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liberalismo à portuguesa

2 Janeiro, 2019
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جرامشي-485x255Em quarenta e dois anos de democracia espanhola, a direita democrática agregou-se sempre em torno de um partido nuclear com vocação de poder: primeiro, de 1977 a 1983, a UCD (União de Centro Democrático), quase sempre liderada por Adolfo Suárez; simultaneamente, ainda que com pouca expressão eleitoral, e, depois, herdando parte do que fora a UCD, de 1976 a 1989, a Aliança Popular/Coligação Popular, partido fundado e dirigido por um ex-ministro reformista de Franco, Manuel Fraga Iribarne, que deu, naquele último ano, origem ao Partido Popular. Este último, por sua vez, foi liderado, durante quase trinta anos, por apenas três presidentes: José Maria Aznar, Mariano Rajoy e, de há uns meses para cá, Pablo Casado. A direita espanhola foi governo na transição do franquismo para a democracia, a ela se devendo, em boa parte, o sucesso pacífico desse processo de extrema complexidade, voltando a sê-lo, depois de anos de socialismo, entre 1996 e 2004, com Aznar, regressando à Moncloa com Rajoy, de 2011 a 2018. Em todos estes períodos, a Espanha sentiu muito bem a diferença entre um governo de direita liberal e conservadora e os governos do PSOE. Em todos esses governos, até mesmo no de Rajoy, a ideologia nunca foi desconsiderada, e a direita espanhola ora se afirmou mais liberal, com Aznar e Casado, ora foi mais conservadora, com Rajoy e Suárez, mas corporizou sempre um projecto político ideologicamente claro.

Em quarenta e quatro anos de democracia portuguesa, a direita do regime dividiu-se em dois partidos, o PPD/PSD e o CDS. Durante esses anos, o PSD teve dezoito, repito, dezoito líderes, enquanto que o CDS se ficou por uns modestos sete presidentes. Esteve no poder em dez governos, que chefiou, e esteve presente em mais um (1983-1985, do Bloco Central), governando por cerca de vinte e um anos. Se pensarmos em medidas reformistas marcantes dos governos da direita portuguesa, esquecendo o brevíssimo e promissor ano de Francisco Sá Carneiro, teremos as privatizações de Cavaco Silva, de resto, indispensáveis para a adesão plena à CEE, os anos de ajustamento de Passos Coelho e por aí nos ficamos. Um ponto é absolutamente comum à direita partidária portuguesa: a absoluta ausência de um pensamento político e de uma ideologia identificáveis. Mais ainda: sempre que houve o “atrevimento” de enunciar alguns princípios, uma vez no poder os governos da direita portuguesa fizeram o completo oposto do que proclamavam na oposição. Basta rememorarmos o que foi o tristíssimo governo de Durão Barroso para demonstrarmos esta afirmação. Presentemente, não se lhes consegue apanhar uma única ideia inteligível.

Vêm estes dois parágrafos a propósito de uma polémica que mantenho há muitos anos com alguns liberais que querem formar partidos onomasticamente assim denominados e levá-los a votos. Não vou entrar na vexata quaestio de saber se um partido com vocação de poder pode ser verdadeiramente liberal ou se o liberalismo deve ser transversal a diversos partidos, por ser um peditório para o qual já não me apetece mais contribuir. Vou apenas salientar que, enquanto em Espanha a UCD e o PP sempre foram projectos partidários com ideologia identificável e compreensível, formada em think tanks conservadores e liberais, ancorados na Konrad Adenauer e em organizações nacionais (actualmente, só para se perceber a importância da coisa, José Maria Aznar é o presidente da FAES – Fundación para el Análisis y los Estudios Sociales, que se define como «una fundación privada sin ánimo de lucro que trabaja en el ámbito de las ideas», em Portugal, nos emergentes movimentos partidários liberais, quase ninguém pensa coisa nenhuma, e há até quem considere que «essa coisa das ideias é uma espécie de masturbação intelectual», sendo que o que interessa é «ir a votos» e «passar à acção». Pois bem, que mais não fosse, o recente exemplo do Instituto Mises–Brasil e a sua contribuição para parte do que poderá ser o governo que hoje tomou posse nesse país, deveria fazer pensar os que julgam que o liberalismo se deve plasmar em projectos de acção partidária, sem mais. Mas parece que nem esse exemplo lhes é útil. Por mim, que conheço razoavelmente a história do liberalismo português, não tenho dúvidas que, por esse caminho, passaremos mais quarenta e quatro anos sem o privilégio de sermos bafejados pela governação de tão enormes talentos. Felizmente, no fim de mais esse período, já cá não estarei para me condoer com mais essas décadas de merecido socialismo. Cada um tem o que merece e nós não merecemos mais do que o que temos tido.

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26 comentários leave one →
  1. procópio permalink
    2 Janeiro, 2019 00:27

    Não poderei estar mais de acordo.

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  2. 2 Janeiro, 2019 00:42

    Depois de tão inteligente e esclarecedora análise à panorâmica da Direita em Portugal, só uma conclusão é possível: a Direita em Portugal não presta!
    Como diz o comentador residente procópio não poderei estar mais de acordo.

