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um liberal confessa-se em amesterdão

10 Agosto, 2018
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holimary-amsterdam-coffeeshop-grey-areaPassei os últimos dias na Holanda, com presença mais longa em Amesterdão. Nunca os tinha visitado, apesar da curiosidade natural que esse país exerce sobre qualquer liberal, à qual também eu não escapava. No fim de contas, a Holanda, histórico país onde Locke se exilou, realiza algumas das liberdades em que os liberais mais insistem e acreditam, e que, em menor ou maior medida, também eu sempre aceitei como boas. No que diz respeito às liberdades individuais, a Holanda legalizou o consumo e o comércio de droga (supostamente das leves, mas com uma enorme tolerância face a todas as outras, cuja liberalização total, aliás, já se discute), não penaliza e até consente a prostituição e legalizou, há muito, o aborto e a eutanásia. Ou seja: absoluta liberdade individual de cada um dispor do seu corpo e da sua personalidade, independentemente de juízos morais de terceiros. E, se no âmbito dos direitos individuais a Holanda é exemplarmente liberal, em termos económicos também o é: baixos impostos, intervenção do governo reduzida e em forte decréscimo desde, pelo menos, os anos 90 do século passado, leis simples e claras, tendo daqui resultado uma das economias mais fortes do Ocidente, com exportações e uma actividade financeira das mais competitivas e prósperas do mundo. Em resultado disto, a Holanda ocupa sempre um dos dez primeiros lugares no ranking de competitividade do Fórum Económico Mundial, tem uma taxa de desemprego residual, superávites orçamentais e ficou no sétimo lugar no Índice de Desenvolvimento Humano do ano de 2016 (Portugal estava num humilíssimo 41º lugar). Para além de tudo isto, o óbvio: a Holanda é uma democracia estabilizada, com um estado laico.

Apesar de tudo isto e dos indicadores de sucesso, não gostei do que vi. Ou melhor, o que vi, sobretudo a partir da análise de Amesterdão, onde estive mais tempo, não me agradou. Explicarei porquê.

A cidade de Amesterdão é belíssima, e nasceu de um notável esforço humano dos seus fundadores e habitantes, que foram, no passado, os seus verdadeiros construtores geográficos e físicos, porque a cidade se encontra a um nível médio de 2 metros abaixo do mar, e cada metro quadrado por onde ela se espraia foi obra humana. Aposto que Ayn Rand apreciava a cidade e que Howard Roark por lá terá “passeado”… A arquitectura é original mas lindíssima, o acastanhado dos edifícios, sempre tortos, ora para um lado ora para o outro,  os inúmeros canais por onde a água é autenticamente drenada, os museus imponentes (onde se destaca, naturalmente, o Van Gohg) dão-lhe um charme e um fascínio invejáveis, que só o que é incomum consegue ter. Todavia, a cidade está suja e desleixada. Será do turismo imenso que atrai? Talvez, até porque se a compararmos com outras cidades holandesas menos turísticas, como Haia, a diferença será, a esse nível, enorme. Mas creio que, podendo ser essa a primeira razão, outra me parece evidente: os seus habitantes desistiram de a estimar, e isso vê-se em inúmeros pormenores, do que talvez os horríveis “parques” de bicicletas, amarradas, umas às outras, às centenas e a desfazerem-se de velhas, foi, para mim, a maior evidência. Depois, a par do abandalhamento físico da cidade, impõe-se, sem hesitações, um forte e muito perceptível abandalhamento moral: droga por todos os lados, cheiro a erva em todos os lugares, casas de comércio e de fumo espalhadas, a eito, pela cidade, algumas delas com vidros que permitem observar o espectáculo decadente de pessoas a drogarem-se, já para não falar das famosas vitrines do Bairro Vermelho, onde dezenas de mulheres expõem os talentos físicos com que vieram ao mundo, para negociar com e receber os seus clientes. É evidente que, de um ponto de vista libertário, “vícios não são crimes” e o poder público não deverá imiscuir-se naquilo que cada um faz livremente de si mesmo, em acordo firmado com terceiros. Por outro lado, há as explicações racionais: é melhor que quem se droga o possa fazer sabendo o que está a consumir, que quem se prostitui possa aceder a cuidados médicos rotineiros, à segurança social, práticas de que beneficiam também os clientes, e, por outro lado, nas sociedades onde essas actividades estão criminalizadas elas continuam a existir, fomentando o crime que delas se aproveita como gestão de actividades de elevado risco legal. Tudo certo? Nem por isso, como veremos.

