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O interior não precisa de caridade centralista. Precisa de autonomia.

6 Agosto, 2018
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Tenho lido bastantes elogios a Marcelo por fazer férias no interior, levando os jornalistas atrás. “Ninguém fez mais pela visibilidade do interior”, disse um comentador na televisão. Estamos a falar do mesmo Marcelo que fez campanha contra a regionalização há 20 anos, contribuindo para o atraso que as regiões não-autónomas sofreram desde aí. Para Marcelo e outros centralistas, o interior merece a sua pena, a sua solidariedade e, colta e meia, umas migalhas. Merece tudo, excepto a capacidade para decidir as suas próprias políticas de desenvolvimento, adaptadas à realidade local. Por isso a que a propósito de uma bolha imobiliária em Lisboa, o parlamento se prepara para limitar o alojamento local no Sabugal. Por isso é que, apesar dos custos de vida tão díspares, os partidos não se coíbem de subir o SMN acima dos 600€, acabando com muitos pequenos negócios no interior ou atirando-os para a clandestinidade. Por isso é que o estado limpou a carris de dívidas antes de a entregar à Câmara Municipal de Lisboa e o Interior tem hoje menos transportes ferroviários do que tinha há 30 anos.

O interior anda há 50 anos a ser mal gerido porque gerido centralmente, a partir de Lisboa, sob a perspectiva de lisboetas ou neolisboetas. No entanto, quando se coloca a possibilidade de o interior ter a autonomia que Açores e Madeira têm para se gerir a si própria, logo se levantam vozes sábias dizendo que eles não teriam essa capacidade, que não existem recursos humanos, que a corrupção no poder local levaria à má gestão (como se o governo central fosse um santuário de transparência). A estratégia dos abracinhos aos velhinhos do interior é só mais um bloco na infantilização das regiões fora de Lisboa que para os Lisboetas (ou neolisboetas, como Marcelo) nunca passarão de um grupo de parolos frágeis, incapazes de se gerirem a si próprios sem a mão amiga do governo central.

Lamento, mas o interior não precisa de caridade, precisa de liberdade e autonomia. Precisa de poder definir as suas políticas e não sofrer com as que são definidas centralmente à imagem dos problemas da capital. Precisa que não se criem regiões artificiais para desviar fundos europeus para Lisboa. Precisa, enfim, de não ser roubado pelas mesmas mãos que lhes dá umas palmadinhas nas costas em frente às câmeras.

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18 comentários leave one →
  1. Manuel Peleteiro permalink
    6 Agosto, 2018 10:52

    Certeiro, gosto muito.

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  2. 6 Agosto, 2018 11:06

    há 50 anos era bem gerido o interior? Estou a ver que o pobrezinho e honradinho ainda faz escola…

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    • CGP permalink
      6 Agosto, 2018 11:18

      Não sei onde é que leu isso. Neste texto não foi de certeza. Mas se lhe servir a fome de indignação, sim, é verdade que o país era menos desigual há 50 anos.

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      • 6 Agosto, 2018 12:33

        lê-se o interior anda a ser mal gerido há 50 anos, está implicito que antes era melhor

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      • Mario Figueiredo permalink
        6 Agosto, 2018 13:21

        Não. Não está nada implícito. Você é que decidiu que estivesse. Custa-lhe assim tanto perceber que não está a ser feita uma comparação com o Estado Novo?

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  3. 6 Agosto, 2018 11:22

    O Interior não necessita de regionalização. Basta que os organismos do Estado e o que é financiado pelo Orçamento do Estado se deslocalize.

    Por que raio é que o Ministério da Defesa é em Lisboa? Pode lá ficar o Ministro e o seu gabinete, mas os funcionários poderiam ir, por exemplo, para o Entroncamento.

    E porque é que o Infarmed não vai para o Porto, de armas e bagagens? Porque é que o Ministério da Indústria não é em Oliveira de Azeméis ou em São João da Madeira, na nossa cintura industrial? Porque é que a Secretaria de Estado do Turismo não é em Faro? Ou no Funchal?

    Há uma colecta de impostos das pessoas do Interior que desagua permanentemente em Lisboa, enriquecendo Lisboa e empobrecendo o Interior. Pior, as maiores empresas de Portugal têm a sua sede em Lisboa — onde é que pagam a derrama? — tendo muitas vezes a maioria dos seus funcionários noutros lados. Penso na Portucel e na PT, casos que conheço bem.

    O problema é, pois, de fluxos e de vasos comunicantes. Infelizmente, apenas comunicam num sentido.

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  4. 6 Agosto, 2018 11:33

    Porque é que não dão aos municípios ou às associações de municípios capacidade de criar zonas francas?

    Uma vez o presidente de câmara de um município do interior (entre Viseu e Coimbra) queixava-se a mim de que não tinha mais do que quinze milhões de euros de orçamento. Perguntei-lhe se o queria triplicar. Ele alçou o sobrolho.

    A solução é esta: ir ao Mentistério das Cativações e informar — note-se informar — o ministro de que era intenção dos municípios de T…, A…, O… e S… fazer uma Zona Franca numa incubadora que até já existia, fazendo 5% de IRC, dos quais 3% para o Estado e 2% para as autarquias, para os CAE tecnológicos. Como contrapartida, 2,5% da massa salarial dessas companhias teria de ser sediada nos ditos concelhos, mesmo que as pessoas não lá residissem fisicamente — estão a ver o IRS?

