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um liberal-conservador confessa-se, em paris

10 Agosto, 2018
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Apesar de estar de férias com a família, agora em Paris, beneficiando da «Liberté, Égualité, Fraternité» a que a cidade nos transporta,  tenho lido e apreciado imenso as reacções que o meu post de ontem, sobre o exercício das «liberdades» em Amesterdão, provocou, entre amigos e leitores. Ao longo dos anos – e digo isto sem qualquer ironia ou paternalismo – a vida ensinou-me a não ser muito seguro sobre as minhas convicções e a nunca desconsiderar o que pensam e dizem os outros. É certo que, aí há uns vinte anos, uma frase destas provocar-me-ia alergia e, provavelmente, quem a dissesse acabaria por levar, ainda que alegoricamente, com um cinzeiro na cabeça. A juventude é assim, entusiasta e intempestiva, e não podemos levá-la a mal. Mas o tempo encarrega-se de resolver estas impetuosidades juvenis e, no meu caso, julgo que me tem aproximado do bom senso, que, como o outro dizia, é bem melhor do que o senso comum. E tolerante, também. Essa característica que valeu o título de um folheto extenso de Locke, e que hoje muitos dos seus confessados admiradores trocam por certezas absolutas e inabaláveis. Outra das vantagens da idade, que me levou de um ateísmo com acne para um agnosticismo impotente, o que é sempre consolador para quem não vê o tempo a andar para trás. Como sucede comigo e, julgo, que com todos.

Infelizmente, as reacções ao meu texto foram quase todas adjectivantes, em vez de irem ao osso do pernil. O adjectivo dominante, e que bem sabia inevitável, foi o de «conservador». A isso respondo com um «sim, muito obrigado», porque entendo, e sempre o entendi e escrevi, que nenhum liberal, que não seja tolo, será inevitavelmente, também, um conservador. Ao longo dos anos tive a felicidade de ver tolos declarados, como o Walter Block, a reconhecerem-no e a pedirem desculpa à Humanidade pelas imprudências juvenis que tinham, com o natural entusiasmo da idade, escrito e defendido. O Block ficou muito mais sensato, legível e aceitável desde que o compreendeu. Porque, na verdade, o conservadorismo, enquanto atitude de bom senso contra-revolucionário, faz parte do património genético do liberalismo. Burke, Hayek, Acton, Mises, Tocqueville e muitos outros escreveram-no, apesar do infinitamente citado panfleto de Hayek, que formalmente, e apenas na forma, afirmava o contrário. Mas quem conhecer um pouco da sua teoria ordinalista, da importância que atribuía à tradição, como fonte de transmissão de conhecimento, e da aversão que dedicava ao racionalismo, sabe do que falo.

As outras reacções foram muito limitadoras para um verdadeiro debate. Em regra, elas foram de dois tipos: ou procuraram explicações, a jusante, para o que descrevi, ou desqualificam o texto em si mesmo, alegando que o objecto não foi exaustivamente estudado, concretamente, que muitos holandeses não gostam do sítio onde vivem e daquilo que lhes foi imposto.

Ora, nada disto foi o objecto do que escrevi. Nem, sem desconsideração para ninguém, me interessa propriamente, na medida em que o que acho relevante para o caso pode sintetizar-se nas questões seguintes:

1º É, ou não é, a sociedade holandesa uma sociedade onde vigoram as principais «liberdades liberais», sendo a cidade de Amesterdão o exemplo mais perfeito delas?

2º O resultado dessas liberdades agrada ou desagrada? Veríamos, com tranquilidade, um filho nosso, de vinte anos, a viver nessa cidade ou será que o preferiríamos pelo Porto ou Lisboa (questão tipicamente conservadora, bem sei)?

3º Independentemente dos motivos – procurados no Iluminismo, no secularismo, ou noutros – com mais ou menos trezentos ou duzentos anos, que agravaram o que hoje conhecemos, achamos, ou não, que estas liberdades incondicionadas foram responsáveis por aquilo que é, hoje, a cidade de Amesterdão?

4º Por último, e esta é a questão de fundo, a liberdade individual e o individualismo são suficientes, por si mesmos, para realizarem uma sociedade de pessoas maioritariamente felizes ou carecem de mais alguma coisa? De quê, para quem responder negativamente. E como lá se chega, nesse caso?

Por mim, que sou, desde ontem, um conservador publicamente denunciado, diria que atirar, sem mais, «liberdades» para cima das pessoas nos aproximará, perigosamente, do ideal disruptivo fracturante de um acampamento juvenil do Bloco de Esquerda.