É que, sendo eu capaz de justificar a liberalização de cada uma e de todas as práticas que os holandeses já liberalizaram, eu não sei se o resultado final é o melhor.

A sociedade holandesa parece ter construído o seu padrão existencial a partir de um princípio de individualismo total, o que deveria agradar a um liberal como eu, que sempre o preguei. Esse excessivo individualismo – onde cada um faz o que quer, no pressuposto de que não interfira com a liberdade dos outros – pareceu-me ter conduzido a sociedade holandesa a um enorme desenraizamento social e humano. Poderei estar a dizer um enorme disparate, porque não consultei estatísticas nem números, mas aposto que o número de divórcios e, sobretudo, de pessoas que vivem sem família nuclear é elevadíssimo. Vêem-se poucos casais heterossexuais pelas ruas e transportes públicos, mas, por exemplo, mães com filhos e filhas, já com alguns anos, vêem-se imensos. Pessoas sozinhas, a pontapé. Pode ser um erro de percepção  meu, mas julgo que a estrutura familiar tradicional deixou, há muito, de ser a base da sociedade holandesa. E isso produziu resultados nefastos.

A laicidade do estado também não pressupõe – longe disso – a falta de religiosidade e/ou da espiritualidade das pessoas. Mas foi com pena que vi quase todas as grandes catedrais por onde passei dessacralizadas, ou dedicadas a cultos religiosos quase inidentificáveis. Sendo eu um agnóstico, não me custa entender o sentido das palavras de Burke, quando afirmava que a religião é um elemento fundamental para a coesão social. Na Holanda, pelo menos naquela que visitei, esse elemento de religiosidade e/ou espiritualidade não se sente. É mais um contributo para o desenlace social.

E sobre os tais “vícios que não são crimes” também confesso que o que vi me colocou num dilema que, até aqui, julgava ter simples resolução: se descriminalizar o consumo sem fazer o mesmo com a oferta me parece um absurdo, devo contudo dizer que não me agradaram os «cafés» de consumo de canábis e os inúmeros estabelecimentos «verdes» de porta aberta para o passeio. Será mesmo verdade que isto não interfere com a procura? Será que um filho meu teria a mesma atitude em experimentar um charro vendendo-se eles às claras, em legalidade completa, do que correndo o risco de ser apanhado pela polícia e trazer uma chatice para casa? Não tenho a certeza. Ou melhor, não sendo hipócrita, certamente que a segunda hipótese será mais verdadeira do que a primeira.

Restam as meninas nas vitrines. É óbvio que estão aí muito mais confortáveis e seguras, e é evidente que existem, ao longo das ruas e das estradas de Portugal, milhares de mulheres que se prostituem em condições miseráveis, que muito dariam para ter as mesmas condições praticadas na Holanda. Mas o que me chateou foi que uma liberdade, aparentemente com efeitos apenas positivos, se tenha transformado num comércio rasca para turismo sexual, e que essa zona seja, talvez, a mais unanime entre todos os que visitam a cidade: dos 7 aos 77 anos, todos lá fazem pelo menos uma visitinha… Que, de resto, é largamente promovida pelo turismo oficial do país e da cidade.

Em conclusão, parece-me que as liberdades de que usufrui o povo holandês, que perfazem a quase totalidade das principais liberdades libertárias ou liberais, contribuíram mais para a desagregação social do que para a sua elevação. Julgo que essas liberdades destruíram o sentido de «comunidade» e contribuíram muito para a banalização do mal, ou, vá lá, do vício, em vez de terem completado as pessoas que delas beneficiam. E se é certo que não faz sentido proibir nenhuma dessas práticas, por muitas e diversas razões, parece-me óbvio que promove-las como liberdades concedidas pelo estado e pela lei as transformam em coisas comuns e normais, logo, nem boas nem más, quando elas são, quase sempre, coisas muito nefastas, no limite, situações de excepção que não devemos banalizar nem promover. A falta de espiritualidade e religiosidade, evidente na sociedade holandesa que visitei, também me parece que ajudam a este resultado final.

