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Erros de percepção mútuos

17 Fevereiro, 2017

A transição progressiva do meio primordial de entretenimento, da televisão para as redes sociais, acarretou mudanças que, só agora, com a consolidação decorrente da massificação, começamos a observar com clareza. E que começamos então a perceber? Fake News.

Na era anterior, a do consumo unilateral de conteúdos, a premissa básica era a construção de ficções que pretendiam preencher as necessidades do consumidor. Tal como com o Evangelho — a linguagem que unifica o grupo de crentes —, um produto televisivo produz adendas à linguagem comum — isto quando não a altera — para os telespectadores (e, consequentemente, para a sua rede de relações humanas) através da solidificação da cultura pop, da sua terminologia e da sua moral inerente, no caso em que esta existe. A comunidade, englobando o lastro e não necessariamente obstante da sua tradição, foi sendo dotada de conceitos e léxicos comuns: desde a especulação sobre a morte e regresso de Bobby Ewing ao mundo dos vivos, ao colapso do romantismo associado ao programa espacial norte-americano após a explosão do vaivém Challenger, em 1986. “J.R.” tornou-se sinedoque de impiedoso magnata do petróleo1; “soup nazi” trouxe para o léxico comum a contração de nacional-socialismo em nova acepção designativa de excêntricos intransigentes2 . Da mesma forma, ao nível semântico, é perfeitamente legítimo especular que a americanização consistente em necessidade de explicação para factos não correlacionados decorre de programas como o The Oprah Winfrey Show3 — matou o filho porque foi violada pelo tio há mais de vinte e cinco anos; roubou o banco porque a mãe negou-lhe um gelado em 1982.

Independentemente do efeito que a televisão teve (e ainda tem) na comunidade, ver televisão — assistir — sempre foi um acto individual: não é de espantar que, ainda hoje, o maior número de horas em frente ao aparelho seja oriundo de pessoas envoltas numa mística (e, muitas vezes, na sua realidade) de solidão — reformados, pessoas em habitação arrendada há décadas, pais e avós com filhos e netos que dispensam a labuta diária da preparação para o dia escolar, donas de casa, desempregados, solteiros sem filhos e pessoas institucionalizadas ou em internamento. Não vemos televisão para estar com os outros, vemos, precisamente, para que possamos ver os outros sem sermos vistos4. Porém, tornou-se paradigmático que o solitário em frente à televisão assistisse à vida dos outros através da barreira adicional à realidade: não é a vida dos outros que passa num episódio televisivo, é uma iteração possível da vida de outro interpretada por um actor. Da vida ficcional — portanto, falsa — interpretada por um actor, chega-se às notícias fictícias — portanto, falsas — interpretadas pelo filtro crítico e intrinsecamente dotado de ideologia, preconceito e agenda do pivot e sua redacção.

Com o advento das redes sociais, o paradigma passou do sentido único, o de espectador de conteúdos alheios, para o de re-publicador com visão crítica — se bem que igualmente dotada de ideologia, preconceito e agenda — do conteúdo original. Esta multiplicação de interpretações condicionou não só a forma como as pessoas consomem notícias e entretenimento como a forma de apresentação desse conteúdo. Donald Trump percebeu o potencial ao seu dispor para usar o descontentamento contemporâneo pela difusão previamente digerida de factos, já interpretados ao bel-prazer da figura sinistra com poder para os transmitir televisivamente, como forma de alcançar a eleição presidencial. Num registo oposto, o da conquista de simpatia pela interpretação fofinha dos factos, indo de encontro à opinião mais favorável sem grande comprometimento com a verdade e o rigor, Marcelo Rebelo de Sousa usou exactamente a mesma ferramenta para alcançar a presidência em Portugal.

