquadramento sócio-económico nem têm que ponderar porque são isso mesmo – rankings – e não análises sociológicas, certamente úteis mas não neste caso.
Mas a invocação do sócio-económico para justificar os maus resultados de muitas das escolas é um argumento não tão inocente quanto possa parecer. Em boa parte a mediocridade dos resultados escolares resulta desse dogma de que no ensino básico e secundário os resultados são proporcionais ao gigantismo dos investimentos estatais e à riqueza das famílias. Cabe perguntar de que servem pavilhões majestosos recuperados pela Parque Escolar se eles podem ser vandalizados à vontade? De que serviu oferecer computadores a quem não sabe a tabuada? De que serve gastar milhões com um ensino público que certamente por ironia se chama gratuito e que não é valorizado enquanto enorme esforço para os contribuintes e de toda uma sociedade que aposta na formação das crianças e dos jovens? Porque se alimenta da reivindicação constante de mais recursos, e também da infantilização dos que estão em baixo na escala da “sócio-economia”, o ideário sócio-económico desvalorizou a importância do agradecimento.
Antes que comece a ladainha indignada em torno da minha defesa dos pobrezinhos agradecidos esclareço que sim, na verdade acho que pobres, classe média e ricos devem estar agradecidos a todos os contribuintes que têm permitido com o seu esforço que muitos portugueses usufruam de bens, serviços e de um país razoavelmente civilizado. Logo não vejo que seja possível continuar a afectar milhões de euros ao ensino e continuar a tratar esses milhões como se saíssem duma conta alimentada pelos céus e de cujos resultados não há que prestar contas. E neste caso os resultados não passam por análises ao meio sócio-económico dos alunos mas sim por aquilo que eles aprendem e de que se espera que não os confine como sucede actualmente ao sócio-económico de origem.
Como em tudo o dinheiro ajuda mas a atitude é muito mais importante. Seriam por acaso provenientes de famílias abastadas e perfeitamente integradas os alunos ucranianos que mal chegaram a Portugal se tornaram nos melhores alunos das escolas deste país? Frequentemente nem os pobres são tão pobres nem os ricos tão ricos  quanto defende o “sócio-economiquês” para justificar os maus resultados de determinadas escolas. O que muda, e muito, é o que as famílias e os alunos esperam da escola e o respeito que mostram por ela.
A esta falta grave da ausência do sócio-económico nos rankings junta-se a acusação de que os pais passam a escolher as escolas em função dos rankings. Sobre esta utilização, pelos vistos condenatória dos rankings, só posso concluir que certamente as pessoas que assim falam ou são muito ricas ou muito bem relacionadas. Ou então os seus filhos são uns génios ou uns casos perdidos. Pois se assim não for os resultados obtidos nos exames interessam-lhes pois não só sabem que os resultados escolares dos seus filhos são muito influenciados pela escola que eles frequentam como vêem na escola o principal meio de garantir aos seus filhos um futuro digno e livre em que não dependam dos pedidos, das influências ou do dinheiro dos papás para sobreviver. Como os resultados dos exames são dados essenciais para se aferir da qualidade do ensino não admira que os pais se orientem por eles na hora de escolherem a escola básica ou secundária para os seus filhos.
Curiosamente o problema da escolha da melhor escola deixa de se colocar quando se trata do ensino superior pois em boa verdade esta discussão sobre os rankings não é sobre as melhores escolas mas sim sobre a questão do ensino público versus escolas privadas. Aliás tenho a certeza de que se as escolas públicas estivessem nos melhores lugares do ranking não haveria discussão alguma. Antes pelo contrário ouviríamos todos os dias muitos daqueles que tanto se indignam com os rankings a exigir mais inspecções, mais rankings e consequentes encerramentos de estabelecimentos tão medíocres. Logo não só não me parece nada condenatório que os pais se orientem pelos rankings como acho que têm o direito de o fazer. Mas convém acrescentar que os rankings são também importantes para todos nós, independentemente de termos ou não filhos em idade escolar: os portugueses pagam com os seus impostos o dito ensino gratuito. E não pagam pouco: um aluno numa escola pública, sobretudo nas escolas pior classificadas dos rankings, custa muito mais aos contribuintes do que as propinas nos tais colégios onde, segundo a linguagem jornalística vigente, se pagam propinas só para ricos. Alguém já fez as contas a quanto custa aos contribuintes um aluno que perca dois ou três anos durante a escolaridade obrigatória? Aceitar como uma fatalidade sócio-económica que algumas escolas apresentem anos a fio maus resultados não é compatível com a democracia e é um luxo muito superior ao representado por investimentos perdulários como aquele que foi feito no aeroporto vazio de Beja.
*PÚBLICO

