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Quem nos defende do Estado?

3 Junho, 2019

Nasceu pobre com mais 10 irmãos e sem pai e à custa de trabalho árduo chegou a empresário de sucesso com um património de mais de 8 milhões de euros e  sem qualquer dívida.  O azar deste homem foi ter cruzado com o Estado Português que depois de o lesar,  o  deixou na completa miséria.

Foi o maior construtor  e detentor de área urbana de Abrantes. Mas uma ilegalidade cometida pela Câmara Municipal haveria de o transformar num pastor (emprestaram-lhe um terreno e trata de 120 ovelhas, 18 burros e uma égua)   a sobreviver com 300 euros de Rendimento Social de Inserção, venda de lenha e biscates  por via de uma insolvência forçada que lhe levou também a casa, recomprada em leilão por amigos, para que pudesse regressar àquele que era seu lar mediante o pagamento de uma renda.

Este lesado do Estado com 10 anos já guardava gado e tal como muitos da sua época, concluiu apenas a 4 classe por ter de trabalhar para o sustento dos seus na agricultura.  Aos 12 já era dono de porcos e ovelhas para mais tarde trabalhar numa fábrica de malas. Aos 16 passou a caixeiro viajante mas o 25 Abril de 74 havia de determinar a sua saída pois a revolução fechou  metade das fábricas com as quais trabalhavam o que o obrigou a regressar à agricultura. Empreendeu depois na área da pecuária com um negócio de  criação de gado e venda porta a porta dos produtos derivados,  abastecendo todas as pessoas da zona. Começou em simultâneo a trabalhar como servente numa empresa de construção civil de Abrantes para mais tarde criar sua própria empresa de construção:  a Construções Jorge Ferreira & Dias, Lda., uma empresa  que o fez ganhar a alcunha do “Belmiro de Abrantes”.

Mas o destino haveria de o trair. Em 2000 é confrontado com um pedido de pagamento de uma espécie de “dízimo” à Câmara quando lhe fazem chegar uma factura de milhares de euros dizendo que “era normal pagar alguma coisa” caso quisesse que as suas urbanizações fossem aprovadas.  Desde esse dia viu todas as suas autorizações de construção negadas: o projecto Urbanização Encosta Norte foi aprovado mas nunca obteve alvará ficando impedido de vender por falta de licença de habitabilidade; noutro pagou durante 7 anos a água aos inquilinos com água fornecida em contador de obras. Pelo meio, a descoberta de falsificação  de documentos pelos serviços autárquicos e tentativas de corrupção para que os projectos seguissem aprovados e que apesar da sua queixa na PJ, foram arquivados. Quando surgiu a hipótese de vender por 2,5 milhões um terreno para a Ofélia Clube, acaba por ver o negócio perdido por desistência do Grupo de investidores porque o projecto pura e simplesmente não avançava.

Mas o pior estava para vir: o processo nº 1148/09, uma acção interposta pela Câmara Municipal de Abrantes em 2009,  que acusava a empresa de Jorge Ferreira de apropriação de uma parcela de terreno no Olival do Barata, na Encosta Norte da cidade, uma acção fixada em 118 mil euros, um “erro” que não era erro nenhum da Câmara, que  haveria de o precipitar para uma insolvência completamente desnecessária uma vez que à data tinha imóveis avaliados em 2,7 vezes o valor dos créditos a liquidar. Mais: tinha um pedido de indemnização de 6 milhões de euros à Câmara de Abrantes a decorrer no Tribunal Administrativo e Fiscal de Leiria já depois dos tribunais de Évora, Abrantes e Supremo Tribunal de Justiça o terem absolvido. Acabou aqui o inferno? Não.  A Câmara de Abrantes continuou a insistir em tirar à força o terreno e interpôs novo processo desta vez para reclamar a separação da parcela à massa insolvente da empresa de Jorge alegando usucapião, também este negado pelo tribunal.