Que se tente abafar o caso Caixa Geral de Depósitos, fingindo que “já passou”, não é de surpreender. Que se ache, com o esmorecer pretendido, que António Costa sai sem mácula na percepção pública é me parece demasiado despropositado, em particular para quem “ganhou” as eleições recorrendo a um expediente com custos elevados, quer pela dependência governamental da sinistra extrema-esquerda, quer pela forma com que as notícias são interpretadas na era actual, pela desconstrução das suas intenções. É curioso que, após décadas de Derrida a reinventar géneros, identidades sexuais e multiplicações de aplicações para “é tudo uma construção social”, sejam, precisamente, os progressistas as vítimas do escrutínio decorrente do pós-estruturalismo aplicado à comunicação social.

 


1 Personagem da série Dallas (1978)
2 Termo cunhado na série Seinfeld (1989)
3 Talk show que esteve 25 anos no ar. The Oprah Winfrey Show (1986). O termo americanização surge, precisamente, porque a tradição europeia nas artes (e, consequentemente, no entretenimento) é a de dispensa de explicações. Como exemplo, o cinema de Michael Haneke ou a literatura de Franz Kafka.
4 Sobre o tema, recomendo a leitura do artigo “E unibus pluram: television and U.S. fiction” de David Foster Wallace, publicado em Junho de 1993 na revista The Review of Contemporary Fiction.

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13 comentários leave one →
  1. LTR permalink
    17 Fevereiro, 2017 11:49

    O professor Balbino Caldeira do Portugal Profundo abafou o abafamento da aberração sócrates, naquele que terá sido um dos mais representativos exemplos de como gente cega, surda e muda de comprometimento e medo inundou a informação quase até ao tecto. Ao fim de um ano lá tiveram de, cheios de medo, começar a relatar umas migalhas. É por isso que quando refletem sobre a situação da comunicação social vão sempre buscar expressões como “os novos desafios”. Não há desafios nenhuns – o que há é falta de controlo do sistema. É ver a composição dos painéis de analistas escolhidos para comentar o livro de Cavaco Silva, que logo se percebe estar tudo na mesma.

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  2. Colono permalink
    17 Fevereiro, 2017 12:27

    Por falar em televisão:

    Hoje (17/2/17) — lia-se em rodapé na SIC: Cavaco Silva lança esta tarde…..”
    Nem se deram ao trabalho de apagar ou emendar as noticias escritas ontem.

    E assim vai Portugal!

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  3. 17 Fevereiro, 2017 13:00

    Óptimo post.

    Desde ontem, a mentira ficou oficializada. Doravante, qualquer secretário de estado, ministro, o AC-DC e o MCThomaz podem mentir sem consequências gravosas.
    Quanto aos tolos, coitadinhos, já estavam chateados com o caso Domingues-Centeno…O MCT deu-lhes mais este prazer — assunto encerrado.

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  4. 17 Fevereiro, 2017 14:08

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  5. SRG permalink
    17 Fevereiro, 2017 18:26

    Muito bom. VC felicito-o pelo magnifico texto em que exemplifica de um modo eficaz como se institucionaliza a mentira para convencer os incautos.
    Continuo no entanto convencido daquela máxima, “que a mentira tem perna curta”. e mais tarde ou mais cedo, nem as TV conseguem convencer ninguém.

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  6. Arlindo da Costa permalink
    17 Fevereiro, 2017 18:39

    Quem vê os canais portugueses bem pode avaliar o grande incremento das fake news.

    O PSD e o CDS são as grandes centrais de «informação».

    Até alguns negociantes e industriais têm assento no Conselho de Estado.

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  7. Juromenha permalink
    17 Fevereiro, 2017 19:02

    “If you can`t convince them, confuse them”.
    Grrande “post”, marca da casa.

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  8. Juromenha permalink
    17 Fevereiro, 2017 19:05

    Não fui eu, foi o “r” a abusar da dupla percepção…

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  9. lucklucky permalink
    18 Fevereiro, 2017 02:01

    Por cá os jornalistas continuam a censurar a violência em Paris.

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    • Euro2cent permalink
      18 Fevereiro, 2017 23:23

      > violência em Paris.

      Isso não é a capital do Burkina-Faso?

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