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Recrónica

19 Agosto, 2018

Não sendo dotado de particular dote para aprisionar um momento e o exprimir em palavras, o que mais me atrai em crónicas é o episódio, a ocorrência, a brecha na sucessão do cíclico bioquímico da vida que permite atribuir a um instante a criação indiscutível de uma coisa, de um evento: o acontecimento. Interessa-me a vinheta em si, não a suposta descodificação da mensagem e muito menos os seus tradutores mais ou menos oficiais. Não tenho qualquer gosto pela política no sentido (lamentavelmente) habitual do termo: a mesquinharia, o disse-que-disse, o julgamento de intenções e a repulsiva hipocrisia dos intervenientes que, ao invés dos comuns mortais, não desdenham as mesmas necessidades que sentem, a de se fazerem à vida como podem e como sabem.

Durante algum tempo consegui abrir um jornal ou ligar uma televisão naqueles canais das notícias sem bolçar, feito que não me orgulha particularmente, só denuncia um viço tenaz ao efeito secundário mais comum de seguir notícias neste sítio a que se convencionou chamar “um país”: o recorrente desejo de cortar os pulsos. Agora, depois de mais um circo macabro com incêndios, de mais uma burlesca demonstração das capacidades contorcionistas de Costa, Catarina, Marcelo e da restante ganadaria apensa à canga da “política” nacional, atingi um limite, o do segredo só conhecido e partilhado pela enorme maioria dos portugueses: os que nem se dão ao trabalho de saber a data das eleições. A minha santa mãe disse-me assim: meu filho põe-te a pau, que isso é cruel, bicho cão, mãe do fel, infecção.

Se não fosse o rock’n’roll o que seria de mim? Por muito que se indague de que nos vale esta pureza porque sem ler fica-se pederneira; agita-se a solidão cá no fundo, fica-se sentado à soleira a ouvir os ruídos do mundo e a entendê-los à nossa maneira, feitas as contas, entre acompanhar as notícias ou os ruídos do mundo, é nos ruídos do mundo, no caos das coisas que se balançam, que o espírito se apazigua. É na arte, no livro, na novela, no futebol, nas romarias e nos comes e bebes que tu, português, estás e sempre estiveste. Andava eu perdido, e era eu um passarinho caído do ninho à espera do fim; e eras tu, até que enfim, a voltar para mim.

Por isso, amigo e companheiro de crónicas, escritor e leitor unido num só, faz-me um sinal qualquer se me vires falar demais: eu às vezes embarco em conversas banais.

 

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9 comentários leave one →
  1. 19 Agosto, 2018 10:56

    Muito bom !!!!

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  2. Procópio permalink
    19 Agosto, 2018 11:32

    Passa-se algo de semelhante comigo. Evito as vinhetas, os beijos chochos, o descalabro noticiário dos merdia em resumo. Há que proteger a saúde mental. Equilíbrio é preciso. Quando ausculto a esquerda vou ao El País e ao Guardian. No sítio continuamos a ser bombardeados com milhares de informações que não se encaixam em padrões inteligíveis. Para os indígenas isso não tem importância. Ora são atraídos pelos golos, ou vomitam a sanha contra os ricos. Há porém cada vez mais gente a topar o truque e a ignorar as mensagens deturpadas, os “sucessos” os passes mágicos e as ignóbeis peças teatrais.
    Concentremos a atenção em dados provenientes de fontes limpas, porventura menos aparentes mas susceptíveis de desencadear atenção selectiva.
    Vem isto a propósito da atenção que os Baader Meinhoff continuam a merecer. Por detrás da cortina das roturas, da democracia inflacionada, dos aumentos de salário à vontade do freguês, do burlesco com que nos brinda o anacleto, do descaro do boaventura.
    O assunto tem a sua actualidade. As coincidências são muito mais do que um artefacto da percepção. Não subestimemos a probabilidade de eventos coincidentes.

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  3. Juromenha permalink
    19 Agosto, 2018 12:49

    Simples higiene mental.

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  4. Expatriado permalink
    19 Agosto, 2018 13:31

    Conversa nada banal, caro jovem Vitor, com pontos que nem todos vão entender.

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  5. Mario Figueiredo permalink
    19 Agosto, 2018 13:43

    Seria de comparar o circo do país ao camião que a nossa estimada Zazie levou em cima. Tal como o Vitor, ela também quer agora aproveitar melhor o que de pouco ainda nos resta que nos dê alguma sensação de liberdade.

    São os rolos compressores da vida; Ou a crescente amargura, ou a morte à vista.

    Por mim, ainda me dou bem no meio da confusão. Ainda quero esbracejar, espumar da boca, refilar e perder(?) o meu tempo e a minha saúde, porque insisto teimosamente em acreditar nessa ideia tão seminal da política que é a de que a minha opinião conta.

    Mas atenção, antes que venha de lá a risadinha tonta, não o faço por ingenuidade. Volto a repetir; é por teimosia. Por essa razão, abraço e compreendo quem já se está a marimbar. O meu problema é que não consigo. Por teimosia… e por medo. Medo que estar a marimbar é colocar-me nas mãos desta gente. Medo de ser menos livre assim.

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  6. André Miguel permalink
    19 Agosto, 2018 14:41

    Como eu o compreendo. Eu emigrei há uma década, não vejo televisão nem leio um jornal português. Vou saltitando em alguns blogues para me informar. Quanto ao resto leio alguma imprensa internacional e livros, muitos. O meu cérebro e a minha saúde agradeceram. E a carteira também, já agora, que isto de pagar impostos em Portugal é o mesmo que a morte clinicamente assistida.

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  7. sam permalink
    19 Agosto, 2018 17:05

    Citando os Iron Maiden em Powerslave: “Meu querido / mês de Agosto…”

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  8. rão arques permalink
    19 Agosto, 2018 22:14

    O MEU ESGUICHO DE HOJE PARA O MESMO DE SEMPRE, QUASE EM EXCLUSIVO
    Para si Sr. Presidente e nessa qualidade, qual é a diferença entre a morte de um industrial e um servente das obras, ambos portugueses.
    Particularmente tem o direito de praticar as suas crenças e considerar os seus conhecimentos particulares.
    Quando achar que deve manifestar os seus sentimentos pessoais dispa a farda que enverga como titular do mais alto cargo politico representativo da Nação.

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  9. 19 Agosto, 2018 22:57

    ehehehe

    Estou na mesma- dei férias ao noticiário.

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