11 comentários leave one →
  1. 21 Outubro, 2011 09:20

    Mas que grande confusão! Os professores que se pronunciem, mas para um simples curioso como eu, é evidente que a D. Helena mete, aqui, os pés pelas mãos. Pelo (pouco) que sobre o assunto vou lendo, ” o meio em que as escolas estão inseridas” deixa marcas quer falemos de Portugal, de Inglaterra, dos Estados Unidos ou sei lá de onde. Mais: há estudos sobre as reformas aplicadas no Reino Unido nos anos 70 que concluiam ter havido uma separação clara nos resultados entre escolas, sobretudo por causas sociais, muito perceptível nos primeiros tempos da “massificação” do ensino. Talvez não seja preciso recordar a uma investigadora como a Dra. Helena que essa é a situação portuguesa: vivemos os primeiros tempos da massificação do ensino. Juntar a isto as parvoíces dos “Magalhães”, da “Parque Escolar”, etc., é demagogia pura, já que se tratam de medidas de quem decide (sobre política em geral e política educativa em particular) e não de quem ensina.

    Sobre a “escolha da escola”, convém dizer que é outra treta. A sociedade portuguesa está tão desorganizada, com um território tão desordenado que, se essa “liberdade” for dada, a maioria dos pais vai continuar a escolher… a escola mais perto de casa. Optar pelo contrário é aceitar perder ainda mais horas em deslocações e optar por estar (ainda) menos tempo com as crianças. Verdade seja dita que, neste último aspecto, talvez haja um certo número de pais que via a medida com agrado….

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  2. helenafmatos permalink
    21 Outubro, 2011 09:31

    «a maioria dos pais vai continuar a escolher… a escola mais perto de casa.» – E qual é o problema?

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  3. 21 Outubro, 2011 10:04

    “O que ganhávamos com isso: uma realidade mascarada pois na hora de escolher um médico não íamos certamente preferir o licenciado numa faculdade que ponderasse o critério sócio-económico na hora de atribuir as avaliações.”

    Cara Helena, parece-me haver aqui uma grande confusão de argumentos e uma analogia muito mal feita. Vamos lá ver, na hora de escolher o médico queremos o melhor médico. Tal como na hora de escolher a escola queremos a melhor escola. É esta a analogia. A questão é saber como se descobre qual é o melhor médico.

    Uma análise semelhante a esta dos rankings que a Helena defende, seria fazer um ranking dos médicos com base na taxa de mortalidade dos seus doentes. Tal seria um disparate óbvio. Porquê? Porque os melhores médicos são destacados para tratar dos casos mais difíceis. Um médico oncologista destacado para uma zona onde houve um acidente nuclear grave certamente ficará pior nos rankings do que um médico que não sai do seu consultório. Ou seja, para ver qual é o melhor médico, não basta olhar para os resultados dos seus doentes, é necessário olhar para as contingências que o envolvem.

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  4. helenafmatos permalink
    21 Outubro, 2011 10:18

    Os alunos não são doentes nem o seu cérebro foi afectado por nenhuma catástrofe. Nem uma escola é uma morgue. Quanto à escolha dos médicos por sinal antes de alguém se submeter a deteminadas intervenções procura saber dos casos de sucesso e insucesso do dito clínico.

    Uma das utilizações dos rankings pode ser precisamente justificar medidas excepcionais para as piores escolas: por exemplo, não se poderiam criar equipas de professores efectivos para aí lidar com turmas com piores resultados? Não se poderiam equacionar projectos diferentes, organizações diversas de aulas… para tentar quebrar esse círculo vicioso? Camuflar os resultados só serve para que as piores continuem a ser piores só que ninguém sabe. Oficialmente, claro. Porque nos bastidores a rede de conhecimentos assegura que alguns saibam.

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  5. 21 Outubro, 2011 10:32

    Helena, parece-me que passou ao lado do meu argumento, talvez por não ter percebido a analogia que fiz, como as suas duas primeiras frases demonstram. Vou tentar explicar de forma mais clara o que quis dizer.
    1 – O meu ponto é que um ranking com base nas notas dos alunos é um ranking dos alunos. Isto devia ser claro. Quando daí se extrapola para as escolas e se faz do ranking dos alunos um ranking das escolas é uma extrapolação que é feita e que tem de ser devidamente justificada.
    2 – É exactamente o mesmo que fazer o mesmo raciocínio com os pacientes e os médicos. Concluir que os melhores médicos são aqueles que têm os, à saída do gabinete, os doentes mais saudáveis é um disparate. Porque não tem em conta o estado de saúde dos pacientes quando entraram no consultório.
    3 – Obviamente que qualquer pessoa que tenta saber o historial de sucesso e insucesso de um dado médico tem em conta a dificuldade dos casos que lhe calham. Ou seja, “tem em conta o meio envolvente”. Só um estúpido faria de forma diferente.
    4 – Mas os rankings, tal como são apresentados, é cometem precisamente esse erro. Bastava que em vez de lhes chamarem rankings das escolas, lhes chamassem ranking dos alunos da escolas para que tal estupidez desaparecesse. Cada um tirava as ilações que entendesse. Chamar a isto ranking das escolas é, pura e simplesmente, mau jornalismo.

