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Um ano mais conservador

20 Agosto, 2018
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As pessoas tornam-se mais conservadoras com a idade. Isto não é uma observação minha, já foi largamente estudado (por exemplo, aqui). Alguns, especialmente aqueles que não necessitaram de envelhecer para se tornarem conservadores, dirão que é apenas o culminar do desenvolvimento intelectual, que depois de aprender e pensar o suficiente, as pessoas chegam a essa meta de desenvolvimento intelectual (meta ao qual eles, os conservadores, chegaram mais cedo). É possível que seja verdade. Mas há outra explicação: o conservadorismo não é um estado de evolução, mas de adaptação.

Como qualquer político com instintos reformistas já percebeu, a mudança é um processo complexo que normalmente implica custos de curto prazo e benefícios de longo prazo. Geralmente, quanto maior a mudança, quanto maiores os benefícios esperados no longo prazo, maiores e mais prolongados são os custos de curto prazo. Os custos de transição não são um problema para quem tem mais expectativas de vir a beneficiar da mudança no longo prazo. Já quem, por força da idade, apenas espera vir a suportar os custos de transição, a perspectiva de mudança é compreensivelmente menos bem-vinda. Por isso é que geralmente mudanças de regime tendem a ser apoiadadas por pessoas mais novas.

Mas não é só uma análise de custo-benefício. A idade também muda a forma como o cérebro funciona. A psicologia estudou a fundo a forma como o cérebro se altera com a idade. Por exemplo, neste meta-estudo (que inclui 92 estudos), conclui-se que a curiosidade intelectual vai caindo com a idade. Por outro lado, a partir de meados dos 20 anos, a capacidade de processar nova informação começa a cair. Felizmente, isto tende-se a equilibrar com o volume de informação já processada. Dito de outra forma: o declínio na capacidade de processar nova informação é devidamente compensado pela experiência acumulada. Este reequilíbrio entre a importância da experiência e do processamento de informação nova faz com que, necessariamente, com a idade, as pessoas se tornem mais apegadas ao que já conhecem e menos amigas de ambiguidades ou pensamento desestruturado (vêr aqui). De certa forma, à medida que envelhecemos vai-se tornando mais eficiente viver em piloto automático, da informação já recolhida, em vez de gastar energias a recolher nova informação. Preferimos dispender energia intelectual a processar informação já recolhida do que a recolher nova.

Amanhã cruzarei a idade correspondente a metade da esperança média de vida que tinha à nascença. Estatisticamente, entrarei na segunda parte da vida que podia esperar viver quando nasci. Como todos, lentamente, também eu ficarei mais conservador. Um ano de cada vez.

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5 comentários leave one →
  1. Mario Figueiredo permalink
    20 Agosto, 2018 11:44

    O conservadorismo como pensamento político não é estático, mas abraça a mudança. A principal diferença entre o conservadorismo e o liberalismo acontece na forma como essas mudanças devem ser identificadas e como se devem processar.

    É um erro identificar conservadorismo com estaticismo. Começa francamente a aborrecer ter que estar sempre a dizer isto.

    Esse “conservadorismo” dos velhos que é identificado no seu post, não é conservadorismo político coisa nenhuma. É um dado biológico, ou quanto muito é culturalismo. Se quer analisar esse comportamento, faça-o no contexto da psicanálise.

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  2. Raghnar permalink
    20 Agosto, 2018 12:13

    Os antigos é que a sabiam, “a vida vai-te ensinar”…!

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  3. Pinto permalink
    20 Agosto, 2018 12:27

    É uma análise interessante. No meu caso, e fazendo uma introspecção ao que me levou a ser conservador, sou obrigado a concluir que foi por um grande motivo: conhecimento. À medida que o estudo e o conhecimento foram crescendo, o fascínio por tudo o que tenha o rótulo de “ciência”, pelas ideias ditas “progressistas”, pela ânsia de um Estado forte, foram diminuindo, sendo balanceadas por um acréscimo de interesse pela História, pela religião (particularmente o judaísmo/cristianismo e a sua importância na cultura ocidental) e pela cultura. Quando falo em cultura não me refiro apenas àquela ideia estrita da música, da pintura, da escultura, etc. mas das tradições, dos usos, dos costumes. Do saber tear, semear, regar, podar, cantar os Reis, matar e desmanchar um porco, conhecer os santos, o significado dos feriados (qual a percentagem que desconhece a razão do feriado de 15 de agosto ou de 8 de dezembro?), o ritual de uma celebração da Eucaristia, a melhor terra para semear, a melhor altura para vindimar e tirar o vinho do lagar (não é eu saber fazer isto tudo mas é o interesse por estes saberes), etc. etc. etc. São as pessoas extremamente cultas que dominam estes saberes que hoje (também) me despertam interesse. E não tanto a investigadora da universidade-não-sei-de-onde que concluiu que as crianças devem deixar o biberão aos doze meses, seis dias e duas horas, a preocupação pela “desigualdade entre homens e mulheres” (que eu de facto constato todos os dias em que estou nu junto da minha mulher), pelos carros eléctricos que vão salvar o planeta, pelo ministro que anuncia uma nova medida que vai reduzir a fuga aos impostos (esta hoje dá-me logo arrepios), ou outras fantochadas.
    O que me levou a esta mudança? Não, decididamente não foi a procura por estabilidade. Preocupo-me mais hoje com o futuro que os meus filhos irão ter que com o meu quando tinha 17 anos. Mas interesso-me menos pela política caseira das medidinhas “que nos impulsionar” porque sei que não são elas que vão mudar seja o que for. Da política só me interessa uma coisa: quanto menos Estado, melhor.

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  4. Nulo permalink
    20 Agosto, 2018 15:51

    Eu só espero poder observar, por muitos anos, essa metamorfose e que de tempos a tempos ser surpreendido ao ponto de exclamar “está cada vez melhor, é mesmo como o vinho do Porto”. Bem vindo à segunda metade, felicidades nesta nova fase.

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  5. 20 Agosto, 2018 20:37

    por isso é que é um erro económico manter os jovens afastados do mercado laboral aumentando a idade da reforma, com os velhotes poupadinhos a trabalhar. quem tem maior apetência para consumir, menor resistência à mudança e menos medo do futuro são os jovens .

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