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  3. Perigoso Neoliberal permalink
    2 Janeiro, 2019 02:52

    Ir a votos não é incompatível com o combate diário na guerra cultural, pelo contrário. Imaginem o que seria, como contributo para esse mesmo combate cultural, ter, por exemplo, o Carlos Guimarães Pinto na Assembleia. A ter exposição pública, tempo de antena, etc. Dadas as circunstâncias – completa submissão cultural, intelectual, económica, you name it, do país à esquerda desde… sempre! – eleger 1 (unzinho) gajo sem medo de se afirmar de direita e liberal que conseguisse esfregar essas ideias na cara do Zé Povinho durante 4 anos já era um sinal de que há esperança (que daqui a uns 30-40 anos a direita finalmente governe o retângulo).
    Porra, até o PAN conseguiu lá pôr um gajo! Ficar para sempre a discutir liberalismo e conservadorismo em fóruns e soirées de cachimbo na mão é confortável e, num cenário triste como o português, lógico do ponto de vista pessoal dos “generais” do lado de cá da barricada. Mas significa assumir que o destino do país é ser uma Albânia premium. Como disse o Rui, temos o que merecemos. Até agora merecemos os governos de merda que tivemos. Seria uma ótima surpresa ver alguma flor de esperança nascer no meio do esterco que constitui o panorama político indígena. P.S.: isto da flor é puro otimismo de ano novo, daqui a pouco passa…

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  4. Pedro permalink
    2 Janeiro, 2019 05:22

    Atendendo a que a ideologia da direita liberal não passa de uma macacada encomendada à medida para fazer lobby aos interesses corporativos empresariais, esta situação poupou á direita nacional uma data de tristes figuras.

    Em vez de armar ao pingarelho com uma falsa intelectualidade de pacotilha optou por se concentrar na aldrabice de fingir que é outras coisas. Dadas as limitações da direita é a única alternativa possível.

    Assim, dos dois partidos que o senhor rui reconhece, vá lá serem de direita, que a direita normalmente faz de conta que não existe, um chama-se social democrata (ideologia esquerdista) e outro de centro…

    Resta o PS, que o senhor rui já não tem a honestidade de admitir que é de direita, embora em termos das reformas direitistas que enunciou o PS seja o partido que as levou mais longe.

    O Guterres privatizou mais que o Cavaco, o Soares foi quem mais precarizou o mercado de trabalho com esquemas mafiosos como os recibos verdes e o Sócrates foi quem mais fez PPP’s e CMEC essas invenções da Tatcher para por os empresários privados a mamar no estado.

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  5. PiErre permalink
    2 Janeiro, 2019 08:50

    A democracia foi uma invenção dos cidadãos plebeus gregos de há 2500 anos, por terem inveja do poder dos arcontes e pretenderem apenas ucupar as suas posições no Estado. Em resumo, a democracia é um embuste.

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  6. lucklucky permalink
    2 Janeiro, 2019 09:02

    “foi quem mais precarizou o mercado de trabalho com esquemas mafiosos como os recibos verdes”

    Aqui temos a “liberdade” do Pedro e da Esquerda. Para ele é mafioso 2 pessoas cooperarem livremente.

    Mafioso é a protecção que os empresários têm de pagar à Esquerda pagando para fundações, associações, jornais etc..

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    • Pedro permalink
      3 Janeiro, 2019 12:43

      Tretas.

      Todos sabemos que a esmagadora maioria dos recibos verdes são burlas empresariais, destinam-se a postos de trabalho efectivos quando a lei manda que sejam exclusivamente para trabalhadores independentes, sem chefias nem horários.

      Também sabemos que quase todos esses trabalhadores preferiam contratos efectivos mas que são OBRIGADOS a prestarem-se a essa vossa burla.

      Quanto a fundações e jornais, o que mais há para aí são de direita.

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  7. Luis Lavoura permalink
    2 Janeiro, 2019 09:16

    direita liberal e conservadora

    Isso não existe.

    Ou se é liberal, ou se é conservador. São duas coisas muito distintas.

    Pode ser-se liberal numas coisas e conservador noutras, ou liberal nuns momentos e conservador noutros, mas nesse caso não se é, de facto, nada. A não ser um catavento, ou um oportunista.

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  8. Luis Lavoura permalink
    2 Janeiro, 2019 09:22

    Não deixa de ser engraçado ver o Rui A. a pedir um think tank que desse coerência ao liberalismo em Portugal, quando foi o mesmo Rui A. quem, há uns anos, afirmava num blogue que a eutanásia iria ser um dos principais problemas para aqueles que se afirmam liberais em Portugal, porque iriam ter de arranjar forma de serem contra ela apesar de toda a argumentação liberal sugerir que deveriam ser a favor.
    Eu concluo desta contradição que o Rui A. se está, na verdade, nas tintas para o think tank ou para a argumentação liberal, o que lhe interessa são as conclusões a que a argumentação deve conduzir.