    A visita era para urgir o Ministro para preparar a autorização legislativa, e caso não acedesse teria muito má imprensa local e nacional. Assim encalavrado, era fácil.

    Fiz contas com ele. Ele concordou com os meus números. Bastava uma Google, uma Amazon e alguns grupos associados à BP para que os 25% de 2% de lucros sediados para a autarquia perfizessem os 30 milhões de euros.

    Houve alguma coisa feita?

    Toda a gente aqui teme a sua posição perante o parretido e o governo central. O Interior é tratado como é tratado também porque se deixa, visto que não fazer muitas ondas beneficia os caciques locais.

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  5. 6 Agosto, 2018 11:38

    Deixem-se de conversa menor.

    O interior precisa é de Cabritas sapadoras.

    Não estão a ver a eficiência delas em Monchique?

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  6. 6 Agosto, 2018 12:06

    No Teatro de Operações falta a atriz de renome, a Catarina.
    Ah e também não aparece o “nosso” 1º. O magano está tão bem escondido dos fogos que nem deve ter sabido do Miguel Oliveira ter ganho em Moto 2. Se não aparecia a felicitá-lo.

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    • JMS permalink
      6 Agosto, 2018 13:22

      Exacto. Onde pára esse cobarde que se arroga de primeiro ministro?

      Mandou o amanuense Marcelo à frente para ver se está tudo bem. Este ano por telefone.

      Deve estar ocupado a tratar do “focus group”… sondagens “oblige”.

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  7. JgMenos permalink
    6 Agosto, 2018 13:22

    Que tem a ver regionalização com autonomia.

    A Madeira e os Açores mamam e dão a mamar autonomamente e pouco mais.

    A autonomia não requer regionalização com a sua caterva de chulos.

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  8. 6 Agosto, 2018 14:04

    O MCThomaz deve pensar que é “pai” de todos. E que todos e todas precisam de beijos na testa, abraços chorosos, telefonemas, banhos fluviais, para resolverem os seus problemas.
    Depois deste período dos afectos, selfies, beijocas e caridadezinha vai juntar-lhe inúmeros actos de corta-fitas e descerramentos de placas com o seu nome.

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  9. Isabel permalink
    6 Agosto, 2018 17:10

    Marcelo é mestre em propaganda e basta. O interior precisa é que sejam os seus eleitores a escolher os deputados e não os mandões dos partidos. E que os deputados lhes prestem contas do que votam e propõem na AR. Mas disso Marcelo não trata. Nem fala. E se alguém lhe falar disso ele muda de assunto.

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  10. rão arques permalink
    6 Agosto, 2018 19:13

    Até que a voz me doa, Marcelo não ganha vergonha.
    Não lhe pago casa, ordenado, excursões, serventes e ainda camionagem de camaras de filmar para se meter na vida interna dos partidos, nem para me entreter no caixote da TV a todas as horas de todos os dias.
    A propósito da nova formação anunciada por Santana vem a palco pugnar pela sagrada família, que ele enquanto comentador televisionado à semana não se cansou de arrastar de chicote em riste pelas ruas da amargura.
    Em tudo mete o nariz, mas olhando para o estado da nossa coisa, ou o homem vai para estragar, ou pela-se para figurar onde os cacos predominam.
    Do histórico de metediço já conta com episódios de saída com o rabo entre as pernas.
    Não o apelido de figurinha repulsiva porque a idade mental não parece ajudar.

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  11. Weltenbummler permalink
    6 Agosto, 2018 19:20

    só existem ministros da propaganda com vocação para Ali do Iraque

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  12. cachecol permalink
    6 Agosto, 2018 20:46

    cuidado com a corrupção autarquica

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  13. Euro2cent permalink
    6 Agosto, 2018 21:17

    Meh. Duvido muito que “o Sabugal” ficasse melhor servido pela capital de região mais próxima.

    Estes problemas de “centralismo” são problemas democráticos, em que o que interessa é satisfazer as grandes clientelas do “capite censi”.

    Qualquer autocracia com um tirano um furo acima de imbecil, ou até um republicanismo em que a área conte tanto como as cabeças (cf. “pork barrel” americano), trataria de defender melhor o território da nação.

    O “centralismo” é a árvore errada a que ladrar.

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  14. Francisco G. Noné permalink
    9 Agosto, 2018 23:25

    Vou ter de o corrigir, CGP, em abono da verdade histórica e factual: o interior tem hoje menos transportes ferroviários do que há 50 e não há 30 anos.Quanto aos nossos PR e PM, prefiro não comentar. Quanto ao resto, plenamente de acordo, pois também votei há cerca de 20 anos contra a regionalização, pois confesso que temi um aumento incontrolável dos tachos e da despesa pública – vidé as nossas 2 regiões insulares, embora reconheça que a Madeira, talvez seja pior (e, apesar disso, a estátua e o aeroporto do Funchal não são do celebérrimo “Alberto João”) !-, porém hoje tenho de reconhecer, embora a contragosto, que se a regionalização tivesse passado, o interior estaria certamente melhor, a começar pela minha região do Alto Douro, embora também admita que o nosso défice seria certamente bem maior…

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