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Grécia, equilíbrios macro e qualidade dos equilíbrios micro

21 Fevereiro, 2015

Se bem percebo, neste post, o Pedro Romano diz que existe um ponto de equilíbrio macroeconómico na Grécia de PIB/consumo maiores, sem desequilíbrio da balança externa nem endividamento público adicionais (mas desendividamento mais lento), que pode ser atingido por redução das metas de superavit orçamental.

Sobre o post, deixo aqui alguns comentários:

1. Caso exista um ponto de equilíbrio a PIB/consumo maiores, é necessário explicar porque é que o mercado não o atinge. O que impede a economia privada grega de se financiar para aumentar o PIB por essa via? Se é uma via sem risco, o financiamento para o consumo deveria aparecer. Ou, pelo menos, o actual equilíbrio PIB/consumo é instável e basta um pequeno crescimento do consumo para isso induzir uma espiral de crescimento. Ou um pequeno acréscimo de crédito será suficiente. Porque é que isso não está a acontecer?

2. Supondo que é possível induzir por decisão política um equilíbrio macro de PIB/consumo mais elevado, o que garante que essa indução não vai canibalizar o crescimento normal da economia por um mecanismo como o descrito no ponto 1? Note-se que superavits menores tornam mais incerto o regresso da Grécia aos mercados e aumentam o risco de financiamento da economia privada grega.

3. O fulcro do problema parece ser o seguinte: a economia grega precisa de crédito adicional (ou de menos desendividamento, o  que vai dar ao mesmo) para chegar a um ponto de equilíbrio de PIB/consumo maiores. No entanto, o mercado não está a fornecer esse crédito e o que se propõe é que sejam os contribuintes europeus a dar crédito, não aos empreendedores gregos, mas ao governo grego.

4. Os raciocínio macroeconómicos têm que ser compatíveis com os raciocínios microeconómicos. Falta explicar qual seria o mecanismo microeconómico que geraria o novo equilíbrio macro. Vamos supor que o governo grego passa a ter um superavit menor, em cerca de 2MM. Qual é o mecanismo micro que garante que o dinheiro em excesso na economia privada será dirigido à procura interna fazendo aumentar o PIB grego? O que impede o grego com mais dinheiro no bolso de comprar mais bens importados? Ou o que impede o grego de liquidar dívidas ou de colocar o dinheiro na Suíça? Interessaria perceber como é que este acréscimo de dinheiro na economia seria distribuído. Parece claro que os destinatários deste dinheiro seriam definidos com base nas opções políticas do governo grego e não por critérios de racionalidade económica. Parece também claro que, caso se acredite na tese do equilíbrio macro superior, faria mais sentido o dinheiro ser distribuído não pelo governo grego usando critérios políticos, mas por um fundo de desenvolvimento usando critérios económicos. Note-se que a qualidade da despesa destas duas opções seria muito distinta com impactos muito diferentes na balança comercial.

5. Note-se que o governo grego tem à sua disposição um mecanismo para financiar crescimento, caso exista o tal equilíbrio macro superior: as privatizações. Podem começar por aí.

6. Existem diferentes equilíbrios micro a que correspondem o mesmo equilíbrio macro de PIB/consumo mais elevados. A forma como o equilíbrio macro é atingido não é indiferente para o arranjo micro a que se chega. E diferentes equilíbrios micro, embora possam representar o mesmo PIB, têm diferentes sustentabilidades de longo prazo. Um equilíbrio atingido pelo crescimento natural da economia tem uma qualidade e sustentabilidade, um atingido por indução da despesa pública tem outra qualidade e sustentabilidade. Tenho ideia que os problemas começaram porque se tentou criar equilíbrios artificiais induzidos pela despesa pública.

