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Carta de Rui de Carvalho ao contribuinte [anotada]

27 Maio, 2013

Tenho 86 anos [acho a minha idade relevante no que toca a pagar impostos], e modéstia à parte, sempre honrei o meu país pela forma como o representei em todos os palcos, portugueses e estrangeiros [fiz o que se espera de um bom profissional], sem pedir nada em troca [todos me devem, mas eu não cobro] senão respeito, consideração, abertura– sobretudo aos novos talentos -, e seriedade na forma como o Estado encara o meu papel como cidadão e como artista [ask not what you can do for your country …].

Vivi a guerra de 36/40 com o mesmo cinto com que todos os portugueses apertaram as ilhargas [por algum motivo acho que devo ter privilégios por ter vivido o período da guerra civil espanhola]. Sofri a mordaça de um regime que durante 48 anos reprimiu [sou uma vítima do fássismo, mandem dinheiro] tudo o que era cultura e liberdade de um povo para o qual sempre tive o maior orgulho em trabalhar [isto também é relevante para pagar menos impostos que vocês]. Sofri como todos, os condicionamentos da descolonização [isto também dá pontos?]. Vivi o 25 de Abril com uma esperança renovada, e alegrei-me pela conquista do voto, como se isso fosse um epítome libertador [sou um democrata, paguem vocês os impostos].

Subi aos palcos centenas, senão milhares de vezes, da forma que melhor sei, porque para tal muito trabalhei [as outras pessoas que pagam impostos não trabalham].

Continuei a votar [sou tão magnânimo], a despeito das mentiras que os políticos utilizaram para me afastar do Teatro Nacional  [um lugar meu por direito]. Contudo, voltei a esse teatro pelo respeito que o meu público me merece [ai, sou mesmo tão magnânimo] , muito embora já coxo pelo desencanto das políticas culturais [paguem impostos, a cultura não pode morrer] de todos os partidos, sem excepção, porque todos vós sois cúmplices da acrescida miséria com que se tem pintado o panorama cultural português [já disse que a cultura precisa de pagadores de impostos?].

Hoje, para o Fisco, deixei de ser Actor…[obrigam-me a pagar os impostos que as outras pessoas pagam] e comigo, todos os meus colegas Actores [com letra maiúscula] e restantes Artistas [idem] destes país – colegas que muito prezo e gostava de poder defender.

Tudo isto ao fim de setenta anos de carreira! É fascinante. [eu,eu, eu, eu….]

Francamente, não sei para que servem as comendas, as medalhas e as Ordens, que de vez em quando me penduram ao peito? [mandem menos caricas e mais dinheiro]

Tenho 86 anos, volto a dizer, para que ninguém esqueça o meu direito a não ser incomodado pela raiva miudinha de um Ministério das Finanças [o mundo gira à minha volta, mais ninguém está a ser afectado pela austeridade], que insiste em afirmar, perante o silêncio do Primeiro-Ministro e os olhos baixos do Presidente da República [mal agradecido, depois da campanha que fiz por ele], de que eu não sou actor [querem que pague impostos como os não actores], que não tenho direito aos benefícios fiscais [tentei que não percebessem até este ponto no texto que o problema é que me querem obrigar a pagar os mesmos impostos que aos restantes cidadãos] , que estão consagrados na lei, e que o meu trabalho não pode ser considerado como propriedade intelectual [é realmente estranho].

Tenho pena de ter chegado a esta idade para assistir angustiado à rapina com que o fisco está a executar o músculo da cultura portuguesa [ou seja, eu]. Estamos a reduzir tudo a zero… a zeros, dando cobertura a uma gigantesca transferência dos rendimentos de quem nada tem para os que têm cada vez mais [eu sou dos que nada têm].

É lamentável e vergonhoso que não haja um único político com honestidade suficiente [não me apanham em mais nenhuma campanha eleitoral] para se demarcar desta estúpida cumplicidade entre a incompetência e a maldade de quem foi eleito com toda a boa vontade, para conscientemente delapidar a esperança e o arbítrio de quem, afinal de contas, já nem nas anedotas é o verdadeiro dono de Portugal: nós todos! [Portugal é de todos, logo devo pagar menos impostos e vocês mais impostos para subsidiar a cultura]

[…]

Origianl aqui.

