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Já nascemos mortos

19 Fevereiro, 2020

A eutanásia é inevitável. É preciso estarmos cientes disso. Não há forma de travar os “avanços civilizacionais” em democracias liberais num mundo globalizado. Se não for aprovada amanhã, será no próximo ano, daqui a dois anos, daqui a quatro… mas será sempre aprovada. O nosso desígnio nacional é, como já é há muito tempo, o de legislar a modernidade.

Em Portugal, o normal é aprovarem-se coisas antes que a generalidade das pessoas sintam necessidade de as compreender. Não é bem uma democracia, o que nem me parece uma falha: é o que é, uma espécie de ditadura senatorial que perpetua a luta de classes divididas entre os iluminados, que querem o bem da sociedade, e os indiferentes às causas, que vivem a sua vidinha bem longe da decrepitude.

Caso haja um referendo à eutanásia, é possível que a participação seja bastante reduzida e o resultado se divida entre o “sim” e o “não”. Até é bastante plausível que vença o “sim”. Há um motivo para isso, que é o do mundo contemporâneo exigir uma simplificação da vida a estados permanentes de bem-estar. Não dizemos que estamos felizes, dizemos que somos felizes, como se a vida se reduzisse a um estado de perpétua instagramização. Quem quer ver fotos do momento em que não aguentamos mais e mijamos nas calças em redes sociais? Quem quer ver aquela massa instantânea que atiramos para o micro-ondas quando ninguém está a ver? Quem quer ver uma boazona de biquini a verter uma pinga de vinho de pacote para um copo do Mickey Mouse enquanto desoladamente atiramos o hamburger congelado para a frigideira depois de buscarmos os miúdos à escola?

A vida resume-se a um perpétuo estado de férias paradisíacas intagramáveis. É um mundo em que ninguém defeca. Ninguém sofre, ou se sofre, é de forma extraordinariamente contrastante com o estado permanente de felicidade que impomos a nós próprios.

É apenas natural que se legalize eutanásia e que ao longo dos anos esta se venha a generalizar para toda e qualquer forma percepcionada de sofrimento. Quero eutanásia porque o Bobi morreu, o meu menino. Não aguento o sofrimento.

Sempre fomos uma sociedade que afasta o mais possível a morte das contemplações mentais de cada um. Agora, tornamo-nos numa sociedade que não contempla sofrimento como parte integrante da vida. No futuro, seremos completamente unidimensionais – gay, preto, cristão, liberal, mulher – e construídos para a obsolescência programada. Cervantes já o sabia no século XVII. O Velho do Restelo é sistematicamente visto como uma personagem do velho mundo.

A eutanásia é o menor dos nossos males. Na realidade, é só um sintoma, nem é o essencial da doença.

24 comentários leave one →
  1. 19 Fevereiro, 2020 13:06

    A eutanásia deve começar pelo parlamento. Os deputados sofrem muito… para…

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  2. 19 Fevereiro, 2020 13:17

    Ó Vitor Cunha, já percebi.
    Morrer sim, mas de vagar, em sofrimento, para expiar os pecados da carne…

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  3. Alex.soares permalink
    19 Fevereiro, 2020 13:19

    … é o menor e o “mais” definitivo dos nossos males, até à ressurreição. Mas não digam isso ao bispo Francisco de Roma, que ele não sabe nem acredita.

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  4. joaquim permalink
    19 Fevereiro, 2020 14:27

    UM excelente texto , francamente inteligente , parabéns VC

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  5. Filipe Bastos permalink
    19 Fevereiro, 2020 16:56

    É realmente um bom texto, mas continuo sem perceber que quer o Vítor Cunha: uma lei diferente? Lei nenhuma? Deixar tudo como está?

    Certa direita descobriu agora que temos uma democracia de fachada; que os pulhíticos fazem tudo à revelia da população; que somos governados por uma partidocracia impune. Mas v. também rejeita um referendo… então o quê?

    Há uma classe de iluminados (de esquerda, claro) que impõe certos avanços. E quando é que não foi assim? Do fim da escravatura ao fim do trabalho infantil, do voto das mulheres à tolerância da homossexualidade, os direitos e avanços civilizacionais, goste-se ou não de todos, foram obra de uma pequena minoria.

    A grande maioria não os queria ou estava-se nas tintas. E a maioria dos conservadores, como o nome indica, querem conservar tudo na mesma. Sempre na mesma. Não será o caso?

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    • 19 Fevereiro, 2020 21:41

      Com este texto, o Vítor Cunha voltou a brindar-nos com a qualidade a que nos tinha habituado, mas o comentário do Filipe também resume bem a situação.
      Esta direita limita-se a contrariar o que a esquerda disser. Se esta lei passar, e daqui a 5 anos a esquerda mudar de posição (criminalizando de novo a eutanásia), esta direita vai defender com unhas e dentes a eutanásia !
      Depois ainda perguntam o que fez a “direita” durante os últimos 40 anos ?
      O Bóbi e o Tareco estão de perfeita saúde 🙂

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    • Duarte de Aviz permalink
      20 Fevereiro, 2020 02:52

      Primeiro crias-se uma “narrativa”, martelada com mestria e depois muda-se rapidamente para a defensor piedoso da inevitabilidade.
      A nartrativa é que matar velhos e deficientes é um avanço civilizacional. A comparação com a escravatura e o trabalho infantil é simtomática porque imbecil. Se os que defenderam a abolição da escravatura eram principalmente motivados por um ideal religioso e agora são contra a matança dos velhos, isso não interessa. Contra a escravatura eram progressista, contra a morte dos velhos são “conservadores”.
      Portanto à inquietação progressista do senhor Bastos, eu respondo – não façam nada. Deixem estar como está. Quem quer morrer, que rejeite os tratamentos, deixe de comer. meta a boca no cano de escape do carro ou uma caçadeira pela coela abaixo e puxe o gatilho. Ou que chame o Alma Grande do Miguel Torga.
      E deixem o resto da gente em paz.