7. As taxas de juro da Grécia a 10 anos estão a 10%. O mercado, cheio de especuladores e oportunistas, sempre prontos a descobrir bons negócios, não acredita que existe um ponto de equilíbrio para a economia grega a um PIB maior que possa ser atingido com um razoável nível de probabilidade. Se o mercado não acredita, é porque se calhar a tese é muito especulativa. Depende não apenas da vontade política de o fazer mas também da existência e probabilidade do novo equilíbrio macro. A especulação do Pedro Romano de que um equilíbrio macro melhor existe parece só ser atraente para o dinheiro público, ou seja, para quem aposta o dinheiro dos outros.

21 comentários leave one →
  1. 21 Fevereiro, 2015 23:55

    JoaoMiranda,

    Se o governo tem que ter excedentes primarios elevados (em termos praticos excedente orcamental) entao tem de subir os impostos para ter esse excedente.

    Concordara certamente que subir os impostos reduz o PIB. Isto nao é compensavel por maior investimento privado suportado por credito (ate pq com PIB menor, esse investimento é menos atractivo).

    Confesso-me um pouco surpreendido pelo seu post…

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    • JoaoMiranda permalink*
      22 Fevereiro, 2015 00:20

      O que reduz o PIB é o desequilíbrio entre os bens que o Estado produz e os recursos que lhe são alocados. Não é subir impostos que reduz o PIB. O desequilíbrio que obriga a subir impostos é que reduz o PIB. Superavits primários menores implicam mais dívida pública e logo implicam mais impostos no futuro.

      Na verdade o que tem que se comparar é duas formas de crédito:
      1. crédito para financiar superavits primários menores (para ter superavits menores o estado grego precisa de mais crédito)
      2. crédito para financiar a economia privada

      Se o 2º não aparece espontâneamente, é irracional atribuir o 1º para estimular a actividade privada. Para alem disso, o 1º canibaliza o 2º. Crédito contraído para ter superavits primários menores é crédito garantido pelos impostos e portanto é um empréstimo que o sector privado contrai para que o Estado possa gastar

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  2. 21 Fevereiro, 2015 23:58

    Ou respondendo ao pobto 7: os investidores privados nao acreditam… no acordo existente. O que lhe garante que com uma exigencia de excedente menor, eles nao vissem essas oportunidades? Na verdade, o que esta a defender é que o consumo publico e impostos tem impacto ZERO no PIB. Nao faz sentido!

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    • JoaoMiranda permalink*
      22 Fevereiro, 2015 00:28

      Não. O que estou a defender é que é impossível aumentar o PIB em 1 euro aumentando o défice público em 1 euro. Parte do aumento do défice iria estimular as importações e a liquidação de dívidas. Caso contrário, seria fácil sair de crises de endividamento como a que a Grécia atravessa. Bastava aumentar a despesa.

      Trajectória do défice é a variável mais importante para os investidores em dívida pública. O efeito directo défice na dívida é sempre superior ao efeito da procura induzida no PIB, que por sua vez tem um efeito indirecto na dívida. Um investidor em dívida convence-se com reduções de défice e não com teorias de alavancagem do PIB via aumentos de défice.

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  3. Carlos Dias permalink
    22 Fevereiro, 2015 00:30

    A Grécia tem turismo, portos e gigolos.
    Agora também tem ministros sexys porra.
    Não me lembro de mais nada.
    Bem, também tem aquele vinho merdoso, Retsina. E vigaristas, sim, vigaristas.

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    • Eleutério Viegas permalink
      22 Fevereiro, 2015 10:11

      Pois… Como sempre foi tendo dinheiro fácil, nunca aprendeu a produzir nada. O turismo e o vinho são rascas, os portos servem para as importações, os gigolos não sei… É só aterrar lá que, menos de 5 minutos depois, já temos um trambiqueiro a querer “ajudar” (pior, só Marrocos). Mas essa dos ministros sexys deve ser piada.

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    • lucklucky permalink
      22 Fevereiro, 2015 19:25

      Para perceber a monstruosidade Grega basta pensar que chegaram por momentos a ficar mais ricos per capita que os Italianos.