Em conclusão: os holandeses não têm desemprego, dispõem de níveis excepcionais de desenvolvimento humano, de liberdade e de concorrência económica e de invejáveis liberdades? É inegável que sim. E, no fim disso tudo, serão mais felizes do que nós, portugueses? Francamente, acho que não.

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40 comentários leave one →
  1. 10 Agosto, 2018 00:59

    Viva liberalismo , viva o estado laico…

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  2. Vivendi permalink
    10 Agosto, 2018 01:12

    Bem-vindo de volta ao Portugal Contemporâneo.

    Junta-te aos bons (Salazar & Arroja) e faz de Portugal grande outra vez…

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  3. Buiça permalink
    10 Agosto, 2018 01:13

    Resumindo: de libertario o Rui não tem absolutamente nada; de liberal sobra-lhe o querer menos Estado e pagar menos impostos.

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  4. Mario Figueiredo permalink
    10 Agosto, 2018 01:17

    Obrigado pelo testemunho, Rui A.

    Não defendo o liberalismo social, o das liberdades individuais, pelo que nem me revejo na “experiência social” levada a cabo na Holanda, como não me surpreendem os resultados que o Rui descreve. Uma das coisas que sempre achei mais curiosas sobre Amesterdão é precisamente o Rosse Buurt, onde a prostituição desceu ao nível do vulgar e do material. Sente-se mais magia na prostituição nocturna numa única rua de Paris ou num dos seus Bordéis, do que em toda a extensão do Wallen. Já para não falar de Toquio, onde a prostituição é uma inteira cultura e não uma construção artificial para reclamar uma ideologia política.

    Acho que o sentimento do Rui é merecedor de introspecção. Se calhar deveria estar na calha umas visitas a outras mecas do liberalismo social espalhadas pelo mundo.

    Digo isto sem ironia. Desde o nascimento que é a experiência que dita o nosso eu. Nisso concordo com Locke. O problema no entanto destes senhores, Locke, Hobbes, Mill, é que teorizaram num mundo que não punha em prática o pensamento liberal social. Não o viram na prática, e portanto não puderam evoluir o seu pensamento para lá da Filosofia. Ficou-se tudo nas ideias bonitas. Locke em particular nem sequer imaginou certamente que seria uma corrente progressista adepta da desresponsabilização (precisamente o oposto do que defendia) que iria 300 anos depois carregar o seu pensamento como se de uma bandeira se tratasse.

    O problema do liberalismo social é o mesmo do Comunismo ou de qualquer outra ideologia que só subsiste através de transformações sociais profundas — é por definição anacrónico, já que as transformações sociais são normalmente mais lentas e não são impostas, mas desenvolvem-se organicamente. Por outro lado as sociedades são naturalmente espaços de contenção e regulação social, aos quais chamamos de cultura. E desde o dia em que nascemos, que somos alvo de processos de contenção e regulação, aos quais chamamos educação. Como esperar que se possam obter dividendos cultivando uma filosofia de laissez faire social? Não se defende com isto que devemos optar por conservadorismo absoluto. Mas os princípios do liberalismo social cavalgam precisamente o outro extremo.

    Por outro lado, o liberalismo social também sempre me pareceu a mim ser profundamente antagónico. Já Hobbes defendia que a natureza humana permite que o homem se desenvolva egoísta. Como é que um liberal social como Hobbes pretendia conciliar a natureza humana com o deu desejo de individualismo no seio de uma sociedade? Com uma boa dose de, imagine-se, boa vontade das pessoas. Ora, de utopias estamos todos bem servidos. Parece-me simplesmente que o conservadorismo social é mais prudente e potenciador de felicidade individual.

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  5. 10 Agosto, 2018 01:30

    A confissão do intelectual liberal, assemelha-se à confissão do intelectual marxista depois de visitar Moscovo. “Há afinal não me agrada” , ” não correu como eu esperava, paciência…”. deturparam “o liberté égalité et fraternité”.

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  6. lucklucky permalink
    10 Agosto, 2018 03:55

    “Ou seja: absoluta liberdade individual de cada um dispor do seu corpo e da sua personalidade, independentemente de juízos morais de terceiros.”

    Liberalismo? não me parece.
    Parece que incluí dispor de outro corpo, o do bébé, ou seja da vida de outra pessoa,

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  7. lucklucky permalink
    10 Agosto, 2018 04:00

    Em relação ao resto do texto. As pessoas pensam que o que é permitido é correcto. Não é.