E que “erro” foi esse que deu origem a este maldito processo nº 1148/09? Uma empresa de automóveis vendeu à Câmara um terreno que não era seu mas sim de Jorge com hipoteca à CGD. Apesar do alerta nos serviços da câmara, de o mesmo ter provado ser o proprietário legítimo com documentos, foi totalmente ignorado. Em 2016 outro caso estranho: Jorge Dias havia assinado um contrato de promessa de compra e venda de um terreno seu para construção de uma ETAR com a Abrantáqua, uma empresa municipal, mas o contrato nunca foi cumprido e mesmo assim foi construída a dita ETAR sem autorização de Jorge.

Com a vida feita em cacos, este sobrevivente lesado do Estado que possuía uma empresa sólida e conceituada,  espera agora na miséria absoluta,  que a Justiça lhe reconheça o direito a uma indemnização de mais de 6 milhões de euros.

Ficou chocado com esta história? Saiba que por todo o país abundam testemunhos destes, presentes e passados, que apenas não foram notícia. Lembro-me de um construtor civil da minha terra ter-se suicidado por causa da Câmara Municipal de Viana do Castelo que o sufocou em dívidas e matou a sua empresa. Deixou carta a explicar. Outros não se mataram mas ficaram literalmente sem nada por culpa exclusiva de um Estado caloteiro, criminoso e desumano que os obrigou a recomeçar a vida do zero.

Porque o Estado não é nem nunca foi pessoa de bem. É um conjunto de escroques que servem o “amo” em Lisboa e servem-se a eles próprios pouco se importando com o rasto de destruição que deixam.

É este o Estado que temos. Resta-nos rezar para que tal como o Jorge, não se atravesse nas nossas vidas porque do Estado, meus caros,  ninguém nos defende.

(foto de Paulo Jorge de Sousa da Médiotejo.net)
33 comentários leave one →
  1. 3 Junho, 2019 12:16

    Uma coincidência nem por isso inesperada: desde 1993 que as câmaras de Abrantes e Viana do Castelo são sempre socialistas.

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    • Panzermachado permalink
      3 Junho, 2019 14:05

      No caso em concreto de Viana do Castelo, o Presidente da CMVC era independente eleitos nas listas do PSD. Depois desse episódio, perdeu as eleições e desde então a CMVC é será sempre socialista (têm tudo muito bem controlado, em comparação com os amadores do PSD). Nota: anti-bolchevique e anti-geringonça (quase redundância) por natureza e opção.

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      • Cristina Miranda permalink
        3 Junho, 2019 14:37

        Se reparou bem, não faço alusão a NENHUM partido no texto. E não foi por acaso. Eu mesma tenho um testemunho q abrange do rosa ao laranja. Portanto, quando falo refiro-me a TUDO o q por lá passou

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      • 3 Junho, 2019 20:26

        Em minha defesa, assumi pelo texto que o bullying sobre o homem tinha começado em 2000 e a wikipedia disse-me o resto sobre as autárquicas.

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    • MJRB permalink
      3 Junho, 2019 14:44

      Li ontem ou anteontem uma notícia nada abonatória (não me lembro acerca de quê) sobre a secretária de estado que foi até há pouco tempo presidente da câmara de Abrantes.

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  2. MJRB permalink
    3 Junho, 2019 12:30

    Habitual banditismo do Estado tuga.

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  3. MJRB permalink
    3 Junho, 2019 12:33

    Agustina. RIP.
    O Estado devia anunciar aos tugas luto nacional por três dias.

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    • Mario Figueiredo permalink
      3 Junho, 2019 14:04

      Para quê? Metade do país nem sequer sabia que ela estava viva e a outra metade não é capaz de dizer o nome de uma obra que seja de Agustina sem ter que ir olhar na Internet. Luto agora para quê, se a Agustina já há muito que está morta. O luto não a traz de volta e a farsa será um insulto!

      Apetece-me é fazer luto pela tradição literária portuguesa. Cada vez que os Conan deste país são louvados pelo seu valor artístico é preciso luto., E é preciso luto cada vez que testemunhamos o Ensino nacional a castrar a inteligência das gerações futuras.

      A Agustina, o José Cardoso Pires, o Damásio, ou o Virgílio, o Eugénio. o Mourão-Ferreira, os seus lutos nada fizeram, nada mudaram. Muitos portugueses nem sabem que foram seus contemporâneos.

      Matamos a grande tradição literária Portuguesa. Onde estão eles, que dantes apareciam a cada geração? Vamos fazer luto por isso, porque está morto o futuro.

