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Eu e a Bélgica, sem skinny jeans

28 Março, 2016
BXL-2005-VC

Grand Place, Dezembro 2005, foto VC

Estávamos nós, Europeus, no ano da graça de 2005 e estava eu, no mesmo ano, em Bruxelas, a comprar um carro em terceira mão a um marroquino, de Casablanca, condutor de autocarros na capital belga e residente em Molenbeek (“perto da estação Ribaucourt”), que o vendia em nome do irmão, de volta a Marrocos por assuntos familiares, segundo relatou. Comprar um carro na Bélgica é diferente de comprar em Portugal: a matricula de um carro não está associada ao veículo e sim ao proprietário, pelo que comprar um carro em segunda mão a um particular implica sempre uma transacção baseada em confiança (permitirem que usemos o carro antes da obtenção da nova matrícula, que só podemos obter através da documentação do carro, ficando o vendedor responsável por qualquer acto cometido no entretanto) ou em total ilegalidade (usando uma matrícula qualquer de outro veículo e proprietário, assumindo ambos a responsabilidade pela fraude e uso indevido, se a polícia decidir pedir documentos). O carro não era para exportar (há alternativas perfeitamente legais nesse caso) e sim para ser usado na Bélgica, onde residia e me encontrava registado na comuna como residente, apesar de não ter emprego oficial, algo que implicava a minha deslocação de 15 em 15 dias à esquadra de polícia próxima da minha área de residência, em Laeken, onde todos os turistas passam para encontrar o Atomium e eu cheguei a encontrar o original estádio do Heysel, em 1991, antes da sua requalificação 10 anos depois da tragédia do Juventus-Liverpool, quando viria a denominar-se Stade Roi Baudouin. Os nossos Eurodeputados não têm que fazer maroscas para comprar carros. Não só estão isentos de imposto como têm direito a placas especiais e gente no secretariado que trata das burocracias por eles: são uns sofredores.

Como tinha oportunidade de trocar matrícula e resolver os problemas sem chatear mais o vendedor, optei pela segunda hipótese, colocando a chapa de matrícula de um amigo belga, que retiramos a um veículo completamente diferente e que ocultamos no interior de uma garagem, que tivemos que arranjar para o efeito. É perfeitamente legal ter um veículo sem matrícula na Bélgica, desde que não esteja na via pública. Nos dias seguintes, obtive a minha própria chapa de matrícula – na altura era fornecida uma, o proprietário mandava fazer a outra – e, quer eu quer o meu amigo, passamos a poder circular legalmente, sem andar a fintar a polícia com ilegalidades perfeitamente banais para qualquer belga. Por um estranho karma, em 1993, em pleno Interrail que me levou a Copenhaga, também estava em Bruxelas quando, na estação de metro Arts-Loi, vi o jornal com letras negras a anunciar a morte do rei Baudouin. Estive no parque, como toda a gente, à noite, a ver a quantidade de pessoas e televisões que tentavam relatar o evento em frente ao palácio real. Assisti ao desfile de coroação do rei Albert II e posso testemunhar como, ao vivo, as coisas são diferentes do observado na televisão, em particular pela ausência do cheiro a bosta de cavalo. O tipo que a recolhe à pá para baldes também não costuma aparecer na TV. Eu e Bruxelas temos uma história, um tipo de história, como as histórias que as pessoas têm.

Voltando ao carro, o vendedor, um homem de cinquenta e poucos anos, recebeu pela transacção em dinheiro. Foram alguns milhares de euros, transportados na carteira, para uma garagem privada num bloco feio no norte de Vilvoorde, já quase em Houtem. Conversamos um bocado, com os milhares de euros a aquecerem-me a zona do peito onde a carteira encostava pelo bolso do casaco, como que indicando que, naquela altura, sendo assaltado, ficaria sem dinheiro e sem carro. Preconceito? Talvez, e depois? Outros chamar-lhe-iam instinto e receio. Contou-me que a vida estava má para marroquinos e árabes. “Os nossos filhos não sentem o mesmo que nós”. “Eu vou votar Vlaams Belang. Não adianta ilegalizarem aquilo. Nós não queremos mais árabes aqui, só vão fazer com que nós, os que vieram para trabalhar, acabem expulsos. Os belgas são uns moles”. Paguei, meti a matrícula de outro carro, e vim para casa, que os IMTT lá do sítio, perto da gare Bruxelles-Nord, fecha cedo.

A transacção correu bem e o carro teve uma longa vida, incluíndo com matrícula portuguesa, uns tempos depois. A Bélgica nem por isso, mas o senhor marroquino já sabia que assim seria em 2005, com ou sem entrevistas a gajas com unhas choque e skinny jeans moldando pernas rechonchudas. Leituras feitas por enviados especiais, Luís, têm destas coisas, nunca aparece o tipo com a pá a limpar a bosta de cavalo para baldes.

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7 comentários leave one →
  1. joshua permalink
    28 Março, 2016 13:15

    Esse fenómeno verifica-se aqui em Londres: houve quem viesse para trabalhar e houve depois contingentes massivos que vieram para colonizar o National Wellfare e, com sorte, medievalizarem o território bit by bit. Tornou-se impossível distrinçar uns dos outros, embora se multipliquem movimento de ex-muçulmanos com a paciente missão de libertar corações e consciências da toxicidade do ódio e da autoexclusão.

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    • 28 Março, 2016 13:47

      Sim mas mesmo lá em Inglaterra quem está a reagir contra a imigração são os próprios imigrantes que também têm de a sustentar.

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      • joshua permalink
        28 Março, 2016 14:12

        Exactamente. É o que aqui se vê. O trabalho, as suas exigências e custos, mudam a perspectiva: o parasitismo islâmico massivo ou dos autóctones afronta quem trabalha, especialmente imigrantes de largos anos ou décadas aqui.

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  2. joshua permalink
    28 Março, 2016 13:19

    Corrigenda: leia-se “destrinçar” — forma correcta — em vez de distrinçar.

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  3. Expatriado permalink
    28 Março, 2016 14:05

    Inglaterra, Belgica, Holanda, Alemanha, Espanha, etc. etc. Todos vao pelo mesmo processo

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  4. 28 Março, 2016 20:13

    Gostei deste teu post.

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  5. 28 Março, 2016 22:46

    Céus. Esta posta parece um livro do miguel sousa tavares…

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