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Uma droga do piorio

13 Agosto, 2018
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O Rui diz neste texto que aquilo que foi feito na Holanda foi a concessão pelo Estado de liberdades, chamando-lhe engenharia social. Nada mais errado. É verdade que muitas vezes a agenda liberalizadora e progressista se confundem (muitos liberais o fazem), mas não há nada de engenharia social no levantamento de proibições. Quando os EUA levantaram a proibição do consumo de álcool, não houve engenharia social, mesmo que a sociedade se tenha alterado em resultado do levantamento dessa proibição. Ninguém foi obrigado a consumir álcool, nem o álcool passou a ser recomendado. Simplesmente, levantou-se a proibição daquilo que alguns, mal ou bem, gostam de consumir em maior ou menor medida. Na Holanda fizeram o mesmo com as drogas leves. Levantou-se a proibição de compra e venda de drogas leves (mantendo, até algumas restrições). De resto, não se percebe bem qual a alternativa “liberal” (na terminologia do Rui) de levantamento da proibição que teria resultados diferentes. Parecendo que o grande problema do Rui é a exibição pública do vício, custa a perceber qual a alternativa, que não a proibição, que tivesse levado a uma situação em que as pessoas fumassem apenas às escondidas. Se as drogas tivessem simplesmente deixado de ser proibidas (sem qualquer regulação adicional), as pessoas fumariam às escondidas? Porquê? O que me parece é que esta argumentação é simplesmente um subterfúgio conservador para manter as proibições, essas sim de carácter moralista e intervencionista, e com forte teor de engenharia social.

O segundo ponto levantado num outro texto é o da tradição. Ora, não há nenhuma tradição proibicionista no ocidente (tanto de álcool como de drogas). Houve proibições temporárias, a maioria das quais recentes, quase todas já no século XX. O Ocidente até travou uma guerra no século XIX pelo direito a comercializar droga (eu sei que é uma hipersimplificação, não me chateiem com os detalhes). Em Portugal, as drogas leves foram sempre largamente permitidas nas colónias e o verdadeiro proibicionismo na metrópole só começou depois do 25 de Abril. Vários escritores, como Fernando Pessoa, Mário Sá Carneiro ou Camilo Pessanha eram abertamente consumidores de ópio e até têm obra conhecida descrevendo os seus efeitos. Isto para não ir mais atrás até Jesus Cristo que transformou água em vinho, e só não terá transformado relva em erva, porque a relva não abundava na Judeia do século I. Defender o proibicionismo com base na tradição faz, por isso, pouco sentido. O proibicionismo foi introduzido pelo estado, usando o monopólio da força, num esforço de engenharia social para limitar o vício. Levantar essa proibição é apenas contribuir para a diminuição do peso do estado nas nossas vidas e nas opções individuais.

Mas há um argumento mais importante, que quanto a mim merece uma discussão mais séria. Possivelmente por ter implicações radicalmente mais conservadoras o Rui o tenha evitado, embora esteja implícito no seu já famoso texto sobre Amesterdão. Esse argumento foi mencionado pelo comentador mg num dos posts abaixo. Importa pouco a uma sociedade ter indivíduos livres e felizes (como parece ser o caso da Holanda) se for uma sociedade condenada a morrer às mãos dessa liberdade e felicidade. O argumento evolucionista, que o Filipe Faria (infelizmente ausente destas lides da blogosfera há tempo demais) tão bem articula, é o argumento conservador ao qual consigo ser mais sensível. É o único que me faz hesitar. Se apenas sociedades que limitam a liberdade (e mesmo a felicidade) dos indivíduos através de mecanismos formais e informais de repressão social se reproduzem e sobrevivem, valerá a pena lutar por sociedades completamente livres e, consequentemente, condenadas a morrer? Este sim é um problema sério para os liberais, como eu, porque em última instância poderia levar-nos por caminhos que nem os mais conservadores defendem (abertamente). Mas é intelectualmente estimulante. Ópio intelectual do piorio.