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9 comentários leave one →
  1. JMS permalink
    11 Agosto, 2018 02:17

    O rui a. e o CGP reacenderam um tema que acabou em nada há umas semanas atrás.

    Mas, pelos vistos, não contentes com o resultado, voltaram em força.

    Nada mais saudável do que viajar. E falo por experiência própria.

    Uma das coisas que mais me interessa, nas viagens que faço, é inteirar-me dos costumes e dos hábitos dos “indígenas”.

    Em Londres, no Rio de Janeiro, em Paris, em Amsterdão, em Tanger, em La Valetta, em São Paulo, em Ibiza ou noutros sítios, o que me interessa realmente, é o pulsar das respectivas populações.

    Por favor, CGP e rui a., não voltem à mesma maluqueira do liberalismo/libertarismo em Miami ou Amsterdão. Ou se as putas em Amsterdão estão nuas nas montras ou se Miami está a arrebentar de cubanos porque isso existe há mais anos do que vocês têm de vida.

    Por mais suja que Amesterdão esteja ou por mais drogas que se fumem em Miami ou Amsterdão, não me parece que vocês tenham entendido o que realmente se passa.

    Acho que estão, ambos, há demasiado tempo no Portugal socialista (onde não se passa nada – nem pode, é socialista há 40 anos!) e qualquer coisa mais “estranha” ou “out of the box” vos faz alguma “confusão”.

    Por favor não me levem a mal. O mundo mudou e nem sempre para melhor. Mas mudou. Não quer dizer que concorde com tudo o que vejo onde vou. Mas os vossos textos são ligeiramente “reacionários” ☺. Sim, quando toca a liberalismo são uma desgraça. Lamento.

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    • Mario Figueiredo permalink
      11 Agosto, 2018 02:33

      Acho que o JMS é que não entendeu a natureza destes textos, que vêm desde o tempo da bola. Mas tudo bem; eu já tinha avisado estes dois senhores que demasiada sátira ou alegoria acaba por confundir quem lê. Eu também, já que muitas vezes dou por mim a ler outra vez para perceber se percebi o que li.

      No entanto, os dois últimos textos de ambos (este do Rui e o último do Carlos) são claríssimos na narrativa e não são merecedores do seu comentário.

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      • JMS permalink
        11 Agosto, 2018 03:08

        Caro Mário,

        Repeti a leitura dos textos deles e escrevi o comentário que leu.

        Não mudaria uma vírgula no texto que está aí em cima.

        Não está em causa qualquer alegoria ou sátira, até porque não identifiquei nenhuma. Mas o problema é, com toda a certeza, meu. Quando toca a liberalismo, estes dois confundem-se.

        Aproveito para lhe enviar os meus cumprimentos e a minha “solidariedade” para com os textos que escreve neste blog. Verifiquei que temos pontos de vista similares e, às vezes, nem escrevo porque vc já disse tudo.

        Não vale a pena escrever “por cima”.

        Um grande abraço.

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    • Mario Figueiredo permalink
      11 Agosto, 2018 02:44

      Por outro lado, o debate entre as supra-ideologias do liberalismo e conservadorismo é bem capaz de ser um dos debates mais importantes do início do século e aquele que está a ter mais impacto nas nossas vidas e com um maior potencial para mudar o nosso futuro. Certamente é bem mais relevante do que o pequeno-debate da esquerda e direita que não passam de um mero subconjunto ou nota de rodapé no contexto das movimentações sociais que estamos a observar no mundo ocidental.

      A política tradicionalista esquerda-direita da Revolução Francesa está a mudar. E aconselhava o JMS a pensar duas vezes antes de chamar de “maluqueira” a um debate que está já a mudar a sua vida.

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      • JMS permalink
        11 Agosto, 2018 03:14

        O esquerda-direita não existe há muito tempo. Eu sei. Mas para me fazer entender, utilizo-o. É um bocado bacoco, sem dúvida.

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      • JMS permalink
        11 Agosto, 2018 03:22

        Há cerca de duas semanas, o rui a. e o CGP tiveram uma troca de idéias sobre liberalismo que mais parecia uma conversa de surdos.

        Eu e muita gente que costuma vir aqui tivemos uma opinião parecida: a discussão merecia outra abordagem e não aquela “maluqueira”. ☺

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      • Mario Figueiredo permalink
        11 Agosto, 2018 10:49

        Concordo em absoluto que os dois tornam muitas vezes tornam a conversa difícil e até um pouco irritante. Principalmente quando parecem muitas vezes recorrer ao inside joking num forum que não deixa de ser público.

        É o estilo deles, acho eu. Eu já não uso o Twitter, pelo que deixei de os seguir a ambos. Mas penso que muito do que vemos aqui é originado lá.