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      • MJRB permalink
        3 Junho, 2019 14:25

        Sem dúvida, luto nacional. Por respeito, enaltecimento, gratidão e…precisamente para chamar a atenção de tugas ignorantes para o facto de ter havido uma portuguesa EXTRAORDINÁRIA !
        Que raio, entre por exemplo 1 milhão de tugas que ouçam hoje e amanhã noticiários e leiam jornais, haverá certamente 50 mil que virão a saber que uma sua compatriota foi notável e…provavelmente 5 mil pronunciarão em qualquer conversa, Agustina.
        Obviamente, outros criadores de Cultura mereciam e merecem esse reconhecimento do Estado.
        As honras de luto nacional não pode nem deve ser prestadas somente a políticos.

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  4. MJRB permalink
    3 Junho, 2019 14:29

    Espero que o MCThomaz e o AC-DC tenham noção da importância da Agustina e estejam amanhã nas exéquias.

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  5. R. Cardoso permalink
    3 Junho, 2019 14:56

    Por muito mérito que tenha tido a Augustina Bessa-Luís ao serviço da cultura e literatura portuguesas, desconfio que isso pouco vale ao sr. Jorge e nem repõe tudo aquilo que lhe foi tirado (nem se interliga com o assunto em questão – quem já partiu, já partiu! Quem fica tem a luta pela frente, não é?)! Como já referi num post anterior, enquanto os abstencionistas assim se mantiverem, será com isto que infelizmente iremos nos deparar no dia-a-dia! Que tal escolher alguém novo? Pior do que os que por lá têm passado não deverá conseguir ser! (Quem sabe até possa ser melhor)!

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  6. Luís Lavoura permalink
    3 Junho, 2019 16:14

    Esta história que a Cristina nos conta parece-me demasiadamente escandalosa para ser 100% verdadeira.
    O homem também deve ter feito algo de errado. No mundo dos patos-bravos há poucos inocentes.

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    • Cristina Miranda permalink
      3 Junho, 2019 17:59

      Não, não fez. Abra o link do texto e leia a reportagem TODA. Um dia conto aqui meu testemunho. Eu sei , eu conheço esta realidade. Eu e muitos mais espalhados pelo país. Só quem NUNCA EMPREENDEU ou esteve na gestão de uma empresa é que não conhece esta realidade

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    • André Miguel permalink
      3 Junho, 2019 18:03

      “O homem também deve ter feito algo de errado”

      Claro que sim.
      Devia ter criado uma holding na Suiça ou Holanda, enquanto era tempo, para depois recorrer a um tribunal internacional pelo que aqui se relata. De certeza que aí a coisa piava fininho e não tinha chegado a esta situação.

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      • MJRB permalink
        3 Junho, 2019 20:09

        Resposta cristalina, na mouche !, de AMiguel.

        Um “pato-bravo” que “lavrou, lavrou”, deixou sementeiras… nada inocente: JSócrates.

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    • caampus permalink
      3 Junho, 2019 23:21

      Aí ela foi violada ? Com aquela mini saia estava mesmo a pedi-las.

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  7. MJRB permalink
    3 Junho, 2019 16:57

    O governo decretou 1 dia de luto nacional. Muito bem !

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  8. Vitor permalink
    3 Junho, 2019 18:03

    A grande questão é o que se pode fazer para erradicar esta realidade o mais depressa possível no nosso país?

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    • André Miguel permalink
      3 Junho, 2019 19:05

      Desobediência civil, greve aos impostos. Enquanto não secar a mama do monstro (ou seja do Estado), nada mudará.

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    • Isabel permalink
      3 Junho, 2019 19:16

      Eu tenho uma primeira sugestão para o debate:
      1- abrir as listas dos deputados, candidatas às eleições;
      2- aprovar a criminalização do enriquecimento sem causa, através de lei inteligente, de fácil e rápida aplicação;
      Isto seria para começar.

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      • 4 Junho, 2019 09:34

        1 – Crie um partido e as respectivas listas.
        2 – A lei seria feita à medida para excusar os amigos e castigar os adversários.

