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RTP, episódios de uma eterna servidão

27 Janeiro, 2012
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Não esperava ter razão tão depressa. Melhor: não esperava que o diagnóstico realizado pelo Grupo de Trabalho para o serviço público de comunicação social se revelasse tão certeiro tão depressa: é que foi há apenas dois meses que dissemos temer o “modelo de informação que o Governo aparenta defender, por considerarmos que permitirá perpetuar a influência, quando não a interferência, do poder político” na televisão e na rádio públicas. Ora aí está: por mais justificações pífias que se procurem, não restam muitas dúvidas sobre a relação directa entre um lamentável programa emitido pela RTP a partir de Angola e o fim das crónicas de Pedro Rosa Mendes nas manhãs da Antena 1.

A primeira vergonha começou com a emissão, a partir de Luanda, de um “Prós e Contras” rebaptizado de “Reencontro”. Quando conheci o objectivo da produção luandesa coreografada por Fátima Campos Ferreira temi o pior – quando assisti à emissão o pior foi ainda pior. Não fiquei apenas pessoalmente incomodado, senti que a democracia portuguesa saía dali enxovalhada.

Pedro Rosa Mendes, um profundo conhecedor de Angola, foi magistral na sua crítica àquela vergonha. “O serviço público de televisão tem estômago para muito, alguns dirão que tem estômago para tudo, mas o ‘reencontro’ a que assistimos foi um dos mais nauseantes e grosseiros exercícios de propaganda e mistificação a que alguma vez assisti”, disse na sua crónica semanal. “A nossa televisão foi a Luanda socializar com os apparatchiks do regime”, prosseguiu antes de retratar impiedosamente o regime de Eduardo dos Santos e de criticar a “subserviência” da emissão da RTP. É uma crónica que merece ser ouvida. É um texto que nos reconcilia com o jornalismo quando exercido de espinha direita.

Sucede que, na RTP, apesar do tal “estômago para muito”, nunca houve estômago para criticas tão directas e francas. Por isso não duvido que Pedro Rosa Mendes não falta à verdade quando revela que lhe foi dito que “a administração da casa não tinha gostado da última crónica sobre a RTP e Angola”. Com uma ressalva: talvez não tenha sido a administração, talvez tenha sido quem a representa, o que vai dar ao mesmo. Na RTP sempre houve muitas ordens que não precisaram de ser dadas para serem assumidas pela hierarquia.

 

Tenho por hábito ser frontal e inconveniente, pelo que não posso fingir que não vejo. E quem, na RTP, deu a cara pelo fim da série de crónicas “Este Tempo” que incluía a contribuição de Pedro Rosa Mendes, não foi a administração, pois esta sacudiu rapidamente a água do capote. A direcção de informação da Antena 1 também não se ouviu. Quem apareceu foi um velho conhecido: Luis Marinho, antigo director de informação da RDP, depois director de informação da RTP, depois administrador, agora “director-geral de conteúdos”.

Coloco propositadamente as aspas: como recordou esta semana no Jornal de Negócios Manuel Falcão, “o cargo de director-geral da RTP não está previsto no quadro legal da empresa”, e isso não sucede por acaso: na última revisão da lei optou-se por não criar esse cargo “para evitar um conflito de interesses entre as áreas da informação e da programação e para manter a autonomia dos respectivos directores”. Mesmo assim a administração criou o cargo e, estranhamente, ou talvez não, a ERC aprovou a nomeação e o Parlamento ignorou a ilegalidade. Nesse mesmo texto de sexta-feira passada, Falcão duvidava “que o director-geral fosse apenas controlar orçamentos, meios de produção e emissão”. Está visto que não foi. Não só assumiu agora o fim da rubrica “Este tempo”, como esteve na famosa viagem a Angola, onde participou nas assinaturas de protocolos promovidos pelo ministro Miguel Relvas e seguiu, in loco e em pose atenta supervisão, o tal “Reencontro” emitido de Luanda.

Agora que Marinho voltou a reencarnar num lugar executivo na RTP, recomendo a leitura do seu depoimento na ERC aquando do inquérito às pressões que teria havido por altura da divulgação, pelo PÚBLICO, das condições em que José Sócrates tirou a sua licenciatura. Na altura era director de informação da RTP e assumiu que não recebera qualquer telefonema do gabinete do então primeiro-ministro (ao contrário do que sucedera com responsáveis de outros órgãos de informação), antes que fora por sua “decisão editorial” que a RTP não noticiara o caso mesmo quando este já se tinha tornado incontornável.

Como já referi, há coisas que, naquela casa, são assim porque… são assim.

 

O que se passou por estes dias comprova – como se tal ainda fosse necessário – que o nosso serviço público de rádio e televisão continua fiel às lógicas de submissão aos poderes do momento, um comportamento que sempre teve com excepção de raríssimos períodos. Quando saiu o relatório do Grupo de Trabalho, muitos vieram dizer que este era ofensivo para os trabalhadores e jornalistas da RTP apenas por lembrar a longa história de interferências, ilegítimas e ilegais, de todos os governos. Não tinham razão, e só estranho agora o silêncio de tantos desses “ofendidos” face ao servicinho de Luanda. Foi preciso ser um colaborador externo – para mais com um vínculo precário, como se viu – a fazê-lo. É isto que mostra como não basta ter boas intenções e boas leis para garantir a independência dos operadores públicos, é preciso ter também uma cultura de espinha que não dobra, algo infelizmente mais raro do que pensa.