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  8. PiErre permalink
    10 Agosto, 2018 08:08

    O que me parece faltar são princípios morais livremente aceites e praticados. Não sei se isso se consegue através da espiritualidade (que é isso?) e da religiosidade (também), mas parece que não, tendo em conta os resultados ao longo de séculos.

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  9. Filipe permalink
    10 Agosto, 2018 08:53

    Bom texto rui a.

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  10. Ana Vasconcelos permalink
    10 Agosto, 2018 09:03

    Há uma diferença entre liberdade e libertinagem que hoje em dia se perdeu e que causa muitas confusões. A libertinagem vem da falta de valores morais sem os quais a liberdade não é possivel

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  11. Antonio Delfim Machado permalink
    10 Agosto, 2018 09:06

    Muito brm escrito
    Percebi e concordo.
    Muito obrigado

    Confirma-se o que eu imaginava.

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  12. Gonçalinho permalink
    10 Agosto, 2018 09:13

    A Alemanha, onde vivo, não é um estado tão liberal como a Holanda, mas tem esses problemas todos. Eu penso que a questão se prende mais com a cultura destes povos que com o liberalismo, ou falta deste.
    Aqui um tipo é posto fora de casa dos pais aos 18, pelo menos. É normal. Mais depressa se vêem casais homossexuais a exibir a sua relação em público que heterossexuais, e não penso que seja por não haver casais homossexuais.
    A droga mais comum, o álcool (cerveja e vinho, aqui pelo sul), é consumida sem grandes problemas, e em excesso desmesurado aos fins-de-semana.
    A prostituição é legal mas não se exibe — nem valia a pena, que a malta, por aqui, tem poucos pruridos em pôr-se em trajes menores — e nunca a vi como um problema. Sei que só vivo aqui há ano e meio, mas é o que me parece, para já.
    O alemão percebe-me um povo limitado pela burocracia, isto é, se não houver guidelines estão perdidos, sem saber o que fazer. Tem que estar tudo pré-definido, e o que não está, tem de encaixar.

    Individualismo não é o mesmo que isolacionismo. Numa cidade de gavetões (apartamentos, para os menos imaginativos) é mais fácil ignorar os vizinhos, ou corremos o risco de ter gente a mais a meter-se na nossa vida.

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  13. 10 Agosto, 2018 10:17

    Para se entender Amsterdam e outras cidades aconselho isto: conversas com dois holandeses de direita, das 07h00 às 13h00; mais conversas, almoçar e lanchar com dois centristas até às 20h00 e das 20h30 (incluindo jantar) até às 03h30 com dois anarcas.
    E nunca desperdiçar dinheiro em museus, essa coisa inútil, dispendiosa e sem retorno algum do investimento em qualquer país, incluindo Portugal.

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  14. Andre Miguel permalink
    10 Agosto, 2018 10:19

    Devíamos ler mais Stuart Mill, a liberdade não se pode desligar da moral, da tradição, mas mais importante ainda, nem das consequências das escolhas individuais.

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  15. Luis Lavoura permalink
    10 Agosto, 2018 10:33

    as liberdades de que usufrui o povo holandês contribuíram mais para a desagregação social do que para a sua elevação

    Tendo eu presentemente, e tendo tido no passado, amigos a viver na Holanda, e tendo até um colega holandês, nunca eles me falaram de qualquer espécie de “desagregação social” nesse país. Tanto quanto me é dado entender, é um país onde a sociedade funciona mais ou menos tão bem como em qualquer outro.

    (Já agora, Amesterdão não é o mesmo que toda a Holanda.)

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  16. Luis Lavoura permalink
    10 Agosto, 2018 10:35

    O Rui A vê desagregação social em lojas de canabis, mas não a vê em gajos a fumar em esplanadas nas ruas portuguesas, nem em garrafas de cerveja abandonadas pelo chão de Lisboa. Para o Rui A, o vício da canabis em exposição pública é degradante, mas os vícios do tabaco ou do álcool podem perfeitamente ser expostos publicamente, que ao Rui A não causam qualquer impressão.

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    • rui a. permalink*
      10 Agosto, 2018 10:43

      Fale por si, em vez de tentar falar pelos outros. Sem isso, não há conversa possível, porque vc. ficará a falar sozinho, pelos dois.