50 comentários leave one →
  1. piscoiso permalink
    27 Maio, 2013 00:40

    Como o Rui de Carvalho é do Benfica, o texto dele ficaria melhor a vermelho.

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    • Candido Silva permalink
      27 Maio, 2013 00:42

      E então Jesus disse: “deixai os outros vencer, pois minha felicidade é a alegria do vizinho.” De seguida tomou o cálice. Várias vezes. Ao longo da noite. Uma lição de altruísmo. Para todos nós.

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    • 27 Maio, 2013 22:42

      Piscoiso.

      Pena foi O Rui de Cravalho não ter percebido o que lhe podia acontecer quando andava a fazer campanha pelo laranjal. Laranja assumido a Familia Cravalho

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  2. Hawk permalink
    27 Maio, 2013 00:40

    Claro que esta carta e muito emocional e algo estranha. Mas a verdade é que todos (?) estamos a sofrer um verdadeiro sufoco fiscal sem perceber lá muito bem se vale a pena ou não.

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  3. Candido Silva permalink
    27 Maio, 2013 00:41

    Realmente este actor acha que está acima de todos, ou seja não deve pagar impostos! Ó senhor Ruy…vá pregar para a freguesia onde mora o Snr. Cavaco Silva e o Snr. Coelho!

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  4. 27 Maio, 2013 01:40

    As desprezíveis notas que interessam a JMiranda são outras…Saídas da Casa da Moeda.
    Cultura, Sabedoria, Prestígio, Conhecimento, Desenvolvimento cultural e intelectual, para JM, não interessa, havendo ou não dinheiro nos cofres do Estado.
    Cultura para JM, só a que lhe interessa, aos seus.
    A carta de Ruy de Carvalho é bem explícita, cristalina e, porque escrita por um actor reconhecido no país, incómoda para este catastrófico governo. Daí as notas de JM, que não tem um átomo de sensibilidade para os tugas, para a Cultura, para quem acciona Cultura neste país.
    Para JM, a Cultura deveria confinar-se ao que ele decidisse…

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    • Pinto permalink
      27 Maio, 2013 07:29

      Então o senhor que venda essa sabedoria, cultura, prestígio, conhecimento, desenvolvimento cultural e intelectual e que não peça para ser eu a subsidiar essas patranhas (escritas em maiúsculas só salientam o parolismo, a sabujice e a ignorância de quem o escreve).

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    • Artista do Trabalho permalink
      27 Maio, 2013 08:56

      A carta é cristalina, mas não é ao governo que incomoda. É a mim e a outros contribuintes como eu, que acreditamos que vivemos num estado de direito onde o princípio da igualdade realmente existe.

      Esta carta do Ruy de Carvalho é uma afronta a quem acredita em qualquer um desses princípios: ele reclama a si privilégios e mais privilégios, e apesar dessa propalada experiência de vida esquece-se que também tem deveres para com o estado. É mais um “Artista” que exige subsídios apenas por existir, que exige tachos em teatros do estado por ele precisar de tacho, exige que deva ser roubado dinheiro a todos os cidadãos para manter essas mordomias e fogos de vista, e exige que não seja tratado da mesma forma que qualquer contribuinte português, porque sabe-se lá porquê não deve pagar aquilo que deve para manter esta civilização a funcionar.

      E toda esta verborreia do Ruy de Carvalho resume-se a isto: dinheiro (que acha que deve ser retirado às pessoas para canalizá-lo para os bolsos dele) e dinheiro (que acha que não deve contribuir através dos mesmos impostos que toda a gente paga, porque é especial. É isto que faz mover este mundo de “Artistas”: dinheiro. Parece que é a musa deles. O que é que temos a ganhar ao pagar as mordomias desta gente?

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      • nuno granja permalink
        27 Maio, 2013 14:48

        Nem mais!

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      • Antonio Lopes permalink
        27 Maio, 2013 16:17

        Parabéns pelo seu comentário!Infelizmente o Sr.Ruy Carvalho também está a sentir-se “iluminado”pelo outro pateta também de anos,o tal da fundação soares,que só estrebucha pelas mesmas razões do actor:estão-lhe a ir ao bolso!Mas quanto ao marocas,não tem de se preocupar:o monhé ainda há dias lhe deu mais 40.000 euros de subsídio!É obra!E não há quem fale disto!

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      • Antonio Lopes permalink
        27 Maio, 2013 16:18

        de 88 anos!!