Na sua crónica de despedida, Pedro Rosa Mendes toca neste ponto ao referir que “as escolhas limite se fazem todos os dias” e “que quem vive de espinha dobrada em tempo de paz” dificilmente será capaz de “endireitar a espinha em tempos difíceis”. Não sei a quem ele se refere, nem isso é importante. Não espero – não posso esperar – que todos sejam heróis e sei bem que as democracias também são os melhores regimes possíveis precisamente porque os homens são imperfeitos. Daí que não acredite na redenção sempre prometida e sempre iludida do nosso “serviço público”, preferindo antes uma paisagem povoada pelo máximo de operadores, uma paisagem plural mesmo que feita de muitas imperfeições.

Isso é tanto mais verdade quanto os tempos são de crise e, no país, como disse Rosa Mendes, se instalou “uma noção puramente alimentar da dignidade individual”. Ora se isso se traduz em “está caladinho para guardares o trabalhinho”, se no país os governos já têm poder a mais, então que não tenham também tanto poder numa área tão sensível como a rádio e a televisão. Os privados podem ter, e têm, muitos defeitos, mas são eles que, há muito, asseguram que há realmente pluralismo e “inconveniências”. Uns podem ceder a pressões, mas nunca cedem todos. É por isso que acredito num pluralismo de operadores imperfeitos e não acredito no milagre impossível de um serviço público sem pecado. Isso não existe.

Público, 27 Janeiro 2012

 

PS. Tenho por hábito declarar sempre os meus interesses. Esclareço assim que quando Pedro Rosa Mendes foi processado por José Eduardo dos Santos em 1999 eu também fui: por dirigir o PÚBLICO e por um editorial que então escrevi. Luís Marinho também me processou, como director do jornal, por causa de uma crítica de televisão de Eduardo Cintra Torres de 2006. Em todos esses processos fui absolvido.

9 comentários leave one →
  1. Monti permalink
    27 Janeiro, 2012 21:09

    Rádio Moscovo não fala verdade.
    A RTP (das oligarquias partidárias) vencerá.

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  2. J. CASTILHO permalink
    27 Janeiro, 2012 21:44

    Quando um canal da RTP for privatizado , sobretudo se for entregue à “Newshold, SGPS SA”, como está ser preparado pelo Ministro Relvas, vai ser muito diferente, não é Zé Manel???. Basta ser privado e as manipulações de jornalistas já não têm importância.
    Como é que o Zé Manel fala do programa de Angola e quase não fala no Relvas . A culpa , como sempre, é só do Sócrates que fez trafulhice na licenciatura e andava a escutar o Cavaco em Belém!!!

    O Zézinho não aprende o mesmo , é sempre o mesmo intriguista …perdão jornalista….

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  3. Portela Menos 1 permalink
    27 Janeiro, 2012 21:52

    Excerto da entrevista de Luís Marinho (director geral da RTP) à revista NotíciasTV, suplemento do DN de hoje – a uma pergunta sobre o “grupo de trabalho sobre o serviço público na comunicação social”, do qual fez/faz parte JMFernandes:
    “são teorias…de pessoas que conhecem mal o meio e que, algumas delas , tinham parti pris em relação à RTP. E depois saiu aquela espécie de redacção da 4ª classe. que um grupo de estudantes universitários faria da mesma maneira…aquilo foi um trabalho bem triste de gente que se empina em bicos de pés para aparecer em tudo”
    .
    Neste post, o fim das crónicas de Pedro Rosa Mendes nas manhãs da Antena 1 parece ser um pretexto de JMF para ajustar umas contas com Luís Marinho e com a RTP. Para além do fim da crónica de PRM também terminaram todas as outras quatro colaborações no mesmo espaço da Antena 1 e a essas JMF nem dedicou uma palavra. Por algum motivo?

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  4. aremandus permalink
    27 Janeiro, 2012 22:11

    Parece de facto ser um pretexto de JMF para ajustar umas contas com Luís Marinho e com a RTP.
    nem uma palavra sobre a tutela-o aventalício relvas,porquê???

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  5. Arlindo da Costa permalink
    28 Janeiro, 2012 00:03

    Se fosse no tempo de Sócrates, o que é que a comunicação social, as redes sociais, não fariam?
    E as manifestações pela «liberdade» de expressão no tempo de Sócrates?
    Onde está o patético Mário Crespo e toda a fauna cafreal desta nação arrebentada?

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  6. Nuno permalink
    28 Janeiro, 2012 03:06

    .
    Na verdade, seria interessante que JMF se explicasse. A sua posição deixa muitas “dúvidas”.
    ,

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  7. Zebedeu Flautista permalink
    28 Janeiro, 2012 17:42

    Serviço publico era um canal de TV e outro de rádio em que cada cidadão, grupo, ajuntamento,classe requisita-se espaço de antena para dizer o que bem lhe apetece-se sem ERC, sem visto prévio, sem porra nenhuma. Com tribunais que funcionassem para quem se sentisse ofendido reclamar. Nada de futebois, novelas, filmes, americanices, fados, operas, teatros. Somente ideias e ideais. E claro receitas de culinária pois como dizia um grande português o bolinho de bacalhau já fez mais pela cultura portuguesa por esse mundo fora do que todo o outro “património cultural”.

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