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Discurso de Sua Excelência O Presidente da Convenção Nacional aos Justos

6 Novembro, 2019

Cidadonas e cidadões,

Dirijo-me a vós neste 3 de Rajab de 1441 para gentilmente aclarar qualquer dúvida que subsista por reminiscência de narrativa dolosa proveniente do vil ultraje que foi a pérfida e abracadabrante acusação sobre a honra deste vosso servo pelo antigo regime.

Onerado pelo povo para a prestação de serviço cívico para a restauração da virtude, compete-me exercer, na melhor da minhas capacidades e em plena representação da república, a função pedagógica que permitirá a devolução da moral à ordem pública, afastando de vez a ignomínia que o pérfido regime judicialista tentou, em vão, instaurar através da traição ao seu mais que fiel dignatário, este vosso concidadão.

A ganância e a cobiça do regime antigo permitiu que acusações ocas sobre a proveniência de dinheiro que na altura possuía colhessem efeitos em proditórios inimigos da república. Abjurando as responsabilidades cidadãs da justiça fraterna e dos valores superiores da liberdade e igualdade, o sistema judicial do antigo regime ousou inferir ilicitude sem oportunidade de defesa para alguns pequenos gastos de sobrevivência como se de corrupta ostentação se tratassem. Foi, por isso, com a certeza da reposição da Justiça, que todos os cidadãos dignos da Causa revolucionária festejaram a execução de traidores como Yves de la Rose. A bem da Causa e para que a história seja escrita por homens de bem, republicanos, revolucionários e lutadores pela virtude, passarei a esclarecer a proveniência de todo o dinheiro que, na altura, possuía.

Numa tarde primaveril de Sábado, quando era novo, a caminho da escola ouvindo os golos de Eusébio, fui sobressaltado pela visão da mais bela figura feminina que possais imaginar. Radiando um brilho de Hedonê num corpo de Bastet, aproximou-se de mim e disse: “pequenito, serás visitado por Algos; segue o outro caminho”. Não tendo dado atenção a esta visão por ainda não ter tido oportunidade de estudar o classicismo na Sorbonne por via do meu copista Domingos Farinho, foi necessária uma segunda visão, anos mais tarde, para que compreendesse. Esta segunda visão ocorreu numa manhã primaveril de Domingo, quando realizei o meu exame de inglês comercial: um lenhador muito bonito, envergando vestes de jornal, aproximou-se, abanou os voluptuosos seios, e por entre guinchos afirmou: “vai a Chelas, que há lá um gajo que te pode sodomizar”. Fui, e, de facto, havia em Chelas muitos gajos que podiam ir ao cu, mas, antes que cedesse às tentações carnais que desvirtuam o Homem, apareceu um bode com uma capa feita de estrelas, que, entre vários mées, me indicou ser no topo da montanha que encontraria o ouro dos incas que me estava destinado.

Sem saber qual era a montanha, duas horas depois, acabei por voltar a casa. Aí, ao ver um documentário da BBC Vida Selvagem, apareceu um monte que identifiquei imediatamente como sendo o pico de Carrauntoohil. Sem nada que fazer, fui para a Irlanda, onde, em Kenmare, encontrei um primo que andava no Tae-Kwon-Do e que me disse que devia fazer um retiro no Afeganistão antes de subir montes à procura de ouro de duendes.

Como sempre valorizei a família, liguei à minha mãe e pedi para que me tirasse uns 3 ou 4 milhões – não me recordo a quantia exacta – de um cofre que nós tínhamos para lá a incomodar num canto, passei por Lisboa e dirigi-me para Talocan, que é um sítio muito aprazível da província de Takhar. Aí, enquanto lia o “Código de DaVinci” do Dan Brown, o José Rodrigues dos Santos estrangeiro, apercebi-me que se autorizasse certas e determinadas coisas como ministro do ambiente, escusava de andar em aventuras pelo mundo em busca de dinheiro. Não coisas inúteis, só coisas de grande valor.

Assim foi, e, de repente, dei por mim a cair na tentação da corrupção. Porém, quando estava prestes a aceitar algumas luvas, a virtude revolucionária tomou conta de mim num acto de puro civismo e aí renunciei para sempre a qualquer bem material. Nisto, vim tomar café num sítio em Alvalade onde me encontrava às vezes com um senhor de Chelas, e, numa esquina, apareceu o homem da Regisconta, que me entregou uma mala. No interior, além de uns items pessoais como escova de dentes e muda de roupa interior, havia uma carta datilografada que explicava existir uma conta em meu nome na Suíça. Deixei o senhor de Chelas pendurado – Artur, se me estás a ouvir, liga-me; vamos conversar – e dirigi-me para a Suíça, onde me explicaram que, de quinhentos em quinhentos anos, o planeta Terra escolhe um habitante e concede-lhe cem milhões de euros, mais coisa menos coisa, para minimizar a pegada ecológica, mas, que desta vez, só poderia receber uns oitenta e tal já que o resto estaria reservado para os pais da Greta. Não podendo rejeitar a oferta sob risco de umas coisas legais do sistema suíço, dei por mim com algumas posses, que sempre geri com parcimónia, dedicação e ética republicana.

Que, perante esta história, o antigo regime tenha decidido lançar suspeitas sobre mim, só revela o quão a IIIª República não passava da continuidade do Estado Novo. Agora, que a verdade foi reposta e os traidores à revolução afastados da sociedade, é com o fulgor revolucionário que vos saúdo, concidadãos, nesta nova jornada rumo ao Homem virtuoso. Avé Portugal! Avé Comité de Salvação Pública! Hurra!

3 comentários leave one →
  1. JgMenos permalink
    6 Novembro, 2019 10:07

    Comovente drama derramado sobre uma vida dedicada ao serviço da charneira pública!

    Liked by 2 people

  2. sam permalink
    6 Novembro, 2019 12:25

    Cuidado, que o Ivo vai mandar apreender este post…

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  3. Blitzkrieg permalink
    6 Novembro, 2019 23:06

    Era inglês técnico, mas os restantes pormenores parecem-me historicamente corretos :))) o canalha anteriormente conhecido por prisioneiro 44 ainda se vai escapar com uma história da carochinha mais rocambolesca do que esta…

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