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17 comentários leave one →
  1. Mario Figueiredo permalink
    13 Agosto, 2018 13:27

    Porque é que o CGP considera o tal do “argumento evolucionista” tão importante? Acho isso estranho. Pessoalmente, e apesar de eu ser um anti-liberal, acho esse um argumentos bastante fraco, uma vez que não posso demonstrar de modo algum que os princípios subjacentes ao liberalismo impossibilitam o crescimento da sociedade.

    É um falso argumento do ponto de vista liberal e certamente um exemplo da confusão entre correlação e causalidade. Se é certo que temos vindo a observar isso, acredito sinceramente que tal se deve mais aos progressistas (esses sim, declarados inimigos da familia) fazerem avançar a agenda liberal, do que ao próprio liberalismo.

    O Liberalismo encerra em si outros mecanismos que levam à desconstrução da sociedade e temos vindo a falar deles. Mas uma vez que o CGP decidiu que esses não servem e o “evolucionista” é que é mesmo o tal (gostava é que me demonstrasse onde no Liberalismo isso está explicito ou implícito), não me parece que valha a pena continuar este diálogo.

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    • CGP permalink
      13 Agosto, 2018 13:38

      Ou sou eu que não percebo o seu comentário, ou o Mário que não percebeu o meu post. Possivelmente, estamos a dar nomes diferentes à mesma coisa.

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    • Mario Figueiredo permalink
      13 Agosto, 2018 14:06

      Dou de barato, que é mais provável que eu não o tenha entendido a si. Só não estou a entender bem como. Lerei o seu post novamente mais tarde, quando o dia terminar e a cabeça puder se concentrar.

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    • Mario Figueiredo permalink
      14 Agosto, 2018 00:11

      Nope! Li outra vez e mantenho o que disse. O CGP parece querer dar importância a um argumento que é francamente fraco, deixando para trás todos os outros argumentos de substância entretanto referidos. Porque o faz, não quero especular.

      Entretanto, aqui vão mais dois pontos onde penso estar redondamente enganado:

      (1) Não sei porque pensa que é legitimo comparar o levantamento da Proibição nos Estados Unidos com a legalização das drogas e prostituição na Holanda. O levantamento da proibição foi o retorno à normalidade após um período de 13 anos de Proibição. Já a legalização das drogas e prostituição na Holanda não foi nada disso. Foi (é) efectivamente engenharia social em nome de um modelo liberal de sociedade. Foi iniciada em meados da década de 70 para responder a uma nova cultura entre os jovens baseada no consumo de drogas. E esta natureza de experiência social revela-se perfeitamente nas inúmeras reversões às leis que já se verificaram desde que estas foram implementadas, sendo hoje muito menos liberais do que o eram na década de 80.

      (2) Penso ser profundamente desonesto o argumento que o Carlos faz de que não existe uma cultura proibicionista na Europa em relação ás drogas. Ouve isso sim um grande desconhecimento técnico e cientifico em relação às drogas antes da década de 60. Por outro lado, foi nas duas décadas do pós-guerra de 50 e 60 que se fizeram muitas descobertas de novas drogas. A “proibição” (como lhe quer chamar) acompanha precisamente toda essa evolução e as drogas começaram a ser proibidas de forma mais explicita já na década de 60 quando o problema começou a ganhar uma dimensão alarmante entre os jovens. O Carlos não pode vir para aqui argumentar que voltar aos padrões legislativos de 1950 é voltar à normalidade.

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  2. 13 Agosto, 2018 14:07

    Mais acha para a fogueira intelectual. A nível global, as sociedades com maior sucesso económico parecem coincidir com as sociedades com menor sucesso demográfico. Portanto, apesar economicamente os caucasianos serem os mais evoluídos sob o ponto de vista económico, de liberdades e organização social, estão em acelerada extinção.
    No longo prazo, de que valerão os níveis de desenvolvimento sócio-económico se o homem ocidental desaparecer?

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    • 13 Agosto, 2018 14:59

      sociedades que só pensam no negócio e lucro, que têm a banca no lugar central ( a única coisa segura que uma pessoa tem hoje é a prestação ao banco 🙂 ) ,não têm grande tempo para o amor…uma pena termos importado os valores judaicos com tanto sucesso.

