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Um liberal cubano confessa-se, em Miami

10 Agosto, 2018
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Passei os últimos dias nos EUA, com presença mais longa em Miami. Nunca os tinha visitado, apesar da curiosidade natural que esse país exerce sobre qualquer liberal, à qual também eu não escapava. No fim de contas, os EUA, pátria do capitalismo onde tantos cubanos se exilaram, realiza algumas das liberdades em que os liberais mais insistem e acreditam, e que, em menor ou maior medida, também eu sempre aceitei como boas. No que diz respeito às liberdades individuais, os EUA liberalizaram o mercado de trabalho, o livre comércio e permitem a todos iniciar a sua própria empresa buscando o lucro. Ou seja: absoluta liberdade individual de cada um dispor da sua propriedade e esforço físico, independentemente de juízos morais de terceiros.

Apesar de tudo isto e dos indicadores de sucesso, não gostei do que vi. Ou melhor, o que vi, sobretudo a partir da análise de Miami, onde estive mais tempo, não me agradou. Explicarei porquê. A cidade está suja e desleixada. Será dos imigrantes que atrai? Talvez, até porque se a compararmos com outras cidades americanas com menos imigrantes, como Tampa, a diferença será, a esse nível, enorme. Depois, a par do abandalhamento físico da cidade, impõe-se, sem hesitações, um forte e muito perceptível abandalhamento moral: empregados de mesa a servir bebidas que custam tanto aos clientes como eles ganham num dia, grandes vivendas junto ao mar convivem com bairros pobres e sujos, mulheres hispânicas esperam nos bares em roupas curtas pela oportunidade de conhecer homens ricos que as tirem da pobreza. Mas o que se vê, acima de tudo, são pessoas sozinhas cheias de pressa. Homens de fato e gravata a entrar e sair de automóveis sempre ao telemóvel. Às 10 da noite, as luzes dos escritórios de Miami continuam acesas com pessoas visivelmente a trabalhar. Algumas luzes não se desligam a noite toda.

As pessoas acumulam automóveis de grandes marcas, casas enormes, mas raramente têm tempo para estar com os filhos que crescem educados por uma empregada mexicana que deixou os seus próprios filhos no México para vir cuidar dos filhos dos outros. Nunca houve tantas pessoas com problemas de stress e depressão. Um pouco por todo o lado vêem-se anúncios de advogados a apelar ao divórcio. Na verdade, os EUA têm uma das taxas de divórcio e mães solteiras mais altas do Mundo. Usando a sua liberdade de viver e estabelecer negócios onde bem entendem, as pessoas dividem-se por bairros onde vivem outras pessoas da mesma origem, criando guetos raciais. É verdade que estão todos a fazer isto voluntariamente. E eu consigo aceitar, uma por uma, cada uma destas liberdades, mas não sei se o resultado final é o melhor. Custa-me a aceitar a exploração do homem pelo homem, mesmo que lhe chame contrato de trabalho. Custa-me a aceitar que haja pessoas com grandes carros que não paguem o suficiente aos empregados para que possam deixar de andar a pé. Custa-me a aceitar a desigualdade e a especulação.

Em conclusão, parece-me que as liberdades de que usufrui o povo americano, que perfazem a quase totalidade das principais liberdades libertárias ou liberais, contribuíram mais para a desagregação social do que para a sua elevação. Julgo que essas liberdades destruíram o sentido de «comunidade» e contribuíram muito para a banalização do mal, ou, vá lá, do capitalismo sem regras, em vez de terem completado as pessoas que delas beneficiam. E se é certo que não faz sentido proibir nenhuma dessas práticas, por muitas e diversas razões, parece-me óbvio que promovê-las como liberdades concedidas pelo estado e pela lei as transformam em coisas comuns e normais, logo, nem boas nem más, quando elas são, quase sempre, coisas muito nefastas.

Em conclusão: os americanos não têm pobreza, dispõem de níveis excepcionais de desenvolvimento humano, de liberdade e de concorrência económica e de invejáveis liberdades? É inegável que sim. E, no fim disso tudo, serão mais felizes do que nós, cubanos? Francamente, acho que não.

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8 comentários leave one →
  1. 10 Agosto, 2018 11:59

    Para entender os EUA e Miami, sugiro sucintamente ao CGPinto que preceda a próxima ida com leituras e imagens sobre a História dos estados e respectivos habitantes (e políticas), que esteja pelo menos 10 dias, em diversas cidades, e que tente viver como se norte-americano fosse.
    Experimente por exemplo 3 dias (e noites) em NY e no seguinte na Virgínia, depois dois em Washington, a seguir um no Utah, e se tivesse tempo para ir ao ir ao Nebraska…
    Numa outra viagem não hesite, faça a Route 66. Começará a entender o país e as pessoas.

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  2. Filipe permalink
    10 Agosto, 2018 12:01

    Percebo a “analogia” mas teria mais valor se fosse feita por um verdadeiro cubano.

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  3. Mario Figueiredo permalink
    10 Agosto, 2018 12:13

    Pois. Comparar Miami que foi sempre uma cidade feia e suja com Amesterdão que nunca o foi até recentemente, é mesmo o caminho que um bom liberal proporia para resposta à cronica anterior.

    Também gostei das referências a esse terrível flagelo que é pessoas de diferentes classes sociais. Afinal, o liberalismo social nunca anda longe da luta de classes. Pelo que só surpreende que o CGP tenha escolhido o fim do segundo parágrafo para iniciar o discurso revolucionário e não tenha logo começado no primeiro.

    Bom, avante! Que é o mesmo que dizer adiante. Finalmente, também fiquei surpreso por descobrir que os Estados Unidos têm problemas de pobreza. Olha que não sabia. PÇensava que era tudo rico como na Holanda.

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  4. 10 Agosto, 2018 13:27

    Bitaites e mais bitaites. Os EUA um continente maior que a europa analisado à luz de Miami. Mais ou menos como analisar a europa à luz de Coimbra ou Lisboa. Já a Holanda é um pais tão feliz e liberal que a deputada Ali Hirsi, ostracizada pelos seus pares, teve que fugir para os EUA para não lhe acontecer o mesmo que ao Van Gogh e ao Pin Fortyn. Comparado com isto tudo a Arábia Saudita e o Qatar é que estão a dar. É só
    gente feliz. Bitaites e mais bitaites….

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  5. Rogerio Alves permalink
    10 Agosto, 2018 14:55

    Também estamos como o Marcelo (Portugal não é como os EUA)? Pois não é, não. Mas, em termos de achismos, EU ACHO (pelo que conheço, com todas as suas limitações) que quer os cubanos quer os portugueses são bem mais infelizes do que americanos ou holandeses.

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  6. PiErre permalink
    10 Agosto, 2018 15:14

    Ócios de Agosto.

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  7. JPT permalink
    10 Agosto, 2018 15:32

    Brilhante este “post”, a revelar dois dois mais deprimentes traços do “tuga”, do mais pobre ao mais rico e do mais “comuna”, ao mais “reaças”: a parolice (nem vale a pena dizer de quem) e a insensibilidade à ironia (de vários dos comentadores que antecedem).

    Liked by 1 person

  8. PAIXAO AFONSO permalink
    10 Agosto, 2018 16:22

    Absolutamente em desacordo com esta análise. Visitei Maiami três vezes nos ultimos dois anos, em vista de cariz familiar/turistico. Penso que o analista deve estar a falar de Havana ou Rio de Janeiro e não Maiami. Enfim opiniões.

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