        Mas ainda assim considero dois excelentes oradores das suas causas e é um prazer vê-los aqui a debater este tema fulcral nas nossas sociedades e com a possibilidade de participar, apesar de muitas vezes ser apresentado de uma forma difícil de digerir. E isso vê-se pela constantes confusões nos comentários e a constante necessidade de se escreverem outros posts a esclarecer o conteúdo, que vem já desde os posts da bola.

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  2. lucklucky permalink
    11 Agosto, 2018 04:40

    “…diria que atirar, sem mais, «liberdades» para cima das pessoas nos aproximará, perigosamente, do ideal disruptivo fracturante de um acampamento juvenil do Bloco de Esquerda…”

    E depois de tantos anos ainda não conhece a natureza do Bloco… quem é que impediu o Jaime Nogueira Pinto de falar numa Universidade ?

    Foi a cultura supremacista social do Bloco de Esquerda, isto é precisamente o contrário de fractura, é transformar a Universidade num sítio fechado e conservador Marxista.

    A disrupção do Bloco é só apontada para o que lhe pode aumentar o poder.

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  3. Mario Figueiredo permalink
    11 Agosto, 2018 10:39

    Nota: As minhas respostas pessoais ao desafio, são curtas para não tornar isto demasiado longo. Pede-se aos liberais que me estiverem a ler para não fazerem generalizações. Em caso de dúvida consultem as instruções — que têm um só ponto e onde se lê “Pergunte se tiver dúvidas”.

    1º É, ou não é, a sociedade holandesa uma sociedade onde vigoram as principais «liberdades liberais», sendo a cidade de Amesterdão o exemplo mais perfeito delas?

    Parece que sim, segundo os liberais. Já eu acho tudo isto confuso. Não consigo entender se o Liberalismo é um fim, ou se não tem fim. Por exemplo, não é a sociedade holandesa profundamente conservadora do ponto de vista de uma sociedade liberal que, para além de legalizar drogas (leves e pesadas) e prostituição, permita aos cidadãos livremente comprar e transportar armas na rua?

    2º O resultado dessas liberdades agrada ou desagrada? Veríamos, com tranquilidade, um filho nosso, de vinte anos, a viver nessa cidade ou será que o preferiríamos pelo Porto ou Lisboa (questão tipicamente conservadora, bem sei)?

    Desagrada, obviamente. A educação dos nossos filhos passa precisamente por processos de controlo e regulação que são completamente contrários ao modus operandis de uma sociedade liberal. Mas — e aqui vai uma farpa — é reconhecido que os liberais estão-se positivamente a marimbar para a instituição familiar, pelo que se percebe.

    3º Independentemente dos motivos – procurados no Iluminismo, no secularismo, ou noutros – com mais ou menos trezentos ou duzentos anos, que agravaram o que hoje conhecemos, achamos, ou não, que estas liberdades incondicionadas foram responsáveis por aquilo que é, hoje, a cidade de Amesterdão?

    Não. De todo. E essa é a grande mentira perpetuada pelos Liberais; de que a Holanda é o que é devido às suas políticas sociais liberais. A tradição holandesa de tolerância social (que realmente existe) nada tem a ver com este progressismo liberal (das drogas, prostituição e afins) que é apenas um elemento recente do fim do século XX. O sucesso (relativo) da sociedade holandesa tem pelo menos 500 anos e deve-se maioritariamente às suas políticas económicas que depois normalmente se revertem em bem estar social. Para termos um pouco a ideia da dimensão de “felicidade” holandesa, esta é a 15ª maior economia mundial, com apenas 17 milhões de habitantes.

    Por outro lado os liberais convenientemente escondem da sua narrativa (ou fazem-no por desconhecimento, admitamos) os problemas que estas leis têm criado e as constantes reversões que se têm vindo a ser obrigados a fazer. Por exemplo, como o país passou de um sistema liberal de consumo de drogas leves, para a proibição progressiva e total de cogumelos ou quaisquer outras drogas psicadélicas (afinal não é tão liberal assim). Ou como a Holanda se tornou um dos principais centros de distribuição ilegal de drogas na Europa e um principais produtores e distribuidores europeus de anfetaminas, cocaína, heroína e, é claro, marijuana.

    4º Por último, e esta é a questão de fundo, a liberdade individual e o individualismo são suficientes, por si mesmos, para realizarem uma sociedade de pessoas maioritariamente felizes ou carecem de mais alguma coisa? De quê, para quem responder negativamente. E como lá se chega, nesse caso?

    Deixarei esta pergunta para um posto à parte…

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