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O “interior profundo”

27 Junho, 2018

Não o compreendi imediatamente, daí que tenha estranhado que o familiar de um familiar que serviria de guia na minha visita adolescente a Paris tivesse dúvidas se a Torre Eiffel se situava na margem norte ou sul do Sena. Um homem que, vivendo há 40 anos em Paris, não sabe exactamente onde fica o elemento arquitectónico mais famoso da cidade? Depois comecei a pensar: ele dizia viver em Paris, mas, na realidade, vivia em Noisy-le-Grand, a 23 km este da Torre Eiffel; isto é como se um tipo que vive em Lavra, Matosinhos, disser que é do Porto, o que está bem.

Os quarenta anos “de Paris” foram passados a carregar baldes de argamassa, não a fazer turismo. “É só uma torre, diz que é bonita, é porque é. Vem gente de fora ver isto. Bonito, para mim, é Amarante, não é isto”.

Sempre que se menciona “o interior profundo”, fico sem saber o que isso é. Quantas pessoas de Alfama não vêem a Torre de Belém há mais de dez, vinte, trinta anos? O que é o “interior profundo”? É o empresário da Guarda com um BMW 730 que consegue passar uma noite tranquila e chegar a Aveiro ou Porto às nove da manhã? Ou será a velhota de vestes pretas em São Pedro da Cova que uma vez na vida viu a Torre dos Clérigos por contingência da cirurgia realizada no Hospital de Santo António há já muitos anos?

Não sei se será cegueira ou inconsciência, mas qualquer cosmopolita dos que opina sobre “o interior profundo”, por muito pitoresco que o possa achar, não precisa mais que uma voltinha por partes da sua própria cidade, sem sequer necessitar sujar-se nos subúrbios, para o encontrar. Temo é que, quando o encontrar, não o saiba reconhecer.

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10 comentários leave one →
  1. Andre Miguel permalink
    27 Junho, 2018 10:24

    Aqui o labrego, que vem do Alentejo profundo, viveu um ano em Lisboa e fartou-se de conhecer nativos lisboetas que nunca passaram das praias na margem sul e da linha de Cascais. Mas eu é que era o campónio e saloio, eles “lesboetas” de gema é que eram cosmopolitas e chiquérrimos. LOL

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  2. Jorge permalink
    27 Junho, 2018 10:53

    Pois, bom post. Para variar, alguma coisa de inteligente e de cogitação sobre a sociedade actual.

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  3. weltenbummler permalink
    27 Junho, 2018 10:59

    o rectângulo é Lesboa
    o resto é pastagem, por existirem casas de pasto

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  4. Zé Manel Tonto permalink
    27 Junho, 2018 11:35

    “Este português (que é o que forma grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa. É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido.”

    Fernando Pessoa

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  5. Mario Figueiredo permalink
    27 Junho, 2018 11:53

    Acho que não é dessa massa que é feito o “interior profundo”. Não é um lugar, nem as gentes desse lugar. Nem é um não-saber cosmopolita. É a agricultura e pecuária e toda a cultura e tradição que lhe estão associadas. O “interior profundo” não se corrige, protege-se. Não é ignorante, é rico. Riquíssimo. Ao “interior profundo” não se passam multas porque falta fazer limpeza, ajuda-se a limpar.

    Embora eu entenda perfeitamente a analogia do VC, a rápida e irresponsável destruição que se está a fazer à maior e mais rica das culturas portuguesas e aquela que tem as tradições mais fortes e mais antigas, é demasiado severa para que ainda seja possível fazer sátira à volta do assunto.

    Com o fim do interior profundo, das aldeias e suas gentes, dos pequenos agricultores e criadores, não é apenas o interior do país que fica despovoado. O drama não é demográfico. O drama é pior do que isso. É toda uma identidade histórica e cultura milenar que se desvanece e nunca mais voltará. Perde-se para sempre. E é toda uma forma de constituir e preservar a família e o seu legado que nunca mais se encontrará no país, excepto entre as famílias mais ricas e antigas (e cujas origens foram precisamente a agricultura ou pecuária).

    O interior profundo “não precisa de médicos”. Precisa que parem de o dizimar.

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    • Andre Miguel permalink
      27 Junho, 2018 13:28

      Ora bem.
      Hoje o tuga não quer nada com o campo, a agricultura ou pecuária! Que é isso?! O tuga moderno quer-se urbano, cosmopolita, hi-tech e se for de esquerda, ateu, vegan, gay e amigo dos animais então sobe imediatamente ao olimpo da nova aristocracia.

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  6. cassandra permalink
    27 Junho, 2018 13:07

    Transformações muito rápidas, criaram vertigem e dificuldade em os mais velhos aproveitarem a experiência milenar que a sua cultura continha e integrar e aumentar as suas mais valias com as novas aquisições e conhecimentos.

    Se os mais velhos estão confusos e têm saberes, os mais novos? E politicos sábios existem?

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  7. Arlindo da Costa permalink
    27 Junho, 2018 19:27

    O interior profundo são todas aquelas aldeias donde vocês e os vossos ascendentes vieram.

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    • carlos alberto ilharco permalink
      28 Junho, 2018 14:27

      Que estúpido, julga que toda a gente nasceu em Fornos de Algodres.
      Nunca ouviu falar na maternidade Alfredo da Costa.
      Eu nasci em Coimbra, e até houve alguns que nasceram em Goa.

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