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      • 10 Agosto, 2018 11:20

        LLavoura,
        se for a Amesterdão, aconselho-o à companhia e horários que ironicamente sugiro no comentário das 10h17.

        Agora, a sério: o post do Rui A. está correcto, coerente com os seus princípios. Entende (Amesterdão) mas não proibiria, rejeita. Viveria em paz e socialmente activo e livre nessa cidade — extraordinária, peculiar cidade.

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      • 10 Agosto, 2018 11:23

        O texto-análise do Rui A. é muito bom, com pistas para discussão e conclusões sobre.

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  17. Sérgio Barreto Costa permalink
    10 Agosto, 2018 10:44

    Lê isto, Rui
    https://ouriquense.blogs.sapo.pt/confissoes-publicas-739935

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  18. 10 Agosto, 2018 10:56

    também acho completamente deplorável bares com janelas e aquela gente toda bêbeda em lisboa…muito mais bonito quando bebem no segredo das casas.

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    • EMS permalink
      10 Agosto, 2018 14:54

      Devem beber ás escondidas ou pelo menos com um saco de papel a esconder a garrafa como se vê nos filmes americanos 😉

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  19. Rodrigo permalink
    10 Agosto, 2018 11:00

    E engracada esta interpretacao… Amesterdamita, mas nao holandesa (vivo em Haia). Tal como Londres diz pouco sobre Inglaterra e Berlim diz pouco sobre a Alemanha.

    Sim, Amesterdao e rasca e abandalhado e parece fragmentado, individualista em excesso. Mas isso e porque Amesterdao (o centro) se transformou num ponto de passagem e nao de paragem – muitos visitam, passam, trabalham, mas poucos vivem. Ou seja, nao ha sentimento de pertenca ao lugar, identidade local, empenho comunitario. Os arredores de AMS sao outra coisa, tal como o resto da Holanda. E isso coloca a percepcao deste liberal no quase oposto da realidade.

    Na verdade, a sociedade holandesa e extraordinarimente comunitaria, colaborativa, e por vezes controladora de como cada um vive em comunidade (a heranca luterana, o mito de nao ter cortinas…). Nao por uma moralidade ou espiritualidade comuns, mas sim por uma tradicao de colaboracao pragmatica e um habito de exigencia e responsabilzacao mutua. Foi isso que os manteve (literalmente) a tona da agua no passado – se um so agricultor responsavel por um pequeno dique falhasse no dever de colaboracao, o pais arriscava afundar-se, passe o exagero.

    Em resultado, o orgulho no “bairro” ou na “rua”, a proximidade colaborativa com os vizinhos, a naturalidade com que te abordam na rua porque tomaste uma atitude individual que prejudica a comunidade (desde andar de bicla no passeio ate atirar pedras para um lago gelado), a recusa em manter o silencio sobre decisoes politicas que afectam o espaco publico, ate uma certa segregacao etnica e cultural de zona para zona para evitar tensoes em excesso, revela uma tradicao de participacao activa, sentimento de co-propriedade do que e de todos, clareza na distincao entre o que e colectivo e individual, e empenho comunitario muito diferente de Portugal, p.ex… Mas claro, isto sao generalizacoes, felizmente ha holandeses de todos os tipos e tenho dificuldades em caracterizar algo tao abstracto e diverso como a “sociedade holandesa” (ou a portuguesa, ja agora)

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  20. Ruiz Dilva permalink
    10 Agosto, 2018 11:06

    So ha una saida: “liberal conservative”

    Pablo

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  21. Mário Serelo permalink
    10 Agosto, 2018 11:25

    Rui A. realça o relativismo moral para concluir que não gostou da Holanda. Eu nunca lá fui, mas quando vi postáis de Amesterdão com tanta gente na rua, deitada na relva, sentada na rua, a andar de bicicleta, suspeitei haver ali imobilismo, crise motivacional, “happenings” para espreitar o que o vizinho pensa de questões pessoais. Disso, suponho eu, não sei o que restou, mas li textos do Rentes de Carvalho – até para casquinar do jardim à beirra-mar – a elogiar o nível de vida da Holanda, a descida (!) dos preços do gás, da luz, etc.