      Tudo devido ao crédito a rodos.

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  4. Eleutério Viegas permalink
    22 Fevereiro, 2015 10:06

    Sem entrar em discussões técnicas, economico-financeiras, se esta receita funcionasse sem ser dentro de algumas monas, não era preciso equilíbrio orçamental. Todo o défice seria virtuoso, pelo menos no longo prazo. O problema é que, quando há dinheiro fácil, logo uma chusma de penduras se perfila para nunca mais perder o direito adquirido a ser pendura.

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  5. extrema-esquerda permalink
    22 Fevereiro, 2015 10:09

    Sendo eu de extrema-esquerda (no outro extremo, ligeiramente a direita do CDS)
    acho que o artigo de opiniao
    http://www.ionline.pt/iopiniao/nao-ser-esquerda
    e principalmete os comentarios ao mesmo explicam o facto de em portugal seja impossivel discutir futebol, religiao e politica.
    PS: nao uso acentos mas o saramago tambem nao usava pontuacao.

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    • Eleutério Viegas permalink
      22 Fevereiro, 2015 10:20

      Obrigado pela excelente sugestão. Ao contrário da autora, tenho quase tudo para ser de esquerda, mas a esquerda é tão insuportavelmente moralista, social e economicamente incompetente e completamente abandalhada que desde tenra idade resisti a entrar no rabanho acéfalo de coitadinhos penduras. E, não, não tenho pena por não ser de esquerda. Quando às vezes me tomam como tal (a rebeldia, muitas vezes é vista como esquerdista) tenho que eliminar rapidamente esse equívoco. Safa!

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    • manuel permalink
      22 Fevereiro, 2015 11:13

      Gostei de ler, mas dispensava algum ressentimento, como por exemplo, misturar Freitas do Amaral nesta conversa. Não sei onde a autora estaria, mas devemos ter respeito pela luta que Freitas liderou com muitos outros para que hoje possamos escrever com alguma liberdade. Lembro-me de muitos comícios do CDS/PP onde Freitas e outros só iam com risco e a segurança era feita sabe Deus como. Recordo particularmente o congresso no palácio cristal. Muitos fundamentalistas parvos devem der filhos e familiares dos refugiados no Brasil, que não viveram o prec e desconhecem os mortos que houve e que todos lamentamos( povo anónimo e militantes de partidos).

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  6. LTR permalink
    22 Fevereiro, 2015 10:19

    A Grécia tem governo? Mas alguém ouviu com atenção o discurso virtual que o Tsipras fez para dentro depois do “acordo” de sexta-feira, que é igual ao de quinta-feira e da mesma natureza do episódio da carta errada?

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  7. Almeida permalink
    22 Fevereiro, 2015 10:35

    Fantástico, João Miranda. Se, por oposição, a situação portuguesa é “tão boa”, porque é que o investimento não disparou e a produção de riqueza não floresce a partir de cada canto deste país?

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    • lucklucky permalink
      22 Fevereiro, 2015 19:32

      A situação de Portugal não é boa, a dívida está crescer e este pobre Governo é o único que na sua incompetência ainda resta alguma sanidade.

      Todos os outros incluindo você pelos vistos acreditam em cultos de carga.

      O crescimento acabou. A demografia não vai deixar,a tecnologia não vai deixar – espere pela altura em que um coeficiente demográfica seja aplicado ao crescimento para mudar como se faz contas e estas parecerem bonitas.

      O não crescimento pode ser virtuoso – produtos duram mais, as pessoas estão satisfeitas com o que têm, mas claro que isso é mau para um sistema político populista, inflacionista todo baseado no crescimento a qualquer preço.