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      • 13 Agosto, 2018 19:05

        Quem mais os importa é quem vende socalismo a patacas em nome de todo esse tempo para “amor” e “realização pessoal” e humanismos do género que enganam papalvos

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  3. 13 Agosto, 2018 14:22

    o rui a .já o convenceu do excelente trabalho dos deputados a afinar quanto sal podemos comer , está visto.
    e a drogaria legal ? que traz meia população sedada … Troco a maria por serenal e fentanil , e tudo na boa?

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    • 13 Agosto, 2018 14:32

      vou ter de continuar na clandestinidade , a maria sai-me quase de borla ,rego e pronto , os outros tenho de os pagar caro ,bom , se for com receita , sempre divido os custos com vocês 🙂

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  4. 13 Agosto, 2018 14:46

    e diferentes sociedades proíbem e estigmatizam diferentes comportamentos , escolhemos quais interditos para aplicar cá? os da índia ? da china?dos usa (boa, vou poder ter uma arma) ou da Tailândia? talvez do Brasil…

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  5. JgMenos permalink
    13 Agosto, 2018 17:42

    Será que as pessoas são livres de ser um encargo para a colectividade?
    O drogado trabalha?
    O drogado produz?
    O drogado paga impostos?
    O drogado é livre de se declarar doente e transferir para a sociedade o encargo de o manter e tratar?

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  6. 13 Agosto, 2018 17:53

    “valerá a pena lutar por sociedades completamente livres e, consequentemente, condenadas a morrer? Este sim é um problema sério para os liberais”.

    O completamente livre é um mito. O impossível é inimigo do ótimo!

    Por isso o liberalismo que interessa é o constitucional, definindo claramente os limites do estado e da liberdade individual. Os liberais devem posicionar-se do lado da liberdade mas como objetivo realizável no tempo e espaço próximos.

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  7. 13 Agosto, 2018 18:59

    É simples- não é jacobinismo de Estado porque é multiculturalismo com guetos. Eles sempre receberam essa malta toda, a começar pelos judeus e arranjaram o equilíbrio entre arrumar o diferente sem legislar como bom e igual para todos.

    O problema é que depois o pragmatismo também os atacou e hoje em dia são meros materialistas ateus que acabam por legislar as liberdades mais criminosas por força dos “lobbies-guetos” que acabaram por adoptar.

    Chama-se a isso poltranice.

    Apanharam-nos as colónias da mesma maneira. Mas dizem que são prestáveis e se entre-ajudam.

    E aquilo vai funcionando por ser capitalismo, não é por ser estatismo.

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  8. 13 Agosto, 2018 19:02

    Os EUA idem- multiculturalismo.

    Por cá chama-se multiculturalismo ao oposto- ao inclusivo do complexo do homem branco ocidental e da tradição nacional católica com a sua moral específica e Concordata bem antiga.

    Nós já fomos multiculturalistas com guetos. Não achava totalmente má ideia, uma vez que na prática são os próprios mais diferentes que os criam por afinidade (como sempre foi em toda a parte do mundo).

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  9. 13 Agosto, 2018 19:03

    De resto, como costuma dizer o Euro2Cent- Liberdade e Igualdade só existe entre iguais.

    Dizer o contrário é para engrominar.

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  10. Ana Vasconcelos permalink
    14 Agosto, 2018 08:48

    Há 2 tipos de liberdade: A liberdade politica e a liberdade de costumes. A primeira é essencial e absoluta. A segunda temos que ter ciudado com ela, porque quando dissolve os valores morais dissolve a sociedade. Muitas vezes a segunda é usada para esconder a falta da primeira. Era assim em Veneza até à queda da republica e é assim hoje no Ocidente. Também não sou necessariamente a favor de proibições. As consequencias dos actos mais cedo ou mais tarde aparecerão. A Holanda do seculo XVII foi um polo de desenvolvimento e liberdade. Tornou-se uma potencia mundial. A Holanda do século XXI e a cidade de Amesterdão em particular, veremos se vão longe.

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  11. 14 Agosto, 2018 08:56

    “Isto para não ir mais atrás até Jesus Cristo que transformou água em vinho, e só não terá transformado relva em erva”….essa cabecinha está um bocado avariada, não vás ao médico não, que isso piora.

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