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Clubes e agremiações

27 Abril, 2019

Um amigo bem mais sábio que eu disse-me que não é possível manter grupos de pessoas pela internet, que a única forma de os manter é através de almoços, jantares e convívios. Não duvido, até porque não tenho qualquer argumento que refute o quão as pessoas se compreendem melhor através de elementos intuidos pela ancestral arte instintiva da linguagem não-verbal, algo que raramente consegue ser comunicado por palavras impressas num papel ou num ecrã. Todavia, fico a pensar que o meu amigo está a esquecer o que vem acima do convívio, o que o motiva e que o torna imprescindível para que a comunicação se estabeleça sem ruído digital: uma causa comum.

A causa comum tanto pode ser sexo, a formação de um partido político, a gestão de um rancho folclórico, a educação dos filhos, piadas da tropa, de mulheres ou de comunistas ou, ainda, qualquer outra coisa mais indefinível como não gostar de comer sozinho. Os grupos que fui frequentando costumam ter como causa comum uma espécie de “defesa do liberalismo”. À medida que o tempo foi passando por mim e deixando marcas em forma de rugas, que nada mais são que cicatrizes da batalha inglória contra o fim, fui adquirindo uma certa convicção de que “o liberalismo”, tal como não é base suficiente para um partido político, também não é base para uma organização de pessoas. Quem segue o que se vai escrevendo em vários jornais já terá concluído que toda a Direita precisa de um adjectivo para se imiscuir na moda das políticas identitárias: direita musculada, extrema-direita, direita tofu, direita de esquerda, direita trauliteira, direita liberal, direita conservadora, direita ultramontana, direita beata, direita maricas, direita nacionalista, direita feminista, direita rendida ao marximo cultural, direita mulher-é-na-cozinha… Já a esquerda é a esquerda. Eles, os da esquerda, são homogéneos; nós, os da direita, temos uma luta de classes em mãos. Não estou interessado em tal coisa.

Quando formamos “grupos liberais” (ou ranchos folclóricos), acabamos sempre a criticar os de fora, começando sempre pelos dissidentes e finalizando com os peões mais artolas dos que percepcionamos como grandes adversários. Em todos os grupos há hierarquias naturais – como na natureza – e há os que são estão para ver o jogo. Há papeis definidos naturalmente e há líderes que, com as melhores das intenções, precipitam as cisões, a atribuição de adjectivos e o esgotamento da vontade de participar. Em parte, pode ser falta de almoços e convívio; mas, em parte ainda maior, trata-se da natureza humana em acção.

Já dizia o Marx, o inteligente, que recusava pertencer a qualquer clube que o quisesse como membro. Eu, compreendendo o conselho adaptado ao século XXI, eu só estou interessado em pertencer a um clube que, na realidade, não exista. E, assim, sim, consigo, afinal, dar a razão ao meu amigo: o único clube é aquele cuja motivação para almoçar, jantar e conviver é mesmo almoçar, jantar e conviver. Porque as ideias têm consequências, para o bem e para o mal.

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5 comentários leave one →
  1. Duarte de Aviz permalink
    27 Abril, 2019 17:05

    Um dos problemas das tribos da direita em Pt (pelo menos no espaço público, porque no segredo da câmara de voto não é bem assim) é que é “tudo ou nada”. Só isso explica que o CDS tenha resistido à fase do taxi e ainda exista.
    As diversas fraturas no PPD/PSD, as iniciativas mais ou menos liberais, e agora também na secção “musculada” vivem disso. A afirmaçao de uma alternativa de direita que limpe a constituição e seja sustentável por 20 anos, tem que começar aí No PS já perceberam isso. O BE resultou dessa epifania.
    Curiosamente, o PPC esteve muito perto de receber esse presente, mas nem ele percebeu isso.

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  2. 27 Abril, 2019 19:56

    Falta é coragem e homens dispostos(já alguns prometeram e depois desapareceram) a enfrentar o “boi pelos cornos” tal como acontece na Espanha onde não têm medo de defender a Espanha tradicional e afirmarem-se de direita nacionalista(grande parte dos que não votam por cá estão à espera há décadas por isso).

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  3. Ricardo Amaral permalink
    27 Abril, 2019 19:58

    Falta é coragem e homens dispostos(já alguns prometeram e depois desapareceram) a enfrentar o “boi pelos cornos” tal como acontece na Espanha onde não têm medo de defender a Espanha tradicional e afirmarem-se de direita nacionalista(grande parte dos que não votam por cá estão à espera há décadas por isso e não por cinicos e cobardes que ocupam metade do parlamento em nome do país).

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    • Arlindo da Costa permalink
      28 Abril, 2019 01:52

      Enfrenta então você o boi pelos cornos. Quero ver essa tua coragem facebookina. Anda lá. Sê o Abascal da costa atlântica da Península.

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  4. Arlindo da Costa permalink
    28 Abril, 2019 01:50

    Acho que o caro amigo tem todas as condições para aderir à Academia do Bacalhau. Ali almoça-se, janta-se e convive-se. Na boa.

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