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  22. CGP permalink
    10 Agosto, 2018 11:40

    Rui, para mal dos meus pecados passei mais de um ano da minha vida a viver na Arábia Saudita. Com as devidas adaptações, este texto podia ser escrito por algumas das pessoas com quem fui conversando lá em relação ao Dubai (apesar de tudo, um local mais conservador do que Portugal). Desde a crítica ao libertarianismo de permitir álcool e mulheres em biquini, à vidfa nocturna e à tolerância pela fornicação. Não estou a exagerar para efeitos de argumento. É esta mesma linha de pensamento que usam pessoas, até formadas e bastante inteligentes, para justificar algumas das limitações na Arábia Saudita.

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    • Miguel permalink
      11 Agosto, 2018 12:57

      CGP, comparar a sanidade da cristandade, com todos os seus paradoxos e nuances com a barbárie muçulmana é no mínimo desonesto. Talvez devesse ler um bocadinho de Chesterton e Belloc.

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  23. 10 Agosto, 2018 12:21

    Excelente reflexão. Parabéns!

    É por algumas das razões que releva, que para mim o verdadeiro liberalismo é apenas o liberalismo constitutional!

    O Aristóteles já chamava a atenção para a superioridade do “meio termo”, e por isso os extremos são sempre perigosos.

    Há coisas que ainda não percebemos. a) porque é que sendo a familia um dos principais fatores promotores de felicidade e a droga de infelicidade, os jovens questionam a primeira e procuram a segunda; b) porque é que a liberdade sexual não irradica a prostituição, antes a promove, etc. etc.

    Por isso, o Estado (através da escola) e a Igreja (através da doutrina) ainda têm um papel a explicar que liberdade individual não é libertinagem e tem de ser ensinada.

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  24. Luis Lavoura permalink
    10 Agosto, 2018 12:34

    Toda a sociedade tem que ter regras.
    Por exemplo, em relação às bicicletas abandonadas nas ruas, dantes também hava muitos automóveis abandonados pelas ruas de Lisboa. Teve que ser a EMEL a intervir para todos esses automóveis serem retirados das ruas que estavam a ocupar.
    Os bordéis estão muito bem, mas não é necessário o exagero de Amesterdão, de terem vitrinas abertas para a rua. Podia haver a liberdade de haver bordéis, mas regulações quanto às vitrinas.
    A canabis está muito bem, mas não há necessidade de ser vendida e consumida em lojas de porta aberta. Na Pensilvânia uma pessoa pode perfeitamente embebedar-se em casa, mas não na rua, e a maioria dos estabelecimentos não venda álcool.
    Em suma, os problemas que o Rui corretamente denuncia resultam de uma liberdade excessiva, inadequadamente regulamentada.

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  25. Blitzkrieg permalink
    10 Agosto, 2018 12:50

    Não, Rui. Não. Não. Essa Holanda que descreve é a Holanda dos turistas, para consumo externo. Tenho sócios e amigos holandeses. Visito o país 4 a 5 vezes por ano, desde há uns 8 anos. Coffee shops que vendem erva? Sim, mas apenas em Amsterdão e quase todos os clientes são turistas. Os locais experimentam por um par de meses na fase universitária e abandonam depressa a erva. Prostituição no Red Light District? Um fenómeno turístico. Os maiores clientes? Árabes e alemães. Amsterdão, cidade abandalhada? Basta sair das ruas turísticas e ver onde vivem os nativos para se ver uma Holanda muito melhor. Rui, tem de lá voltar uma segunda vez, mas com outros olhos, agora mais liberto da ansiedade do turista deslumbrado que chega a um sítio novo pela primeira vez.

    Imagine o holandês que chega ao Porto ou Lisboa, pela primeira vez, para um punhado de dias de visita. Cidades bonitas, very typical, mas caramba, bem abandalhadas, gente a vender erva na rua a cada 100 metros, carros potentes por todo o lado num país falido, restaurantes e bares a cada canto, à custa dos subsídios europeus. Ou julga que o Dijsselbloem era uma voz isolada? Você está a fazer de Dijsselbloem, versão tuga, a comentar superficialmente sobre um país que não entendeu, como aliás é normal quando se visita pela primeira vez.

    Julga que o comentário da erva é excessivo? Experimente acompanhar estrangeiros numa passeata pela baixa de Lisboa, Chiado ou Bairro Alto. É impressionante como a cada esquina está um espantalho a tentar vender erva a turistas e como evitam os locais.