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  5. 27 Maio, 2013 01:43

    Adenda :
    A palavra “desprezíveis” notas, deveria ter colocado no início do quinto parágrafo.

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  6. Fincapé permalink
    27 Maio, 2013 01:46

    As dores têm a ver com o estado do sistema nervoso. Algumas demoram mais tempo a ser descodificadas pelo tálamo.
    E depois há também o Brecht, o Niemoller ou o Maiakovisk que, dizem, inspirou todos.

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  7. Duarte de Aviz permalink
    27 Maio, 2013 01:50

    As cartas abertas também são uma coisa bem do Portugal profundo. Tal como as derrotas do Benfica. A gente acha sempre que o problema é dos outros.

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  8. eramasfoice permalink
    27 Maio, 2013 02:14

    Não confisqueis o nome ao senhor. Ele é Ruy, assim com y de actor. Esqueceu-se, por modéstia, de invocar essa razão, um Ruy ou uma Thereza ou um Thomaz não podem pagar impostos. Porrah, com agá.

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    • neotonto permalink
      27 Maio, 2013 06:50

      De quem sao as notas e comentarios? Do Pedro Paulo Miranda?

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  9. 27 Maio, 2013 02:42

    Portugueses-do-Prego
    .
    .
    -> Não é com um partido nacionalista que Portugal vai conseguir SOBREVIVER!…
    -> Para sobreviver Portugal precisa de um Movimento Nacionalista que ‘corte’ (SEPARATISMO-50-50) com os «portugueses-do-prego» (leia-se, os portugueses que estão a colocar Portugal no prego).
    .
    De facto:
    – os portugueses-do-prego não defendem uma estratégia de renovação demográfica – média de 2.1 filhos por mulher; [nota: os portugueses-do-prego gostam de se armar em parvinhos-à-sérvia… vide Kosovo]
    – os portugueses-do-prego falam em despesa NÃO ENQUADRADA na riqueza produzida… logo e depois:
    1- vendem recursos estratégicos para a soberania… à alta-finança/capital-global;
    2- depois de conduzirem o país em direcção à bancarrota… começam a proclamar federalismo, federalismo, federalismo (leia-se, implosão da soberania).
    Mais, muitos portugueses-do-prego adoram evocar motivos… que ‘justifiquem’… o fim de Portugal.
    .
    .
    .
    P.S.
    Nazismo não é o ser ‘alto e louro’… mas sim a busca de pretextos com o objectivo de negar o Direito à Sobrevivência de outros!…
    Os NAZIS ‘globalization-lovers’/(anti-sobrevivência de Identidades Autóctones) andam numa busca incessante de pretextos… para negar o Direito à sobrevivência das Identidades Autóctones.
    Os SEPARATISTAS-50-50 não têm um discurso de negação de Direito à sobrevivência… os separatistas-50-50 apenas reivindicam o Direito à Sobrevivência da sua Identidade: leia-se, os ‘globalization-lovers’ que fiquem na sua… desde que respeitem os Direitos dos outros… e vice-versa.

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  10. tric permalink
    27 Maio, 2013 02:54

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  11. tric permalink
    27 Maio, 2013 03:10

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  12. permalink
    27 Maio, 2013 04:02

    repugnante!

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  13. 27 Maio, 2013 07:24

    … colegas que muito prezo e gostava de poder defender. (as corporações devem unir-se).

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  14. Jorge permalink
    27 Maio, 2013 09:38

    Já tinha reparado que este senhor, quando escreve ou fala por si, diz coisas inimagináveis. Como é, de facto, bom actor, podemos concluir que se devia dedicar aos textos escritos por outrem. Já há bastante tempo que não ligo às suas intervenções políticas, que são normalmente, despropositadas, como este exemplo demonstra.

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  15. A.Silva permalink
    27 Maio, 2013 12:13

    A forma como este imbecil trata a carta de Rui de Carvalho, que era (é??) um apoiante do PSD é bem ilustrativa da falta de escrúpolos e da doentia falta de ética destes arautos do neoliberalismo.
    Vocês não respeitam ninguém, nem aqueles que conseguiram enganar até à pouco, por isso o vosso futuro está traçado e ele vai ser o caixote do lixo.
    Gente asquerosa!