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  8. manuel permalink
    22 Fevereiro, 2015 10:57

    Penso que 2ª feira já podemos tirar a foto ao governo do syriza com base nas reformas estruturais, se forem iguais à reforma do estado do irrevogável a Grécia sairá do euro, é uma questão de tempo. Não chega ter saldo primários positivos, o peso da dívida é asfixiante e terá de haver qualquer reestruturação. A situação é similar à nossa, no nosso caso, foram dados passos para se começar uma reforma do estado, mas a economia não gera receitas para o estado que temos, logo, temos de reduzir a despesa do estado em mais 10 mil milhões(foram reduzidosnuns 5000milhões), este corte implica opções entre as diversas funções do estado; se queremos uma função de soberania imperial teremos de cortar em saúde, educação, pensões e assim sucessivamente, esta é a discussão que os eunucos da maioria e o futuro pasok português não querem ter e pensam que uma mudança de boys e de sinecuras dentro do bloco central permitirá ir empurrando com a barriga a nossa insolvência. Mas acabou, porque o orçamento já não pode acomodar tantos instalados. Mas não chega ainda, é necessário uma abertura ao investimento estrangeiro para os setores transacionáveis com impostos perto de zero e com oferta de infraestruturas às empresas, porque além de não termos dinheiro também não temos empresários, óbice que vem do marquês de Pombal e que o Estado Novo só remediou nas décadas de altos crescimentos(60 e 70) com a nossa adesão à EFTA e a vinda de capital estrangeiro e empresários que aproveitaram a mão de obra barata relativamente à alemã, belga, francesa, etc. Com humildade reconheçamos que não vamos lá sozinhos, mas somos nós que temos de querer e saber, condições que a atual maioria e PS não preenchem.

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    • Almeida permalink
      22 Fevereiro, 2015 11:23

      Tretas, caro Manuel. Sim, é verdade que não foi feito nada a que se possa chamar “reforma do Estado” (na verdade, não foi feito nada a que se possa chamar reforma de coisa alguma). Não, não é verdade que seja por isso que não há investimento e a economia não arranca. A verdade, é que, hoje, você ganha mais dinheiro a descapitalizar empresas e a “resguardar” o capital nalguns produtos financeiros, do que a produzir o que quer que seja. Depois, é “estranho” que os que dizem criticar a promiscuidade entre Estado e grupos económicos, não denunciem o facto de ser esta a característica dos principais (grupos económicos) portugueses: estão encostados aos favores do Estado, limitados a sectores resguardados da economia. E não, as privatizações não lhes estão a retirar força. Pelo contrário.

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      • manuel permalink
        22 Fevereiro, 2015 11:41

        Almeida: Lá para trás já reconheceu que há muito dinheiro parqueado e confirmo, andará pelos 120 mil milhões de euros. Então porque não se investe? Porque não temos empresários e a carga fiscal seca tudo. Penso que as privatizações são boas para libertar o estado das ineficiências e da sua administração corrupta. O SEE tem uma dívida à volta de 30 mil milhões que os governos escondiam porque este setor tinha e tem ainda a nomenclatura do regime instalada e serve de retaguarda quando saem do governo. O estado deve ser pequeno, mas forte, e não permitir que a economia mande na política. A nossa bancarrota decorre em parte da promiscuidade entre o poder político e o poder económico/financeiro. As empresas estão descapitalizadas porque nunca tiveram capitais próprios e a bancarrota destapou as vulnerabilidades do tecido empresarial.

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      • Almeida permalink
        22 Fevereiro, 2015 14:33

        Não se investe porque se foge do risco. É a negação do mercado pelos seus principais agentes.

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      • lucklucky permalink
        22 Fevereiro, 2015 19:53

        As pessoas investem mas pouco, quem é que quer ser grande nesta cultura socializante? Só se investe com protecção política.

        Não é só cá, os EUA já deixaram de ser o país com maior criação de empresas per capita.

        Os records nos leilões de arte são um muito mal sinal para onde está a ir o dinheiro.

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  1. A Grécia no melhor dos mundos possíveis « Desvio Colossal

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