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    • Nulo permalink
      3 Janeiro, 2019 00:18

      Um verdadeiro condottiere …

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    • Pedro permalink
      3 Janeiro, 2019 12:48

      Os think thanks neoliberais são essencialmente centros de fotocópias.

      Os grandes interesses corporativos entregam-lhes a lista das conclusões pretendidas.

      Os “pensadores” liberais só precisam de fazer copy paste.

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  9. lucklucky permalink
    2 Janeiro, 2019 09:24

    Se ainda vejo que Sá Carneiro foi um choque positivo nada mais e Cavaco corrigiu a violação dos Direitos Humanos provocada pelas Nacionalizações. Não vejo “reformas” (1) alguma de Paços Coelho, que raio mais fez Passos Coelho que aumentar o poder do Estado, aumentar impostos, criar novos impostos? Por o Socialismo um pouco menos insustentável é agora reforma de direita?

    (1) é aliás fascinante o fetichismo que a direita tem com a palavra reformas, não vi nenhuma em 40 anos excepto talvez a “permissão” e condicionada diga-se a abrir canais de TV…

    Discordo do autor quando ainda assume que estamos em Democracia. ora o Governo Durão Barroso – e a defenestração de Santana Lopes sem explicação e sem justificação Constitucional alguma vez explicada -demonstra que já não estamos.
    No dia em que um eventual Governo de Direita for eleito a “Rua” vai voltar e Governar vai ser impossível porque o Jornalismo Marxista se vai encarregar de estimular e defender a violência política.

    Atente-se à manifestação espontânea por causa dos incêndios, nesse dia a Extrema Esquerda apareceu logo no Terreiro do Paço a provocar distúrbios , comunicando a todos que a rua – ou seja a violência política – é propriedade da Esquerda e se alguém quiser protestar tem de ser só com o seu aval.

    Nem vamos ás práticas do CDS e PSD a nível local pois não? Em que se distinguem do PS , PCP?

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  10. Carlos permalink
    2 Janeiro, 2019 10:14

    Com que então a Tatcher inventou as PPP. E eu a julgar que tinha sido o Tony Blair.

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  11. 2 Janeiro, 2019 10:38

    Rui, tanto pessimismo no inicio do ano. Anime-se, o liberalismo nasceu torto em Portugal (no século XIX) mas talvez ainda se endireite, nem que seja depois de nós partirmos.
    Água mole em pedra dura tanto dá até que fura …

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  12. Velho do Restelo permalink
    2 Janeiro, 2019 11:47

    Comparar a governação Pt/Es é um estudo interessante se feito com imparcialidade e com algum método. Seria necessário ter em conta outras variáveis : Nº de PRs / Nº de Monarcas, Nº de maiorias absolutas, Nº de assassinatos e outras formas de interrupção abrupta da governação …

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  13. 2 Janeiro, 2019 12:58

    Vá lá!…………………
    Deixem-se lá de teorias balofas e vamos mas é todos à Manifestação dos Coletes Amarelos.

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    • lucklucky permalink
      2 Janeiro, 2019 14:57

      Os coletes amarelos que protestam por mais estado e menos impostos?

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  14. 2 Janeiro, 2019 15:59

    É óbvio, olhando para o nosso eleitorado e para grande parte do nosso espectro político, que Portugal não é um país da Europa – é um país da América Latina que ficou do lado errado do oceano quando a Pangeia se fragmentou. Por isso, só prevejo que o liberalismo seja cá aceite quando também houver liberalismo na Venezuela.

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    • Luis Lavoura permalink
      2 Janeiro, 2019 17:05

      Você tem em boa parte razão. Já vi uma vez uma análise das posições políticas dos portugueses e de outros povos de diversos países, na qual se concuía que o país do qual Portugal está mais próximo, politicamente, é o Uruguai.
      Com maior rigor, pode-se dizer que o Uruguai é o país latino-americano mais similar em termos políticos a um país europeu, e que Portugal é o país europeu mais similar em termos políticos a um país latino-americano.

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    • Pedro permalink
      3 Janeiro, 2019 13:22

      Então do ponto de vista do liberalismo não têm razão de queixa.

      É o terceiro mundo que mais se aproxima dos ideias neoliberais.

      Ausência de estado social, ausência de direitos laborais, ausência de regulação financeira, ausência de normas ambientais etc etc etc.

      O vosso programa para o nosso futuro é a realidade actual do Burkina Faso.

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  15. PA, permalink
    2 Janeiro, 2019 16:35

    concordo em absoluto,

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  16. Luis Gonçalves permalink
    2 Janeiro, 2019 18:51

    Acabar com juros aos agiotas…baixa de impostos, menos receita, mais despesa e uberalls…crescimento sustentável!

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  17. Arlindo da Costa permalink
    3 Janeiro, 2019 18:01

    Divirto-me com estes comentadores residentes quando procuram nas sociedades espanhola e brasileira alguma réstea de liberdade ou de respeito pelo indíviduo. O Blasfémias tornou-se no refúgio dos perdedores da História. Os dos loser como diz magistralmente o TRump 🙂

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