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    • Churchill permalink
      27 Maio, 2013 13:51

      Silva
      O sr. pode ser apoiante do Papa, é-me indiferente.
      Agradeço a carta porque fiquei a saber que até agora os atores tinham benefícios fiscais, descontando menos dos rendimentos de trabalho que varredores, calceteiros, serventes, e muitos outros profissionais.
      A partir de agora quando aparecerem com a ladainha que a pensão de reforma não é suficiente já tenho resposta para lhe dar.
      .
      PS. E depois vem o Miranda dizer-nos que a culpa do estado das contas publicas é dos funcionários estatais que trabalham (e descontam) mais de 40 anos.

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  16. manuel permalink
    27 Maio, 2013 12:19

    Antes de comentarem ,leiam o original ,sff. Penso que os comentários são de muito mau gosto.

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    • manuel permalink
      27 Maio, 2013 12:21

      digo ,anotações do sr João miranda.

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      • Incognitus permalink
        27 Maio, 2013 14:49

        De mau gosto é:
        1) Pedir-se para tirar aos outros para lhe darem a ele, involuntariamente;
        2) Pedir para ser tratado de forma diferente dos outros no que toca a pagar.

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  17. Zé Paulo permalink
    27 Maio, 2013 13:38

    Por mais que doa, a realidade é que a cultura, do ponto de vista vivencial, tem grande importância na sociedade. Contudo, observada sob um ponto de vista “sobre vivencial”, acaba por, em certa medida, tornar-se irrelevante. E com lamento o digo, mas é assim.

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    • Incognitus permalink
      27 Maio, 2013 14:50

      Tem a importância que as pessoas lhe dão, substanciada nas suas acções. Não tem que ter uma importância superior, apoiada por retirar recursos às pessoas involuntariamente para entregar aos actores culturais.

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  18. Duarte permalink
    27 Maio, 2013 13:43

    Deitemos abaixo a estatua do Marques de Pombal, do Camões etc pagas com o dinheiro dos contribuintes. À bomba com os jeronimos, o aqueduto das aguas livres, pagas com o dinheiro dos contribuintes.

    Paguemos so um milhão de euros à directora do Banif. Essa sim merece o nosso dinheiro.

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  19. Portela Menos 1 permalink
    27 Maio, 2013 14:51

    estamos em presença de uma missiva de um eleitor que tendo votado nesta maioria e neste presidente, acaba de abandonar o barco deixando JM um pouco incomodado; é a vida.

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    • 27 Maio, 2013 22:49

      Portela,

      Aliás: ” O ator Ruy de Carvalho dedicou a todos os portugueses, que estão a viver “um momento muito difícil”, a condecoração da Grã-Cruz da Ordem do Infante, imposta hoje pelo Presidente da República.”

      ” “Queremos manifestar o apreço dos portugueses pelo seu trabalho, talento e dedicação”, disse Cavaco Silva, dirigindo-se ao ator.”

      (…) Esta condecoração irá juntar-se à Comenda e ao Grande Colar da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada que Ruy de Carvalho recebeu (…)

      http://www.ionline.pt/artigos/boas-noticias/actor-ruy-carvalho-dedica-condecoracao-todos-os-portugueses

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  20. Surprese permalink
    27 Maio, 2013 15:15

    É bem feito, para que TODOS saibam que são chamados a contribuir quando existem dificuldades.
    Ficaria triste era se este Senhor e outros, como Ferreira Leite, Soares,
    Manuel Alegre, etc, não se sentissem indignados. Seria sinal de que os sacrifícios não lhes tinham batido à porta.

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  21. 1berto permalink
    27 Maio, 2013 15:54

    Ruy de Carvalho, que é um actor respeitável, andou sempre colado ao PSD. E estava no seu direito. Nunca o vi levantar a voz (admito estar enganado) em defesa de colegas, ou de quem quer que fosse. Agora está a sentir no bolso aquilo que a maioria sente, e não gosta. Demarcou-se do partido que sempre apoiou e escreveu uma carta a explicar-se como se nunca tivesse andado aos beijinhos ao Passos Coelho ou de braço dado com Santana Lopes. E essa é a única crítica que lhe faço. Estas “anotações” do João Miranda cheiram-me a vingança porque um “traidor” abandonou o partido. Mas é muito mais grave do que isso. Como vai sendo usual no Blasfêmias tudo o que cheira a cultura é feito por energúmenos que nada produzem e só querem viver à conta do estado. Como se a cultura fosse qualquer coisa de supérfluo e descartável porque não cria riqueza, só a destrói. É esta a filosofia da ignorância que grassa numa certa classe política, um triste e patético analfabetismo militante.