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      • 20 Fevereiro, 2020 09:32

        Há por aí muito sadismo mal disfarçado …
        Não gostam ? Não comam !
        Não é a vossa morte que está em causa !
        Porque têm que armar sempre em velhas coscuvilheiras, guardiãs da moral ?
        Só são liberais quando toca a não pagar impostos!

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      • 20 Fevereiro, 2020 09:36

        Velho, meu amigo, esta lei de pacote esquerdalho não é nenhuma libertação, apenas a ante câmara da “seleção natural” com que nos querem eliminar. Lembre-se do cisma grisalho do Paulo Portas.

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      • Filipe Bastos permalink
        20 Fevereiro, 2020 19:36

        “A nartrativa é que matar velhos e deficientes é um avanço civilizacional.”

        Acabar com a escravatura foi um avanço civilizacional? E acabar com o trabalho infantil? E com a pedofilia? E dar voto às mulheres?

        Pois o contrário de tudo isto já foi obstinadamente defendido por alguém. Nessa altura houve muitos que opuseram. O que acha deles?

        O que está hoje em causa é legalizar o que já se faz – de forma ilegal, como dantes o aborto – em casos extremos e terminais.

        Daqui a cem, duzentos, quinhentos anos, se cá estiver alguém, que acha que dirão da sua posição hoje?

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      • 20 Fevereiro, 2020 20:03

        Acabar com a escravatura… quem terá tido essa ideia?

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      • Zé Manel Tonto permalink
        20 Fevereiro, 2020 21:31

        Filipe Bastos,

        “E dar voto às mulheres?”

        Não. Não foi uma boa ideia. Aumentar a população votante para o dobro, numa altura em que a esmagadora maioria desses novos votantes não pagava um cêntimo de impostos, deu na maravilha que temos hoje.

        É ver, para os mais diversos países, a evolução da carga fiscal e dos gastos sociais do Estado.
        Um gráfico sem datas por baixo, só valores. É imediatamente perceptível quando o voto foi oferecido às mulheres. Nem as guerras mundiais tiveram um impacto tão grande na carga fiscal.

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    • 20 Fevereiro, 2020 09:34

      Deixar tudo como está! Porque está bem!

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      • Velho do Restelo permalink
        21 Fevereiro, 2020 10:52

        Esteja tranquilo companheiro que não é esta lei que vai fazer a mudança.
        Aquilo está cheio de “travões” e “bloqueios” que a torna inútil.
        Além disso, o Celito (tão estimado por este blog), vai fazer os possíveis para resolver o embaraço .

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    • Duarte de Aviz permalink
      21 Fevereiro, 2020 03:32

      Agora que o nome dos algozes é conhecido, será que podiam todos começar a fazer turnos no SNS para dar a injeção atrás da orelha aos “dignificados”?
      Afinal de contas, dar uma injecção não é difícil e dada por um deputado deste parlamento carregará uma gravitas e dignidade que nos fará orgulhosos da nação de merda que somos.
      O Rio certamente achará boa ideia. Pode fazer turno com a Joacine.
      E quanto à taxa moderadora?
      Haverá redução da taxa moderadora aos 65 anos?
      E se o “dignificado” não quizer pagar?
      E haverá carreira especial na função pública para os algozes?
      Subsídio de risco?
      Carreira de desgaste rápido?
      Podem os carrascos ser estrangeiros? Há paises com muitos e bem treinados.
      E se a besta não morrer com a 1ª injecção? Há velhotes que custam a morrer.
      Puta que pariu esta gente!.

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  6. 19 Fevereiro, 2020 16:59

    Excelente. Parabéns!
    Não querem sofrimento em nome dos outros porque não querem sequer trabalhos de cuidar ou ver.

    É a sociedade que fica bem-no-retrato. O que não fica, é para fazer desaparecer. E nem conhecer. Desaparece como estádio de vida.

    Agté os psicos já vão passar a servir para ajudar a fazer desaparecer o que podia ser tratado.
    Em nome da boa da “liberdade individual randyana”. O aborto também foi defendido por ela (uma liberal) e aprovado pelos socialistas e comunistas, em nome do superior direito da felicidade da mulher que “manda na sua barriga” e pode expulsar o “intruso”.

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    • Mario Figueiredo permalink
      19 Fevereiro, 2020 18:15

      E o intruso, esse, não manda em nada. E muito menos manda o pai do intruso. A paternalidade reduzida com um simples decreto-lei ao papel de mero observador sem quaisquer direitos.

      Perder um filho desta maneira…

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      • Zé Manel Tonto permalink
        19 Fevereiro, 2020 18:25

        Fosse só isso…

        Mas não é.

        O pai da criança não é tido nem achado, seja qual for a decisão.

        Se a mulher quer abortar e o Pai quer a criança, é a vontade da mulher.

        Se a mulher quer a criança e o Pai não, é a vontade da mulher MAIS a carteira do homem.

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  7. Raghnar permalink
    19 Fevereiro, 2020 17:55

    Muito bem, VC. Ainda hoje disse mais ou menos o mesmo, que a aprovação está garantida, só não se sabe é quando. Depois não se fala mais nisso…

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  8. Duarte Meira permalink
    19 Fevereiro, 2020 21:08

    “Sintoma” ou consequência?

    Caro Vítor Cunha:

    O essencial deu-se no dia 11 de Fevereiro de 2007, quando o que restava de “Estado de Direito” em Portugal desapareceu.

    O resto são (e serão) sequelas e réplicas.

    E o título do seu apontamento é muito sugestivo…

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