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  6. lucklucky permalink
    21 Outubro, 2011 12:05

    Qualquer escola deve poder anunciar aquilo em que é boa e especializar-se. Uma escola deve poder especializar-se em recuperar crianças que chumbam várias vezes. Ou poderá especializar-se em sobredotados. Mas isso é impossível no ensino sem liberdade que temos.

    Mas continuando nos delírios soci@listas:
    Então o Trinta e três e o La-c :
    defendem um teste de QI aos alunos?
    Ou só conta o dinheiro na conta dos Pais?
    E se não houver pai e mãe e for adoptado?
    E se os país forem divorciados?
    E pelo sexo?
    E pelo desenvolvimento?
    É sabido que os alunos do sexo masculino têm mais dificuldade académica.
    Ou se o adolescente tem namorada ou não?
    Gordo ou magro?
    Doença como diabetes?
    Dificuldade de visão?
    .
    E qual o peso em que vão colocar nesta loucura?

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  7. JCA permalink
    21 Outubro, 2011 12:57

    .
    Sal e pimenta nos resultados:
    .
    .
    Irish American women are true man eaters
    http://www.irishcentral.com/roots/Irish-American-women-are-true-man-eaters-132128583.html
    .
    -Sweden: 23 Women Convicted Of Child Pornography
    http://www.huffingtonpost.com/2011/10/18/sweden-women-pornography_n_1017179.html
    .
    -New generations in Europe tipping into homelessness
    http://uk.reuters.com/article/2011/09/12/us-europe-homelessness-idUSTRE78B6KE20110912
    .
    -California schools scrambling to add lessons on LGBT Americans
    Many are flummoxed about how to carry out a new law requiring California public schools to teach all students, from kindergartners to 12th-graders, about lesbian, gay, bisexual and transgender Americans.
    http://www.latimes.com/news/local/la-me-gay-schools-20111016%2C0%2C6753592.story
    .

    -300,000 babies stolen from their parents – and sold for adoption: Haunting BBC documentary exposes 50-year scandal of baby trafficking by the Catholic church in Spain
    http://www.dailymail.co.uk/news/article-2049647/BBC-documentary-exposes-50-year-scandal-baby-trafficking-Catholic-church-Spain.html#ixzz1b0XCQLoY
    .

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  8. 21 Outubro, 2011 14:57

    LL:
    E que tal ler, com atenção, o que os outros escrevem?

    Helena:
    O “problema” é que a falta de liberdade que temos não se deve, nem de perto, nem de longe, ao que diz.

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  9. 21 Outubro, 2011 18:24

    Lucklucky, por amor de Deus, pensa que é assim tão difícil fazer um estudo sério usando um pouco de estatítica multivariada para controlar os diversos factores?
    Delírios socialista? Mas está parvo? Então eu ponho em causa a validade técnica de uma dada metodologia para elaborar um ranking e isso é um delírio ideológico? Tem juízo. Os meus comentários foram sérios e bem argumentados. Se quiser responder com seriedade, como fez a Helena, estou disponível para continuar a discutir e, se for o caso, mudar de opinião. Se é para essas parvoíces, então não vale a pena.

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  10. Alice Samora permalink
    21 Outubro, 2011 23:24

    Tem razão e não tem. Na minha terra – em Tomar – o sócioe-conómico funciona. Sei de turmas de filhos de professores, com os melhores colegas, os melhores professores, ou os prefessores mais fracos que dão notas mais altas. Sei de professoras que dão explicações em casa, a ganhar 15€/horas sem recibo, enquanto “avaliam” e dão prémios de mérito aos alunos finalistas que, para terem nota na “atitudes” têm que as dar de borla aos colegas mais fracos que não lhas podem pagar. Sei de pais que pagaram viagens a Itália ao director de turma e aos professor da “área de projecto” e depois os filhos tiveram efectivamente “vinte”. Sei e sabemos muita coisa. Mas sabemos também que o melhor é nem falar. Porque esta currupção e fascismozinho de província é tão eficaz que vocês aí nem sonham. Temos medo da autonomia das escolas. Em que os sindicalistas da fenprof estão literalmente casados com os novos directores. Aqui a esquerda é fascista.

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  11. Nuno permalink
    22 Outubro, 2011 02:39

    Como é evidente, concordo com tudo o que a helenafmatos escreve.
    Apenas luquero chamar a atenção para o facto de que cada um nasce e é baptizado com o noma que tem.
    Já agora, foram distribuidos pc’s portáteis, oa célebres Magalhães – que custaram uma pipa de massa aos contribuintes -, e que na sua quase totalidade não serviram por que o custo dos serviços de internet eram incomportáveis para as famílias, além de ninguém saber trabalhar com o equipamento…

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