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    • Duarte de Aviz permalink
      27 Maio, 2013 17:37

      A “criação cultural” é um bem transaccionável e deve ser pago por quem dele usufrui. Sempre foi assim e sempre assim será. Até para os políticos que traficam influências “culturais” com o dinheiro dos importos.

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      • 27 Maio, 2013 20:13

        Durante o Estado Novo e nos anos de Marcello Caetano, o Estado esteve arredado de quaisquer incentivos, iniciativas, apoios, subsídios, patrocínios, investimentos ?

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      • Duarte de Aviz permalink
        29 Maio, 2013 00:04

        Talvez não tenha percebido o sentido da minha nota. Precisamente, não há diferença entre o que fez o Estado Novo e o que faz este Estado quasi-Velho. São exactamente iguais. Traficam influências e vaidades com dinheiro dos importos. E o Teatro nem é onde se vê o pior. Na arquitetura do regime esbanja-se muito mais dinheiro.

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  22. Fernando S permalink
    27 Maio, 2013 18:17

    Os interesses instalados (na “cultura” : subsidios, beneficios fiscais, proteccionismo, “serviços” não transaccionavel, etc) torcem-se todos e defendem com unhas e dentes os respectivos privilégios !…
    Bom sinal !!

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  23. Fernando S permalink
    27 Maio, 2013 20:54

    “Como se a cultura fosse qualquer coisa de supérfluo e descartável porque não cria riqueza, só a destrói.”

    Bom, a « cultura » não é certamente um bem essencial e de subsistencia popular !…
    Mas, efectivamente, a “cultura” pode ser riqueza para quem lhe da valor e deseja consumi-la.
    Se lhe da valor e a consome de graça ou abaixo do preço de mercado, então é porque ha alguém que não lhe da o mesmo valor (ou nenhum) mas que paga a diferença.
    Nenhum bem produzido sem que os respectivos custos sejam cobertos.
    Esta cobertura é completada graças aos subsidios e aos privilégios dados pelo Estado / contribuintes à produção e ao consumo deste tipo de “cultura”.
    Pelo menos até agora, esta “cultura” é sobretudo consumida pelas chamadas “élites urbanas”. Por sinal, trata-se duma parte minoritaria da população que tem rendimentos médios muito superiores aos da grande maioria da população.
    A maioria da população prefere outras “culturas”, consideradas “pobres” e desprezadas pelas “elites” (musica « comercial », festas populares, etc) . Mas, estas “culturas” não são nem subsidiadas nem protegidas. São pagas ao respectivo preço de mercado por quem as consome.

    Este estado de coisas, para além de aumentar as despesas publicas em areas não essenciais, é profundamente injusto.
    Em vez de serem as « elites » a subsidiar a « cultura » popular é o resto da população a subsidiar a « cultura » consumida pelas « elites » !
    Todas as formas de “cultura” devem ser reconhecidas e ser tratadas por igual.
    Uma hipotese é o Estado subsidia-las e protege-las todas. Mas esta via custaria ao Estado rios de dinheiro pelo que é impraticavel.
    A outra, mais eficiente e, sobretudo, mais justa, é cada um pagar pela “cultura” que consome.
    A “cultura” deve ser um bem économico como qualquer outro, produzido em função da procura solvavel e pago por quem o consome ao preço de mercado.

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    • Fernando S permalink
      28 Maio, 2013 01:46

      Correcção : “Nenhum bem é normalmente produzido sem que os respectivos custos sejam cobertos.”