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  26. Blitzkrieg permalink
    10 Agosto, 2018 12:53

    E surpreendente o número de vozes acríticas nos comentários, que vão atrás da prosa bem escrita do Rui, encarneirados. Gosto bastante da sua escrita Rui, dos seus pensamentos, mas ninguém é infalível, e desta vez acho que a sua leitura da Holanda foi mesmo ao lado.

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  27. Rodrigo permalink
    10 Agosto, 2018 13:03

    E engracada esta interpretacao… Amesterdamita, mas nao holandesa (vivo em Haia). Tal como Londres diz pouco sobre Inglaterra e Berlim diz pouco sobre a Alemanha.

    Sim, Amesterdao e rasca e abandalhado e parece fragmentado, individualista em excesso. Mas isso e porque Amesterdao (o centro) se transformou num ponto de passagem e nao de paragem – muitos visitam, passam, trabalham, mas poucos vivem. Ou seja, nao ha sentimento de pertenca ao lugar, identidade local, empenho comunitario. Os arredores de AMS sao outra coisa, tal como o resto da Holanda. E isso coloca a percepcao deste turista liberal no quase oposto da realidade.

    Na verdade, a sociedade holandesa e extraordinarimente comunitaria, colaborativa, e por vezes controladora de como cada um vive em comunidade (a heranca luterana, o mito de nao ter cortinas…). Nao por uma moralidade ou espiritualidade comuns, mas sim por uma tradicao de colaboracao pragmatica e um habito de exigencia e responsabilzacao mutua. Foi isso que os manteve (literalmente) a tona da agua no passado – se um so agricultor responsavel por um pequeno dique falhasse no dever de colaboracao, o pais arriscava afundar-se, passe o exagero.

    Em resultado, o orgulho no “bairro” ou na “rua”, a proximidade colaborativa com os vizinhos, a naturalidade com que te abordam na rua porque tomaste uma atitude individual que prejudica a comunidade (desde andar de bicla no passeio ate atirar pedras para um lago gelado), a recusa em manter o silencio sobre decisoes politicas que afectam o espaco publico, ate uma certa segregacao etnica e cultural de zona para zona para evitar tensoes em excesso, revela uma tradicao de participacao activa, sentimento de co-propriedade do que e de todos, clareza na distincao entre o que e colectivo e individual, e empenho comunitario muito diferente de Portugal, p.ex… Mas claro, isto sao generalizacoes, felizmente ha holandeses de todos os tipos e tenho dificuldades em caracterizar algo tao abstracto e diverso como a “sociedade holandesa” (ou a portuguesa, ja agora)

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  28. JPT permalink
    10 Agosto, 2018 15:25

    Extrapolar do centro de Amsterdão para “a Holanda” faz tanto sentido como extrapolar de Manhattan para o Estados Unidos (nem sequer para o estado de New York!), ou do eixo Baixa-Chiado para Portugal (nem sequer para Lisboa!). Obviamente, isto diz muito mais acerca do autor do que da Holanda. E não diz nada bem, infelizmente.

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  29. 10 Agosto, 2018 18:47

    A “felicidade”, tout court, é impossível de ser avaliada (medida), ao contrárioo sentido individual de quanto se é feliz, objectivo conseguível através de Inquérito: Diga, com valores de 0 a 5, quanto se sente feliz. Com amosta não enviezada pode obter-se um valor médio (alternativamente uma mediana) e, até intervalo de confiança.

    Por conseguinte inclino-me mais que o texto de rui a. diz mais do Autor do que a realidade (são os Holandeses mais felizes que os Portugueses?)
    JPT PERMALINK
    10 Agosto, 2018 15:25

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  30. 10 Agosto, 2018 21:35

    Dando de barato que Amsterdam é tão Holanda quanto Lisboa é Portugal, é bem sabido que os portugueses não gostam de liberdade. Nem os liberais. No mais veja este link que diz tudo:

    https://s3.amazonaws.com/happiness-report/2018/WHR_web.pdf

    Na pág. 23: Portugal -77º; Holanda 6º.

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  31. PAIXAO AFONSO permalink
    11 Agosto, 2018 00:45

    Em absoluto desacordo com esta cronica. Aquilo que eu vivi e senti das variadissimas vezes que visitei Amesterdão senti precisamente o contrario. Enfim cada um vê as coisas á sua maneira.

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