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É por isto que precisamos da regionalização

5 Janeiro, 2020

É preciso o papel. Sem o papel não é possível dar seguimento ao requerimento que visa a obtenção do documento. O documento é impreterivelmente necessário para a obtenção da certidão que permitirá apresentar o pedido de autorização de utilização da minha propriedade como sendo minha propriedade.

Depois do funcionário verificar que a minha propriedade está em condições regulamentares de funcionamento para que possa ser usada como me aprouver por ser minha propriedade, resta ao chefe de departamento emitir a guia que será encaminhada para o representante do povo assinar, validando assim, perante toda a sociedade, que a minha propriedade pode mesmo ser considerada como sendo minha propriedade.

Há um problema: a entrada do quarto-de-banho feito exclusivamente para cumprir com a regulamentação autárquica tem menos dois centímetros que o mínimo necessário. Perante a argumentação de que, mal seja obtida a autorização para usar a minha propriedade como minha propriedade, o dito quarto-de-banho tornar-se-á nos aposentos da jovem nigeriana que importei para obter comissões sobre os rendimentos na prostituição legalizada, o funcionário respondeu-me que a entrada tem menos dois centímetros que o mínimo necessário.

Perante tantas dificuldade, não me restaram grandes opções: teria que propor ao senhor autarca a realização de um aborto às trinta e duas semanas à senhora que espera que ele deixe a mulher e dois filhos para construir nova família nas proximidades do bingo. Só precisava arranjar forma de chegar ao senhor presidente.

Sabendo, pelo jardineiro da câmara a quem paguei sem IVA para me mandar um moço limpar o jardim de graça, que o director do serviço de direcção dos departamentos autónomos sem direcção própria estava a faltar há dois meses por ter a mãe com Alzheimer, ofereci a Dona Ondina – que está na recepção – um frigorífico comprado por erro demasiado grande para a casa em construção para que me providenciasse o número de telefone do topógrafo que trabalha no mesmo piso que o tal director. Contactei o topógrafo e, por apenas pouco mais que uma centena de euros, deu-me o telefone do director dos serviços sem director próprio.

Falei com o director e propus-lhe que, à troca de uma reunião com o senhor presidente, lhe trataria da eutanásia da mãe. Prontamente aceite, após o bafo final da velha sob a almofada, dirigi-me à câmara onde me encontrei com o senhor presidente, que prontamente acedeu a dar-me o papel preenchido em troca do aborto à doida solitária.

Agora, que tenho o papel, só me falta a certidão. Aí, a minha propriedade vai poder passar a ser, finalmente, a minha propriedade, pelo menos até à expropriação com a alteração ao PDM. Em qualquer dos casos, o que lamento no processo é não haver ainda regionalização: nem pude dar azo às minhas outras capacidades de persuasão, a começar pelo meu fulminante sex appeal homoerótico.

14 comentários leave one →
  1. Expatriado permalink
    5 Janeiro, 2020 12:18

    Da maneira como as coisas são hoje em dia, essa do “fulminante sex appeal homoerótico” vai, de certeza, facilitar rapidamente, tipo via verde, as necessárias aprovações… hehehehehe

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  2. 5 Janeiro, 2020 13:13

    O que refere passou-se numa Câmara Municipal, o poder mais próximo do cidadão. Acha que com mais poder intermédio a burocracia diminui? Se calhar, aumenta!
    AC

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  3. 5 Janeiro, 2020 13:16

    Retrato do país em que Vítor Cunha adoraria viver…

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    • André Silva permalink
      5 Janeiro, 2020 15:26

      Ninguém te perguntou nada, grande atrasado mental.

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    • 5 Janeiro, 2020 23:26

      Retrato da disfunção de país que tu e os teus criaram Paulo Curtão! Já voltaste do sky em Davos? Volta para lá e morre numa avalanche!

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  4. Mauritano permalink
    5 Janeiro, 2020 13:59

    Muito bom.

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  5. André Silva permalink
    5 Janeiro, 2020 15:25

    O Vítor Cunha é o maior!

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  6. 5 Janeiro, 2020 23:27

    Ó Vitor,
    só descobriu agora que o Propriedade Privada não existe?
    Aquilo a que chamamos propriedade privada é uma autorização de uso de uma propriedade do Estado. Autorização concedida pelo Estado desde que cumpramos os requisitos que o Estado exige para podermos usufruir dessa propriedade.
    As formalidades para que possamos usufruir do bem costumam ser: Registo num cartório do Estado, obrigatório, a nosso favor, e pagar os impostos de usufruto (periodicamente: IUC para automóveis ou barcos, IMI para propriedade urbana ou rural mais Seguro contra incêndios para propriedade horizontal, taxas autárquicas, etc.).
    Ah! e a qualquer momento pode ser-lhe retirada a autorização de uso da propriedade, mediante o mecanismo omnipotente da expropriação, ou confisco.
    Ah! e os filhos e animais domésticos também deixaram de ser propriedade do cidadão. Para além da obrigatoriedade de registo, há as vacinas obrigatórias e o ensino obrigatório!!!
    Nos países civilizados é assim…

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    • 5 Janeiro, 2020 23:41

      Por isso nada como viver num país não civilizado tipo USA, Republica Checa, Polónia … mas futuramente também: França com Le Pen, Itália com Salvini ….

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  7. Leunam permalink
    6 Janeiro, 2020 23:57

    No ano passado, para obter no próprio dia UMA CERTIDÃO numa autarquia do interior, uma pessoa teve de se fazer à estrada, fazer aproximadamente 400 Km, pedir por favor a mais que um funcionário, pagar mais de 30 € pelo serviço prestado e ver CINCO FUNCIONÁRIOS envolvidas no assunto, para produzir e autenticar a referida Certidão.
    Um dia queimado, gasolina e portagens.
    Mas acabou o papel selado! Grande obra da “demo cracia”.

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  8. Artur José Felisberto permalink
    7 Janeiro, 2020 14:13

    Excelentíssimo retrato da «funcionalização publica» do “rumo ao socialismo” no Portugal pseudodemocrático !

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