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      • Miguel permalink
        28 Maio, 2013 21:40

        Caro Fernando S., pelo que escreve, devemos entao tapar todas as estatuas existentes no pais, todos os monumentos existentes no pais, destruir todas as salas de espectaculos, e por ai fora… quer ir ver? entao tem que pagar… imagine se o Estado nao apoiar a conservacao e a preservacao de todo um passado cultural? Simplesmente e’ apagado da historia? que pais mais feio seria este… Tendo dito isto, a nivel pessoal, defendo nem que o Estado deve pagar tudo, nem o consumidor deve pagar tudo (imagine-se os custos de uma opera sem apoio do Estado), mas sim uma solucao mista… e pelas suas palavras, e as de muitos outros comentarios que li por aqui, tambem se deve pagar pela educacao, pelos hospitais, etc… e se nao tiver dinheiro, paciencia, nao usufrui… e’ o que acontece nos EUA onde quem nao tem dinheiro para os seguros de saude morre por nao poder ser operado… que pais tao feio… e quem quer viver nesse pais? enfim, parafraseando o poeta, certos portugueses gostam tanto de cultura como de lavar os pes…

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      • Miguel permalink
        28 Maio, 2013 23:31

        ah, claro, e nesse pais tao feio, onde quereis que se pague pela cultura, que se pague pelo acesso aos hospitais, as bibliotecas, aos museus, tambem o acesso `a educacao deve ser paga pelos cidadaos… e nunca pelo estado… que pais tao feio, tao fascista, tao elitista, onde apenas os que teem dinheiro terao acesso a estes bens…eh este o pais que quereis?

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  24. marai celeste ramos permalink
    28 Maio, 2013 04:26

    Ruy de Carvalho está mesmo “velho” Mas ao menos tem a Casa do Artista e há quem nem casa tenha e durma na rua e coma quando passa a carrinha de distribuição da sopa e ninguém sabe quem “foi” esse homeless e não teriam nascido homeless

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  25. Fernando S permalink
    29 Maio, 2013 01:38

    Caro Miguel (28 Maio, 2013 21:40),

    Antes dos seus comentarios fiz uma correcção numa das frases que escrevi precisamente para dizer que me referia a situações “normais” da produção cultural.

    Admito a existencia de situações, menos “normais”, mais excepcionais, em que o Estado possa ter alguma intervenção.
    Desde Adam Smith que os liberais em geral sempre disseram que se pode justificar a intervenção do Estado em sectores onde os privados, e por conseguinte o mercado, não estão em condições de assegurar a produção dos respectivos bens, ditos “comuns”.
    Claro que a aplicação pratica deste principio pode prestar-se a grandes divergencias. Os liberais tendem a restringi-lo a um pequeno numero de situações. Os “sociais-democratas”, pelo contrario, tendem a alargar o respectivo campo de aplicação.

    Uma das situações que me parece entrar em parte nesta categoria dos “bens comuns” é precisamente aquela que o Miguel indica em primeiro lugar : a conservação e preservação do patrimonio historico do pais (arquitectural, cultural, etc), Sobretudo no que se refere aos suportes materiais deste patrimonio, que podem degradar-se ou perder-se definitivamente. Não vou entrar aqui em detalhes mas digamos que podem perfeitamente entrar aqui algumas das suas preocupações : estatuas, monumentos, obras de arte, livros antigos, etc.

    Dito isto, mesmo neste dominio, não penso que o Estado deva fazer tudo. Durante séculos e séculos a conservação e preservação do patrimonio, por pouco que fosse, foi feita quase exclusivamente por privados, individuos, organizações, instituições, etc. Ainda hoje, ao contrario do que muitos julgam, um trabalho imenso continua a ser feito por organizações privadas, sem ou com fim lucrativo. E deve continuar a ser assim. Até porque o Estado nem sempre esta à altura do que deveriam ser as suas responsabilidades. Quantos bens de interesse historico e cultural ao cuidado do Estado se degradam e se perdem quase todos os dias ?…

    Onde penso que o Estado não tem mesmo nada que intervir é no que diz respeito à produção de bens onde os privados, e portanto o mercado, estão perfeitamente em condições de os oferecer a quem os deseja.
    Aqui se inclui a esmagadora maioria das ditas “actividades culturais” (cinema, teatro, museus, opera, musica, etc … tudo aquilo que é normalmente espectaculo para um publico mais ou menos restrito).
    Não é verdade que se estas produções não forem de algum modo subsidiadas pelo Estado a maioria das pessoas que as deseja ver não pode pagar o respectivo preço. A maioria paga muitas vezes outras produções “culturais”, consideradas “menores”, a preços tão ou mais elevados (o futebol é uma delas).
    A verdade é que as produções ja subsidiadas, apesar de o serem, continuam a não atrair a maioria da população e continuam a ter como principal assistencia sempre as mesmas categorias de pessoas, apaixonadas normalmente pertencentes às “elites culturais” (!!) e com rendimentos acima da média.
    Não é justo que estas pessoas, gaças a apoios e dinheiros publicos, beneficiem de preços mais baixos, normalmente bem inferiores aos proprios custos de produção.
    Trata-se do mundo às avessas : a generalidade dos contribuintes financia o consumo cultural dos mais “cultos” e menos necessitados.
    Pelo menos estas formas de “cultura” devem ser pagas normalmente por aqueles que as querem consumir.
    Se porventura se chegar à conclusão que ha na população pessoas que gostariam de ter acesso a estas produções mas não podem então, quando muito, o Estado (mas podem até ser privados … por que não as tais “elites” tão apreciadoras e apegadas a estas formas de cultura ??…) compra lugares e põe à disposição.