        Não é preciso nenhuma lei especial de enriquecimento ilícito, seja o que isso for considerado pelo deputedo do costume. Já existem leis sobre corrupção, faorecimento, fraude, e outros quejandos semelhantes. Apliquem-se.

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      • Isabel permalink
        4 Junho, 2019 14:03

        Ve-se como as leis em vigor são rápidas e eficazes a combater a corrupção.
        Escrevi enriquecimento sem causa.
        Se este sistema partidocratico é tão bom, porque é que são pouquíssimos os países que o mantêm? Sobretudo, porque são pouquíssimos, senão mesmo inexistentes, os países mais desenvolvidos do planeta que por ele optam?

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  9. Vitor permalink
    3 Junho, 2019 18:04

    teste. ver se aparece o comentario

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  10. SRG permalink
    3 Junho, 2019 18:54

    Com um governo ladrão e corrupto como aquele que temos, jamais poderemos estar seguros de no futuro sermos vítimas de uma injustiça como a deste senhor. São tantos os casos de cidadãos vítimas destes abutres, que será quase impossível enumerar.

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  11. Procópio permalink
    3 Junho, 2019 19:29

    A foto diz quase tudo. Os burros vêm à mão de quem lhes dá as migalhas no balde. Os animais não pensam nem conhecem alternativas. Dão-se por satisfeitos mesmo quando ocasionalmente zurram em protesto. Uns passam os dias deitados nos currais a ver a bola e a jogar à sueca, enquanto os outros, cada vez mais velhos, passam o dia a puxar à carrossa a sustentá-los e a garantir a boa vida dos pulhíticos na cansativa luta anti corrupção.
    Quando o balde estiver vazio, vão escoucear no vácuo. Fugiram. Os exemplos são paradigmáticos, um na ONU, outro mais sabido na Goldman Sachs.
    “A dívida pública que conta para Bruxelas, aumentou 1,1 mil milhões de euros entre fevereiro e março, situando-se nos 250,4 mil milhões de euros. Banco de Portugal (BdP). Para este aumento, o terceiro consecutivo desde o início do ano, “contribuiu essencialmente o acréscimo dos títulos de dívida”, sinaliza o BdP. Bagatelas.

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  12. CASTANHEIRA permalink
    3 Junho, 2019 20:32

    O poder corrompe ( É a natureza humana )
    Quanto maior o “estado” maior a corrupção ,prepotencia e nepotismo
    Quanto mais impostos maior o “estado”
    Quanto mais leis , maior o estado
    Quanto mais organismos estatais maior o estado
    “estado” rico , país pobre
    “estado ” rico com dinheiro dos outros , atrai os maiores salafrarios que existem
    CONCLUSÃO : ùnica solução é um estado forte na segurança e na justiça eno resto apenas o mínimo .

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  13. José Monteiro permalink
    3 Junho, 2019 21:20

    Who is in charge? Quem está ao comando?
    No palácio de Belém, na presidencia do CM, Quem exerce o poder?
    E não há, entre 230 mandarins, um, ‘um’ para levantar a voz?
    Todos a tratar das vidinhas, das suas.
    Who cares?

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  14. Procópio permalink
    4 Junho, 2019 00:27

    As velhas estruturas sociais, políticas e económicas estão a falhar à nossa frente.
    A política do compromisso deu lugar à política do crédito. Olhem para as quantias fabulosas necessárias a satisfazer os abutres sôfregos pela ganância. Não há justiça que os pare.
    A política de conveniência vai levar à devassidão financeira. Os corruptos mais ladinos, em silêncio, já reservaram lugar nos doces retiros. De lá com o mesmo sorriso que apresentam na tV observarão o descalabro que causaram.

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  15. Beirao permalink
    4 Junho, 2019 10:56

    Estado chulo, explorador e ladrão que, por nao dar-se ao respeito, não pode ser respeitado
    Um ladrão será sempre um ladrao!

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  16. 4 Junho, 2019 17:07

    Não é o Estado o caloteiro.
    Em Abrantes todos conhecem o nome da senhora que vigarizou este homem. Do PS, pois claro…

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  17. 12 Junho, 2019 14:17

    Como se põe um Regime à fome? …. Greve aos impostos. Solução usada em Portugal em 1854 … quem vai ler e confirma?

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