    Como ve o “elitismo” pode estar onde menos se espera !…

    Na 2a parte do seu comentario o Miguel generaliza a sua analise para um conjunto mais vasto de bens, que pouco ou nada teem a ver com a “cultura”. Na verdade, a maior parte até são bens bem mais essenciais e de consumo generalizado por parte do conjunto da população.
    Aqui também poderiamos aplicar o principio que referi acima.
    Mesmo sendo certo que praticamente todos esses bens são susceptveis de serem produzidos por privados.
    Mas admito que existam situações, relativamente complexas, onde a intervenção do Estado se pode justificar. Pelo menos até certo ponto.

    Mas esta é uma discussão bem mais vasta que tem de ficar para outra altura ….

    “Fascista” ?!… Mas sabe mesmo o que esta palavra significa ???!!…

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    • Miguel permalink
      29 Maio, 2013 17:15

      Caro Fernando S,

      Para lhe ser franco, tambem eu sou da opiniao que o Estado nao deve intervir a 100% no dominio cultural, educacional, social… Mas tambem nao deve ilibar-se de intervir ou apoiar… na verdade, sou da opiniao de que deve haver uma juncao de esforcos quer da parte do Estado quer da parte do mercado (diria, de forma generalizada, que o Estado deva intervir possivelmente 1/3 dos custos de producao ou divulgacao dos bens culturais – sempre, claro, analisados caso a caso; e que os restantes 2/3 deverao ser fonte propria ou angariados juntos de outras entidades estatais ou privadas)… Apesar de achar interessantes algumas das ideas do liberalismo, acho que nem tudo deve ser privatisado (exemplos mais deprimentes sao os casos da saude, onde quem nao tem dinheiro nao pode ter acesso a hospitais e tratamentos; casos da educacao, onde quem nao tem dinheiro nao pode ter acesso a educacao; ou na cultura, onde quem nao tem dinheiro, nao pode assistir a determinados espectaculos, devido aos elevadissimos custos destes ou mesmo muitos espectaculos nem sequer seriam possiveis se nao houvessem estruturas de apoio para os mesmos). Se reparar, os paises onde o Estado mais intervem na educacao (Finlania, por exemplo), esta e’ gratuita; na saude (Inglaterra), esta e’ gratuita; na cultura (Franca, Holanda, Canada, etc), esta e’ fortemente apoiada. Um exemplo concreto que defendo, na linha de que o Estado nao deve apoiar a 100% a cultura, e’ o exemplo da internacionalizacao da arte (musica, teatro, danca, etc) portuguesa. Se o Estado por exemplo contribui, numa parceria, por exemplo, com a TAP, no providenciamento das passagens aereas, somente isso, faria uma diferenca enorme na exposicao da cultura portuguesa no estrangeiro. O Estado nao apoia todos os custos mas daria, desse modo, uma importantissima ajuda, ficando os agentes culturais responsaveis por angariar as restantes ajudas…

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  26. aahb permalink
    4 Junho, 2013 19:23

    a todos os que comentam em ignorância, e ao próprio autor das anotações: o que está em causa é o não enquadramento por parte das finanças da actividade profissional de um actor no seio da actividade autoral, coisa que está perfeitamente definida em decreto-lei. quem quiser informar-se antes de opiniar leia o código dos direitos de autor e direitos conexos. ruy de carvalho não está a fazer-se de coitadinho nem a reclamar tratamento extraordinário, pelo contrário: está a fazer valer um direito que o legislador já estabeleceu há que anos. se a má vontade das finanças e a tirania dos seus funcionários não ocasionasse atropelos destes ele não precisava de protestar.

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